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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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21
Nov17

A discriminação na carne de porco doméstico

JP

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O Despacho n.º 7198/2016 veio autorizar, em certas condições, a matança do porco doméstico. O mais escandaloso, e ninguém parece ter reparado, é que a lei só autoriza o consumo das carnes pelo produtor e seus familiares.

E os amigos? Porque é que a amizade é discriminada neste despacho? Entende-se que a Operação Marquês tenha despejado uma tigela de vinho verde tinto sobre a camisa de linho que veste as puras relações de amizade. Tal como o processo Casa Pia veio lançar suspeitas sobre as coceguinhas aos sobrinhos menores, o ensino de catequese por homens, passeios micológicos com rapazinhos em bermudas, fazer observação astronómica nocturna com crianças institucionalizadas e até, imagine-se, brincar aos médicos com o amigo de escola do filho.

As relações de amizade em Portugal são tão mal vistas que não tardará muito a serem enquadradas legalmente com outro despacho. Relações de amizade com termo certo, sem termo, independentes ou até a tempo parcial. E seremos obrigados a preencher mais um anexo no IRS relativo às relações de amizade de facto.

E os vizinhos? Imaginemos que o vizinho ajudou na matança, até contribuiu durante meses para as lavagens e agora comete uma ilegalidade se provar um chispe ou uma orelhinha.

E os namorados de familiares? E as uniões de facto com menos de 2 anos, senhores? E os filhos registados por outros pais e que não querem nenhum processo legal de alteração de paternidade, apenas desejam comer um bom porco caseiro? O que o legislador sugere é: impugna a actual paternidade, mesmo que ames o pai que te educou, e dá entrada com um processo em tribunal para reconhecimento de paternidade do pai biológico, por sinal produtor de porcos domésticos.

E os órfãos? Que raio de legislador se lembra de discriminar os órfãos?

Acredito que o legislador tentou compensar a discriminação de órfãos, permitindo as matanças como manifestação cultural ou desportiva. À primeira vista, seria bem pensado. Um órfão que toda a vida esteve institucionalizado não pode comer do porco do pai de um amigo, mas pode procurar na internet eventos e inscrever-se. Senhor Legislador, nem de perto nem de longe é a mesma coisa. A experiência diz-nos que na grande maioria dos casos é uma encenação e o vinho é péssimo.

Mas o cúmulo, e caso para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, é a discriminação de imigrantes. Poder-se-á argumentar que há aqui um esforço para impedir o acesso de rebanhos de turistas e infiéis a um espaço sagrado da nossa gastronomia.

Mas o legislador, sabendo das estatísticas da imigração que se dedica à criação de suínos, com este despacho é como se escrevesse nas paredes dos nossos monumentos: “os porcos domésticos portugueses são para os portugueses. Vão comer para a vossa terra”.