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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

10
Nov09

"Os portugueses e o peixe: só pode ser uma história de amor"

JP

Este título fez-me inveja. É digno dos Chispes.

Via "A Origem das Espécies". Já aqui reflectimos sobre as especificidades da relação dos portugueses com a sua gastronomia e da incompreensão de algumas instituições internacionais. Principalmente, a questão do bacalhau.

Aqui estão números que me fazem sentir orgulho em ser português: 60 quilos de consumo de peixe per capita por ano. Há países nórdicos que não passam de uns arrepiantes 9 quilos. E com tanto bacalhau naqueles mares.

Eles que continuem a ganhar os festivais da canção.

 

04
Mar09

Esposende com Sabores de Mar

Paulo

Num país como o nosso, em que a gastronomia é rainha e em que “comer” é a actividade preferida e o acto social mais desenvolvido, não podiam faltar os certames gastronómicos relacionados com tudo o que se possa meter à boca. Mas, uma componente que deveria estar mais desenvolvida e enraizada é, sem dúvida, a dos concursos gastronómicos. Toda a gente sabe que a competitividade e a rivalidade é que fazem as coisas andar para a frente. E a nossa gastronomia não perde nada em se inovar e reinventar, já que demos novos mundos ao mundo porquê não haveremos de dar novos pratos ao mundo? Aliás, faz parte da nossa tradição cozinhar, das mais diversas formas, tudo o que se mexa e que seja minimamente comestível (daí que da nossa gastronomia façam parte iguarias como lampreia, enguia, caracol, pés e focinho de porco…) e fazer combinações improváveis (porco com amêijoas, açordas, arroz com sangue…).
E se muitas vezes as cozinheiras e os cozinheiros apenas dão um nome mais pomposo ou apresentam uma roupagem diferente a um prato que na sua essência é apenas mais do mesmo, não faltam, felizmente, cada vez mais exemplos de experiências bem sucedidas na transformação de sabores e na adição de novos elementos a velhos pratos tornando-os em algo, senão melhor, pelo menos diferente. E todas as inovações e reinvenções são de louvar, se é verdade que a nossa gastronomia já possui 1001 pratos não nos importamos nada que passem a ser 1101!polvo com grelos
Em Esposende, realiza-se, por esta altura, a sétima edição do Concurso Gastronómico da iniciativa “Março com Sabores do Mar”. A concurso estão pratos tão sugestivos e inovadores como “Saltarico do Atlântico c/ Bolinhas de Algas”, “Caçarola do Pescador c/ Peixe Galo Estaladiço”, “Robalo do Mar Escalado, no Forno c/ Batata a Murro e Grelos Salteados”, “Mil Folhas de Peixe em Cama de Grelos e Molho de Tomate”, “Linguado à Menier”, “Rajes de Polvo” e outros com nomes menos sugestivos mas certamente não menos originais e inovadores como “Filetes de Tamboril com Arroz de Grelos”, “Pescada à Gabriela”, “Bacalhau D. Sebastião III”, “Bacalhau dos Reis”, “Açorda de Bacalhau”, “Bacalhau ao Cubo”, “Bacalhau à Rosinha”, “Arroz de Santola” e “Arroz de Robalo”.
Não me digam que não ficaram com vontade de dar um saltinho à bela cidade costeira de Esposende para saber o que é o “Saltarico do Atlântico” e que raio são “Rajes de Polvo” ou para provar um “Linguado à Menier”?
Todas as informações que necessitam, incluindo restaurantes e preços, aqui.

02
Mar09

Bota e Bira

JP

Ora aqui está um nome brilhante para uma casa de pasto. Bota e Bira. O restaurante situa-se em Matosinhos, pertinho da lota, como mandam as leis universais da intuição gastronómica. Não interessa se o peixe já está hospedado no restaurante há mais de uma semana, psicologicamente resulta, parece que acabou de desembarcar e ainda nem teve tempo para desfazer as malas.
"Bota e Bira", não há que enganar, é no braseiro que se fazem os pratos da casa. O nome é um achado porque resume a essência do estilo artístico do chefe de cozinha. Se fosse num restaurante como o El Buli era bem mais complicado, seria algo do género: "pesquisa, testa em laboratório, produz quimicamente e serve." Não dava.
Tudo porque a essência da cozinha à beira mar deve resumir-se ao fogo e ao sal. Um bom peixe quando chega às mãos do artista não precisa de muitos adereços para ficar uma iguaria.


Existe o mito de que é impossível comer peixe em Matosinhos sem sermos agredidos com contas de, no mínimo, 40 euros. Não interessa o que se come ou o que se bebe. Se mandamos vir uma garrafa de vinho, é porque o vinho é caro. Se vier uma cerveja, são as entradas que encareceram. Se não pedimos entradas, são os pratos. Se os pratos são acessíveis, é o café e a água. Se não tomamos café, foi aquela maldita manteiguinha. O mínimo de 40 euros é que nunca falhava, aliás, era um enigma que ainda não tinha sido resolvido pelos maiores matemáticos do mundo. Não interessa as voltas que se dava, o resultado era sempre igual.
Mas finalmente no Bota e Bira encontrei a solução. Duas pessoas, uma dose de chocos e uma dose de lulas, bebidas, sobremesa para um e café, igual a 24 euros. Porra, consegui!

Para quem não gosta de ver chegar entradinhas à mesa sem serem convidadas, o Bota e Bira é o restaurante ideal. Só o pão apareceu por ali. É um mérito, porque nos permite analisar, primeiro, o impacto das medidas estruturais no combate ao apetite e, só depois, tomar outras decisões de recurso. Muitas entradas na mesa a juntar-se à vontade de comer leva-nos a perder a cabeça e a devorar tudo o que nos apareça à frente, depois da saciedade lá vem o sentimento de culpa, "oh meu Deus, eu não presto, o que eu fui fazer. Eu merecia um par de chapadas bem dadas.".
Depois do pão lá chegaram as estrelas da tarde, bem fresquinhas, temperadas e em boas quantidades. Em tantos outros restaurantes pedimos lulas ou chocos e chegam-nos numa quantidade miserável. Ou eram cefalópodes deficientes, também os deve haver, já com 3 a 4 pernas amputadas em vida, ou houve má fé dos cozinheiros.

Finalmente, há que referir que os funcionários eram homens de parcas palavras. Nunca foram antipáticos, mas quase não chegou a ser necessário que abrissem a boca em cada abordagem à nossa mesa. Brilhante. Tantas vezes encontramos pessoal a servir às mesas que acha que o cliente vai aos restaurantes para ouvir opiniões sobre política internacional ou para assistir a espectáculos de stand-up-comedy. "Por favor, eu queria um robalo grelhado, mas não demore muito que eu ainda queria ouvir a sua opinião sobre as medidas de combate à crise apresentadas pelo Obama".

Mais tarde ou mais cedo, este tema irá merecer-me uma reflexão. Todo o ser humano que serve à mesa sofre com esse complexo de inferioridade: o mestre, o artista está na cozinha e a única responsabilidade que o garçon tem sobre as obras de arte é a de não as deixar cair. Na mesa, o melhor que pode ouvir é "por favor, transmita ao cozinheiro os meus parabéns". É frustrante. E todo o garçon sabe que o cliente tem tendência a ignorá-lo. Quantas vezes não lhe apetecerá gritar "ei, psssst, estou aqui... aqui, a trás da costoleta".

Claro que começam a tentar afirmar-se e marcar presença em todos os momentos da refeição, com os seus dotes intelectuais e as suas frases espirituosas. Muitos desenvolvem piadas específicas para cada item do menú, acreditando que na carta deveria vir indicado o nome do prato com algo do género: Espetada de lulas, com batata a murro e piada sugestiva do garçon.

Felizmente, no Bota e Bira, os homens estão conformados. Ou a cagar-se! Bota, bira e toca a servir.

07
Set08

“El” Armazém

Paulo

Acho que é comum a todos os apreciadores de comida quando se vai de visita a qualquer lado procurar ir comer a um sítio típico. Uns porque sabem que normalmente é onde se pode comer muito bem e a bons preços; outros porque desejam sentir melhor o povo e a tradição; e há quem simplesmente queira se gabar de ter comido no sítio mais típico da localidade.

Claro que quem vai em busca disso sabe o que o espera geralmente para além da boa comida, ou melhor, o que não o espera: não se conta encontrar um local com boa apresentação, com aspecto cuidado, com um serviço requintado nem sequer esmerado, que siga as mais básicas regras de etiqueta ou até que dê uma importância por aí além a questões higiénicas (por exemplo, as visitas às casas de banho são, muitas das vezes, aventuras para mais tarde recordar). Quem já entrou numa qualquer tasca sabe do que eu estou para aqui a dizer.

Eu, pela parte que me toca, e não sendo pessoa facilmente impressionável, já com vários anos de experiência com tascas, gosto de ir aos locais típicos pelo bem que se come e pela excelente relação qualidade/preço.

Ora, quando o destino se trata de um local turístico o desejo de procurar um local típico aumenta ainda mais, para fugir um bocado aos restaurantes que vivem apenas de alimentar os turistas e de se alimentarem dos turistas, em que a maior parte das vezes sentimos que o que comemos não esteve à altura do preço que pagamos…

No meu último local de férias no sul de Espanha (Isla Cristina, poucos kms. a seguir à fronteira, muito popular entre os portugueses, certamente também porque o preço do combustível não permite ir muito mais longe), procuramos logo no início encontrar o restaurante mais típico da terra. Quem tem experiência nestas coisas, sabe que em zona de peixe as buscas devem efectuar-se nas ruas mais próximas da lota de pesca. E foi assim que rapidamente encontramos “El Armazém”, nome com que decidimos baptizar o “Mesón El Pescaíto Frito – Casa Pepe”. Lamentavelmente, a fome antes e a barriga cheia depois nunca nos permitiram ter a lucidez necessária para tirar uma foto ao local, já que não seriam necessárias explicações adicionais. Como facilmente se percebe pela alcunha (e pela imagem aérea do local que fui buscar ao Google Earth), o restaurante fica num antigo armazém, a maior das duas salas até tem o habitual telhado de armazém a uma dezena de metros de altura. E não tenham dúvidas de que é mesmo o sítio mais típico da zona para se comer. Tão típico que das várias vezes que lá fomos, éramos os únicos não espanhóis lá. As paredes alternavam quadros de sugestões de petiscos escritas a giz com imagens religiosas e ventoinhas. Os empregados eram alguns deles indubitavelmente antigos pescadores, então um deles era uma personagem fantástica, já na casa dos sessenta (pelo menos era o que parecia, porém podemos ter sido enganados pela sua pele queimada e desgastada por muitos anos de mar, sal e sol), mas com um porte e agilidade de um jovem, conseguíamos perfeitamente imaginá-lo num qualquer filme do Tarantino com o seu cabelo cheio de gel penteado para trás com estilo.

Como seria de esperar, lá apenas se comia pescado, todo o género de pescado, fresco mais fresco era impossível (aliás, aos fins de semana é costume ouvir-se muito “no hay” em resposta ao pedido de diversos peixes), tudo sempre fantástico o que comemos, e muita coisa lá comemos, desde atum a chocos, passando por enguia, polvo e todo o género de peixinhos fritos.

Os preços bastante acessíveis fazem com que a casa esteja sempre com muita gente, tivemos noites em que os clientes e os pedidos eram tantos que os empregados não tinham mãos a medir e muito menos cabeça, já que nessas situações normalmente a conta apresentada não continha parte das iguarias saboreadas. Houve quem dissesse que o “esquecimento” fazia parte de uma estratégia da gerência para voltarmos lá mais vezes, o que até poderá fazer sentido se pensarmos que o gerente deve ser algum velho pescador que passou demasiados anos no mar com a cabeça ao Sol.

11
Jul08

Taberna da Laurinda

Paulo

Uma das reacções químicas mais conhecidas no organismo humano é a que é despoletada pelo Sol e pelo calor e que resulta na necessidade premente em comer peixe e marisco. Nesta altura do ano, todo o ser humano sente um chamamento para a costa em busca de se satisfazer dessas iguarias provenientes do mar, sempre acompanhadas de muito vinho branco ou cerveja.

Recentemente, tive que voltar a cumprir esse nosso destino e, com um grupo de amigos, deixei-me ir até Castelo de Neiva. Aí, encaixada numa duna, encontramos a Taberna da Laurinda, onde somos recebidos pelo próprio dono, já que em país de engenheiros e doutores por vezes é difícil de conseguir contratar quem queira servir à mesa “nem que seja por um salário de 800 euros”, como ele nos confidencia.

O nosso destino ia cumprir-se através de uma caldeirada de peixe (isto depois de vários telefonemas nos dias anteriores para ter a certeza que não se aproximava nova greve dos pescadores e que não nos ia faltar o peixinho português fresco na panela). Mas antes do prato principal veio um camarão com um molho dito à angolana que estava de lamber os dedos. Aliás, já é uso na casa a travessa não voltar para a cozinha enquanto não se der cabo de todo o molho, recorrendo para o efeito a todo o pão a que se possa deitar mão.

Entretanto, já era um ver se te avias para darem vazão à nossa insaciável sede. Felizmente, na Taberna da Laurinda serve-se um verde branco da casa muito bom, de beber e pedir muito mais.

Chega a vez, então, da ansiada caldeirada que nos conquista de imediato pelo aspecto e pelo aroma. Segue-se o jogo do adivinhar que peixes estão lá dentro, que é tão difícil para gajos citadinos que até à idade adulta só queriam ver carne à frente como acertar nos números do euromilhões: “Isto é sardinha!” “Sardinha numa caldeirada? Tás doido?” “Bacalhau? Tubarão? Lagosta?” “Congro é peixe? Não é um país em África?”

O que interessa é que a caldeirada vinha bem recheada e com uma boa diversidade de peixe. Pelos vistos, naquele dia tinha havido combustível suficiente para uma boa pescaria. Demos todos nota máxima, a caldeirada estava excelente, e ficamos absolutamente satisfeitos, com o sentimento de dever cumprido.

Para sobremesa, estivemos quase para pedir um robalo assado maravilhoso que vimos passar, mas acabamos por ficar por coisas mais tradicionais, como o leite creme ou a salada de frutas.

No final, nada melhor do que poder fazer a digestão caminhando pela praia (que fica literalmente ali ao lado) com um charuto e um copo de whisky ou na companhia de uma bela mulher (ou de um homem, ou de uma mulher e de um homem, ou de uma ovelha; aqui no “Chispes e Couratos” não fazemos discriminação). Desta vez, tive que me contentar com o tabaco e a bebida…