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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

02
Nov18

Couves com feijões (Couvada para os íntimos)

JP

Meter ao barulho de qualquer conversa um “couves com feijões” é falar de “dildos no cú”, tem um efeito devastador no imaginário de muitos portugueses, suspende o gozo todo, dispara os airbags.

As couves e os feijões são a símbolo do modelo educativo dos últimas décadas em Portugal, qualquer designer utilizaria couves e feijões ao criar um logótipo para a pedagogia familiar portuguesa.

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As famílias promoviam a dicotomia “isto é o que tu gostas e é bem bom” vs ”isto é o que te faz bem mas é um biscate para comer”. As couves e os feijões apareciam sempre deste lado do versus, mal tratados, pobres em sabores, para credibilizar a ideia de que fazia mesmo bem, efeitos da moral católica, o bem e o prazer não se devem encontrar. Milhões de portuguesinhos foram seviciados nos seus lares com estes tratamentos à mesa e, inevitavelmente, desenvolveram profundos traumas com a comida. Muitos são hoje uns pervertidos, incapazes de ter uma relação saudável com a gastronomia tradicional, com mais danos emocionais acumulados do que se tivessem passado pela guerra colonial: horror a sopas, medo de couves e feijões, suores com favas, tremuras com gorduras (um bom nome para restaurante de carne) e a acumular relações de submissão com comida italiana e pratos beldades de instagram.

O povo é filho da mãe, refiro-me ao povo, ao povo mesmo povo e não ao povo dos políticos, os eleitores. O povo que me interessa é constituído por gente manhosa e arisca que tem de se desemerdar perante os grandes desafios que a vida lhes coloca. Se só há pão velho, não chamam a CMTV, nem vão pressionar a assistente social, nem fazem greve, inventam a açorda. Ora foi este povo que percebeu que a couve-galega, endurecida pelo frio, misturada com feijão amarelo, não tinha de ser um frete. Se tem de se comer, que pelo menos saiba bem, muito bem, e vai daí juntaram-lhe azeite, vinagre e alho e criaram uma iguaria viciante.

As couves com feijões são servidas a partir do Outono (é aproveitar enquanto há Outono) intensifica-se pelo Inverno adentro e são acompanhadas adivinhem lá com que carne. O povo não é parvo e nunca lhe passaria pela cabeça servir uma iguaria assim como complemento saudável de um assado ou de um peixe grelhado. O porco que, nesta estação das facas longas estava a guinchar um pouco por todo lado, ofereceu o melhor acompanhamento, os ossos de assuã, costelas e entremeadas.

Chegados aqui, e a darem-me algum benefício da dúvida, estão a pensar “catano, se é assim tão bom, vou já ali ao Continente arranjar material, cozo tudo e vamos ver se eu é que andei enganado estes anos todos”. Pois bem, se o fizerdes, tereis a confirmação de que a vossa formação superior para nabos foi um estrondoso sucesso.

O segredo da comida tradicional está na qualidade dos produtos, na sua produção exposta aos elementos naturais e isso não se encontra nos hipermercados.

Estão à espera de uma recomendação, só posso dar uma: restaurante Adelaide, em Vieira do Minho. Foi aqui que fiz a minha iniciação a este prato e foi tão excepcional que ainda não me atrevi a experimentar noutro sítio.

No restaurante Adelaide há ali sabedoria, sensibilidade e uma mão especial para assados, estufados, para os pratos típicos da região.

Por isso, em boa verdade vos digo: ide e comei, mas marcai primeiro. Couves com feijões não é iguaria que se sujeite a pré-confecção, não se dá bem em frigoríficos e não tem a vulgaridade de prato do dia. É acompanhante de luxo, raramente tem disponibilidade e é só para alguns clientes.

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08
Nov17

Receita de Pica no Chão mesmo, mesmo, mesmo bom

JP

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Receita de Pica no chão tradicional, à la fabuloso, com o arroz molhadinho, soltinho, e um frango mesmo caseiro, que é tão bom, mas tão bom, que vais ter sonhos húmidos com ele.

Tempo mínimo de preparação: 48 horas.

 

Dois dias antes, comece por colocar 20 cl de vinho tinto do Douro num copo de balão. Agite em movimentos circulares suaves para libertar aromas. Coloque fatias de queijo em tostas e deguste alternadamente com curtos goles de vinho.

Recoste-se no sofá, incline ligeiramente a cabeça para trás e, com um subtil sorriso, ponha o desejo a marinar, idealizando as peças de frango, escurecidas pelo refugado, mergulhadas no arroz encharcado em sangue. Não salte esta etapa, porque fantasiar previamente com o frango, pelo menos durante 24 horas, é fundamental para apurar todos os sabores no momento da prova.

Pegue no telemóvel e marque 253 647 106, restaurante Adelaide em Vieira do Minho, ou 255 483 416, adega Rita, na Lixa. Em qualquer dos casos, seja educado e transmita confiança. Salpique a conversa com algo do género: “tenho amigos que”, “recomendaram a sua casa”, “não me desiluda”, “sou exigente”, “frango para mim tem de ser caseiro”, “arroz no ponto” e, finalmente, “fica então marcado para tal hora, daqui a 2 dias”.

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Ainda com o telemóvel na mão, seleccione meticulosamente e reserve 4 amigos(as) para o acompanharem na degustação do frango. Entre muitos outros critérios, tenha atenção a não reunir exclusivamente indivíduos que preferem asas e coxas ou que só gostam das peças carnudas. Evite convidar gente que, quando a panela pousa na mesa, usurpa a carne, adiando o arroz. Os verdadeiros apreciadores deste prato sabem que há uma curta janela temporal, muito estreita, diga-se, para apreciar o arroz em todo o seu esplendor. Para que os amantes se entreguem apaixonadamente ao arroz, não podem estar angustiados com a possibilidade de um ou dois estupores à mesa limparem as melhores peças de carne. Vivemos num estado de direito, não estamos numa favela no Brasil, num acampamento do Daesh ou em Juarez. Todos os cidadãos têm o direito a degustar as suas refeições ao ritmo que mais prazer lhes dá e pela sequência que bem entenderem, independentemente da sua raça, nacionalidade ou religião, não podendo ser submetido a qualquer tipo de tortura física ou psicológica.

Finalmente, na altura de servir, sente-se à mesa na hora marcada, acompanhando o pica preferencialmente com um vinho verde tinto.

Todas as refeições com amor são ridículas. Não seriam refeições com amor se não fossem ridículas. Por isso, não tenha problemas em ser lamechas e piroso, tire fotografias para partilhar no instagram e no facebook.

Mas, afinal, só as criaturas que nunca comeram refeições com amor, é que são ridículas. Certo?

 

18
Out17

Couves com feijões

JP

Couves com feijões é uma das nossas maiores preciosidades. Se ainda não o sabias, é altura de te indignares com o nosso sistema de ensino e os teus encarregados de educação. Temos pena!

Restaurante Adelaide

Aproveita e aprende enquanto nos apetece ensinar.

Isto não encontras no Ikea, numa Francesinhas house nem nesses feirantes da restauração nacional.

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