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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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21
Dez09

Felizes Festas do Bacalhau

JP

Os períodos festivos e este aguaceiro de mensagens de felicidade e paz não conseguem aliviar a sensação de que o mundo está caa vez pior. Guerras e terrorismo nos confins do planeta, que nos impedem de fazer turismo em tantos paraísos da Terra; aquecimento global que está a ameaçar bacalhaus, castas de vinhos e a sobrevivência dos nossos melhores enchidos; crise económica que se propõe criar milhões de desempregados e, por arrasto, transformar em classe favorecida, fascistas e exploradores, os frequentadores assíduos de restaurantes e aqueles que, como eu, convertem os euros em vinhos e comida. São as esquizofrenias da actualidade. Estouras o teu dinheiro, e o dos outros, para te encharcares com drogas, paciência, és uma vítima. Gastas os euros em prazeres gastronómicos, és um cabrão, um esbanjador insensível com tanta gente que passa fome neste mundo. Um dia destes teremos de trazer as garrafas de bom vinho em caixas de Porta da Ravessa, para não parecer mal.
Por isso, não devemos esquecer os valores que sustentam a festa do dia 24 de Dezembro e preservá-los para os nossos filhos ou para os filhos dos outros, como é o meu caso. Mesmo que os filhos dos outros me chateiem bastante nos restaurantes (devo confessar, que às vezes até me apetece deixar o meu carro a diesel a trabalhar toda a noite para ver se acelero o aquecimento global. Mas no fim de contas, o gasóleo está caro).
A noite de 24 para 25 representa o que de melhor temos nas sociedades humanas: a paixão pela comida e a total entrega, sem preconceitos, aos prazeres gastronómicos. O pai, a mãe, os filhos, os avós, os tios, os sobrinhos, os sogros, os cunhados, os enteados, os afilhados, todos reunidos numa incansável orgia gastronómica. Na noite de 24 de Dezembro não existem tabus.

Nesta noite esquecem-se planos de dietas, evitam-se olhares acusadores para as panças alheias, abafam-se as bocas «não achas que estás a exagerar?» e bebe-se desalmadamente com a aprovação de toda a instituição familiar, da avó até ao primo em 2º grau, passando pelo irmão do sogro. Uma única noite em que ninguém te diz: "olha para as figuras que estás a fazer à frente de toda a família".
O dia 25 é o único em que nos podemos arrastar absolutamente ressacados, após várias idas à casa de banho, com os olhos remelosos e encharcados, e ser recebido na sala com sorrisos e abraços por toda a família. "És grande, és digno do teu sobrenome". E ainda ouvimos: "vocês são muito fraquinhos, quando tinha a vossa idade, só me deitava no dia 1".

O Natal é tão bom. Agora imaginem tudo isto, mas sem a família. Só num mundo perfeito.

Nestes períodos devemos lembrar-nos dos mais necessitados.  Na noite de 24 de Dezembro, já sentado à mesa, o meu pensamento vai para todos os portugueses que continuam sem provar um bacalhau de qualidade, comendo espécimes de segunda e terceira categoria, com manchas e fissuras, com azeites que mais parecem óleo e sem produtos dignos desta data. Penso em todos eles, é certo, mas a vida é mesmo assim e seria uma falta de respeito não apreciar a dádiva que o destino nos concedeu. E eu farto-me de apreciar.

Acredito que o Natal devia ser, não todos os dias, pelo menos todas as sextas-feiras. Com um bom grupo de amigos. Aos sábados, para quem não pode à sexta.  Mas este é o mundo que temos.
Desejo a todos um bom bacalhau e um excelente vinho a acompanhar.

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