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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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08
Fev18

O Caneiro, um dos melhores restaurantes do Norte de Portugal

JP

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Há uma névoa de mistério e incognoscibilidade a encobrir a existência do Caneiro. A localização em Arco de Baúlhe alimenta incompreensões e mitos. Conta-se que Afrodite perdera uns brincos que Artémis lhe emprestara. Furiosa, Artémis rapta Hermes, casado com Afrodite, e entrega-o para ser sodomizado por Hipólites, um centauro.

Zeus, irado, acorrenta Hipólites no topo do monte da Senhora da Graça para toda a eternidade, e coloca dois javalis a chafurdarem todas as noites nos seus testículos. Para se libertar, Hipólites pede a cinco ninfas que convençam um mortal, o sr. António Esteves, a substituir a sua pena pela maldição de ir viver e trabalhar para o Arco de Baúlhe. Elas organizam uma orgia e, ainda, lhe ensinam uma maravilhosa receita de polvo com arroz do mesmo.

Toda esta história parece fazer sentido, mas tenho para mim que aquilo a que chamamos mistério, é apenas a evolução da gastronomia a encontrar o seu caminho.

Veja-se o tempo que demorou a criar um dos maiores ex-libris da gastronomia nacional.

O bacalhau assado com batatas a murro levou cerca de 14 biliões de anos a aparecer, a contar desde o big bang. Passou pelo colapso da nuvem molecular que deu origem ao nosso sistema solar, a formação da lua, o aparecimento da vida e a extinção dos dinossauros.

Para aqueles que acham que o Caneiro deveria ser em Braga ou Porto ou Lisboa, imaginem se os nossos pais navegadores fossem assim tão coninhas e não saíssem da costa. Hoje, reinava na nossa gastronomia o famoso carapau assado com castanhas ou a cavala à gomes de sá.

Por isso, levantem esses cagueiros e vão à procura do que é bom. Vão ao Caneiro. Que ainda por cima, fica apenas a 2 minutos de uma das saídas da A7.

 

Para avaliar da excelência de um restaurante recorro sempre a um modelo cognitivo-comportamental:

  • Identificar se um restaurante provoca tesão alimentar, com que frequência e com que duração;
  • Quantificar e qualificar os climaxes alcançados durante a relação propriamente dita;
  • E, finalmente, parametrizar os níveis de excitação numa relação duradoura com o restaurante.

Inegável é que já estive com um transtorno de excitação persistente pelo Caneiro durante quase seis meses (altura em que esteve fechado para obras), que cheguei a ponderar ir ao hospital para levar uma injecção. Não fui, mas tornou-se notório que estava a apresentar sintomas de um comportamento alimentar obsessivo-compulsivo.

Posso afirmar, e tenho testemunhas, que já alcancei o ápice oito vezes numa única refeição no Caneiro e aguentei cerca de sete horas, sempre erecto, à mesa.

E, finalmente, meus amigos, mesmo agora que a nossa relação já estabilizou, o prazer continua a ser intenso e a reinventar-se. 

Todas as relações se desgastam, mesmo que passem grande parte do tempo na garagem. Há que diversificar espaços, procurar novas experiências e saber regressar nas alturas certas. Cada restaurante exige um estado de espírito. É como os livros, os filmes, os cônjuges ou a música.

 

Acredito que qualquer restaurante precisa de um prato referência. O Louvre é espaçoso e atafulhado de peças, mas a Mona Lisa é o prato de referência. O punctum, como diria Barthes. Para a maior parte dos turistas, visitar o Louvre é um longo enfardamento de farofa, batata frita, linguiça, frango e maminha até chegar à picanha.

Experimentem trazer o Mona Lisa para o Pavilhão Rosa Mota e teremos as manadas de turistas a virem pastar para o Porto.

O punctum do caneiro é o extraordinário polvo com arroz do mesmo. Dir-me-ão: há restaurantes que não têm um prato farol, a cozinha é óptima, por lá é tudo bom. Aceito, é tudo bom, mas nada é extraordinário. Provavelmente, estão a referir-se a aromas e sabores que o cozinheiro sabe transportar para todos os pratos.

Ter o prato farol não é para quem quer, nem para quem quer muito. É para quem o encontra. É preciso arte, engenho e sorte.

Mas há ainda a sequência. O Caneiro soube criar uma melodia que não sai facilmente do palato. Algo simples, um jingle, e que fica. A sequência melódica do paté, com os cogumelos, a alheira, às vezes as lulinhas, seguidos do polvo e o pecado da avó. Podem ter a certeza, fica no palato e é quase impossível não trautear a sequência com alguma regularidade. E, às vezes, optamos por uma rapsódia, com bacalhau à gomes de sá, ou os filetes, ou as tripas, ou o camarão ao alho com batata ou o que calhar.

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Já é um lugar comum dizer-se que o Caneiro se distingue pela sua excepcional garrafeira. Mas garrafeiras há muitas, o que faltam são visitas guiadas ou manuais de interpretação.

Meus amigos, vinho e arte contemporânea (estão cada vez mais parecidos) não são para qualquer um. Hoje, há vinhos tão intimidantes e abstrusos como algumas exposições em Serralves.

Eu tomei a decisão de apenas comprar telas e vinho no Continente, porque em casas especializadas descobrem facilmente que sou um nabo.

O Caneiro tem o Ricardo.

Claro que há algo de humilhante em estar sentado ao lado de alguém que percebe de vinhos. Sabem o que é sentirem-se com um palato pequeno?

É um sentimento idêntico àquele que certos indivíduos desproporcionados nos provocam nos chuveiros dos ginásios.

 

Nada como terminar um texto com uma afirmação conclusiva e cerrada: o Caneiro é dos melhores restaurantes do Norte de Portugal. Não falo do Sul, mas lembro que o Norte de Portugal começa onde acaba o Sul, no centro, no ponto zero, bem para lá de Coimbra. É como os hemisférios, há o Norte e o Sul, não há o central.

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