Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

19
Out09

Adão e Eva: como se fosse sempre a segunda vez

JP

Escrever este texto, agora, sobre o Adão e Eva desperta-me um leve travo a injustiça. Ocorre-me o prémio de carreira que a Academia de Hollywood atribuiu este ano a Jerry Lewis. Uma carreira de algumas obras maiores, que só mereceram atenção pelo seu conjunto, quando o homem já fez o check-in para a última viagem. Provavelmente, fizeram-no pelo medo de serem acusados de total indiferença pelo artista. Os prémios carreira não me convencem, são uma pobre consolação. Como se nenhum dos trabalhos tivesse realmente valor, mas somando cinco minutos aqui, dois minutos acolá, um cenário neste e uma ideia naquele, olha, até dá um bom filme.
O Adão e Eva teve um papel decisivo na história dos chispes e, bem antes disso, constituía já um espaço fundamental no meu roteiro de devoção gastronómica.
Que fique claro: este não é um prémio carreira nem um prémio de consolação nem, muito menos, um prémio injusto hoje para compensar a injustiça de ontem. Como dar o prémio de melhor realizador a Scorcese, depois de vinte anos de vários filmes incontornáveis na história, com um filme apenas bom. Ou o prémio da Fifa em 2001 para o Figo.
Como explicar este afastamento do blog do Adão e Eva?
Calhou. Nenhum outro verbo diz tão bem a razão de ser de tantas injustiças neste mundo. Calhou. E calhou mesmo. Algumas circunstâncias mantiveram-nos afastados no último ano deste restaurante. Calhou. E acabamos por nos esquecer de dizer ao pessoal que nos lê que o arroz de pato do Adão e Eva, por acaso, é o melhor do mundo. Ups, desculpem lá o esquecimento. Olhem só a nossa cabeça. Sim, o arroz de pato do Adão e Eva é o melhor arroz de pato do mundo.

Ir ao Adão e Eva pela inumerável vez é revisitar a minha eterna segunda vez. Sim, não há nada como a segunda vez; a melhor vez de todas é a segunda vez. É quando voltamos para repetir, com as sensações da primeira vez ainda a esparramarem-se sem pudor na nossa memória. É quando voltamos à procura de todas as nuances degustativas com que fomos surpreendidos à primeira vez; voltamos com o medo de que as circunstâncias que permitiram aquele pato tivessem sido demasiado frágeis e casuais que possam não se repetir. O pato a destilar a intensidade do seu estufado, o arroz escuro, que se lambuzou desavergohadamente num refugado bem puxado e o queijo, um derrame intenso de queijo que cobre e oculta por completo o arroz. A textura e a elaborada engenharia de distribuição dos alimentos por camadas. Sim, e é nesse momento que a segunda vez se afirma como a mais sublime. É quando o prazer se consuma ao nível das nossas expectativas.
Dá vontade de rir na cara de todos os cínicos que andam por aí a alardear que os prazeres não se repetem, que os momentos são únicos. Tretas. Ide para o raio que vos parta. A intensidade do prazer a comer o arroz de pato no Adão e Eva repete-se e torna a repetir-se (quase sempre). E há que dizer que é um arroz de pato que guarda ainda algumas cartadas para jogar, não vá aparecer algum arroz de pato por aí que desafie o título: as rodelas de salpicão ainda não vêm tostadas no forno; o bacon ainda não foi convocado; e até hoje nunca foi devidamente estudado o acrescento dos pinhões à fórmula original.
O Adão e Eva infelizmente não é um espaço intimista, ou no mínimo rústico, que dê a dignidade merecida à excelência de alguns dos seus pratos. É um espaço amplo em forma de «L», com mesas grandes, para eventos. Temos a sensação de uma cozinha caseira fora do seu habitat natural. Como vermos um coelho longe dos montes a fazer de animal de estimação.

Recomendo a perna mais pequena do «L», sempre se fica mais aconchegado.

Os chispes finalmente deram ao Adão e Eva o destaque que merecia e decidimos fazer o lançamento da candidatura a Gurão de 2010 (cargo máximo na hierarquia interna - uma combinação de Guru com Grão-mestre) junto a umas travessas de arroz de pato. Aqui ficam as imagens. 

 

20
Set09

Uma Lady na Tasca

Convidado

Uma tarde de Agosto, calma e serena, lá fui tascar desportivamente com três amigos “machos” para os lados de Barcelos. Tinha sido avisada sobre a dita tasca e do que iríamos lanchar – iscas de bacalhau frito e unhato (com pêlo). O menu não me dissuadiu logo à primeira até porque há uns anos atrás tinha vivido essa experiência única de ir a uma tasca típica, designada Sá Carneiro, em Barcelos, e de outra que confesso não me recordar do nome, mas apenas que tinha fungos verdes nas paredes, que o pica no chão estava fantástico e que alguns dos comensais debatiam-se à procura da crista do galo.
No caminho, ia pensando nas graçolas de um comensal que achava que eu não seria capaz de comer num ambiente demasiado desleixado e só frequentado por homens. A dado momento, interroguei-me se com a idade teria mudado a minha capacidade de adaptação a espaços gastronómicos desprovidos de qualquer requinte e bom gosto. Mesmo que tasca  signifique taberna ou casa de pasto, imunda, reles, valerá o risco se os petiscos forem bons, logo, convenci-me.
Ao entrar na Isaurinha senti-me absorvida pelos cheiros rústicos e pelos olhares de alguns tasqueiros que, porventura, pensaram que talvez tivesse vindo ao engano. Lançei o meu olhar em redor, examinando os pormenores distintivos da pequena casa – mesas simples, com bancos individuais, e junto à janela onde nos sentámos um vaso de flores murchas e  umas cortinas brancas, de renda e tecido barato e tosco. Os petiscos já mencionados apresentaram-se à mesa sem qualquer pretensiosismo, fazendo-se acompanhar de um fraco verde branco da casa, servido em malga, pouco fresco. Feitas as contas, apercebi-me que me faltava 0,20€, pelo que pedi a um dos meus amigos chispesianos para me emprestar e qual o meu espanto quando dois ou três homens à porta da tasca me ofereceram de imediato a moeda em falta. Não aceitei, mas agradeci a gentileza. Que espírito de solidariedade se vive numa tasca!

A idade e a experiência de vida tornam-nos cada vez mais exigentes na degustação de vinhos, petiscos e afins. Continuo, porém, receptiva a novos espaços com ou sem requinte, desde que a comida fale por si. Uma lady sê-lo-á sempre independentemente do sítio onde comer, pois o importante é o saber-estar em qualquer lugar.

A. Corunha

19
Jan09

“Pica” furado

Paulo

Era com enorme expectativa que aguardava a deslocação ao restaurante Pedra Furada, em Barcelos. Isso devia-se ao facto de alguns membros do Chispes (idóneos e de confiança nas matérias gastronómicas) dizerem que era lá que se podia comer “oPica no Chão, superior no top ao do Arafate, em Braga, o melhor que eu já tinha comido.
Por isso, formado um grupo para satisfazer a curiosidade de há muito tempo, enfrentamos a noite mais gélida dos últimos anos para conhecer tão afamado Arroz de Cabidela. Não perdendo tempo com pormenores (sim, o restaurante é agradável, com uma bela sala de estilo rústico, o atendimento é simpático), avance-se para o essencial: o Pica no Chão.
Ora bem, quais os requisitos fundamentais para um Pica como manda a lei? Para começar, um frangalhão caseiro, daqueles que anda de peito feito e crista levantada pelo quintal, a galar as galinhas e a bicar as cabeças dos seus concorrentes mais fracos, todo ele carne e músculo, cujo cantar trovejador é ouvido em toda a redondeza e a qualquer hora. Depois, muito e bom sangue (do mesmo frangalhão, claro). Bastante vinagre. Um arroz cozido “au point” e que fique super-aguado.Pica no Chão do Pedra Furada
Custa ainda a crer, mas o Pedra Furada, desta vez, falhou em praticamente toda a linha, apenas o requisito do arroz foi cumprido. O frango não era caseiro ou então tinha sido cozido durante uma eternidade para castigo do bicho, tal era a moleza da carne, própria de um qualquer exemplar de aviário. Para agravar a situação, o sabor do Pica estava inexplicavelmente amargo. É normal haver queixas de falta ou excesso de vinagre, mas neste Arroz de Cabidela o problema tinha origem numa outra qualquer razão não identificável (sangue? tempero?). Para ajudar à festa, até se deu o misterioso desaparecimento dos “miúdos” do frango. Inicialmente foi-nos assegurado que estavam lá, algures no meio do arroz, era uma questão de procurar bem; posteriormente, quando tardavam em aparecer nos pratos, a explicação, sujeita a averiguação, seria que tinham, talvez, sido esquecidos; mas, no final, a solução para o mistério seria a de que se tinham desintegrado por excesso de cozedura! Volto a remeter para uma de duas hipóteses: castigo por algo que a ave fez em vida ou frango de aviário armado em galo de Pica. Ou então, o fígado já estaria num avançado estado de cirrose e o coração havia sido dado para transplante (já quanto às moelas não consigo encontrar explicação para se terem “derretido”).
Não bastava a desilusão de não só não ter comido o melhor Pica como ter sido um dos mais fracos, ainda por cima pagou-se como se de facto tivéssemos comido o Pica dos Picas (consequência do Pedra Furada ter feito parte do Guia Michelin de 2007? Mesmo que esta experiência em concreto lhe permita constar apenas de um guia de recauchutados?)
É sempre preocupante a variabilidade de um restaurante na qualidade apresentada, se não há mal em oscilar entre o muito bom e o bom, nunca deveria alternar entre o muito bom e o fraco; além de que põe em jogo a credibilidade das fontes que o sugerem. Ao nível do Chispes e Couratos, tão grande desapontamento motivou a imediata suspensão do nosso top Pica no Chão para posterior reavaliação e a adopção de critérios mais rígidos para a entrada de um restaurante num top.
No final, um dos membros que tinha ali comido o seu melhor Arroz de Cabidela, há um ano, dizia, no rescaldo deste “flop”, que não se devia voltar aos locais onde se foi feliz. Não concordo, acho que devemos regressar muitas vezes aonde fomos felizes e, isso sim, nunca voltar aonde não se foi feliz!

11
Jan09

Sinfonias: o que é um restaurante com requinte?

JP

O português tem um sistema bastante simples e funcional de categorizar os restaurantes, que infelizmente os guias turísticos não reproduzem:

- tasca
- restaurante de diárias
- restaurante requintado

Obviamente, todo o português (homem) direcciona os seus desejos para a tasca. Faz parte do imaginário masculino, onde não há tabus e tudo é permitido. Os homens têm fantasias com tascas, em orgias de comida e bebida; falam alto, tocam-se, dizem caralhadas; onde não são censurados pelas suas taras, por mais estranhas que sejam (e há gostos para tudo): chispes, couratos, rabos de bacalhau fritos, a gordura nas bordinhas das costoletas, caracóis, fígados fritos em cebolada, sangue e sabe lá Deus que mais. Numa tasca ninguém nos olha de lado: "este tipo não sabe estar à mesa" ou "este homem é nojento".
Nas tascas toca-se na comida, lambe-se dedos, chupa-se ossos, rilha-se espinhas, esquiça-se dentes, levam-se as unhas até onde nunca nenhum dedo tinha estado antes, libertam-se impurezas, lambuza-se a camisa e acariciam-se pratos com pedaços de pão.  Na tasca, tudo é permitido. Na tasca os homens realizam-se enquanto homens e fazem coisas que nunca têm vontade de experimentar em casa. Por isso, muitas esposas ficam escandalizadas quando descobrem a outra vida que os homens levam nas tascas: "o quê, tu foste comer trinta e sete sardinhinhas fritinhas, tostadinhas, com cabecinhas e tudo, e quando sou eu a fazer dizes que te atacam a figadeira?".

Os homens sabem bem do que estou a falar.
Neste sistema, há que concluir que o restaurante requintado, para a maioria dos homens, constitui um local de constrangimentos, onde é obrigado a representar, a fingir, a reprimir o alterego.
Mas antes de mais, é preciso definir o que estabelece que um determinado restaurante vá para a categoria dos requintados:
- É o local onde se vai essencialmente com a companheira(o);
- Tem música instrumental de fundo;
- Os funcionários usam farda, não apresentando manchas visíveis, o que revela pouca intimidade com os alimentos;

- Só com grande esforço encontramos um vinho por região abaixo dos 12€, mesmo que a carta inclua vila régia, borba, monte velho ou casal garcia;
- A nossa companheira está sempre a dizer: "endireita as costas, estás muito curvado" ou "já sujaste a toalha!" ou "essa é a faca de peixe e não de sobremesa" ou "não pegues com a mão" ou "estás vermelho, já bebeste demais";
- Aparecem termos nas cartas como "caramelizado", "salteado", "laminado", "crocante" (nenhum tasqueiro que se preze diz crocante) ou "confitado";
- O menú apresenta pratos que parecem experiências científicas complexas: "Foie de Tamboril", "Magret de pato", "Risotto de Cogumelo", "chutney de beterraba" ou "Carré de cordeiro". Até temos vergonha de pedir para mudar de canal para o jogo do porto, afinal os gajos devem passar a vida a estudar química ou física quântica e nós para ali a pensar num jogo de bola;
- Robalos, douradas, costoletas de vitela a 35 € o quilo, que nos fazem odiar todos seres vivos deste planeta, em que um pedacinho de qualquer animal vale tanto como 55 quilos de tantas cidadãs por esse país fora; faz-nos acreditar que se deveria investir mais na clonagem para acabar com esta roubalheira;
- Os alimentos constituem motivos decorativos do prato, o cozinheiro armado em designer, como se tudo obedecesse a estritas indicações nutricionais, respeitasse a inviolável pirâmide dos alimentos e as regras internacionais da luta contra obesidade e não simplesmente para insuflar margens de lucro;

  - O cozinheiro é um autor, não é para ser compreendido; quantos de nós não se sentem nestes restaurantes como numa exposição de arte contemporânea: "OK, vou fazer um ar entendido e introspectivo, para não parecer um lorpa".

 

SINFONIAS

Foi neste contexto que, já há algum tempo, conheci o restaurante Sinfonias, numa pequena protuberância junto à estrada Braga-Barcelos. Na altura, fui desconfiado das virtudes do espaço, mas a combinação de requinte com freguesia não urbana chamava-me à atenção.
Gosto quando vou a um restaurante e me trazem um fartote de entradas. Quando não o fazem, obriga-me a fazer contas: "ora 6 € a alheira e 4 € o mexilhão". Entro em conflito com o espaço, percebo que o truque do dono é dizer, "depois não se queixe do preço, foram 19€, mas estava aí tudo muito explicadinho, você é que é um lambão". Não senhor, se as entradas vêm para a mesa percebemos que ninguém é irresponsável de nos trazer 20€ de entradas sem o nosso consentimento. OK, ninguém, não é bem assim! Alguns trazem as entradas ao mesmo tempo que a carta, e ali fico eu a olhar para a alheira, o picadinho de orelha, as moelinhas, os cogumelos, o camarão enquanto mastigo os preços. E é difícil chegar a acordo com a companheira, ela prefere a alheira e dispensa a orelha, eu prefiro a orelha e dispenso os cogumelos e lentamente instala-se um mau ambiente e pensa-se: com os meus amigos não é nada desta treta, na tasca é que eu sou feliz.
Bem, surpresa das surpresas, o Sinfonias disponibiliza logo a abrir um conjunto de entradas sóbrias, mas variadas: pãozinho de alho, azeitonas bem temperadas e patés caseiros. Está bom, sim senhor, já acomoda e tem que se lhe diga. Acrescente-se uma alheira de caça, já por decisão do cliente, e fica-se mais sossegado à espera do prato principal.
O ambiente é sóbrio, nada intimidador, e o pessoal simpático. Como cabeça de cartaz, filetes de robalo com batatas a murro e legumes mediterrâneos, bem salteados. Agradável, por vezes surpreendente no modo como elaboram o design do prato. Mas no final aquele sentimento de o estômago sair bem almofadado. Importante verificar que a factura não ofende o bom senso. É um restaurante com requinte? É. Mas, no melhor do sentidos, talvez não seja assim tanto. Mas que raio.