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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

12
Dez18

As revoluções só trazem chatices

JP

Revoluções, levantamentos, movimentos mais ou menos armados e agitações populares só nos complicam a vida.

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Imagem tirada daqui.
São muitas as dúvidas que se colocam entre os portugueses e a manifestação das suas indignações. Levar as crianças à escola ou ficar com elas em casa? Dará tempo para atirar umas pedras e ainda ver o jogo da champions? Vou andar na rua a partir coisas quando hoje é dia de pica no chão? Será que arranjo substituto para o jogo de futsal? Desmarco a mesa no restaurante? Devo faltar ao crossfit e mesmo que parta quatro ou cinco vitrines não queimo mais que 200 calorias? Levo o carro para a manifestação, mas estaciono longe ou levo para perto, arriscando uma multa? Tenho de fazer compras para os meus cocktails molotov ou vão distribuí-los gratuitamente? Carrego as minhas pedras num saco do Continente, daqueles resistentes, ou vai haver barraquinhas?

Para o povo português um aspecto lamentável numa revolução é que normalmente não há bons lugares para mirones. Tudo bem, até nisso a revolução de Abril foi disruptiva, em Lisboa eram mais os mirones do que os militares na rua. Mas não sejamos ingénuos, numa revolução normal é quase impossível parar para ver e debater a situação enquanto se desfruta de um bom vinho com os amigos. É só correrias e estalada.

Aparentemente, há um grupo de portugueses que está reunir apoios para importar os “coletes amarelos” para Portugal. Qual não é a minha surpresa quando constato que não me voltaram a surpreender. Os organizadores propõem uma acção já para dia 21 de Dezembro, sexta-feira. Sexta-feira? Num fim-de-semana que é sucedido de dois dias dedicados às festas natalícias, propor sexta-feira, é sugerir a todos os portugueses um fim-de-semana ainda mais prolongado.

O Governo nem tem de dar muito em troca, não precisa de aumentar o salário mínimo, diminuir impostos, basta decretar o pagamento por inteiro do dia dedicado à manifestação de justas indignações, que a maioria dos portugueses vai sentir que já conquistou alguma coisa: mais um dia de descanso.

Atente-se no dia escolhido para a revolução de Abril, uma quinta-feira. Nunca passaria pela cabeça de um capitão português fazê-la a um sábado.

Porque somos um povo pacífico e ninguém quer destruir propriedades que tanto dinheiro custaram, muito menos carros que com o carro de um português não se brinca, não será necessário nenhum ajuntamento em estradas, bastando apenas vestir um colete ao longo do dia enquanto se fazem as compras de natal, para vincar o nosso descontentamento. A CMTV vai dedicar 24 horas de cobertura a uns desacatos num qualquer Pingo Doce e o Marcelo, mais o Costa cedo aparecerão de colete amarelo a mostrar que se solidarizam com todos os movimentos pacíficos de demonstração de indignação contra o injusto contexto internacional, a fragilidade das instituições europeias e, claro, apoiando todas as formas civilizadas de apresentação de sugestões de melhoria ao nosso governo.

Nos Chispes instituímos há alguns anos, uma conquista civilizacional, o fim-de-semana de três dias. A sexta para amigos, o domingo para a família e um sábado flexível. Por isso, desagrada-nos profundamente esta acção à sexta-feira. Pedimos à organização que altere a data para 20 de Dezembro, véspera de fim-de-semana nos Chispes e Couratos. Até porque dia 21 temos agendado o almoço de Natal no Victor

Pelo sim, e já agora também pelo não, iremos em breve publicar uma lista de estabelecimentos em que somos, frontal e veementemente, contra qualquer atentado às suas instalações. Tratam-se de restaurantes fundamentais para a afirmação de Portugal no nosso país, o que já não é pouco. Podemos, se nos pedirem, partilhar isso sim, e de uma forma anónima, uma lista de espaços que podem ser perfeitamente vandalizados.

02
Nov18

Couves com feijões (Couvada para os íntimos)

JP

Meter ao barulho de qualquer conversa um “couves com feijões” é falar de “dildos no cú”, tem um efeito devastador no imaginário de muitos portugueses, suspende o gozo todo, dispara os airbags.

As couves e os feijões são a símbolo do modelo educativo dos últimas décadas em Portugal, qualquer designer utilizaria couves e feijões ao criar um logótipo para a pedagogia familiar portuguesa.

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As famílias promoviam a dicotomia “isto é o que tu gostas e é bem bom” vs ”isto é o que te faz bem mas é um biscate para comer”. As couves e os feijões apareciam sempre deste lado do versus, mal tratados, pobres em sabores, para credibilizar a ideia de que fazia mesmo bem, efeitos da moral católica, o bem e o prazer não se devem encontrar. Milhões de portuguesinhos foram seviciados nos seus lares com estes tratamentos à mesa e, inevitavelmente, desenvolveram profundos traumas com a comida. Muitos são hoje uns pervertidos, incapazes de ter uma relação saudável com a gastronomia tradicional, com mais danos emocionais acumulados do que se tivessem passado pela guerra colonial: horror a sopas, medo de couves e feijões, suores com favas, tremuras com gorduras (um bom nome para restaurante de carne) e a acumular relações de submissão com comida italiana e pratos beldades de instagram.

O povo é filho da mãe, refiro-me ao povo, ao povo mesmo povo e não ao povo dos políticos, os eleitores. O povo que me interessa é constituído por gente manhosa e arisca que tem de se desemerdar perante os grandes desafios que a vida lhes coloca. Se só há pão velho, não chamam a CMTV, nem vão pressionar a assistente social, nem fazem greve, inventam a açorda. Ora foi este povo que percebeu que a couve-galega, endurecida pelo frio, misturada com feijão amarelo, não tinha de ser um frete. Se tem de se comer, que pelo menos saiba bem, muito bem, e vai daí juntaram-lhe azeite, vinagre e alho e criaram uma iguaria viciante.

As couves com feijões são servidas a partir do Outono (é aproveitar enquanto há Outono) intensifica-se pelo Inverno adentro e são acompanhadas adivinhem lá com que carne. O povo não é parvo e nunca lhe passaria pela cabeça servir uma iguaria assim como complemento saudável de um assado ou de um peixe grelhado. O porco que, nesta estação das facas longas estava a guinchar um pouco por todo lado, ofereceu o melhor acompanhamento, os ossos de assuã, costelas e entremeadas.

Chegados aqui, e a darem-me algum benefício da dúvida, estão a pensar “catano, se é assim tão bom, vou já ali ao Continente arranjar material, cozo tudo e vamos ver se eu é que andei enganado estes anos todos”. Pois bem, se o fizerdes, tereis a confirmação de que a vossa formação superior para nabos foi um estrondoso sucesso.

O segredo da comida tradicional está na qualidade dos produtos, na sua produção exposta aos elementos naturais e isso não se encontra nos hipermercados.

Estão à espera de uma recomendação, só posso dar uma: restaurante Adelaide, em Vieira do Minho. Foi aqui que fiz a minha iniciação a este prato e foi tão excepcional que ainda não me atrevi a experimentar noutro sítio.

No restaurante Adelaide há ali sabedoria, sensibilidade e uma mão especial para assados, estufados, para os pratos típicos da região.

Por isso, em boa verdade vos digo: ide e comei, mas marcai primeiro. Couves com feijões não é iguaria que se sujeite a pré-confecção, não se dá bem em frigoríficos e não tem a vulgaridade de prato do dia. É acompanhante de luxo, raramente tem disponibilidade e é só para alguns clientes.

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30
Out18

A revolução da carne

JP

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É pouco provável que não me venha a arrepender de partilhar isto nestes tempos de escassez de boa carne. Imagine-se o que sobrará se subitamente muitos descobrirem que andam a comer uma espécie de bifes de bioplástico.

A ideia do documentário, que podem ver na NETFLIX, é encontrar os melhores sítios do mundo para comer carne de vaca. Mas o ensinamento mais importante, spoiler alert, é que o melhor sabor da carne se encontra naqueles bocadinhos que vós (refiro-me apenas aos parolos à mesa) deixam na borda do prato, a gordurinha.

Nas últimas décadas temos vindo a ser “ampulatados” com carne sem sabor, magra, despojada das suas principais qualidades. Nesta revolução gastronómica sem grande líder, populações inteiras foram reeducadas a apreciarem o não-sabor, a salivarem com o insípido. A industrialização da produção de carne e a criação dos exércitos de nutricionistas e evangelizadores tornou o gosto pela gordura um crime de palato. Bem, isto já sou eu a devanear.

Mas há salvação, teremos de proporcionar uma vida feliz às vacas, que nos darão mais e melhores gorduras. E nessa altura, caríssimos, não haverá perdão para quem deixar a gordura na borda do prato. É pecado, será como deitar pão ao lixo.

Atenção: o documentário apresenta constantemente imagens explícitas. Tive de interromper duas ou três vezes para me ir aliviar à cozinha.

 

 

25
Out18

Cabrito grelhado e o show do Tónio Quim

JP

Num dia vamos ao cabrito frito, no outro ao grelhado, ou comprova que somos profissionais focados ou indicia comportamentos obsessivo-compulsivos.

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É certo que não tenho formação em biologia nem zoologia, mas acredito que deve haver um taxonomia das espécies por depravação. Apanhar crias das outras espécies porque são mais lentas e dão menos luta, como qualquer felino o faz, é inevitável, mas o foco da nossa espécie em petizes como o cabrito, a vitela ou a petinga revela sintomas psicopatológicos desagradáveis.

Dois dias seguidos a comer cabrito trouxe, inevitavelmente, para a mesa questões éticas e morais. Um cabritinho ceifado ainda na madrugada da vida para satisfazer os desejos de sete indivíduos. O mais cruel é que a maioria achava que se deveriam ter ceifado dois.

Convenhamos, a moral é uma construção social e há muitos estilos arquitectónicos, imensas construções clandestinas, muitas mais adulteradas sem alvará e quase nenhuma com qualquer gosto estético. Quem cumprir rigorosamente o PDM moral que atire a primeira pedra.

Fui educado numa família tradicional e com princípios rigorosos: comer de faca e garfo, mastigar de boca fechada, usar guardanapo, manter os pés debaixo da mesa, respeitar a partilha justa da comida por todos, não arrotar nem peidar, não falar de política ou futebol enquanto houver comida na mesa, prestar socorro a qualquer parceiro engasgado e, de resto, tudo é permitido. Posto isto, adoro cabrito e nunca pensei que pudesse ser surpreendido com um cabritinho na grelha.

O Tónio Quim diz que o cabrito é de um bom pasto, de criação caseira tradicional. É bem possível, mas não sejamos ingénuos, também não é por princípios éticos inabaláveis que o Tónio Quim não o vai buscar ao Continente. O Tónio Quim escolhe o dos pastos porque sabe a diferença entre eles e sabe que só lhe interessa servir a clientes que também o saibam, sabendo igualmente que o Tónio Quim sabe que eles o sabem, concluindo-se que é comummente sabido que há um preço justo a pagar que, e este é um ponto fundamental, só o Tónio Quim sabe qual é. Um modelo Kantiano: da intuição de clientes e do Tónio Quim nasce um bom conceito de restauração, que vai ser o casulo de uma grande ideia.

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Mas se o Tónio Quim é um filósofo, não é por isso que é menos entertainer. O Tónio Quim é um one man show, um humorista de salas de jantar, um stand up comedian que muitas vezes não hesita em se sentar à mesa para continuar o seu número. A casa Baixa a tola tanto é um restaurante como uma casa de comédia. A boa mesa sempre foi compatível com as boas gargalhadas.

Que fique claro, o Baixa a tola não é um restaurante caro, não para quem saiba o que está a comer. Pode parecer um problema que só se coloca à população invisual, autista ou com anomalias genéticas ali pelo cromossoma 21, mas uma rápida visita ao Tripadvisor é suficiente para perceber que a maioria da população sofre deste problema.

No Baixa a tola, se considerarmos que a excelência da refeição ainda inclui inclui o show do Tónio Quim, o preço é bastante acessível.

 

24
Out18

Cabrito frito com arroz de fumeiro

JP

Os fritos não estão na moda, já foram excomungados pelas novas religiões. Dizer "vamos comer uns fritos" em alguns meios é um “vamos pinar” gritado a meio da missa.

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Comer não é pecado se for para assegurar uma alimentação saudável. Comer fritos é fazer sexo sem protecção todas as semanas com várias parceiras e algumas delas casadas com amigos. Os fritos simbolizam a ausência de auto-controlo, de disciplina, de elevação do pensamento, a falta de um simples esboço em guardanapo de uma moral. Na sociedade ocidental, a casta dos fritos está na sub-cave da hierarquia social.

Uma mulher que se deixa seduzir pelos fritos, arriscando-se a perder o direito social a usar vestidos, não é digna de piedade nem respeito, terá o que merece.

Cada um abdica do que quer e eu quero tirar a barriga de misérias sem fritos para encarar com uma serenidade zen os primeiros dias dos próximos quatriliões de anos que o universo seguramente nos reserva.

Cabrito frito: confesso que estou a descobrir que há muita mais coisas que podem ser fritas do que aquelas que eu conhecia. Lembram-se daquele cliché da vizinha casada, extremamente religiosa, com quem um dia se acaba a fazer contorcionismo ao lado da fotografia dos filhos e da imagem da virgem? Foi assim que me senti com o cabrito frito. Quem diria, o cabrito, sempre tão bom e bem casado com batatas no forno, acabarmos aqui à mesa, desta forma tão saborosa.

E acompanhado de arroz de fumeiro, que é tudo menos acompanhamento, é prato principal, é cabeça de casal, é encarregado, é prato líder em qualquer mesa. Mas isso fica para outra altura.

Não vou dizer onde é porque já estou farto de facilitar a vida aos outros.

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23
Out18

A encantadora de vinhos

JP

E quando a caneca parecia ter caído em desgraça na restauração nacional, eis que somos recebidos com o melhor vinho de caneca que já provamos.

Não é a caneca que faz o vinho, é o vinho que faz a caneca. Sejamos honestos, a caneca é mais dada, não parece um balão de um laboratório químico e também alivia qualquer vinho mais asmático. Decantador é o que um homem quiser.

#nuncadigasdestacanecanãobeberei

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17
Out18

Vai um pires de grilos?

JP

Ler por aí “grilos altamente proteicos” chega para perceber como vai acabar a história da relação entre os humanos e os insectos. 

Ainda estamos numa fase inicial e teremos múltiplas etapas entusiasmantes. Grilo em pó ou em folhas a fazerem delícias nos ginásios; farinhas, pastas, hambúrgueres e, finalmente, os grilos em todo os seus esplendor, reinterpretados por chefs.

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Imagem tirada daqui 

Nos chispes, um espaço de tolerância e de ideias desfeitas, dizemos que atire a primeira pedra quem nunca comeu caracóis. Nós somos fãs de caracóis.

O argumento principal para a introdução de insectos na dieta humana é o da sustentabilidade ambiental. Fácil de perceber e respeitável. Mas vamos com calma. Dizer que a farinha de insectos tem mais proteína e poderá suprir necessidades alimentares, parece-me lógico. Comparar os insectos com as vacas é que não.

Que as vacas são mais poluidoras, infelizmente já o sabemos, mas não vai ser fácil servir picanha de insecto.

Mas a realidade nunca está em esquadria, se as vacas largam metano, os insectos largam malária e outras que tais.

Hambúrgueres de insectos parece-nos uma excelente ideia. Impõe uma redução no consumo de gado, deixando a população bovina para aquilo que realmente importa: bifes, postas, costeletas ou estufados.

Claro que tudo isto é muito entusiasmante, mas quando se perceber o sofrimento que provoca aos insectos, todos amontoados em gaiolas, e que os grilos reconhecem os donos, seremos barbaramente assediados por campanhas de sensibilização para soltar os insectos. Não faltarão, igualmente, especialistas a identificar claramente a diferença entre grilos que nunca saíram de gaiolas, alimentados a couves e alfaces de estufa, de grilinhos selvagens, muito mais crocantes e suculentos.

Inevitavelmente, vamos descobrir que estamos a derreter os insectos da superfície da terra, provocando uma hecatombe ambiental. A extinção dos sapos vai acelerar alguma coisa muito má. Ou pior, a encher a terra de bicharada, o que ainda vai tornar o nosso mundo bem mais insuportável.

11
Out18

Aquele maldito mês depois de Agosto

JP

Bacalhau em São João de Rei, fechado. Vitela em Revelhe, fechado. Frango em Tibães, fechado. Rodovalho na Apúlia, fechado. Polvo no Arco, fechado. Fechado, fechado, fechado.

Entre Setembro e Outubro começa a debandada na restauração nacional e a desertificação das mesas. Casas vazias, trancas na porta e “Encerramos para férias” impresso numa folha A4, deixando populações inteiras desamparadas, principalmente os assíduos como nós, que durante este período nos tornamos em algo do género de uns “sem mesa”.

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Falta um sentido de serviço público na restauração nacional, como existe nas farmácias ou no sistema de saúde. Repare-se, por exemplo, que grande parte do nosso território não tem assegurado serviços de lanche, sendo difícil encontrar broa frita, picadinhos ou moelinhas às 18h. Não senhor, trabalha tudo ao almoço e ao jantar e o utente que se amanhe e que nem se atreva a vir incomodar depois das 22h. Devia ser obrigatório todos os restaurantes fazerem piquete pelo menos uma vez por mês.

“Abril é o mais cruel dos meses” o catano. T. S. Elliot se vivesse hoje em Portugal nunca escreveria tal barbaridade, não depois de tentar degustar uma boa refeição entre 31 de Julho e 31 de Outubro. É a mais cruel das estações, onde reina a bandalheira na restauração nacional, uma terra desolada. Não podemos esquecer que antes das férias dos tasqueiros e chefs, tivemos de suportar o mês de Agosto. O mês sem tabus para os restaurantes do nosso país, o mês vale tudo, o mês somali do calendário gregoriano dos tasqueiros, onde se come mal, e talvez até pior do que isso, na maioria das casas. A restauração nacional transforma-se numa gigantesca cantina para locais, turistas e emigrantes.

Não invejo a vida de emigrante: um ano inteiro lá por fora, longe da família, da língua, dos sabores e no regresso são emboscados diariamente nas mesas deste país e servidos do pior do melhor que este país tem para oferecer. Não se faz.

Mas o que fazer? Guardar as melhores postas maturadas no fundo da arca para servir em Agosto? Reduzir a pesca de sardinha e rodovalho para que os nossos queridos emigrantes possam ser recebidos condignamente? Não me parece. Já nem guardamos o melhor bacalhau para o Natal. A sorte deles é que chegam cá com o palato tão desafinado, que não dão pela diferença.

E não deixa até de ser merecido. A passagem "hooliganesca" dos emigrantes pela restauração nacional esgota recursos e, principalmente, pessoal, deixando-nos quase três meses sem boas mesas para nos alimentarmos.




06
Out18

A natureza consegue ser bastante desagradável

JP

É inevitável: sempre que imaginamos o paraíso, idealizamo-lo em ambientes naturais, num belo jardim repleto de árvores de fruto, ribeiros e animais com quem se pode conviver em respeito mútuo e de uma forma construtiva. A história da humanidade é, aliás, resumida como uma ordem de despejo do paraíso e a eterna luta para ser realojada num jardim das delícias condigno.

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Ainda hoje fantasiamos com o regresso às origens e o reencontro com os paraísos perdidos numa qualquer aldeia do Portugal profundo, nas águas de uma albufeira que a EDP gentilmente preserva ou na piscina com vista sobre os socalcos do Douro.

Estranhos paraísos estes, mandados construir por Salazar ou obra humana de vidas que dariam excelentes ideias para o inferno de Dante.

É nestas alturas, em que estou já quase rendido a imagens explícitas destes paraísos, que recordo as refeições nas aldeias, em alpendres e em piqueniques, com cabrito em forno a lenha, arroz de pato ou peixe grelhado, salteadas por quadrilhas de moscas. Por entre cada garfada, duas palmadas na mesa, mãos e braços a tentar reconquistar o espaço aéreo e entre dois copos um “puta que as pariu”.

(Invejo a superioridade bovina de conseguir degustar serenamente uma refeição debaixo de nuvens de moscas. O ioga possivelmente ter-me-ia ajudado).

Assisti à ascensão e ao fracasso de todos os sistemas que prometiam tornar o campo naquilo que o campo realmente nunca foi (um espaço prazenteiro e paradisíaco): vinagres, velas, plantas, sistemas ultrassónicos, repelentes eléctricos, colas, raquetes e até as famosas torradeiras.

O ser humano não foi expulso do paraíso, chegou até aqui porque enquanto as outras espécies se limitaram a adaptar-se, nós conseguimos perceber que a natureza consegue ser bastante desagradável.

As pedras são duras, a areia infiltra-se em todos os orifícios do corpo, o sol queima, a chuva molha, as nádegas não evoluíram durante milhões de anos para estarem agora no chão, há vespas, carraças, lacraus, alforrecas, moscas, mosquitos, poeiras, pólens. E isto num país com uma natureza de brandos costumes.

É consensual entre a comunidade científica a importância atribuída à invenção da roda. Eu prefiro assinalar outro dos grandes momentos da evolução humana: a invenção da mesa. Uma tábua com 4 pernas a uma altura estratégica que nos permite encaixar sentadinhos numa cadeira. Extraordinário. O encosto da cadeira: que admirável preocupação da nossa espécie com a zona lombar. Daí até aos assentos e encostos ergonómicos, ao ar condicionado, à higiene e segurança alimentar foi um saltinho.

Como humano, tenho uma enorme dívida de gratidão à espécie humana, que me deu coisas tão simples que eu sozinho, e com as minhas insuficiências de sentido prático, nunca conseguiria arranjar. Só vos peço que não me abandoneis numa ilha deserta.

 

30
Abr18

Uísque "Heaven's Door"

JP

Apenas ao alcance de Bob Dylan: música, poesia e uísque. Pode um homem deixar obra mais completa e essencial?

O grande Dylan vai agora lançar uma marca de uísque, o "Heaven's Door". O nome remete para a música “Knocking on Heaven’s Door”, mas para os apreciadores é uma descrição poética do lugar até onde nos pode levar este espírito. Não se deixem enganar, só se pode chegar ao céu enquanto se está vivo. Infelizmente, muitos continuam a adiar a viagem.

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