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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

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02
Fev18

Miranda, o activista barrosão

JP

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O povo de Montalegre não é de se acomodar na monotonia das tradições. É gente engenhosa e criativa e já há algumas décadas que se deve a Montalegre o reconhecimento por uma nova criação gastronómica: o cozido ibérico. Porcos castelhanos, servidos à portuguesa. Alguns chegam ao Barroso já embalados, outros desembarcam ainda jovens imigrantes, para morrerem deste lado e ascenderem aos tectos. É o fenómeno da globalização a tornar o concelho num centro do multiculturalismo suíno.

Para os xenófobos à mesa, enquanto não se inventar um corante para porcos, é fácil ver a diferença. As carnes desbotadas, e de sabores tímidos, denunciam as origens castelhanas do porco. Ou pelo menos, os maus hábitos alimentares.

É o espírito das gentes da raia: porquê deixar de fazer um negócio só porque se acabou o produto? Isso é um detalhe. Em Montalegre, as teorias económicas de Adam Smith não servem nem para os porcos. A famosa mão invisível que o britânico via na economia a promover o bem comum, no Barroso está a fazer um manguito.

Imagine-se os iphones X a serem criados e montados no barroso. Este vê mal, não precisa de ecrãs de super retina. Aquele só vai fazer chamadas, chega-lhe 4 gigas. Este é só para tirar umas fotos aos porcos, mete-lhe uma câmara de 2 megas.

Comer bem em Montalegre é só possível nas casas particulares ou devidamente acompanhado de alguém da terra. Alguém que seja alguém, como é óbvio. Isto já está no limite, mas mesmo, mesmo, mesmo no limite do racismo. Na América segregacionista, os negros não eram servidos nos restaurantes de brancos. No apartheid barrosão, nós, os de fora, podemos entrar nos restaurantes e somos servidos, mas de comida especial.

O que é bom não se vende a desconhecidos.

Em parte compreende-se, há pouco produto para tanta procura, é preciso racionar. Mas também dava jeito racionalizar: não abandalhem a marca, catano.

Pergunta para um aluno de primária em Montalegre: o Sr. José tinha 4 presuntos. Um dia foi à feira e vendeu-os todos. Quantos presuntos vendeu o Sr. José?

Pois é, tem rasteira. Um aluno com dificuldades cognitivas diria de imediato: 4. A matemática barrosã teve uma evolução própria e difere em muito da outra matemática. São escolas.

 

Isto é uma espécie de relatório preliminar para propor uma homenagem merecida ao Miranda, do Sabores do Barroso. Acredito que um dia terá uma estátua numa rotunda de Montalegre. Ou isso ou leva um tiro. Alguém que se deu ao trabalho de credibilizar os produtos da região e de servir cozidos à portuguesa dignos desse nome, é pioneiro em Montalegre.

O Miranda ousou mudar, ousou ser sério e apresentar cozidos de porcos dele. Está a arriscar-se e muito. Um dia aparece morto. Vai ser o Chico Mendes do activismo barrosão. Vão ao wikipédia e vejam o que fizeram ao Chico Mendes na amazónia.

Estou só a apontar as semelhanças, o Miranda é definitivamente um activista. Podia ter seguido a vida de guerrilheiro, El Comandante, "Cozido autêntico ou muerte", mas é um homem de paz.

 

No cozido do Miranda não deixem escapar a orelha. Lutem por ela, sem pudor, mesmo que sejam olhados de lado e criticados pela falta de educação, resgatem toda a que puderem para o prato. Minhas senhoras e meus senhores, aquela orelha devia ser proposta à Unesco para património imaterial da humanidade.

 

31
Out17

O vinho no estudo da narrativa

JP

Os chispes estudam isto há anos: os cheiros, a luz, os copos, o ambiente... a narrativa. A narrativa. Senhores e senhoras, é a narrativa que torna a coisa memorável. Que o diga o Miranda, do Miranda- Sabores do Barroso, que tem de nos aturar até de madrugada. Aquela casa já assistiu a todos os géneros de narrativa: lírico, épico e dramático. Com tantas histórias, o Miranda poderá já ser considerado uma das referências da narratologia, ao nível de um Barthes, Umberto Eco ou dos formalistas russos. 
Todorov dizia que a narrativa é vida, o Miranda dirá que a narrativa vem do vinho. Pois é, se o Miranda tivesse mau vinho, acabavam-se as longas epopeias e ficava uma casa sossegada com pequenos contos. São opções.

 

É com o cérebro que comemos

21
Dez08

Elogio fúnebre a um cabrito

Paulo

O dia em que veio ao mundo ainda hoje é recordado. O dia em que nasceu o cabritinho mais bonito que alguma vez se viu. Rapidamente se espalhou pelos prados verdejantes e serras cercanias a boa-nova do cabritinho mais adorável, mais gracioso, mais delicado e enternecedor de sempre. Era um regalo ficar simplesmente a olhar para ele. Era motivo de inveja e cobiça. A todos impressionava com o seu corpo roliço, a sua pele sedosa, o seu porte altivo e atlético, o seu balido musical, os seus olhos doces e olhar enfeitiçante.
Quis o destino que acabasse na grande cidade, assado às mãos da Dona Elisabete, no “Sabores do Barroso”. Mesmo na travessa, à nossa mesa, o seu legado permaneceu, a sua singularidade foi perpetuada. Foi o melhor cabrito que comi em toda a minha vida! O mais saboroso de sempre! Com a carne mais tenra e suculenta de todos os tempos! Com a pele mais crocante de que há memória! E todos os convivas presentes no elogio fúnebre daquele cabrito comungaram deste sentimento. O melhor cabrito que jamais comeram!
Ficará na nossa memória para sempre, este cabrito que será recordado eternamente nos prados verdejantes que o viram nascer e ficar no “ponto”…