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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

22
Set10

A melhor carne de porco à alentejana... numa taberna algarvia

Convidado

Voltar a terras alentejanas é sempre uma façanha gastronómica. Desta vez, a paragem foi pela costa... baías surpreendentes, praias sossegadas e horizontes de rocha íngreme a fazer frente ao mar. Às tantas, demos por nós a saborear uma boa comida caseira alentejana... no Algarve, mais precisamente, na vila de Odeceixe, no Concelho de Aljezur.

 

Três nortenhos ávidos por satisfazer os seus desejos de comida típica da costa alentejana e vicentina descobrem, por mero acaso, na hora do almoço, uma taberna onde o menu do dia é-nos logo apresentado a giz, numa lousa preta, à entrada da porta, com a indicação dos preços. No exterior, um painel pintado por artistas locais evidencia a história da vila. Pareceu-nos apelativo e familiar. Entrámos na Taberna do Gabão.

 

O ambiente afigurou-se-nos, de imediato, agradável e descontraído e a simpatia dos empregados uma nota relevante. Após a nossa encomenda, o empregado diz sorridente “Vamos a isso” (faltou apenas dizer, compadres). A ansiedade foi travada pelas entradas, compostas por pão, azeitonas, algumas pastas caseiras, e a deliciosa cenourinha às rodelas, embebidas em azeite e alho, um verdadeiro “sol à mesa”.
Mas, para começar a compor o estômago, nada melhor do que uma deliciosa e aromática sopa de peixe, de “chorar por mais”. Enquanto os meus amigos pediram uma feijoada de búzios, altamente recomendável para os amantes dos ditos moluscos, eu escolhi a melhor carne de porco à alentejana que já comi, bem servida em prato de barro. Um sabor intenso a vinho, alho e coentros, qual digníssima santa trindade. Quase que como a iniciarmo-nos num culto, os meus amigos decidiram lá voltar no dia seguinte para atestar da veracidade do título por mim conferido e eu, como não já tinha dúvidas, decidi provar a espetada de peixe, com cherne fresco e suculento, servida com batata, inclusive a doce, legumes e cenoura ralada com um molho fantástico (de tão bom que, no final da refeição, pedi mais um pequeno prato). A decisão foi unânime. Melhor carne de porco alentejana, não conhecemos. A nossa sugestão, para o prato se tornar divinal, recai em salpicar a iguaria com um pouco de coentros frescos.

 

Como a qualidade da comida e do serviço caseiro são, indiscutivelmente, a marca da casa e como não há duas sem três, gostaria de lá voltar e degustar outras iguarias caseiras como a feijoada de choco e polvo e o arroz de tamboril, num cenário sereno tão característico da região. Há acasos que valem mesmo a pena!


A. Corunha

04
Set09

Casa Pires em Moreanes (Alentejo)

Convidado

Tentei chegar ao Pomarão, onde há cerca de 4 anos comi um coelho de caça frito, que ainda hoje é um pesadelo por nunca mais ter encontrado o mesmo, feito com a qualidade do simples (pois fartérrimo de cozinha internacional ando eu, na maior parte das vezes de cozinha só tem a arte do decorador de pratos), deparo no Pomarão com a porta fechada e soube depois que o proprietário tinha, infelizmente, falecido.

Local mais perto onde, já não diria comer, mas enganar a fome, só em Moreanes, segundo a indicação de uma habitante do Pomarão.

Rodas na estrada rumo a Moreanes, entro no centro da aldeia e encontro 2 restaurantes, o Alentejo, belíssimo aspecto e um cardápio afixado no exterior que nos fez salivar, mas infelizmente fechado para descanso. A cerca de 50 metros um pequeno café, com sala para almoços. A Casa Pires, nada que o recomendasse, mas a vontade de enganar o estômago mandava mais que a 'razão'.

Fomos encaminhados, muito calmamente (já voltei e é sempre com muita calma) para a sala de jantar, sem grandes luxos e decorações, mas extremamente limpa. Pedimos o cardápio e o Sr. Pires calmamente pediu para se esperar. A espera valeu a pena, pois para nosso deleite chegou com um presunto e uns enchidos de fazer ressuscitar 3 defuntos. Simplesmente divinal a fazer lembrar um Pata Negra Reserva e um enchido de Lombo do mesmo.

Para almoço, o Sr. Pires tinha os sempre fantásticos secretos de Porco Preto bem como a açorda de bacalhau, o cozido de grão e uma feijoada de lebre.

Optamos por uma feijoada de lebre e um cozido de grão e a experiência foi do mais recompensante em termos de bem cozinhar e temperar, especialmente a feijoada de lebre temperada com hortelã. Doses generosas que é como dizem os alentejanos: para um alentejano ainda sobra e para um citadino dois não a comem. O vinho, local mas bem feito, sem defeitos aparentes. A sericaia presente e no final €12,00 por pessoa. 

Já voltei, recomendei e todos os que lá foram não ficaram de forma alguma defraudados.

A feijoada de lebre ou se tem sorte e há disponivel ou então telefonar ao Sr. Pires com uns dias de antecedência que ele a providenciará.

 

Moreanes fica na estrada de Mértola para Serpa, via Mina de S. Domingos e a cerca de 5 Km antes de se chegar à Mina de S.Domingos.

 

Jorge Guimarães

05
Jan09

O vinho e as festividades

Marco

Esta época do ano, repleta de boas alturas e de boas desculpas para abusar de tudo que é gastronomicamente aconselhável, é ideal para a prova de novos vinhos e de novas experiências palatativas. Nos 4 dias de comezaina que constituem as festividades natalícias e de final de ano, a saber, véspera e dia de Natal, Réveillon e dia de ano novo, acrescenta-se ainda o aniversário do meu pai no dia 4 de Janeiro o que proporcionou a degustação de vários vinhos, todos eles com características e sabores muito próprios.

Na véspera de Natal a escolha recaiu sobre um Alto da Caroça Reserva 2001 (Douro) que acompanhou o tradicional bacalhau e demais comidas. O Cabrito do dia seguinte, provado numa zona mais recôndita do nosso Minho foi regado com um Verde Tinto de Amarante sem rótulo que não foi grande opção mas na qual eu não tive qualquer influencia na escolha. Foi molhando a boca, mas ao jantar, tive que recuperar e optei então por um Quinta do Vallado 2004 (Douro) para acompanhar o excelente assado agora já mais calmo… uma escolha excelente sem dúvida, um vinho que é sempre uma boa surpresa. Uma curiosidade partilhada… penso que os assados de forno a lenha ficam sempre mais apurados e mais saborosos ao jantar, pelo menos em minha casa!

 

O Rebelhão, e com muita pena minha não o poder ter passado com os meus confrades dos chispes, foi regado com um Boa Memória 2003 (Alentejo) para os aperitivos, seguido de diversas unidades de Dilema 2004 (Douro) ambos com notas muito positivas. No dia de Ano Novo, foi-me apresentado ao almoço um Poeira 2005 (Douro) e ao jantar um Vinha da Palestra 2000 (Douro), o primeiro um excelente vinho que deixa saudades, o segundo já um bocado mais caído fruto de uma rolha que penso não ter estado à altura.

 

Entretanto, e das prendas que me chegaram, tenho para prova uma caixa de Rosmaninho Branco de Santa Marta de Penaguião e uma fantástica surpresa, uma garrafa de Chryseia 2004 (Douro) que vou guardar para uma altura especial. Este Chryseia é dos mesmos produtores do vinho Post Scriptum que os confrades Eurico e João devem lembrar-se com toda a certeza.

Entre 5 vinhos do Douro, um tinto verdasco e um Alentejo, penso que esta quadra não foi desperdiçada e que novos desafios e novas provas se adivinham para 2009.

22
Set08

O balde de Açorda

Paulo

Onde se fala de gastronomia alentejana, Évora, “O Grémio” e “Moinho do Cu Torto”

Para muitos portugueses o Alentejo é apenas aquela região que se tem de atravessar para ir ou vir do Algarve. Tá mal! Pronto, até sabem que é terra de bom vinho, embora mesmo quanto a isso tenham dúvidas porque ao longo da A2 não se passa por qualquer vinha. Tá mal, porque além de ser uma região rica em património, é uma das zonas mais nobres da nossa gastronomia.
Este Verão, no regresso de férias no Sul, mais uma vez quisemos matar as saudades da fabulosa cozinha alentejana, uma das minhas predilectas. A nossa intenção era ir ao Restaurante Fialho, um dos mais afamados de Portugal, na histórica cidade de Évora, que visitei pela primeira vez, ficando com a certeza que é uma das cidades mais belas do nosso país e das mais ricas em património. Mas quando chegamos a Évora já não estávamos inclinados a ir ao Fialho porque as informações entretanto recolhidas apontavam-no igualmente como um dos restaurantes mais caros do país. Ideia prontamente confirmada por um agente da PSP a quem solicitamos algumas informações em plena Praça do Giraldo. Aliás, o agente – provavelmente um dos mais simpáticos de toda a PSP – disse-nos que o seu primeiro serviço na cidade foi ir buscar um cliente ao Fialho que se recusava a pagar 100 euros por um bocado de presunto e vinho! Duplo aliás, Évora é também uma das cidades mais caras, afiançou-nos a pés juntos, só faltou a continência, o mesmo agente.
Fomos, então, em busca de outro bom restaurante, com preços mais ajustados, e bons restaurantes é algo que Évora tem em quantidade. Após deambularmos algum tempo pelas labirínticas ruas do centro histórico, e quando a fome começava a fazer alguns estragos na boa disposição, encontramos O Grémio, escondido numa rua tão estreita que receava que se comesse demais já não conseguiria passar no regresso. E foi isso que aconteceu. Não a parte de não conseguir caber na ruela, mas sim a de comer muito. E bem. Não é exagero dizer que me foi servido um balde de Açorda d’Alho com Bacalhau e Ovo. Vi-me e desejei-me para levar a bom porto a empreitada de esvaziar o dito balde e confesso que naufraguei. Ainda sobrou apesar de me ter empanturrado e de ter partilhado com a Xana e o J.P. que, por sua vez, se debatiam com um fantástico Cação de Coentrada com Pão Frito e umas maravilhosas Migas de Espargos com Carne de Alguidar, respectivamente. Até estive quase a pedir ajuda aos clientes da mesa ao lado.
Não pensem por um momento que a Açorda não estava deliciosa, bem pelo contrário, estava mesmo excelente, com um sabor intenso de alho e coentros, como gosto. E nem o inolvidável Estufado de Javali da Montaria, comido ao almoço no Brasileiro, em Mértola, teve qualquer responsabilidade. Foi, isso sim, culpa das doses individuais servidas nos locais turísticos do Sul a que nos habituamos nas duas semanas anteriores. Porque já se sabe que pedir uma dose para uma pessoa no Alentejo ou no Minho, por exemplo, é um acto suicida.
Infelizmente, tivemos que acompanhar tão belas iguarias com sangria e cerveja porque o vinho era demasiado caro, razão tinha o agente de autoridade em dizer que no centro de Évora não se come barato.
Já saindo das muralhas é mais fácil de encontrar locais mais acessíveis no preço, mesmo se tratando de restaurantes com nome e até motivo de reportagem na televisão, como é o caso do Moinho do Cu Torto (mais conhecido apenas por Moinho), que decidimos conhecer ao almoço do dia seguinte. O restaurante, de aspecto absolutamente típico, fica numa casa de apoio (ou antigo celeiro) de um moinho verdadeiro que até se pode visitar. Tem um funcionamento mais tradicional e uma ementa mais curta, que varia de dia para dia. Atingi quase o prazer máximo com uns Pezinhos de Coentrada absolutamente divinais, acompanhados por um pãozinho frito que ensopava naquele molho à base de coentros para meu deleite. Para tornar perfeita a refeição, o tinto da casa, um puro alentejano a preço modesto, era de beber e pedir mais. A finalizar, para não destoar, veio como sobremesa uma deliciosa Cericaia com Ameixa em Calda.
À saída do Alentejo é sempre caso para dizer “Até breve”, “Até sempre”!

16
Set08

“O brasileiro” alentejano

Convidado

Ao chegar a Mértola, pus o pé, molhei a boca com puro néctar alentejano, um tinto da casa, e preparei-me para um “Avante, Camarada, Avante!”. O nome /alcunha  “O Brasileiro” ficou a dever-se ao facto da avó do proprietário ter o nome de Basília (ora Basília parece Brasília, Brasilia é a capital do Brasil... ser filho da Basília é o mesmo que ser filho de Brasília, logo Brasil, logo "O Brasileiro"... tão óbvio que até custa a acreditar).

O restaurante presenteia-nos com uma magnífica paisagem aos pés, o acolhimento afável é brindado com um saboroso pão de trigo e umas caseiras pastas de chouriço e de atum. O cardápio apresentado com ligeireza afigurou-se tentador! Os meus amigos escolheram bem, entre um magnífico Estufado de Javali da Montadia e uns soberbos Pezinhos de Coentrada com pãezinhos fritos. Como fã dos provérbios populares, foi fácil decidir-me “Mais vale uma perdiz no prato do que duas no bolso do caçador”, pensei. E se pensei, logo solicitei: Açorda de Perdiz Brava. E que bela escolha, amigas! Mergulhei no reino de coentros e alho; nadei em grão de bico; e boiei na calda, em pão de trigo cortado às fatias muito finas. Como qualquer vereneante que gosta de bons banhos de sol, suei como “santiago aos mouros”. Mas logo suavizei, hum, com um divino torrão real (amêndoa com ovo, açúcar e água, é a sua composição) acompanhado com um “pingo”, com dois ou três pingos, a minha única sugestão dada ao empregado. Fazendo jus à minha fama de gulosa, degustei ainda a deliciosa cericaia com ameixa em calda e a macia mousse com leite condensado. Na verdade, este manjar não é para uma vereneante preocupada com “a linha”, mas sim para alguém com algumas curvas e um resistente estômago. Bom, mas isso agora não interessa nada...O que realmente importa é o despertar dos nossos sentidos sensoriais e demais “devarios” gastromómicos nas planícies alentejanas.

Nunca vi animais de caça (perdiz e javali) e domésticos (porco) tão felizes à mesa, perdão, nunca vi olhos tão radiantes e olfactos tão extasiados como os de uma transmontana, eu, de um minhoto e de um tripeiro, dos meus amigos Paulo e João Paulo, respectivamente. Ficou a promessa de lá voltar um dia...fora da época do Verão, de modo a degustarmos, ainda, mais iguarias repletas de coentros. Isto porque, como gente do Norte habituada a salsa, não há como uma boa coentrada, entenda-se.

Recomendo. À brava!

 

Um texto de A. Corunha