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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

11
Jan09

Sinfonias: o que é um restaurante com requinte?

JP

O português tem um sistema bastante simples e funcional de categorizar os restaurantes, que infelizmente os guias turísticos não reproduzem:

- tasca
- restaurante de diárias
- restaurante requintado

Obviamente, todo o português (homem) direcciona os seus desejos para a tasca. Faz parte do imaginário masculino, onde não há tabus e tudo é permitido. Os homens têm fantasias com tascas, em orgias de comida e bebida; falam alto, tocam-se, dizem caralhadas; onde não são censurados pelas suas taras, por mais estranhas que sejam (e há gostos para tudo): chispes, couratos, rabos de bacalhau fritos, a gordura nas bordinhas das costoletas, caracóis, fígados fritos em cebolada, sangue e sabe lá Deus que mais. Numa tasca ninguém nos olha de lado: "este tipo não sabe estar à mesa" ou "este homem é nojento".
Nas tascas toca-se na comida, lambe-se dedos, chupa-se ossos, rilha-se espinhas, esquiça-se dentes, levam-se as unhas até onde nunca nenhum dedo tinha estado antes, libertam-se impurezas, lambuza-se a camisa e acariciam-se pratos com pedaços de pão.  Na tasca, tudo é permitido. Na tasca os homens realizam-se enquanto homens e fazem coisas que nunca têm vontade de experimentar em casa. Por isso, muitas esposas ficam escandalizadas quando descobrem a outra vida que os homens levam nas tascas: "o quê, tu foste comer trinta e sete sardinhinhas fritinhas, tostadinhas, com cabecinhas e tudo, e quando sou eu a fazer dizes que te atacam a figadeira?".

Os homens sabem bem do que estou a falar.
Neste sistema, há que concluir que o restaurante requintado, para a maioria dos homens, constitui um local de constrangimentos, onde é obrigado a representar, a fingir, a reprimir o alterego.
Mas antes de mais, é preciso definir o que estabelece que um determinado restaurante vá para a categoria dos requintados:
- É o local onde se vai essencialmente com a companheira(o);
- Tem música instrumental de fundo;
- Os funcionários usam farda, não apresentando manchas visíveis, o que revela pouca intimidade com os alimentos;

- Só com grande esforço encontramos um vinho por região abaixo dos 12€, mesmo que a carta inclua vila régia, borba, monte velho ou casal garcia;
- A nossa companheira está sempre a dizer: "endireita as costas, estás muito curvado" ou "já sujaste a toalha!" ou "essa é a faca de peixe e não de sobremesa" ou "não pegues com a mão" ou "estás vermelho, já bebeste demais";
- Aparecem termos nas cartas como "caramelizado", "salteado", "laminado", "crocante" (nenhum tasqueiro que se preze diz crocante) ou "confitado";
- O menú apresenta pratos que parecem experiências científicas complexas: "Foie de Tamboril", "Magret de pato", "Risotto de Cogumelo", "chutney de beterraba" ou "Carré de cordeiro". Até temos vergonha de pedir para mudar de canal para o jogo do porto, afinal os gajos devem passar a vida a estudar química ou física quântica e nós para ali a pensar num jogo de bola;
- Robalos, douradas, costoletas de vitela a 35 € o quilo, que nos fazem odiar todos seres vivos deste planeta, em que um pedacinho de qualquer animal vale tanto como 55 quilos de tantas cidadãs por esse país fora; faz-nos acreditar que se deveria investir mais na clonagem para acabar com esta roubalheira;
- Os alimentos constituem motivos decorativos do prato, o cozinheiro armado em designer, como se tudo obedecesse a estritas indicações nutricionais, respeitasse a inviolável pirâmide dos alimentos e as regras internacionais da luta contra obesidade e não simplesmente para insuflar margens de lucro;

  - O cozinheiro é um autor, não é para ser compreendido; quantos de nós não se sentem nestes restaurantes como numa exposição de arte contemporânea: "OK, vou fazer um ar entendido e introspectivo, para não parecer um lorpa".

 

SINFONIAS

Foi neste contexto que, já há algum tempo, conheci o restaurante Sinfonias, numa pequena protuberância junto à estrada Braga-Barcelos. Na altura, fui desconfiado das virtudes do espaço, mas a combinação de requinte com freguesia não urbana chamava-me à atenção.
Gosto quando vou a um restaurante e me trazem um fartote de entradas. Quando não o fazem, obriga-me a fazer contas: "ora 6 € a alheira e 4 € o mexilhão". Entro em conflito com o espaço, percebo que o truque do dono é dizer, "depois não se queixe do preço, foram 19€, mas estava aí tudo muito explicadinho, você é que é um lambão". Não senhor, se as entradas vêm para a mesa percebemos que ninguém é irresponsável de nos trazer 20€ de entradas sem o nosso consentimento. OK, ninguém, não é bem assim! Alguns trazem as entradas ao mesmo tempo que a carta, e ali fico eu a olhar para a alheira, o picadinho de orelha, as moelinhas, os cogumelos, o camarão enquanto mastigo os preços. E é difícil chegar a acordo com a companheira, ela prefere a alheira e dispensa a orelha, eu prefiro a orelha e dispenso os cogumelos e lentamente instala-se um mau ambiente e pensa-se: com os meus amigos não é nada desta treta, na tasca é que eu sou feliz.
Bem, surpresa das surpresas, o Sinfonias disponibiliza logo a abrir um conjunto de entradas sóbrias, mas variadas: pãozinho de alho, azeitonas bem temperadas e patés caseiros. Está bom, sim senhor, já acomoda e tem que se lhe diga. Acrescente-se uma alheira de caça, já por decisão do cliente, e fica-se mais sossegado à espera do prato principal.
O ambiente é sóbrio, nada intimidador, e o pessoal simpático. Como cabeça de cartaz, filetes de robalo com batatas a murro e legumes mediterrâneos, bem salteados. Agradável, por vezes surpreendente no modo como elaboram o design do prato. Mas no final aquele sentimento de o estômago sair bem almofadado. Importante verificar que a factura não ofende o bom senso. É um restaurante com requinte? É. Mas, no melhor do sentidos, talvez não seja assim tanto. Mas que raio.

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