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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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06
Out18

A natureza consegue ser bastante desagradável

JP

É inevitável: sempre que imaginamos o paraíso, idealizamo-lo em ambientes naturais, num belo jardim repleto de árvores de fruto, ribeiros e animais com quem se pode conviver em respeito mútuo e de uma forma construtiva. A história da humanidade é, aliás, resumida como uma ordem de despejo do paraíso e a eterna luta para ser realojada num jardim das delícias condigno.

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Ainda hoje fantasiamos com o regresso às origens e o reencontro com os paraísos perdidos numa qualquer aldeia do Portugal profundo, nas águas de uma albufeira que a EDP gentilmente preserva ou na piscina com vista sobre os socalcos do Douro.

Estranhos paraísos estes, mandados construir por Salazar ou obra humana de vidas que dariam excelentes ideias para o inferno de Dante.

É nestas alturas, em que estou já quase rendido a imagens explícitas destes paraísos, que recordo as refeições nas aldeias, em alpendres e em piqueniques, com cabrito em forno a lenha, arroz de pato ou peixe grelhado, salteadas por quadrilhas de moscas. Por entre cada garfada, duas palmadas na mesa, mãos e braços a tentar reconquistar o espaço aéreo e entre dois copos um “puta que as pariu”.

(Invejo a superioridade bovina de conseguir degustar serenamente uma refeição debaixo de nuvens de moscas. O ioga possivelmente ter-me-ia ajudado).

Assisti à ascensão e ao fracasso de todos os sistemas que prometiam tornar o campo naquilo que o campo realmente nunca foi (um espaço prazenteiro e paradisíaco): vinagres, velas, plantas, sistemas ultrassónicos, repelentes eléctricos, colas, raquetes e até as famosas torradeiras.

O ser humano não foi expulso do paraíso, chegou até aqui porque enquanto as outras espécies se limitaram a adaptar-se, nós conseguimos perceber que a natureza consegue ser bastante desagradável.

As pedras são duras, a areia infiltra-se em todos os orifícios do corpo, o sol queima, a chuva molha, as nádegas não evoluíram durante milhões de anos para estarem agora no chão, há vespas, carraças, lacraus, alforrecas, moscas, mosquitos, poeiras, pólens. E isto num país com uma natureza de brandos costumes.

É consensual entre a comunidade científica a importância atribuída à invenção da roda. Eu prefiro assinalar outro dos grandes momentos da evolução humana: a invenção da mesa. Uma tábua com 4 pernas a uma altura estratégica que nos permite encaixar sentadinhos numa cadeira. Extraordinário. O encosto da cadeira: que admirável preocupação da nossa espécie com a zona lombar. Daí até aos assentos e encostos ergonómicos, ao ar condicionado, à higiene e segurança alimentar foi um saltinho.

Como humano, tenho uma enorme dívida de gratidão à espécie humana, que me deu coisas tão simples que eu sozinho, e com as minhas insuficiências de sentido prático, nunca conseguiria arranjar. Só vos peço que não me abandoneis numa ilha deserta.