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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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19
Fev14

Obsessão por testículos

JP

Se há um detalhe que distingue o Homem de todas as outras criaturas, para além do cérebro, do polegar ou do bipedismo, é a capacidade de fazer experiências com os testículos dos outros seres vivos.

Esta aptidão é o resultado de milhões de anos de evolução da nossa espécie que aperfeiçoou o néocortex, pois sem estes 30 biliões de neurórios não seríamos diferentes de qualquer rato, incapazes de nos maravilharmos com os escrotos masculinos; o polegar ou a câmara de ressonância acima da laringe, que nos permitiu desenvolver a fala e fazer os primeiros brainstormings sobre estas gônadas.

O resultado é avassalador. Castramos os carneiros para a engorda, capamos os porcos porque a carne fica mais saborosa, usurpamos as bolinhas dos coelhos para os tornar menos agressivos, aparamos a masculinidade dos bois para assegurar carcaças de melhor qualidade, aliviamos os cavalos da respectiva bolsinha testicular para lhes dar maior concentração, castramos os cães e gatos como medida de controlo demográfico e castramos os ratos para estudar o impacto da castração.

Esta fixação testicular só me permite concluir que o Homem é o maior filho da puta do reino animal. Em nenhum outro ser vivo foi observada esta obsessão. Há um peixe, o Pacu, a quem deram o cognome de devorador de testículos, porque confundirá testículos humanos com nozes. Mas sejamos precisos: o Pacu confunde testículos humanos depilados de nadadores nudistas no rio amazonas, com nozes.

Nós damos sentidos sublimes à castração. Veja-se o caso do galo. Capar um galo é um ritual de transfiguração, que eleva o galo à condição de capão. Os testículos ficam deste lado e o corpo da ave ascende a uma outra dimensão, quase etérea, onde apenas chegam também alguns cabritos, faisões ou vitelas de lameiros recônditos. Vivem entre nós, mas parecem alimentar-se nos interstícios das dimensões conhecidas.

O capão lembra-nos a urgência de se fazer uma história completa da estupidez humana. Conta-se que o cônsul Caio Cânio, na antiga Roma, vítima da tortura do sono pelo exército de galos que existia na capital, conseguiu fazer aprovar uma lei que proibia a existência destas aves na cidade. Se considerarmos que o espírito experimental é decisivo para o conhecimento, a estupidez consegue alcançar proezas e resultados inacessíveis ao pensamento racional e equilibrado.

Nos últimos anos tenho cumprido o ritual de ir comer com alguns amigos o Capão a Freamunde. Como apenas realizamos uma excursão por ano, somos de uma intolerância jiadista para com qualquer desvio dos cânones de bem preparar o capão.

Inevitavelmente, decidimos regressar ao espaço onde já tínhamos sido muito felizes ou, por outras palavras, onde os nossos neurónios se tinham fartado de segregar dopamina até altas horas da madrugada - restaurante Melo, em Raimonda.

Mais uma vez, o capão exibiu-se como membro de pleno direito das elites aviárias - macio, suculento, exigindo em cada garfada um momento de degustação. O recheio, à base de enchidos, voltou a despertar-me um desejo de enfiar a cara na travessa (uma fantasia recorrente).

Convém lembrar que um capão pode custar mais do que um leitão, o único aspecto que claramente retira alguma nobreza ao animal e parece reduzi-lo à condição de novo-rico. O que é francamente injusto.