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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

10
Jan09

Neve em Braga: Direito de Resposta

Paulo

A memorável manhã de 9 de Janeiro de 2009, em que Braga se viu inesperadamente coberta de neve, assim como todo o Norte de Portugal, fez sorrir a criança que ainda existe em mim. Porém, o facto de ainda possuir esse espírito de criança, não significa que não me tenha tornado adulto gastronomicamente há já muitos anos. Ao contrário do JP, eu acho que uma faceta não exclui necessariamente a outra, mesmo do ponto de vista gastronómico todos nós mantemos sempre uma criança dentro de nós, por isso é que continuamos sempre a gostar de batatas fritas ou dizemos que a sopa da nossa mãezinha é sempre a melhor de todas.

Assim, é possível ficar maravilhado com a neve e sair entusiasmado para a rua e simultaneamente pensar como seria bom a seguir ir para a lareira e comer presunto acompanhado de vinho tinto; fazer bonecos de neve e ver que o resultado final se assemelha a um leitãozinho e que até o estalar da neve nas nossas mãos ou debaixo dos nossos pés nos traz à memória o estalar da pele crocante desse fantástico manjar; tirar fotos do momento histórico para mais tarde partilhá-las com amigos à volta de um delicioso bacalhau com broa e de umas garrafas de Crasto Branco e Quinta da Trapa Roriz Tinto do Douro.

09
Jan09

Neve em Braga: felizmente desapareceu a criança que havia em mim

JP

Acordei estremunhado com o aviso da mensagem do Paulo a dizer que nevava desalmadamente em Braga. A neve tem este efeito mágico e lá fiz uso das poucas forças que o wiskie de ontem à noite não conseguiu derrubar. Sentei-me de cara colada no vidro a olhar os farrapos de neve que na altura se dissipavam ao tocar no chão. Pouco depois, o Paulo entusiasmado ligou: "vai ver agora". A neve estava a pegar e a cobrir tudo à nossa volta.

Desejei umas torradas e um copo de leite com cacau, que chegou especialmente da Bélgica. Mas não havia tempo a perder e acabei por me contentar com um iogurte de pedaços de morango... ou seria ananás.... ou talvez cereais.

 

 

 

 

 

As duas primeiras imagens foram tiradas de minha casa, a última foi-me enviada pelo Paulo. O homem ainda tem o espírito de criança, deu-se ao trabalho de sair de casa para passear na neve.

Os especialistas afirmam que não é fácil sinalizar a passagem dos seres humanos pelas diversas etapas - infância, adolescência ou idade adulta. Sim, não será. Mas fica aqui uma ajuda. Quando um jovem vê neve e em vez de desejar correr, saltar, criar bonecos e pirilaus, atirar pedaços rechonchudos e brancos à cabeça dos amigos, começa a desejar uma lareira com uma manta nos pés, um copo de vinho tinto numa mão e uma tábua de queijos à mercê da outra mão, então, meus caros... sejam bem-vindos à idade adulta.

E é nestes momentos que tenho mais esperança e  fé na vida e penso, adeus infância, adolescência ou juventude. Meu deus, que nunca mais voltem! Seria a maior das desgraças. Custou-me tanto chegar aqui, a este maravilhoso mundo de cozidos à portuguesa, sopinhas caseiras, papas de sarrabulho, douros tintos e brancos, bacalhaus cozidos e assados e polvos... oh santíssimo, os polvos.

Todos os adultos sabem, embora não o queiram afirmar em voz alta: ser criança é horrível! Há alguma décadas atrás, havia o cuidado por parte dos pais de iniciarem os seus descendentes nos prazeres da bebida e da comida por volta dos 10 anos. Mas a actual sociedade ocidental tem vindo a enfernizar cada vez mais a vida dos petizes com hábitos de saúde que apenas servem para sustentar grandes negócios. E os desgraçados estão cada vez mais gordos e insuportáveis. Num mundo de filetes, batatas fritas, sumos e hamburguers eu também seria dificíl de aturar.

Todas as crianças sonham em fazer essa passagem para a idade adulta, que sempre foi associada à iniciação sexual. Mas todos nós sabemos que o acto sexual não é a passagem. Alguns dos meus amigos ainda hoje tentam desalmadamente passar para a idade adulta pelo acto sexual... todos os dias. Mas sem sucesso. A verdade que ninguém pode negar é que  muitos chegam ao mundo dos adultos com uma estrutura mental de criança. E tudo fica mais confuso e stressante. Não é possível lidar com casamento, filhos, problemas no trabalho, crise, vizinhos, condomínios, filas de trânsito, empréstimos bancários, centros comerciais sem uma boa alimentação e sem uns bons copos de vinho.

Meus caros, a passagem é gastronómica.

Um dia destes veremos as crianças a gabarem-se entre si: "eu já gosto de cozido à portuguesa". "O quê? não acredito, tás-te a armar."

02
Dez08

Maldita Neve

JP

Chegou o frio. Serras congeladas e neve a cobrir montes, telhados e estradas. Jornalistas a acompanhar filas de trânsito embrulhadas em gelo.

Percorri, inquieto, os quatro cantos da casa. Todos preocupados com as famílias enfiadas em gorros e cachecóis, que se metem por essas estradas porque sabem que depois vão aparecer na televisão. Claro, o Papá diz: vamos andar a 20 km hora para a serra, tirar umas fotos a fazer uns pirilaus na neve e pode ser que apareça um jornalista a perguntar se estamos com frio.

Neve Alvão

Enquanto isso, ninguém se preocupou com os cabritos, coelhos e vitelos enregelados do lado de lá dos montes. Nem um único helicóptero para dar uma olhadela se havia populações ameaçadas. Ninguém se preocupou em saber se o gelo não estaria a destruir pés de vinha. Se a produção de azeite do próximo ano corria riscos. Se telhados carregados de neve podiam ruir sobre centenas de milhares de garrafas de bom vinho. Alguém andou a limpar os acessos a tascas como o Nariz do Mundo? Não, andou tudo a brincar com a neve, como sempre.

Felizmente, eu tinha planos para um fim-de-semana no Douro. Arranquei por essas serras, com passagem por Vila Pouca de Aguiar. Além das roupas, apenas o essencial: um desodorizante, que em tempos de frio pode substituir, por uns dias, um bom banho; perfume, que estrategicamente colocado substitui lavagem de roupa por uma semana; um saca-rolhas e uma tablete de pastilhas rennie.

O BMW atestado de GPL, a rapariga ao lado e a família à espera.

Em Cabeceiras, a primeira dificuldade: a estrada bloqueada por causa do gelo. Encostei o carro na berma, esperando que abrissem a circulação.

Fui falar com o agente, expliquei-lhe que a situação era desesperante, tinha uma feijoada à minha espera e, se não resolvessem o problema rapidamente, teria de a comer ao jantar, provavelmente aquecida.

Ele mostrou-se sensibilizado, pareceu-me que iria interceder para que eu conseguisse chegar até às 17h00, altura em que a feijoada poderia ainda estar a uma temperatura aceitável, não necessitando de voltar ao lume.

Vi-o a falar ao telemóvel, pareceu-me bastante solícito. Com o tempo, o pior dos cenários tornou-se uma realidade: não só iria comer a feijoada aquecida (com danos ainda por calcular), como inviabilizava a costeleta de vitela prevista para o jantar. Uma verdade demasiado dura que me estragou grande parte da viagem. Maldito governo, gastam o dinheiro nos bancos, em vez de comprar limpa-neves. Este país nunca chegará a lado nenhum.

Obviamente que eu já tinha pesado todas as alternativas: podia comer a costeleta de vitela por volta das 21h, mas só se me atirasse à feijoada até às 18h, o que estava já fora do meu alcance. Era impensável a costeleta por voltas 23h, porque ameaçava seriamente a degustação do cordeiro no almoço seguinte. Mesmo tratando-se de um fim-de-semana prolongado, já nada havia a fazer, segunda-feira estava prevista uma reunião urgente com um bacalhau assado na grelha. Uma agenda demasiado preenchida tem destes inconvenientes, retira alguma flexibilidade.

Mas a rigidez do plano gastronómico a cumprir foi complementado com uma diversificada e criativa escolha de vinhos: Douro Tinto 2007, Douro Tinto 2006 “reserva Tinta Roriz” e Douro Branco Quinta do Crasto 2007.

Tenho de confessar que recorri permanentemente a ajudas de substâncias digestivas: J&B envelhecido qb.

Notas: a feijoada aguentou-se bem, apresentando-se em grande parte do seu esplendor! Mas deve servir de lição às nossas autoridades. Um mau sistema de alerta civil provoca danos incalculáveis na gastronomia nacional. Ainda não foram apresentados números oficiais da quantidade de papas de sarrabulho, pica no chão, cabrito assado, feijoadas, entre muitos outros, que ficaram barricados e isolados pela neve durante todo o fim-de-semana. Chegou a altura, de acordar para essa realidade.