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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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28
Mai09

“Perca” de tempo

Paulo

Às vezes sinto que há restaurantes que têm vergonha em apresentar pratos demasiado simples, isto é, a carne ou o peixe em modos mais básicos. Acham que se apresentarem, por exemplo, uma posta de peixe simplesmente grelhada ou frita vai dar mau nome à casa e vão ser considerados restaurantes sem classe. Vai daí, decidem inventar. Mas, inventar no mau sentido, porque, como é óbvio, também na gastronomia a invenção (ou seja: criatividade, inovação, introdução de novos elementos e combinações, dar novos mundos ao mundo) é sinónimo de evolução.
Há pouco tempo tive uma experiência nesse sentido, o que até pode ter sido uma infeliz excepção no restaurante em causa, que frequentei pela primeira vez, o Cozinha da Sé, em Braga, que até tem vários pontos a seu favor, como ser um espaço bastante agradável e possuir funcionários muitíssimo simpáticos e atenciosos.
Na apresentação oral dos pratos, perdi-me facilmente no meio de toda aquela descrição altamente pormenorizada, e por isso consegui apenas reter o essencial dos dois primeiros pratos sugeridos, perca do Nilo e bacalhau, e já nem sequer consegui apanhar os restantes por estar a tentar visualizar o que me era dito. Assim, pedi a perca do Nilo, um peixe que até aprecio bastante. Com a minha concentração a derivar para as diversas entradas na mesa, deixei de tentar compreender a forma como me seria apresentado o peixe. Até porque as diversas entradas estavam bastante boas e o João Pires branco que se tinha juntado a nós ajudava a distrair.
Veio, então, a perca, escondida sobre uma camada de queijo e ketchup, com uns camarõezinhos por cima (acompanhada por umas batatas com a pele assadas em folha de alumínio, que parece que eram para ser panadas, mas depois o cozinheiro apeteceu-lhe antes que fossem assim). No início dei o benefício da dúvida porque pareceu-me algo exótico no bom sentido, mas ao fim de algumas garfadas cheguei à conclusão óbvia e indisfarçável: aquilo sabia como uma espécie de pizza de perca. O intenso sabor do queijo e do ketchup, ali presentes em grande quantidade, davam a clara sensação de que estava a comer uma pizza, que em vez de ter uma base feita de pão tinha uma feita de perca. Pergunto-me por que raio se vai buscar uma perca ao Nilo para depois a cobrir de queijo e ketchup? O sabor do peixe passava completamente despercebido, para o efeito podia estar ali, sem se notar a diferença, uma taínha do Douro ou um filete de pescada congelado, não era preciso estragar um bom peixe.
O que estará aí na calha? Deitar molho de chocolate por cima de bacalhau? Barrar robalo com compota de framboesa? Mergulhar tamboril em mostarda e maionese? Bem, é melhor eu não estar aqui a dar ideias, não vá algum génio lembrar-se mesmo de pôr alguma em prática.
Em termos gastronómicos, esta experiência foi uma perca de tempo, perdão, uma perda de tempo, mas para mim, não para o cozinheiro que deve ter gasto apenas alguns segundos na criação de tão engenhoso prato.
Valeu pelo resto e, principalmente, pela excelente companhia.

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