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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

09
Fev10

O fim do top ten

JP

É raro não se utilizar os tops como filtro para compreender o que se passa no mundo. O top dos 10 melhores restaurantes; dos melhores filmes; das melhores nádegas; dos melhores jogadores; das maiores guerras; das personalidades do século; dos piores ditadores; dos terramotos mais devastadores; das melhores lampreias.

Sem os tops, a malta sente-se perdida. O mundo parece não fazer sentido. Dizer que algo é bom, é muito pouco. É melhor do que quê? Em que lugar é que está? A apreciação fica incompleta sem a comparação. Não está no top, então não é nada de especial. Morreram 30 mil? Mas quer dizer que foi das dez piores catástrofes ou não? Abaixo dos 50 mil não entra no top 20. Qualquer jornalista sabe disso.
As pessoas não querem a experiência, a descoberta, o erro. Querem  ir pela certa. Querem que lhes digam o que devem experimentar. Não vá andarem a consumir livros, filmes, comida anos a fio e, às tantas, descobrirem que nada daquilo estava num top de jeito. Eu já estive em 3 dos 10 locais a visitar antes de morrer; já fui a 1 dos 10 melhores restaurantes; já experimentei as 10 posições mais excitantes no sexo; já fiz as 5 coisas mais importantes para salvar o casamento e já adoptei os 10 hábitos essenciais para evitar o aquecimento global.

Mas a abordagem pelos tops é muito redutora. Expõe a nossa tendência para simplificar. Não convivemos descontraidamente com o excesso de informação. É comum recorrermos aos tops para lidarmos com a história. Veja-se as maravilhas não sei de quê e o maior português. Ou o futebol. Se não houvesse top, como seria a vida do Cristiano Ronaldo? Desculpa lá, rapaz, mas não és o melhor do mundo, aliás, também não estás entre os quatro melhores do mundo. Ah, é verdade, e não marcaste o melhor golo da época. Ah, e já me esquecia, também não lideras o top dos maiores parolos portugueses. Simplesmente, porque não há tops. Acabou.
Não sabemos lidar com o "Bom", "Excelente", "Mau", "Mediano", "19 valores", "Porreiro", "Agradável", não senhor, recorremos logo ao "vai para o meu top". Isso é fácil de dizer quando estamos a falar de apenas três ou quatro a concurso. E se forem dezenas? Ou milhares? A maior parte dos tops fazem-se pela discriminação de muitas das opções. Acreditem, há um verdadeiro Apartheid do gosto; e da cultura geral; e do bom gosto; e da análise qualitativa na generalidade.
Há que adjectivar e não «topificar».
É crocante? É. É macio? Tenro? Fresco? É. Pronto. Chega. "Mas diga lá se não é o melhor que já comeu?" Esta pergunta é constantemente feita pelos donos dos restaurantes, por falta de modéstia ou para fazer lobby para entrar nos tops. Depois de lá entrar é difícil sair. Cria-se o mito e já se sabe que os mitos têm vida própria. "Dizem que é o melhor restaurante do ano. Tem o melhor bacalhau do mundo". Pois, alguém os mandou para o top e a coisa torna-se logo sagrada. Mesmo quando não concordamos, está no top. "É pá, eu não gostei muito, mas dizem que é dos melhores". Incrível, os tops sobrevivem às experiências individuais e ao confronto com a realidade. Correu mal? Foi um mau dia. Não faz o meu género. Estava constipado. Vinha de uma lesão. Há sempre uma desculpa, mas do top ninguém o tira. É como o Platini.
E vamos lembrar os esquecidos do top. Quantas vezes preferimos não experimentar um restaurante porque nunca ouvimos ninguém dizer que estava entre os seus favoritos. Provavelmente, nem vale a pena experimentar.
Os tops são utilizados para os seus autores se armarem. Não para valorizar, mas para auto-prestígio. Se eu fizer o top dos 10 melhores vinhos do mundo, todos vão dizer: e o cabrão bebeu os 10 melhores vinhos do mundo. Fora os que colocou entre os 11º e o 20º lugar. Pois.

Isto a propósito da noite da lampreia na Taberna da Laurinda. Duas lampreias à bordalesa para quatro indivíduos. O dono lançou o isco: "é a melhor ou não é?" Não sabemos, foi a resposta. É excelente. Quer que diga mais: é deliciosa, mas esqueçamos o top.
O vinho verde tinto, da região de Amarante, talvez tenha sido o melhor que já provei. Ah, ah, apanharam-me.
Não senhor, estava que se trincava. Tinha corpo e uma acidez bem controlada.
E foi uma noite à Chispes, como já não tínhamos há algum tempo. Um ambiente intimista e uma entrega total ao prazer gastronómico. Como se não houvesse colesterol. Nem conta para pagar nem uma viagem de regresso. Sabe realmente bem. Foram noites como esta que fizeram dos Chispes aquilo que os Chispes já foram e que hoje poucos sabem o que é.

25
Fev09

A Casa do Lau e da lampreia: O amor à primeira trinca! (II)

JP

Nos últimos dias tive finalmente a oportunidade de viver uma das minhas experiências eternamente adiadas: comer lampreia. E tinha sido adiada por puro preconceito, como já tinha adiado os caracóis, as enguias ou as experiência homossexuais (que vou continuar a adiar por mais algum tempo).

Não há nada mais feio do que discriminar pela beleza física. Se nos deixassemos guiar apenas pela beleza, só comíamos cavalos, golfinhos ou aqueles lindos peixinhos de aquário. A gastronomia ensina-nos a não julgarmos os seres vivos pelo seu aspecto, devemos dar-lhes sempre uma oportunidade com os mais diversos temperos.

Atraído pela necessidade de dar sentido a três dias sem trabalho, o meu mercedes 190 deu entrada por volta das 12h30 em Vila Nova de Cerveira, onde decorre até ao final do mês o Festival da Lampreia. Uma  passagem pelo Posto de Turismo chegou para tomar a decisão: vamos à Casa do Lau. Lau não é apelido que se dê a ninguém. Lau, reduz um homem de barba rija, um ranger, a um professor de aeróbica, o que não é a imagem ideal para um restaurante português. Mas paciência.
A casa do Lau é um restaurante bem agradável, com uma decoração a atiçar o homem ou a mulher requintado que há em nós, mas num ambiente bem prazenteiro. Possui ainda um interessante pátio com vistas sobre o rio Minho.
Vamos ao essencial. O atendimento é extraordinário. Diz-se que a simpatia dos funcionários faz ou não o sucesso do restaurante. Na Casa do Lau há simpatia, não a excessiva, a importunadora, não a simpatia ensaiada, mas natural e espontânea. No final, olhei para os trocos na minha bolsa e pareciam-me poucos para gorjeta. Estive quase a pedir-lhe o NIB para fazer uma transferência condigna.

A mesa. A abrir: orelhinha de porco em molho de cebola; meixão, que são as crias de enguia, que mais pareciam rebentos de soja, em azeite e alho (eram tão pequeninas e transparentes que nem sei se estavam no seu estado larvar ou se fizeram o parto prematuro às enguias para elaborar aquela iguaria); lulas recheadas; salada mediterrânica; patés de marisco, de peixe e de salmão.
Para acompanhar, o homem sugeriu-nos um verde tinto da casa, Vinha Barreirinho, um verde intenso, não demasiado adstringente, e que haveria de mostrar o que vale mais tarde.

Como éramos totalmente virgens neste prato pedi ao homem que nos tratasse bem e que não fosse muito bruto, para não ficarmos traumatizados. Eu queria evitar ver a lampreia no seu aspecto natural, enroladinha e pegajosa, a desafiar a nossa imaginação.
O homem convenceu o cozinheiro a separar o peixe em dois e trazê-la para a mesa metade à bordalesa e metade em arroz típico de lampreia.
Vamos por metades. A primeira metade chega-nos oculta numa travessa, mas que ao destapar-se, em vez da imagem ameaçadora, revela um cenário enternecedor, capaz de derreter os corações mais insensíveis e de fazer abrir a boca ao mais terrível terrorista detido em guantánamo.

Seis postinhas, ainda ténuemente ligadas entre si, com uma cor castanho-escuro a revelar umas horas bem passadas em banhos de vinho tinto. Quanto ao sabor, não há muitas palavras adequadas a esta  descrição, mas arranjam-se algumas interjeições: uhmmmm, uai, iiiaaa, oba, salve, urra.
A segunda metade veio mergulhada no arrozal, com um aspecto que parecia um plágio descarado do arroz pica no chão. Intensa e aromática, transpirava vinho, vinagre, salsa e muito mais, que o homem não revelou.
Como detectar um principiante na lampreia? Inicia a refeição com aquele semblante de quem já viu muita coisa nesta vida, até o derrube das torres gémeas, e finalmente lá arranjou tempo para provar esse prato que muitos consideram iguaria, mas que não deve ser mais do que um peixe regado com vinho. Desconfia: o quê, o peixe salta para a boca, nem precisamos de talheres, não? Mas ao trincar, a mudança de expressão, um segundo, como um filme que passa inteirinho aos seus olhos: ah, meu Deus, era isto.
Anos e anos a ver milhares de portugueses a rumarem em busca das lampreias e eu com as minhas dúvidas e a desconfiar: o povo é ridículo e parolo. Mas a minha história é mesmo esta: passei muitos anos a fugir das tradições populares e outros tantos anos a tentar encontrá-las de novo. A matança do porco, as vindimas, as romarias ou as tascas. Um dia destes retomo as idas a Fátima, para o povo lá ir é porque há boa comida por trás.

A partir de agora é assim: se o povo faz é porque é bom, nem quero discutir mais.

Não me venham com aquelas tretas, ai os cientistas descobriram isto ou agora parece que aquilo faz bem. Eu só quero saber: o que é que o povo diz disso?

Meus caros, a lampreia entrou directamente para a minha magnífica lista de pratos favoritos!

E eu que pensei que já não era assim tão novo para voltar a sentir estes desvarios loucos da paixão gastronómica à primeira trinca.

25
Fev09

A esperteza da lampreia (I)

JP

É extraordinário o conjunto de virtudes e aptidões físicas que os animais desenvolvem para fazer frente aos seus predadores. Alguns apuram o sistema visual, auditivo ou olfactivo, outros conseguem mudar de cor, desenvolvem a velocidade, refinam o veneno ou aprendem a voar. E sabe lá Deus que mais! Mas este maravilhoso mundo natural não pára de nos surpreender com o seu engenho. Veja-se o caso da lampreia que nos últimos milhares de anos pensou de outra forma. Para a lampreia o ideal nem era ser rápida, nem venenosa, nem andar a mudar de aspecto. A lampreia não foi por aí e decidiu optar por outra estratégia, apostando na aparência física. Pois bem, a lampreia pensou, quem é que vai querer morfar um peixe com ares de réptil, com uma textura ligeiramente repugnante e até algo viscosa?

 


Bem, há que lhe dar mérito, não foi má ideia não senhor, apostar no mau aspecto para garantir uma boa distância de segurança em relação aos estômagos deste nosso mundo. Afinal de contas, os coelhos tinham investido num aspecto tão fofinho, tão fofinho, que fizesse qualquer predador pensar, "ai que queridinho, só me apetece fazer-lhe festinhas, não deve ser para comer". Mas a realidade veio demonstrar que não foi uma grande solução.
Neste campo, os cães foram talvez os mais bem sucedidos de todo o nosso ecossistema. Apostaram essencialmente em aptidões não para afastar os seres humanos mas para os auxiliar:  ladrar a desconhecidos e correr atrás de bolas fizeram com que passassem ao lado das panelas. E estou certo que se esta estratégia deixar de funcionar teremos os cães a aprender a lavar carros ou a aspirar a casa.
Voltando à lampreia, a infeliz tinha tido uma excelente ideia não fosse esse enorme acidente biológico chamado Homem. Ainda por cima, o ser humano desenvolveu precisamente as aptidões que menos davam jeito à lampreia: o sentido experimental, uma mente aberta, o gosto por novas experiências, a capacidade de pescar e a comunicação escrita para apontar as receitas gastronómicas.
Ao contrário de outros seres vivos, o Homem não se deixa desanimar só porque o bicho tem um aspecto asqueroso. O Homem pensa: " deixa-me cá ver como é que este ser tão nojento se dá fervidinho e com um molhinho à maneira"
O Homem tem a ideia de que todas as espécies foram criadas para ocupar um lugar específico na sua cadeia alimentar. Ao ser humano cabe a tarefa de descobrir qual esse lugar: nos assados, nos guisados, nos cozidos, nos frios, nas entradas ou nas sobremesas?
Daí, o grande azar da lampreia, que não conseguiu passar despercebida à atenção humana e acabou por ser integrada nas tradições gastronómicas. E para castigo, por se ter armado em espertinha, foi condenada à maldição suprema, o verdadeiro terror de qualquer ser vivo: atracção principal de festivais gastronómicos.