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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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25
Fev09

A esperteza da lampreia (I)

JP

É extraordinário o conjunto de virtudes e aptidões físicas que os animais desenvolvem para fazer frente aos seus predadores. Alguns apuram o sistema visual, auditivo ou olfactivo, outros conseguem mudar de cor, desenvolvem a velocidade, refinam o veneno ou aprendem a voar. E sabe lá Deus que mais! Mas este maravilhoso mundo natural não pára de nos surpreender com o seu engenho. Veja-se o caso da lampreia que nos últimos milhares de anos pensou de outra forma. Para a lampreia o ideal nem era ser rápida, nem venenosa, nem andar a mudar de aspecto. A lampreia não foi por aí e decidiu optar por outra estratégia, apostando na aparência física. Pois bem, a lampreia pensou, quem é que vai querer morfar um peixe com ares de réptil, com uma textura ligeiramente repugnante e até algo viscosa?

 


Bem, há que lhe dar mérito, não foi má ideia não senhor, apostar no mau aspecto para garantir uma boa distância de segurança em relação aos estômagos deste nosso mundo. Afinal de contas, os coelhos tinham investido num aspecto tão fofinho, tão fofinho, que fizesse qualquer predador pensar, "ai que queridinho, só me apetece fazer-lhe festinhas, não deve ser para comer". Mas a realidade veio demonstrar que não foi uma grande solução.
Neste campo, os cães foram talvez os mais bem sucedidos de todo o nosso ecossistema. Apostaram essencialmente em aptidões não para afastar os seres humanos mas para os auxiliar:  ladrar a desconhecidos e correr atrás de bolas fizeram com que passassem ao lado das panelas. E estou certo que se esta estratégia deixar de funcionar teremos os cães a aprender a lavar carros ou a aspirar a casa.
Voltando à lampreia, a infeliz tinha tido uma excelente ideia não fosse esse enorme acidente biológico chamado Homem. Ainda por cima, o ser humano desenvolveu precisamente as aptidões que menos davam jeito à lampreia: o sentido experimental, uma mente aberta, o gosto por novas experiências, a capacidade de pescar e a comunicação escrita para apontar as receitas gastronómicas.
Ao contrário de outros seres vivos, o Homem não se deixa desanimar só porque o bicho tem um aspecto asqueroso. O Homem pensa: " deixa-me cá ver como é que este ser tão nojento se dá fervidinho e com um molhinho à maneira"
O Homem tem a ideia de que todas as espécies foram criadas para ocupar um lugar específico na sua cadeia alimentar. Ao ser humano cabe a tarefa de descobrir qual esse lugar: nos assados, nos guisados, nos cozidos, nos frios, nas entradas ou nas sobremesas?
Daí, o grande azar da lampreia, que não conseguiu passar despercebida à atenção humana e acabou por ser integrada nas tradições gastronómicas. E para castigo, por se ter armado em espertinha, foi condenada à maldição suprema, o verdadeiro terror de qualquer ser vivo: atracção principal de festivais gastronómicos.

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