Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

11
Out18

Aquele maldito mês depois de Agosto

JP

Bacalhau em São João de Rei, fechado. Vitela em Revelhe, fechado. Frango em Tibães, fechado. Rodovalho na Apúlia, fechado. Polvo no Arco, fechado. Fechado, fechado, fechado.

Entre Setembro e Outubro começa a debandada na restauração nacional e a desertificação das mesas. Casas vazias, trancas na porta e “Encerramos para férias” impresso numa folha A4, deixando populações inteiras desamparadas, principalmente os assíduos como nós, que durante este período nos tornamos em algo do género de uns “sem mesa”.

Foto_férias.jpg

Falta um sentido de serviço público na restauração nacional, como existe nas farmácias ou no sistema de saúde. Repare-se, por exemplo, que grande parte do nosso território não tem assegurado serviços de lanche, sendo difícil encontrar broa frita, picadinhos ou moelinhas às 18h. Não senhor, trabalha tudo ao almoço e ao jantar e o utente que se amanhe e que nem se atreva a vir incomodar depois das 22h. Devia ser obrigatório todos os restaurantes fazerem piquete pelo menos uma vez por mês.

“Abril é o mais cruel dos meses” o catano. T. S. Elliot se vivesse hoje em Portugal nunca escreveria tal barbaridade, não depois de tentar degustar uma boa refeição entre 31 de Julho e 31 de Outubro. É a mais cruel das estações, onde reina a bandalheira na restauração nacional, uma terra desolada. Não podemos esquecer que antes das férias dos tasqueiros e chefs, tivemos de suportar o mês de Agosto. O mês sem tabus para os restaurantes do nosso país, o mês vale tudo, o mês somali do calendário gregoriano dos tasqueiros, onde se come mal, e talvez até pior do que isso, na maioria das casas. A restauração nacional transforma-se numa gigantesca cantina para locais, turistas e emigrantes.

Não invejo a vida de emigrante: um ano inteiro lá por fora, longe da família, da língua, dos sabores e no regresso são emboscados diariamente nas mesas deste país e servidos do pior do melhor que este país tem para oferecer. Não se faz.

Mas o que fazer? Guardar as melhores postas maturadas no fundo da arca para servir em Agosto? Reduzir a pesca de sardinha e rodovalho para que os nossos queridos emigrantes possam ser recebidos condignamente? Não me parece. Já nem guardamos o melhor bacalhau para o Natal. A sorte deles é que chegam cá com o palato tão desafinado, que não dão pela diferença.

E não deixa até de ser merecido. A passagem "hooliganesca" dos emigrantes pela restauração nacional esgota recursos e, principalmente, pessoal, deixando-nos quase três meses sem boas mesas para nos alimentarmos.




2 comentários

Comentar post