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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

21
Mai09

Ferrugem - Olhar de um tasqueiro sobre uma cozinha de autor!

JP

No que diz respeito a nomes dos restaurantes vivemos uma época de crise. Uma realidade só comparável aos nomes que se podem dar a um ser humano no Brasil. Pelo nome, é quase impossível identificar o restaurante que vamos encontrar. Foi o que me aconteceu no «Ferrugem». Sejamos honestos, nomes a sério são «casa do bacalhau», «barriga farta» ou «chafariz do vinho». Percebe-se bem ao que vamos e o estado em que regressaremos.
Quando chegamos ao Ferrugem descobrimos um espaço de autor, onde a criatividade tem por base a tradição portuguesa. Quem diria?

Como tasqueiro que sou, fico nervoso num espaço destes: as doses, meu Deus, as doses.
A nouvelle cuisine teve um impacto catastrófico na cozinha moderna. As travessas praticamente desapareceram de qualquer restaurante com pretensões artísticas. Os pratos são apresentados como obras acabadas. O cliente já não intervém na obra final. Muitas vezes penso: "se fosse eu a criar esta obra, afinfava-lhe com mais cinco pedaços, no mínimo, aqui nesta borda e mais seis batatinhas, encavalitadas umas nas outras, aqui deste lado". Pode ser o meu gosto kitsh. O prato parece-me sempre demasiado vazio.

Mas por outro lado, o autor de cozinha não gosta que o cliente altere a sua criação. Algo comparável a numa exposição de pintura colocarem, ao lado de cada quadro, várias latas de tinta e uns pincéis, para os visitantes darem uma ou duas demãos onde entendessem (ora aí está uma grande ideia para uma exposição de arte contemporânea).
Outra característica da cozinha de autor é descrever a receita no nome do prato. Por exemplo, «lascas de salmão fumado sobre andor de legumes salteados e compota agridoce de tomate-cereja». Isto é um corte radical com a cozinha tradicional. "Traga-me um bacalhau recheado" e não "queria um bacalhau soterrado por fatias voluptuosas de cebola alouradas na sertã, em orgias com crocantes fatias de batata dourada, embebido com molho para lambuzar".

No Ferrugem propõe-se três momentos ao cliente e não o conceito tradicional de encarar como opcional entrada, prato e sobremesa. E os três momentos completam-se e completam o visitante. A surpresa nas entradas foi o «pato com pinhões e uvas passas em massa tenra, sorvete de tangerina e geleia de vinagre balsâmico». Ainda bem que o restaurante tem página web ou eu não conseguia sair do "pato espectacular, com uns pinhões e metes à boca com o gelado e, pá, é fabuloso."
Talvez pela minha cara de assustado o homem recomendou o «duo selvagem de robalo e boletos em arroz malandro». Primeiro, não vem no prato, o que agrada a um tasqueiro como eu e, depois, porque é o melhor da nossa cozinha tradicional reinventado com inteligência. Pareceu-me um duo mágico, com química, feitos um para o outro. Como um Kenny Rogers e uma Sheena Easton ou o Elton John com o George Michael.
No último momento, surpreendi-me com «pêra rocha do oeste em redução de vinho do porto com tarte de queijo». Reparem que, para não haver dúvidas, o nome diz de onde veio a pêra. Eu até sugeria «pêra rocha do oeste, e não aquela foleira que vem de Espanha, em redução...».
O espaço é muito agradável e os responsáveis simpáticos e competentes. Obrigatório, para quem acha que ainda pode ser surpreendido com a gastronomia nacional.

26
Set08

Um Polvo extraterrestre no Jardim

José Manuel

Como combinado, lá aparecemos às oito e meia em frente ao cemitério (que raio de sítio para se marcar um encontro para uma tainada !!).

Às nove menos vinte, já estava a ligar para o Eurico, que ainda não tinha aparecido.
-- Como é pá?
Responde ele do outro lado
-- Onde estás? Não te estou a ver?
-- Em frente ao cemitério…
-- Eh pá… estou no sítio errado…
Como de costume, no sítio errado, à hora errada…

Concordámos em nos encontrar no restaurante, cujo nome é “Restaurante Jardim”, e que segundo indicação do Eurico “fica algures na E. N. 14, quem vai para Famalicão do lado direito, antes da fábrica da Primor.”

Lá fomos.
De facto é fácil descobrir o dito que fica pouco antes de chegar a Famalicão, mesmo à face da E.N. 14.

O interior é acolhedor, com uma apresentação cuidada QB e as pessoas são de muito bom trato. Logo aí marcou pontos.
Em relação á lista, admito que nem a li, pois fomos lá com um objectivo muito claro, comer polvo.

Não perdemos muito tempo com a escolha (já estava feita), pelo que discorremos então sobre que vinho pedir para acompanhar o pobre molusco que por esta altura já tostava na chapa. Após demorada e árdua argumentação (cujos pormenores vos poupo, até porque alguns dos argumentos ali utilizados foram no mínimo bizarros), optámos por um alentejano tinto de boa casta, um (por acaso foram 3) Herdade das Pias.
Um vinho púrpura intenso, macio ao toque, abriu-se rapidamente, revelando um aroma abaunilhado e elegante, com taninos doces, (até pareço um enólogo!!), resumindo o vinho era mesmo, mas mesmo bom.

Das entradas ressalto já aqui o pão com manteiga de alho com ervas e o magnífico chouriço.

Em relação ao molusco esbracejante, digo-vos com franqueza, nunca tal houvera visto!
Do pouco que percebo de culinária (na vertente de produção, porque na vertente do consumo já tenho pelo menos dois MBA), não consegui distinguir que raio fizeram ao bicho.
Apresentou-se-nos em duas fartas travessas, com batata cozida no acompanhamento, envolvido num molho de cor alaranjada, com um toque subtil mas incisivo a picante.
O bicho era tenro, corpulento, em pedaços abertos tipo filete, e não vos sei dizer se frito se assado, a minha teoria é que se calhar era um pouco dos dois, mas isso sou eu a conjecturar!

Uma coisa vos garanto, é muito bom e vale bem a visita.
Para finalizar tão deleitoso repasto, nada como uma sobremesa a condizer. Alguns optaram pelo pudim abade de priscos, que estava razoável, outros pelo convencional bolo de bolacha, cujo aspecto era muito bom.

A relação qualidade preço pode ser melhorada, depende mais do que beberem do que, do que comerem, “perceberem”?