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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

10
Out09

Pancada

Convidado

Eis o nome.
 Agora, eis a história: Já fui à pancada vezes sem conta… umas três! 
Para quem não conhece, a casa Pancada fica em Vieira do Minho, na freguesia do Mosteiro. Uma casa rústica de estilo tradicional bem vincado quer nas paredes de pedra quer nas mesas de madeira que parecem, à primeira vista, roubadas de um parque de merendas do Gerês.

O restaurante tem três especialidades: cabrito assado no forno a lenha, vitela assada no forno a lenha e papas de sarrabulho (também devem ser preparadas no forno a lenha mas não referiram porque poderíamos pensar que estavam a ser repetitivos!).

Sentamo-nos à mesa e somos logo brindados com uma salada fresquinha da horta. Escolhemos o vinho – verde branco, que é sempre o meu preferido - e esperamos pela especialidade. Na Pancada não há menu, não se pergunta ao cliente o que quer comer, nem se fala em sugestão do chefe (sobras de ontem, não?) simplesmente brinda-se o convidado com a especialidade da casa. Para todos. Sem excepção. “Olhe, desculpe, eu queria um bifinho grelhado com arroz seco… pode ser?” pede um cliente mais ousado. “Desculpe mas não temos, hoje é vitela assada no forno a lenha… é que não tenho mesmo mais nada. Se tivesse ligado antes…”
Das três vezes que lá fui tive a sorte de comer sempre a famosa Vitela assada no forno a lenha. Muito boa, sempre… O forno a lenha faz a diferença. A diferença foi o preço. Nunca paguei o mesmo pela mesma comida. Pancada? Não… é só o nome!

 

Filipe Quelha

07
Out09

O Restaurante que (Nunca) te Recomendarei...

Convidado

Nada mais apetecível, no final de uma tarde de Verão abafada, do que estar à beira mar, mas em terras transmontanas o melhor é estar à borda d'água, sobretudo quando se encontra um restaurante com o mesmo nome, situado na bonita aldeia de Salto, perto de Cabeceiras de Basto. Um local simples condizente com a gente da terra; um espaço rústico que serve boa comida com sabor a aldeia: alheira na brasa, pão e azeitonas da região, como entrada; e as inolvidáveis e imperdíveis batatas com bacon, cebola, alho e salsa, o acompanhante perfeito de uma posta à barrosã.

A gente transmontana não tem “papas na língua” e diz o que lhe vai na alma ou, melhor, o que lhe surge no momento. É o caso da D. Maria que dirige o dito restaurante com pulso e destreza, pois tem uma família para cuidar. Depois da comida ter chegado tardiamente à nossa mesa, e após insistência e a habitual manipulação à mistura por parte dos meus amigos, tentei meter conversa com a Sra., que andava de um lado para outro, sem nos ligar nenhuma, com o objectivo de obter um atendimento mais personalizado e uma atenção redobrada na confecção das iguarias caseiras. Mas, pela primeira vez, em todas as abordagens feitas por mim num restaurante, fui mal sucedida. A intencionada frase “O seu restaurante foi-nos recomendado...”, foi imediata e categoricamente interrompida por “Escusa de recomendar mais, pois vou fechar. Estou farta disto”. Fiquei atónita, bem como os restantes clientes que se encontravam perto de nós. Os meus amigos riram. Eu não queria acreditar no que acabava de ouvir. Seria apenas um desabafo após um dia de trabalho? Um grito de ajuda? Ou um sentimento de desespero com fim à vista? Missão cumprida? Não foi preciso qualquer 'recomendação' (vulgo factor C) para sermos bem servidos na mesa em qualidade e quantidade, apesar de a ouvirmos resmungar quando foi solicitada mais uma travessa de batatas - “Essas batatas dão muito trabalho e agora vão ter de esperar mais. Sai mais uma dose.”

No final do jantar, fomos ter com a D. Maria para lhe darmos a conhecer o nome da pessoa que nos tinha recomendado o seu restaurante, precisamente outro proprietário de um restaurante transmontano em Braga e dizer-lhe que gostaríamos de voltar. Agora, mais simpática, querendo saber o que nós fazíamos na vida, continua a dizer que está cansada do negócio e que se não fosse pelos filhos já teria largado o Borda d' Água.
Gostaría muito de comer novamente aquelas irresístiveis batatas que já foram recomendadas ao restaurante que nos recomendou o dito restaurante que não vos posso recomendar porque vai fechar. Mas se pudesse recomendar, recomendava.

A. Corunha

28
Mai09

“Perca” de tempo

Paulo

Às vezes sinto que há restaurantes que têm vergonha em apresentar pratos demasiado simples, isto é, a carne ou o peixe em modos mais básicos. Acham que se apresentarem, por exemplo, uma posta de peixe simplesmente grelhada ou frita vai dar mau nome à casa e vão ser considerados restaurantes sem classe. Vai daí, decidem inventar. Mas, inventar no mau sentido, porque, como é óbvio, também na gastronomia a invenção (ou seja: criatividade, inovação, introdução de novos elementos e combinações, dar novos mundos ao mundo) é sinónimo de evolução.
Há pouco tempo tive uma experiência nesse sentido, o que até pode ter sido uma infeliz excepção no restaurante em causa, que frequentei pela primeira vez, o Cozinha da Sé, em Braga, que até tem vários pontos a seu favor, como ser um espaço bastante agradável e possuir funcionários muitíssimo simpáticos e atenciosos.
Na apresentação oral dos pratos, perdi-me facilmente no meio de toda aquela descrição altamente pormenorizada, e por isso consegui apenas reter o essencial dos dois primeiros pratos sugeridos, perca do Nilo e bacalhau, e já nem sequer consegui apanhar os restantes por estar a tentar visualizar o que me era dito. Assim, pedi a perca do Nilo, um peixe que até aprecio bastante. Com a minha concentração a derivar para as diversas entradas na mesa, deixei de tentar compreender a forma como me seria apresentado o peixe. Até porque as diversas entradas estavam bastante boas e o João Pires branco que se tinha juntado a nós ajudava a distrair.
Veio, então, a perca, escondida sobre uma camada de queijo e ketchup, com uns camarõezinhos por cima (acompanhada por umas batatas com a pele assadas em folha de alumínio, que parece que eram para ser panadas, mas depois o cozinheiro apeteceu-lhe antes que fossem assim). No início dei o benefício da dúvida porque pareceu-me algo exótico no bom sentido, mas ao fim de algumas garfadas cheguei à conclusão óbvia e indisfarçável: aquilo sabia como uma espécie de pizza de perca. O intenso sabor do queijo e do ketchup, ali presentes em grande quantidade, davam a clara sensação de que estava a comer uma pizza, que em vez de ter uma base feita de pão tinha uma feita de perca. Pergunto-me por que raio se vai buscar uma perca ao Nilo para depois a cobrir de queijo e ketchup? O sabor do peixe passava completamente despercebido, para o efeito podia estar ali, sem se notar a diferença, uma taínha do Douro ou um filete de pescada congelado, não era preciso estragar um bom peixe.
O que estará aí na calha? Deitar molho de chocolate por cima de bacalhau? Barrar robalo com compota de framboesa? Mergulhar tamboril em mostarda e maionese? Bem, é melhor eu não estar aqui a dar ideias, não vá algum génio lembrar-se mesmo de pôr alguma em prática.
Em termos gastronómicos, esta experiência foi uma perca de tempo, perdão, uma perda de tempo, mas para mim, não para o cozinheiro que deve ter gasto apenas alguns segundos na criação de tão engenhoso prato.
Valeu pelo resto e, principalmente, pela excelente companhia.

23
Mai09

Barriga Farta

Paulo

Gosto dos restaurantes que pelo nome nos dizem logo ao que vamos e que, obviamente, cumprem o prometido. Por exemplo, “Barriga Farta”. Em que penso imediatamente? Muita comida, muito vinho, enfartamento, pastilhas Rennie, excesso de calorias, quilo a mais. E o restaurante com tal nome, situado em Baião, cumpre o que promete? Sim, minhas senhoras e meus senhores. Cumpre e com distinção.
Conseguindo chegar lá – sem gps ou alguém que conheça a zona, até pode não ser fácil; a seu favor tem o facto de ser dos raros restaurantes onde se pode ir também de comboio ou de barco, já que fica mesmo ao lado da estação da Ermida e na margem do rio Douro com cais à porta –, chegando lá, escrevia eu, temos a garantia de que vamos sair absolutamente satisfeitos, tanto pela quantidade como pela qualidade da comida. E para comer muito e bem, o Barriga Farta tem um menu especial para o efeito, em que por 25 euros se podem comer várias entradas, dois pratos, e diversas sobremesas, tudo à discrição, assim como o vinho.
Mal nos sentamos à mesa no interior do belo edifício, e com uma bela paisagem ali mesmo ao nosso lado, servem-nos imediatamente uma cidra, uma pasta de atum ma-ra-vi-lho-sa e umas azeitonas à maneira. Depois, vêm as entradas propriamente ditas: uma série de panelinhas com “verde” (algo típico da zona), feijoada, rojões, chouriça, pataniscas, omelete, alheira, croquetes, feijão-frade. Ver sete comensais de apetite voraz na disputa das diversas entradas colocadas numa placa giratória foi de pôr, positivamente, a cabeça à roda tal era o rodopio das panelinhas. Para apaziguar os ânimos, tínhamos um bom tinto do Douro, servido sem parar.
Depois de um segundo “round” de entradas, avançamos para os pratos principais. Começamos com o bacalhau com broa. Perdão, deixem-me corrigir: começamos com o divinal bacalhau com broa! Discutiu-se se não terá sido o melhor que já havíamos comido, desfiadinho e totalmente embebido em azeite, excelente. Nos entretantos, mudamos para o vinho branco da zona, que é uma espécie de “bi” do mundo vinícola, aquilo já não é bem terra de verde, mas também ainda não é “maduro”, é quase como uma terra de ninguém mas com o melhor dos dois mundos. Porém, o vinho servido levava ao extremo o seu carácter bi-sexual, com um travo indefinido e por vezes estranho, o mais florado que já bebemos, ao ponto de vaticinarmos que ao invés de terem colocado pedaços de carvalho no vinho durante a sua maturação tinham atirado montes de pétalas de flores lá para dentro. Decidimos regressar ao tinto no segundo prato, o anho assado no forno à moda de Baião (também tínhamos a alternativa da vitela arouquesa), bastante bom, contudo já não tão memorável (em especial para apreciadores de longa data). Importa dizer que houve segunda rodada em ambos os pratos, algo sempre prontamente sugerido pelos funcionários.
Finalmente, vieram as sobremesas, meia dúzia delas, todas muito boas, quase todas repetidas, cafés em dose dupla e um bagaço daqueles puros e duros, dos que não se consegue beber sem derramar muitas lágrimas de sofrimento (optamos por não fazer figuras tristes…).
Acabámos a longa refeição absolutamente satisfeitos e deliciados e nem o facto de terem cobrado 5,50 euros a um dos convivas por um bocado de whisky nos retirou a sensação de êxtase. O local, muito aprazível, é propício a um justo refastelamento pós-manjar e não havendo quem esteja em condições de conduzir sempre é possível uma pessoa arrastar-se até à estação e apanhar o comboio para casa.

p.s. – Falaram-me recentemente de um restaurante chamado “Barriga Cheia” lá para os lados de Águeda. Também fará jus ao nome?

21
Mai09

Ferrugem - Olhar de um tasqueiro sobre uma cozinha de autor!

JP

No que diz respeito a nomes dos restaurantes vivemos uma época de crise. Uma realidade só comparável aos nomes que se podem dar a um ser humano no Brasil. Pelo nome, é quase impossível identificar o restaurante que vamos encontrar. Foi o que me aconteceu no «Ferrugem». Sejamos honestos, nomes a sério são «casa do bacalhau», «barriga farta» ou «chafariz do vinho». Percebe-se bem ao que vamos e o estado em que regressaremos.
Quando chegamos ao Ferrugem descobrimos um espaço de autor, onde a criatividade tem por base a tradição portuguesa. Quem diria?

Como tasqueiro que sou, fico nervoso num espaço destes: as doses, meu Deus, as doses.
A nouvelle cuisine teve um impacto catastrófico na cozinha moderna. As travessas praticamente desapareceram de qualquer restaurante com pretensões artísticas. Os pratos são apresentados como obras acabadas. O cliente já não intervém na obra final. Muitas vezes penso: "se fosse eu a criar esta obra, afinfava-lhe com mais cinco pedaços, no mínimo, aqui nesta borda e mais seis batatinhas, encavalitadas umas nas outras, aqui deste lado". Pode ser o meu gosto kitsh. O prato parece-me sempre demasiado vazio.

Mas por outro lado, o autor de cozinha não gosta que o cliente altere a sua criação. Algo comparável a numa exposição de pintura colocarem, ao lado de cada quadro, várias latas de tinta e uns pincéis, para os visitantes darem uma ou duas demãos onde entendessem (ora aí está uma grande ideia para uma exposição de arte contemporânea).
Outra característica da cozinha de autor é descrever a receita no nome do prato. Por exemplo, «lascas de salmão fumado sobre andor de legumes salteados e compota agridoce de tomate-cereja». Isto é um corte radical com a cozinha tradicional. "Traga-me um bacalhau recheado" e não "queria um bacalhau soterrado por fatias voluptuosas de cebola alouradas na sertã, em orgias com crocantes fatias de batata dourada, embebido com molho para lambuzar".

No Ferrugem propõe-se três momentos ao cliente e não o conceito tradicional de encarar como opcional entrada, prato e sobremesa. E os três momentos completam-se e completam o visitante. A surpresa nas entradas foi o «pato com pinhões e uvas passas em massa tenra, sorvete de tangerina e geleia de vinagre balsâmico». Ainda bem que o restaurante tem página web ou eu não conseguia sair do "pato espectacular, com uns pinhões e metes à boca com o gelado e, pá, é fabuloso."
Talvez pela minha cara de assustado o homem recomendou o «duo selvagem de robalo e boletos em arroz malandro». Primeiro, não vem no prato, o que agrada a um tasqueiro como eu e, depois, porque é o melhor da nossa cozinha tradicional reinventado com inteligência. Pareceu-me um duo mágico, com química, feitos um para o outro. Como um Kenny Rogers e uma Sheena Easton ou o Elton John com o George Michael.
No último momento, surpreendi-me com «pêra rocha do oeste em redução de vinho do porto com tarte de queijo». Reparem que, para não haver dúvidas, o nome diz de onde veio a pêra. Eu até sugeria «pêra rocha do oeste, e não aquela foleira que vem de Espanha, em redução...».
O espaço é muito agradável e os responsáveis simpáticos e competentes. Obrigatório, para quem acha que ainda pode ser surpreendido com a gastronomia nacional.

10
Fev09

Peixe? Galo? Uma boa surpresa no Expositor

Convidado

Era uma vez os três…os três mosqueteiros (eu e os meus tios Manuel e São, de Gouvinhas - Sabrosa) mais o D’Artagnan João Paulo, que decidiram entrar em acção no Restaurante Expositor, em Braga, para defrontar um duelo gastronómico. Espadas deixadas à porta, frente à imagem do “Cardeal Migaitas”, sim porque se fosse o Richelieu nunca baixaríamos as armas, cumprimentos feitos ao Sr. Presidente da Câmara Municipal de Braga, presença habitual no espaço de culto Migaitas, apaziguamos os nossos estômagos com uns bons petiscos de entrada, desde requeijão com doce de abóbora, alheira salteada com grelos e um folhado de galinha com legumes. Como o dia de quinta-feira se avizinhava árduo, decidimos “Um por todos e todos por um” escolher, como primeiro prato, peixe-galo grelhado com batatinha a murro e grelos, seguindo-se a posta com arroz e mais uma travessa de grelos. Escoltando tal repasto, um bom Douro tinto ‘Quinta de Vale Abraão’.

Tudo estava delicioso, como é apanágio da casa, mas o mais surpreendente foi o peixe-galo grelhado, dotado de uma carne branca, consistente e saborosa. O peixe-galo deve o seu nome a um conjunto de barbatanas que fazem lembrar a crista do galináceo, mas os franceses designam-no por "Saint-Pierre", em virtude das duas manchas negras que possui (uma de cada lado do corpo). De facto, reza a lenda que S. Pedro terá encontrado uma moeda de ouro na boca do peixe e, ao retirá-la, terá deixado impressas as marcas das suas mãos no habitante marinho...

Embora não deva muito à beleza, porque possui uma cabeça grande e uma enorme boca de mandíbula inferior proeminente, o peixe-galo é considerado um entre os melhores peixes de mar. Como diz o ditado “quem vê caras, não vê corações”. O que não percebo é porque é que uma boca grande no oceano é sinónimo de fealdade e no mundo térreo é digno de adoração e desejo; ainda bem que a Angelina Jolie não vive no fundo do mar.

Não houve tempo para sobremesas porque outras aventuras e trabalhos se nos aguardavam. Mas vamos continuar a cantar de galo por esse país fora!

A. Corunha

19
Jan09

“Pica” furado

Paulo

Era com enorme expectativa que aguardava a deslocação ao restaurante Pedra Furada, em Barcelos. Isso devia-se ao facto de alguns membros do Chispes (idóneos e de confiança nas matérias gastronómicas) dizerem que era lá que se podia comer “oPica no Chão, superior no top ao do Arafate, em Braga, o melhor que eu já tinha comido.
Por isso, formado um grupo para satisfazer a curiosidade de há muito tempo, enfrentamos a noite mais gélida dos últimos anos para conhecer tão afamado Arroz de Cabidela. Não perdendo tempo com pormenores (sim, o restaurante é agradável, com uma bela sala de estilo rústico, o atendimento é simpático), avance-se para o essencial: o Pica no Chão.
Ora bem, quais os requisitos fundamentais para um Pica como manda a lei? Para começar, um frangalhão caseiro, daqueles que anda de peito feito e crista levantada pelo quintal, a galar as galinhas e a bicar as cabeças dos seus concorrentes mais fracos, todo ele carne e músculo, cujo cantar trovejador é ouvido em toda a redondeza e a qualquer hora. Depois, muito e bom sangue (do mesmo frangalhão, claro). Bastante vinagre. Um arroz cozido “au point” e que fique super-aguado.Pica no Chão do Pedra Furada
Custa ainda a crer, mas o Pedra Furada, desta vez, falhou em praticamente toda a linha, apenas o requisito do arroz foi cumprido. O frango não era caseiro ou então tinha sido cozido durante uma eternidade para castigo do bicho, tal era a moleza da carne, própria de um qualquer exemplar de aviário. Para agravar a situação, o sabor do Pica estava inexplicavelmente amargo. É normal haver queixas de falta ou excesso de vinagre, mas neste Arroz de Cabidela o problema tinha origem numa outra qualquer razão não identificável (sangue? tempero?). Para ajudar à festa, até se deu o misterioso desaparecimento dos “miúdos” do frango. Inicialmente foi-nos assegurado que estavam lá, algures no meio do arroz, era uma questão de procurar bem; posteriormente, quando tardavam em aparecer nos pratos, a explicação, sujeita a averiguação, seria que tinham, talvez, sido esquecidos; mas, no final, a solução para o mistério seria a de que se tinham desintegrado por excesso de cozedura! Volto a remeter para uma de duas hipóteses: castigo por algo que a ave fez em vida ou frango de aviário armado em galo de Pica. Ou então, o fígado já estaria num avançado estado de cirrose e o coração havia sido dado para transplante (já quanto às moelas não consigo encontrar explicação para se terem “derretido”).
Não bastava a desilusão de não só não ter comido o melhor Pica como ter sido um dos mais fracos, ainda por cima pagou-se como se de facto tivéssemos comido o Pica dos Picas (consequência do Pedra Furada ter feito parte do Guia Michelin de 2007? Mesmo que esta experiência em concreto lhe permita constar apenas de um guia de recauchutados?)
É sempre preocupante a variabilidade de um restaurante na qualidade apresentada, se não há mal em oscilar entre o muito bom e o bom, nunca deveria alternar entre o muito bom e o fraco; além de que põe em jogo a credibilidade das fontes que o sugerem. Ao nível do Chispes e Couratos, tão grande desapontamento motivou a imediata suspensão do nosso top Pica no Chão para posterior reavaliação e a adopção de critérios mais rígidos para a entrada de um restaurante num top.
No final, um dos membros que tinha ali comido o seu melhor Arroz de Cabidela, há um ano, dizia, no rescaldo deste “flop”, que não se devia voltar aos locais onde se foi feliz. Não concordo, acho que devemos regressar muitas vezes aonde fomos felizes e, isso sim, nunca voltar aonde não se foi feliz!

04
Nov08

Albergaria Rio Beça: a boa comida ao alcance de um Mercedes

JP

Domingo. Um Mercedes segue pela A7, lançando atrás de si ondas de vento que incomodam os eucaliptos. Vrrrruuumm... a quarta velocidade encosta o ponteiro nuns agradáveis 120. Cimo da serra, toca a descer, entra a quinta em acção, o motor respira fundo e lá vamos nós a 140. Bandos de pássaros partem assustados para Sul.

Nova subida e a quarta volta ao serviço. Mais à frente - raios partam a serra, porque é que não rebentam túneis sempre a direito. Mas o Mercedes é um carro cheio de boas surpresas: e não é que existe uma terceira velocidade e vrrrruuuum pela serra acima. O ponteiro volta a ganhar vida e recupera. Enquanto houver alcatrão há esperança. No dia em que puserem um alcatrãosinho até ao cume dos Himalaias subo-o de 190. Só tenho que dar um jeito à sofagem, que às vezes não aquece.

É descarado o bom trabalho dos nossos governos. Portugal nos últimos anos apostou numa excelente rede nacional de auto-estradas que vieram revolucionar os acessos às melhores tascas e restaurantes do Portugal profundo. Por exemplo, a conversão do IP5 em A25 resolveu por completo as dificuldades no trânsito de oeste para espaços como o “Albertino” em Gouveia. A A7 veio criar novas acessibilidades e aproximar do litoral locais como o “Nariz do Mundo” e a boa comida do Montesinho. Entre muitos outros casos de sucesso. Dir-me-ão que ainda há muito a fazer. Sim, é verdade, falta uma aposta concertada em linhas de caminho de ferro que permitam aos portugueses ir a restaurantes e estar à vontade para beber sem se preocuparem com a condução. Neste ponto, apenas o “Barriga Farta” está bem servido, pois fica encostado a uma estação, mas os horários, a frequência dos comboios e os preços dos bilhetes merecem uma reflexão profunda do nosso governo.

Voltando à viagem: o que fazia um bonito e ainda fresco casal a caminho de Boticas a uma velocidade estonteante, pelo menos ensurdecedora, num final de manhã de Domingo? Promessas pagam-se para sul, viagens de fim-de-semana começam-se à sexta e passeios fazem-se admirando a paisagem.

O destino era a Albergaria Rio Beça, na Carreira da Lebre, depois de Boticas, já a caminho de Salto.

Sempre que pensamos em espaços de boa comida no interior pensamos em tasca, em chãos já quase extintos e paredes sujas, não esqueçamos o velho barrigudo, manchado pelo tinto da casa, ou a senhora idosa a comandar a cozinha; autocarros a descarregar bocas e berros a orientar os grupos para o pasto.

Mas a Albergaria Rio Beça impressiona pelo bom gosto, pelo volume de som reduzido, pela ausência de kitsch, pela suavidade de cores e pelo atendimento cuidado e simpático. Gente da terra que sabe do que fala e sem caricaturas do português típico.

O senhor que nos atendeu mandou umas boas tiradas que me levou várias vezes a verificar se realmente estava no profundo Trás-os-Montes. “Talvez daqui a 10 anos a maioria dos restaurantes possa ter um escanção!” Boa! Estive para lhe perguntar o que achava da crise financeira internacional, mas entretanto os enchidos aterraram na mesa e exigiam dedicação absoluta. É a sina, se o Marcelo Rebelo de Sousa também servisse à mesa, depois de pousar as entradas, nunca mais ninguém o ouvia. Nunca chegaremos a saber o que o mundo da restauração ficou a perder.

E verdade seja dita, uma arte exige a nossa atenção total. Enquanto se come, aprecia-se a comida. Já se viu irmos a uma exposição e falarmos de feijoadas? Ou vermos o telejornal durante um espectáculo musical?

Bem, para começar apresentaram-se uns enchidos da casa, com feijão-frade e fios de verdura. Delicioso. Bola de carne recheada com cebola e tomate.

Com o estômago já acalmado, mandamos entrar um polvo grelhado com batata a murro embebida em azeite e uns grelos salteados com alho. O espectáculo continuou com a actuação de uns medalhões de vitela barrosã em molho de pimenta verde e mostarda, vestidos com uma crocante fatia de bacon. Fabuloso.

A fechar, uma boa posta da região temperada singelamente com sal. Carne macia e suculenta, talvez a pedir menos meio minuto ao lume, nada de grave.

A acompanhar, um famoso vinho POP alentejano, que se portou bastante bem.

Já sabem o que vos espera: comida excelente, bom ambiente e paisagens belíssimas, pelo que ouvi dizer, já que ao chegar ao exterior o frio enxotou-nos para os carros e toca a pressionar o acelerador.

Um conselho: idas a tascas e restaurantes refugiados nas mais distantes serras exige um automóvel com credibilidade e que ofereça garantias de chegar ao destino. Adquiri um 190 precisamente para assegurar o meu acesso à boa comida do nosso país. E a verdade é que, se em Portugal tivessemos só Alfas e Fiats, estes espaços de boa mesa perdidos nas profundezas da nossa nação iam todos à falência.

24
Out08

Ele e Elas. Afinal EXISTEM!

JP

Ele, o Miranda, Elas, as Postas. Para todos os que sempre duvidaram, para os homens e mulheres de pouca fé, para todos os que acreditam em astrologia e em Deus Nosso Senhor mas pensam que as histórias sobre o Miranda não passam de um mito, aqui está a imagem capturada na noite de ontem. Miranda e sus Muchachas.

O Miranda e sus Muchachas

O artista, apesar do nome Miranda é do Barroso, afável, inclassificável, surpreendente, One Show Man, aqui bem acompanhado à travessa por duas senhoras Postas.

Elas, como sempre, apresentaram-se imponentes, macias e suculentas.

Obrigatória a visita ao restaurante "Sabores do Barroso". Ver texto ""O homem do barroso em Braga"".

04
Out08

Transmontanos e amigos no “Miranda”

Convidado

À mesa com faz-me lembrar o tipo de tertúlia “À Conversa com…”, promovida por uma qualquer instituição de renome. [Como vem a propósito, lanço, desde já, o desafio aos comensais dos Chispes e Couratos para promoverem esse tipo de iniciativa um pouco por todo o país (não se esqueçam dos convidados, hum!)]. JP, Eurico, Daniel, eu própria, e o ímpar conversador/moderador Miranda, que com o seu estilo narrativo inigualável e bem-disposto (em vez de narrativo devia dizer-se caralhativo, tal o número de vezes que aplica a palavra e sempre com uma enorme riqueza semântica, típico de um “puro” transmontano), aquecemos uma destas noites, à volta de um bom tinto da casa, de S. João da Pesqueira, o perfeito acompanhante para um macio presunto transmontano. A carne do homem do barroso, como nós já a conhecemos e tantos outros seguramente, é imaculada; as batatas fritas às rodelas bem sequinhas e o arroz de “estrugido” à transmontana com pequenos pedaços de carne e umas azeitonas a saltitar completam a farta refeição.
Para o Miranda, o que fazia falta era animar, ainda mais, a malta e, vai daí, pede licença para entrar na mesa com o “O Professor”, um DOC do Douro. Como única representante feminina duriense naquela mesa, não pude deixar os créditos por mãos alheias e lá comecei a descortinar sobre os vinhos, ajudada pelo jovem Daniel que também quis dar o seu “palpite”. Mas eis que, de repente, os meus sentidos gustativos deram lugar aos auditivos por causa de uma surpreendente afirmação “à Miranda”: “Quando as mulheres percebem de vinhos, é o caralho…”, a que se seguiu uma farta gargalhada. A conversa tomou, a seguir, um rumo bem diferente com a chegada do Sr. Engenheiro de Vila Flor, uma figura aparentemente conhecedora do mercado vitivinícola que se aproximou da nossa mesa, como se precisássemos de fertilizante. Claro está que o Miranda, homem rijo, bem tratado e sem “papas na língua”, não foi em conversas e logo respondeu com a mesma moeda “O Sr. também não percebe um caralho de vinhos”. Pelo menos, ficamos a saber que o barrosão Miranda percebe de investimentos e que conseguiu, nos anos oitenta, aprovar projectos agrícolas de grande arrojo, pois nem “que tivesse de lutar contra 500 caralhos”, ele iria conseguir.

Repare-se no quão rica em significados é a palavra: Do latim "caraculo", substantivo, adjectivo, advérbio ou outra coisa qualquer que pode significar lixado, está tudo perdido, pessoas, ah, não, porém, vai passear, talvez, adorar, etc.

Diz o povo que quem conta um conto acrescenta um ponto… foram muitas as histórias que se ouviram no 2º piso do restaurante “Os Sabores do Barroso” e talvez alguns pontos se somaram. Chegou, pois, o momento de dizer a verdade… bebemos 6/7 garrafas de bom néctar duriense.

VERDADE!

 

Um texto de A. Corunha