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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

03
Jun09

Empadinha de frango: está-me no sangue!

JP

Eu acho que todos os seres humanos se dividem essencialmente em dois géneros: os que preferem doces e os que não resistem ao sal. Como é que se descobre que tipo de ser humano temos à frente? Quando o observamos encostado a um balcão de uma pastelaria: uns pedem sistematicamente panikes de ovo, éclairs, bolas de berlim, mil-folhas ou pastéis de nata e os restantes desejam lanches, empadinhas de frango, bolos de carne ou pastéis de chaves. Eu pertenço claramente a este último grupo.

Neste mundo bipartido faz-me muita confusão as guerras e os conflitos étnicos a que temos assistido. Eu quero lá saber se a minha terra vai ser ocupada por muçulmanos, fascistas, benfiquistas ou espanhóis. Eu quero é saber de que lado estão os fanáticos por doces. Para saber onde tenho de ir colocar as bombas.
O grande drama dos amantes de salgados é que somos discriminados em quase todas as pastelarias deste país. Somos cidadãos de segunda, como se a nossa inclinação fosse contra-natura. Um sistema de apartheid, em que os amantes de doces têm direito a prateleiras vistosas e amplas, enquanto as massas com carne ficam remetidas para espaços acanhados. É frequente vermos por traz dos vidros taças carregadas de doçarias e a um canto dois raquíticos e secos pastéis de carne. Por vezes, já encostados às latas de sumol. Ainda por cima, sem qualquer respeito pela dignidade dos salgados, chegam-nos às mãos sujos com açúcar branco ou cremes amarelados.
Mas se bem conheço os meus irmãos, este enorme grupo de vários milhões de seres humanos a que pertenço, não posso acreditar na mudança. Nós, os apaixonados por salgados, estamos acomodados e não temos coragem para nos erguer contra este sistema opressor. Eu sou o primeiro a acusar a nossa raça de conformismo e cobardia. Enquanto isso, os dos doces vivem num mundo de privilégios, onde o acesso aos seus prazeres é facilitado e não têm de vasculhar prateleiras inteiras para encontrar um pastel decente.
E esta vergonha que sinto faz-me desejar que se um dia tiver filhos, eles pertençam à raça dos que preferem doces.

Mas há excepções. Há uns anos descobri a "Flor da Venezuela", em Braga. Cedo se tornou num espaço de tolerância e convívio são entre os dos doces e nós. Uma pastelaria para os abolicionistas.  Apaixonei-me pelas empadinhas de frango e diariamente lanchava duas. Uma massa folhada macia a cobrir pedaços de frango embebidos no molho em que foram estufados. Com as mudanças de casa e de emprego acabei por lhe perder o hábito. Os anos passaram e a pressão social leva-nos a tentar a aceitação. Dei por mim a tentar negar as minhas raízes, a comer natas e mil-folhas para agradar aos dos doces. Mas não se pode negar a nossa natureza e quem realmente somos. Eu vivo para o sal, eu amo o sal, eu nunca serei dos doces. Nunca!
Os desejos foram aumentando nos últimos anos e já estava farto de ser ludibriado com pastéis de carne e empadinhas falsas (incrível como o governo não se preocupa com este drama e prefere andar a combater residuais falsificações de notas). Voltei à "Flor da Venezuela" e reencontrei as empadinhas tal como as tinha deixado. Deliciosas! Os bolos de carne melhoraram bastante e a oferta criativa na nossa área aumentou bastante.
Um conselho: uma empadinha não deve ser saboreada à saída do forno.  Sou guloso mas estou a aprender a controlar-me. E vale a pena a espera de alguns minutos.

28
Mai09

“Perca” de tempo

Paulo

Às vezes sinto que há restaurantes que têm vergonha em apresentar pratos demasiado simples, isto é, a carne ou o peixe em modos mais básicos. Acham que se apresentarem, por exemplo, uma posta de peixe simplesmente grelhada ou frita vai dar mau nome à casa e vão ser considerados restaurantes sem classe. Vai daí, decidem inventar. Mas, inventar no mau sentido, porque, como é óbvio, também na gastronomia a invenção (ou seja: criatividade, inovação, introdução de novos elementos e combinações, dar novos mundos ao mundo) é sinónimo de evolução.
Há pouco tempo tive uma experiência nesse sentido, o que até pode ter sido uma infeliz excepção no restaurante em causa, que frequentei pela primeira vez, o Cozinha da Sé, em Braga, que até tem vários pontos a seu favor, como ser um espaço bastante agradável e possuir funcionários muitíssimo simpáticos e atenciosos.
Na apresentação oral dos pratos, perdi-me facilmente no meio de toda aquela descrição altamente pormenorizada, e por isso consegui apenas reter o essencial dos dois primeiros pratos sugeridos, perca do Nilo e bacalhau, e já nem sequer consegui apanhar os restantes por estar a tentar visualizar o que me era dito. Assim, pedi a perca do Nilo, um peixe que até aprecio bastante. Com a minha concentração a derivar para as diversas entradas na mesa, deixei de tentar compreender a forma como me seria apresentado o peixe. Até porque as diversas entradas estavam bastante boas e o João Pires branco que se tinha juntado a nós ajudava a distrair.
Veio, então, a perca, escondida sobre uma camada de queijo e ketchup, com uns camarõezinhos por cima (acompanhada por umas batatas com a pele assadas em folha de alumínio, que parece que eram para ser panadas, mas depois o cozinheiro apeteceu-lhe antes que fossem assim). No início dei o benefício da dúvida porque pareceu-me algo exótico no bom sentido, mas ao fim de algumas garfadas cheguei à conclusão óbvia e indisfarçável: aquilo sabia como uma espécie de pizza de perca. O intenso sabor do queijo e do ketchup, ali presentes em grande quantidade, davam a clara sensação de que estava a comer uma pizza, que em vez de ter uma base feita de pão tinha uma feita de perca. Pergunto-me por que raio se vai buscar uma perca ao Nilo para depois a cobrir de queijo e ketchup? O sabor do peixe passava completamente despercebido, para o efeito podia estar ali, sem se notar a diferença, uma taínha do Douro ou um filete de pescada congelado, não era preciso estragar um bom peixe.
O que estará aí na calha? Deitar molho de chocolate por cima de bacalhau? Barrar robalo com compota de framboesa? Mergulhar tamboril em mostarda e maionese? Bem, é melhor eu não estar aqui a dar ideias, não vá algum génio lembrar-se mesmo de pôr alguma em prática.
Em termos gastronómicos, esta experiência foi uma perca de tempo, perdão, uma perda de tempo, mas para mim, não para o cozinheiro que deve ter gasto apenas alguns segundos na criação de tão engenhoso prato.
Valeu pelo resto e, principalmente, pela excelente companhia.

24
Mar09

Confissões de um tarado: A codorniz deixa-me tolo

JP

Durante anos escondi esta fantasia com medo do preconceito. Mas nos últimos dias tornou-se insuportável conviver com esta presença tentadora. Desde que provei duas codornizes bem estaladiças e escarrapachadas no Santa Luzia, que a minha vida se tornou um inferno. Eu só penso em voltar àquele antro e entregar-me a mais uma ou duas horas de volúpia.
Acordo, e logo aquela imagem tentadora da codorniz estendida, provocadora, no pires. Esfrego os olhos e meto-me no banho. Afinal de contas, caraças, sou um homem de família, não me posso desgraçar.
Mas porque é que eu não sou normal e não me contento logo de manhã com um sumo de laranja e umas torradas? Eu sou um monstro.
Atiro-me a um iogurte de pedaços, um café e outro café e corro para o meu 190, procurando despistar a imagem sedutora da codorniz frita com duas singelas azeitonas, a oferecer-se só para mim.

Em casa já é difícil disfarçar as discussões, o desinteresse, as saídas extemporâneas a meio da noite e ela apenas não percebe que eu não consigo deixar de pensar em codornizes.
Não há trabalho, trânsito, vida familiar, problemas que me devolvam à vidinha normal que levava até há uma semana. Já não há lanche nem ceia que me satisfaça.
Pronto, assumi, que se lixe a descriminação: Eu sou tarado por codornizes.
Antes conseguia controlar o desejo. Só esporadicamente, quando me cruzava com alguma codorniz por essas mesas de Portugal, é que sentia crescer em mim algum descontrolo. Nada que não fosse amainando com o tempo e as distracções do dia-a-dia.
Mas tudo mudou quando descobri que um grande amigo, aqui do Chispes, também partilha esta minha fantasia e que temos bem perto de casa um local dedicado ao prazer com codornizes.
Normalmente, os tarados por codornizes passam despercebidos e conseguem controlar bem as suas emoções. São dissimulados e calculistas. Muitos pensam que é fácil apanhá-los com o frango assado ou, pelo menos, com o frango da guia. Mas o tarado em codorniz desenvolveu ao longo dos anos muitas estratégias para ocultar os seus desejos e é precisamente à frente de um frango que ele mais se camufla de cidadão normal, de um comensal como outro qualquer.
Mas só um tarado por codorniz para reconhecer outro tarado por codorniz.
A semana passada, numa das já nossas ritualizadas ceias no Santa Luzia, em Braga, em torno de umas moelinhas, picadinho de vaca e o que mais aparecesse, eis que ouvimos a palavra codornizes na lista oralizada exposta pelo empregado. Os olhos do meu amigo (o Paulo - sim, chegou a altura de te assumires) imobilizaram-se e percebi-lhe a tremideira nas mãos e o brilho do primeiro suor a aparecer na testa. Os nossos olhares cruzaram-se: "o quê, também tu?".
Julgo que este processo de reconhecimento entre tarados por codornizes deve ser algo semelhante ao que ocorre entre pedófilos, necrófilos ou coprófilos. Já que não andamos por aí com T'shirts a anunciar "Sou tolo por codornizes", nem colocamos no perfil do facebook, temos de estar atentos aos pequenos sinais.
Por isso, assumo: Sim, eu tenho um problema com codornizes e não... não preciso de ajuda! Preciso de mais codornizes estaladiças e suculentas para ver se isto me passa ou, pelo menos, se atenua!

P.S. - Aqui fica o meu apelo a todos aqueles que sofrem do mesmo problema: assumam o vosso desejo pelas codornizes! Exponham-se no Hi5, no messenger, no ambiente de trabalho, no carro e no telemóvel. Temos de acabar com a discriminação. Gostar de codornizes não é uma forma de pedofilia gastronómica. As codornizes que eu como são aves adultas, maduras e responsáveis.

16
Fev09

O dia do Valentim

Marco

O dia dos namorados é literalmente uma data comercial, encaixada entre o Natal e a Páscoa e que serve de motivo para nos fazer sentir mal por não ter comprado uma prenda ou qualquer outro acessório para o nosso apêndice… também apelidado de dia de S. Valentim

E se o cariz comercial dado “ao amor” revolta qualquer apaixonado, em todo o caso é uma excelente desculpa para experimentar um repasto topo de gama… sim, porque nós acima de tudo gostamos é de comer bem… quer seja em tascas, pic nics ou restaurantes Creme de la Creme.

Esclarecida esta posição de vida em que se privilegia o prazer sensorial em detrimento do prazer comercial, decidi assinalar a data no restaurante Pedra Cavalgada em Braga. Já toda a gente sabe que marcar um restaurante nesta data é difícil, mas para além do telefone, ter que efectivar a marcação por email, foi de facto uma novidade para mim. Ultrapassadas estas dificuldades chegamos ao sítio, casa antiga de arquitectura rural minhota, parque de estacionamento privado, recepção com espumante e atendimento curioso.

Em termos gastronómicos, nada a apontar, Empada de Caça, Camarões ao Alho, Polvo Assado e um Taquinho de Lombo de Novilho tudo delicioso e muito bem confeccionado, o serviço é que merece algumas críticas da minha parte. O facto de não nos deixarem uma garrafa na mesa implica que exista um empregado em permanente atenção para que nunca falte o néctar, facto que não ocorreu o que implicou algumas alturas mais secas durante todo o repasto. Embora a decoração da casa seja a condizer com a idade da mesma, para o jantar em questão faltou alguma música ambiente para criar uma atmosfera mais adequada, nada que não se ultrapassasse com uma boa conversa.

O resultado final é positivo e vale pela boa comida, neste que foi o primeiro dia dos namorados em que de facto fui já na condição de casado!

10
Fev09

Peixe? Galo? Uma boa surpresa no Expositor

Convidado

Era uma vez os três…os três mosqueteiros (eu e os meus tios Manuel e São, de Gouvinhas - Sabrosa) mais o D’Artagnan João Paulo, que decidiram entrar em acção no Restaurante Expositor, em Braga, para defrontar um duelo gastronómico. Espadas deixadas à porta, frente à imagem do “Cardeal Migaitas”, sim porque se fosse o Richelieu nunca baixaríamos as armas, cumprimentos feitos ao Sr. Presidente da Câmara Municipal de Braga, presença habitual no espaço de culto Migaitas, apaziguamos os nossos estômagos com uns bons petiscos de entrada, desde requeijão com doce de abóbora, alheira salteada com grelos e um folhado de galinha com legumes. Como o dia de quinta-feira se avizinhava árduo, decidimos “Um por todos e todos por um” escolher, como primeiro prato, peixe-galo grelhado com batatinha a murro e grelos, seguindo-se a posta com arroz e mais uma travessa de grelos. Escoltando tal repasto, um bom Douro tinto ‘Quinta de Vale Abraão’.

Tudo estava delicioso, como é apanágio da casa, mas o mais surpreendente foi o peixe-galo grelhado, dotado de uma carne branca, consistente e saborosa. O peixe-galo deve o seu nome a um conjunto de barbatanas que fazem lembrar a crista do galináceo, mas os franceses designam-no por "Saint-Pierre", em virtude das duas manchas negras que possui (uma de cada lado do corpo). De facto, reza a lenda que S. Pedro terá encontrado uma moeda de ouro na boca do peixe e, ao retirá-la, terá deixado impressas as marcas das suas mãos no habitante marinho...

Embora não deva muito à beleza, porque possui uma cabeça grande e uma enorme boca de mandíbula inferior proeminente, o peixe-galo é considerado um entre os melhores peixes de mar. Como diz o ditado “quem vê caras, não vê corações”. O que não percebo é porque é que uma boca grande no oceano é sinónimo de fealdade e no mundo térreo é digno de adoração e desejo; ainda bem que a Angelina Jolie não vive no fundo do mar.

Não houve tempo para sobremesas porque outras aventuras e trabalhos se nos aguardavam. Mas vamos continuar a cantar de galo por esse país fora!

A. Corunha

10
Jan09

Neve em Braga: Direito de Resposta

Paulo

A memorável manhã de 9 de Janeiro de 2009, em que Braga se viu inesperadamente coberta de neve, assim como todo o Norte de Portugal, fez sorrir a criança que ainda existe em mim. Porém, o facto de ainda possuir esse espírito de criança, não significa que não me tenha tornado adulto gastronomicamente há já muitos anos. Ao contrário do JP, eu acho que uma faceta não exclui necessariamente a outra, mesmo do ponto de vista gastronómico todos nós mantemos sempre uma criança dentro de nós, por isso é que continuamos sempre a gostar de batatas fritas ou dizemos que a sopa da nossa mãezinha é sempre a melhor de todas.

Assim, é possível ficar maravilhado com a neve e sair entusiasmado para a rua e simultaneamente pensar como seria bom a seguir ir para a lareira e comer presunto acompanhado de vinho tinto; fazer bonecos de neve e ver que o resultado final se assemelha a um leitãozinho e que até o estalar da neve nas nossas mãos ou debaixo dos nossos pés nos traz à memória o estalar da pele crocante desse fantástico manjar; tirar fotos do momento histórico para mais tarde partilhá-las com amigos à volta de um delicioso bacalhau com broa e de umas garrafas de Crasto Branco e Quinta da Trapa Roriz Tinto do Douro.

09
Jan09

Neve em Braga: felizmente desapareceu a criança que havia em mim

JP

Acordei estremunhado com o aviso da mensagem do Paulo a dizer que nevava desalmadamente em Braga. A neve tem este efeito mágico e lá fiz uso das poucas forças que o wiskie de ontem à noite não conseguiu derrubar. Sentei-me de cara colada no vidro a olhar os farrapos de neve que na altura se dissipavam ao tocar no chão. Pouco depois, o Paulo entusiasmado ligou: "vai ver agora". A neve estava a pegar e a cobrir tudo à nossa volta.

Desejei umas torradas e um copo de leite com cacau, que chegou especialmente da Bélgica. Mas não havia tempo a perder e acabei por me contentar com um iogurte de pedaços de morango... ou seria ananás.... ou talvez cereais.

 

 

 

 

 

As duas primeiras imagens foram tiradas de minha casa, a última foi-me enviada pelo Paulo. O homem ainda tem o espírito de criança, deu-se ao trabalho de sair de casa para passear na neve.

Os especialistas afirmam que não é fácil sinalizar a passagem dos seres humanos pelas diversas etapas - infância, adolescência ou idade adulta. Sim, não será. Mas fica aqui uma ajuda. Quando um jovem vê neve e em vez de desejar correr, saltar, criar bonecos e pirilaus, atirar pedaços rechonchudos e brancos à cabeça dos amigos, começa a desejar uma lareira com uma manta nos pés, um copo de vinho tinto numa mão e uma tábua de queijos à mercê da outra mão, então, meus caros... sejam bem-vindos à idade adulta.

E é nestes momentos que tenho mais esperança e  fé na vida e penso, adeus infância, adolescência ou juventude. Meu deus, que nunca mais voltem! Seria a maior das desgraças. Custou-me tanto chegar aqui, a este maravilhoso mundo de cozidos à portuguesa, sopinhas caseiras, papas de sarrabulho, douros tintos e brancos, bacalhaus cozidos e assados e polvos... oh santíssimo, os polvos.

Todos os adultos sabem, embora não o queiram afirmar em voz alta: ser criança é horrível! Há alguma décadas atrás, havia o cuidado por parte dos pais de iniciarem os seus descendentes nos prazeres da bebida e da comida por volta dos 10 anos. Mas a actual sociedade ocidental tem vindo a enfernizar cada vez mais a vida dos petizes com hábitos de saúde que apenas servem para sustentar grandes negócios. E os desgraçados estão cada vez mais gordos e insuportáveis. Num mundo de filetes, batatas fritas, sumos e hamburguers eu também seria dificíl de aturar.

Todas as crianças sonham em fazer essa passagem para a idade adulta, que sempre foi associada à iniciação sexual. Mas todos nós sabemos que o acto sexual não é a passagem. Alguns dos meus amigos ainda hoje tentam desalmadamente passar para a idade adulta pelo acto sexual... todos os dias. Mas sem sucesso. A verdade que ninguém pode negar é que  muitos chegam ao mundo dos adultos com uma estrutura mental de criança. E tudo fica mais confuso e stressante. Não é possível lidar com casamento, filhos, problemas no trabalho, crise, vizinhos, condomínios, filas de trânsito, empréstimos bancários, centros comerciais sem uma boa alimentação e sem uns bons copos de vinho.

Meus caros, a passagem é gastronómica.

Um dia destes veremos as crianças a gabarem-se entre si: "eu já gosto de cozido à portuguesa". "O quê? não acredito, tás-te a armar."

21
Dez08

Elogio fúnebre a um cabrito

Paulo

O dia em que veio ao mundo ainda hoje é recordado. O dia em que nasceu o cabritinho mais bonito que alguma vez se viu. Rapidamente se espalhou pelos prados verdejantes e serras cercanias a boa-nova do cabritinho mais adorável, mais gracioso, mais delicado e enternecedor de sempre. Era um regalo ficar simplesmente a olhar para ele. Era motivo de inveja e cobiça. A todos impressionava com o seu corpo roliço, a sua pele sedosa, o seu porte altivo e atlético, o seu balido musical, os seus olhos doces e olhar enfeitiçante.
Quis o destino que acabasse na grande cidade, assado às mãos da Dona Elisabete, no “Sabores do Barroso”. Mesmo na travessa, à nossa mesa, o seu legado permaneceu, a sua singularidade foi perpetuada. Foi o melhor cabrito que comi em toda a minha vida! O mais saboroso de sempre! Com a carne mais tenra e suculenta de todos os tempos! Com a pele mais crocante de que há memória! E todos os convivas presentes no elogio fúnebre daquele cabrito comungaram deste sentimento. O melhor cabrito que jamais comeram!
Ficará na nossa memória para sempre, este cabrito que será recordado eternamente nos prados verdejantes que o viram nascer e ficar no “ponto”…

18
Dez08

Jantares de Natal: uma questão de (santa) gula

Paulo

Se houve algo que proliferou nos últimos anos foram os jantares de Natal. Aliás, este facto só demonstra a relação de profundo amor e devoção que os portugueses têm com a gastronomia. Se há coisa que gostamos é de conviver à volta da mesa e qualquer pretexto é bom para que isso aconteça.
Por isso, nada melhor do que institucionalizar algo como o “jantar de Natal”. A desculpa não deixa de ser boa, antes de mais o que se pretende é que numa época de confraternização e em que a relação entre os seres humanos deve ser mais estreita e em que devem vir ao de cima os valores fundamentais, como a amizade, nos procuremos reunir com todas as pessoas de quem mais gostamos.
Como o jantar de Natal de 24 de Dezembro deve ser dedicado à família – os familiares, em especial os nossos pais, nunca aceitariam de bom grado que lhes disséssemos “Olhem, este Natal, não vou consoar com vocês, vou antes a casa de uns amigos” – alguém se lembrou, em boa hora, de reproduzir essa refeição especial, mas numa data anterior.
Mas, claro, tudo não passa de uma desculpa, de um pretexto, para comer (muito) e beber (muito). Porém, o que começou por ser apenas um jantar de Natal com os amigos mais próximos, de repente começou a multiplicar-se e deparamo-nos, hoje em dia, com essa situação de existir também o jantar de natal

do local de trabalho, do grupo de futebol, dos amigos assim-assim, dos amigos imaginários, do ginásio, dos amigos da(o) nossa(o) parceira(o), do pessoal que frequenta o mesmo café, dos que têm um carro da mesma marca, dos fãs da série de TV preferida, do clube de fãs do grupo de música preferido, do fórum ou sítio de convívio da Internet que frequentamos, do grupo de vídeos para a Internet, do grupo de teatro do bairro, dos que têm o nome começado pela mesma letra, dos que acham que Sá Carneiro foi assassinado, dos que acham que o Carlos Cruz apenas gosta de miúdos de frango, dos que acham que Cristo não nasceu em Dezembro…

Aliás, o nosso estatuto social está neste momento directamente relacionado com o número de jantares de Natal em que participámos, sendo que quem participa em menos de 10 confraternizações deste tipo não é ninguém em termos sociais.
Um dos problemas óbvios desta proliferação de jantares é a limitação de datas, não faz sentido um jantar destes depois do Natal nem em Novembro; por isso, depois de esgotada também a alternativa do almoço de natal, começam a surgir agora as combinações do

pequeno-almoço de natal, do lanche de natal ou simplesmente da cerveja de natal.

Não vai demorar muito até que as pessoas mais solicitadas comecem a enviar alguém em sua representação ou a marcar diversas destas confraternizações para o mesmo local para depois ir saltando de mesa em mesa.
No fundo, este fenómeno gastronómico mais não é que o resultado do pecado capital mais comum entre os portugueses, o da gula, que nesta quadra natalícia, de forte carácter religioso, pode ser apropriadamente chamado de santa gula, pois acaba por ser desculpável e até abençoado.
Esta última consideração tem como única finalidade fazer o trocadilho necessário para chegar a um dos restaurantes em que aconteceu um dos jantares de Natal em que participei: o Santa Gula, em Braga. Não foi o jantar de Natal do Chispes e Couratos (até porque, para nós, jantar de Natal é sempre que a mulher ou o homem quiser), mas bem que podia ser já que lá estavam presentes, por uma ou outra razão, praticamente todos os membros participantes na nossa “confraria”.
O Santa Gula é um espaço bastante agradável e acolhedor, onde se é servido com simpatia, privilegiando a qualidade da refeição e não tanto a quantidade. Por entre conversas sobre gastronomia (olha a surpresa!) nas suas vertentes práticas e teóricas (não estivéssemos ainda no rescaldo da presença de um membro dos Chispes nas “Conversas do Tanque”), degustamos diversas entradas – merece especial destaque uma fabulosa açorda de marisco, mas também devo realçar a alheira e o folhado de carne – e dois pratos principais – um cabrito assado e um bacalhau com broa delicioso. Tudo sempre acompanhado por um vinho que foi uma agradável descoberta, o Paulo Laureano clássico, de terras alentejanas.

P.S. - A questão das prendas que são trocadas em muitos destes jantares deveria passar a ser mais bem regulamentada. Se é verdade que são estipulados limites monetários para a compra das ofertas, não me parece aceitável que quando a margem de manobra é maior uns gastem o máximo permitido enquanto outros procuram ficar pelo valor mínimo possível; não é justo alguém dar uma garrafa de whisky ou um filme em dvd, por exemplo, e receber em troca uma botija de aquecimento para os pés… Peço a atenção do Governo para esta situação.

03
Nov08

Abertura da época das Papas de Sarrabulho

Paulo

No passado 1 de Novembro, celebrou-se um dia bastante importante. Um daqueles dias em que os homens vestem o seu melhor fato, em que as senhoras vão ao cabeleireiro fazer o melhor penteado que o seu cabelo permite, em que as famílias e os amigos se reúnem.
Como já perceberam, refiro-me ao dia da abertura oficial da época das Papas de Sarrabulho, dia em que se produzem autênticas romarias aos restaurantes minhotos para degustar este prato típico após alguns meses de ausência. Qual Ferrero Rocher da gastronomia, assim que é chegada a altura do frio eis que as Papas de Sarrabulho voltam a surgir à mesa acompanhadas dos sempre inseparáveis Rojões (e este ano o frio fez mesmo questão que nos lembrássemos que a época das Papas estava aí).
Cumprindo o ritual, também eu me dirigi, com amigos, até um restaurante de Braga para matar as saudades de tão fabuloso prato, um dos expoentes máximos da gastronomia minhota e portuguesa. O restaurante privilegiado foi o Túnel, um daqueles restaurantes anónimos, de aspecto simples, óptimo na relação preço/qualidade e onde somos tratados pelo nome. As Papas estavam a um bom nível e, escusado é dizer, a primeira vez é sempre especial.