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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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04
Nov08

Albergaria Rio Beça: a boa comida ao alcance de um Mercedes

JP

Domingo. Um Mercedes segue pela A7, lançando atrás de si ondas de vento que incomodam os eucaliptos. Vrrrruuumm... a quarta velocidade encosta o ponteiro nuns agradáveis 120. Cimo da serra, toca a descer, entra a quinta em acção, o motor respira fundo e lá vamos nós a 140. Bandos de pássaros partem assustados para Sul.

Nova subida e a quarta volta ao serviço. Mais à frente - raios partam a serra, porque é que não rebentam túneis sempre a direito. Mas o Mercedes é um carro cheio de boas surpresas: e não é que existe uma terceira velocidade e vrrrruuuum pela serra acima. O ponteiro volta a ganhar vida e recupera. Enquanto houver alcatrão há esperança. No dia em que puserem um alcatrãosinho até ao cume dos Himalaias subo-o de 190. Só tenho que dar um jeito à sofagem, que às vezes não aquece.

É descarado o bom trabalho dos nossos governos. Portugal nos últimos anos apostou numa excelente rede nacional de auto-estradas que vieram revolucionar os acessos às melhores tascas e restaurantes do Portugal profundo. Por exemplo, a conversão do IP5 em A25 resolveu por completo as dificuldades no trânsito de oeste para espaços como o “Albertino” em Gouveia. A A7 veio criar novas acessibilidades e aproximar do litoral locais como o “Nariz do Mundo” e a boa comida do Montesinho. Entre muitos outros casos de sucesso. Dir-me-ão que ainda há muito a fazer. Sim, é verdade, falta uma aposta concertada em linhas de caminho de ferro que permitam aos portugueses ir a restaurantes e estar à vontade para beber sem se preocuparem com a condução. Neste ponto, apenas o “Barriga Farta” está bem servido, pois fica encostado a uma estação, mas os horários, a frequência dos comboios e os preços dos bilhetes merecem uma reflexão profunda do nosso governo.

Voltando à viagem: o que fazia um bonito e ainda fresco casal a caminho de Boticas a uma velocidade estonteante, pelo menos ensurdecedora, num final de manhã de Domingo? Promessas pagam-se para sul, viagens de fim-de-semana começam-se à sexta e passeios fazem-se admirando a paisagem.

O destino era a Albergaria Rio Beça, na Carreira da Lebre, depois de Boticas, já a caminho de Salto.

Sempre que pensamos em espaços de boa comida no interior pensamos em tasca, em chãos já quase extintos e paredes sujas, não esqueçamos o velho barrigudo, manchado pelo tinto da casa, ou a senhora idosa a comandar a cozinha; autocarros a descarregar bocas e berros a orientar os grupos para o pasto.

Mas a Albergaria Rio Beça impressiona pelo bom gosto, pelo volume de som reduzido, pela ausência de kitsch, pela suavidade de cores e pelo atendimento cuidado e simpático. Gente da terra que sabe do que fala e sem caricaturas do português típico.

O senhor que nos atendeu mandou umas boas tiradas que me levou várias vezes a verificar se realmente estava no profundo Trás-os-Montes. “Talvez daqui a 10 anos a maioria dos restaurantes possa ter um escanção!” Boa! Estive para lhe perguntar o que achava da crise financeira internacional, mas entretanto os enchidos aterraram na mesa e exigiam dedicação absoluta. É a sina, se o Marcelo Rebelo de Sousa também servisse à mesa, depois de pousar as entradas, nunca mais ninguém o ouvia. Nunca chegaremos a saber o que o mundo da restauração ficou a perder.

E verdade seja dita, uma arte exige a nossa atenção total. Enquanto se come, aprecia-se a comida. Já se viu irmos a uma exposição e falarmos de feijoadas? Ou vermos o telejornal durante um espectáculo musical?

Bem, para começar apresentaram-se uns enchidos da casa, com feijão-frade e fios de verdura. Delicioso. Bola de carne recheada com cebola e tomate.

Com o estômago já acalmado, mandamos entrar um polvo grelhado com batata a murro embebida em azeite e uns grelos salteados com alho. O espectáculo continuou com a actuação de uns medalhões de vitela barrosã em molho de pimenta verde e mostarda, vestidos com uma crocante fatia de bacon. Fabuloso.

A fechar, uma boa posta da região temperada singelamente com sal. Carne macia e suculenta, talvez a pedir menos meio minuto ao lume, nada de grave.

A acompanhar, um famoso vinho POP alentejano, que se portou bastante bem.

Já sabem o que vos espera: comida excelente, bom ambiente e paisagens belíssimas, pelo que ouvi dizer, já que ao chegar ao exterior o frio enxotou-nos para os carros e toca a pressionar o acelerador.

Um conselho: idas a tascas e restaurantes refugiados nas mais distantes serras exige um automóvel com credibilidade e que ofereça garantias de chegar ao destino. Adquiri um 190 precisamente para assegurar o meu acesso à boa comida do nosso país. E a verdade é que, se em Portugal tivessemos só Alfas e Fiats, estes espaços de boa mesa perdidos nas profundezas da nossa nação iam todos à falência.

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