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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

23
Abr18

A antecâmara da embriaguez

JP

Quase todos nós conhecemos pessoas que temem a sensação de embriaguez, como se não houvesse consciência nesse espaço em que se alteram as leis da gravidade. “Daquele momento, e desses já tive muitos, em que ainda temos o domínio da situação e em que tudo ganha um outro sentido. É nessa altura que pensamos a sério nas pessoas de quem gostamos, que decidimos ir em frente com o projecto sempre adiado (como fazer a viagem da nossa vida), que deixamos de temer os obstáculos e perdemos os medos que não nos deixam viver em plenitude. É o momento do sonho, da paz e do amor”. É um momento delicioso e arriscado que antecede o abismo da bebedeira, mas que vale bem a pena para quem aprecia emoções intensas.

Um excelente texto.

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13
Abr18

Demasiado imaturos para esta carne maturada

JP

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O facebook acaba de me informar que os meu amigos Paulo Marques, Alexandra Silva e mais 10 pessoas gostam da Taberna do Lopes. Respeito os gostos dos meus amigos, mas a boa saúde dos relacionamentos exige que se preservem alguns espaços proibidos, temas virgens e inexplorados. O Carlos Cruz teria amigos para falar de família, de projectos televisivos, bolhas imobiliárias e até de mulheres, mas teria um grupo muito específico para falar de miúdos. E as nossas relações harmonizam-se em torno de certos nichos temáticos.

O algoritmo do Facebook parte do princípio que queremos saber tudo sobre os nossos amigos e está sistematicamente a violar o nosso direito ao pudor.

Todos os dias descubro que os meus amigos gostam da NOS, da Skip, do arroz Cigala (parecem perfis dadaístas), da Brisa (no meu tempo, ninguém gostava da Brisa), da EDP (isto, então, é absurdo, porque não sou amigo de nenhum elemento do Conselho de Administração), do FMI (sim, eu tenho 11 amigos que gostam), do Montepio (ninguém no seu perfeito juízo, consultando as taxas que paga e os juros que recebe, pode gostar de um banco), do PNR (sete amigos nacionalistas) e temo que um dia destes vou descobrir que vários amigos gostam das Finanças de Portugal. Hipócritas. Contudo, e fui verificar, não tenho um único que goste da página do youporn ou do redtube. Definitivamente, não vos conheço.

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(Retiro o que disse em relação à EDP. É impossível não gostar de uma empresa com um Vogal do Conselho de Administração tão fofinho).

Eu que já fui à Taberna do Lopes pagar 55€ (por pessoa) a beber vinho da casa, comer uma ou duas entradas, uma sobremesa e a famosa posta de carne maturada para três, fiquei com a certeza de que não conheço os meus amigos. Que todos usam máscaras para interpretar os diversos papéis sociais, já se sabe, mas também não precisam de representar para o óscar. É excessivo, levam a interpretação para o nível dum método do Actors Studio.

Quando estão comigo, mostram-se pessoas perspicazes, com um respeitável palato, currículo gastronómico, de intuição apurada e que honram o custo físico e moral do dinheiro. Agora descubro que por baixo desta imagem sedutora, esconde-se talvez um longo historial de abusos à mesa. Faz-me reviver a profunda desilusão com as denúncias ao Kevin Spacey e, pior ainda, do choque quando surgiram as acusações ao Woody Allen.

Caros amigos Paulo Marques e Alexandra Silva, vocês gostam da Taberna do Lopes porque gostam mesmo, por puro niilismo, estratégia de marketing pessoal, posicionamento político-ideológico ou foram cliques gerados pelo impacto de ondas gravitacionais?

A Taberna do Lopes não é um mau restaurante, não senhor. Está asseadinho, tem preços por todo o lado, já a avisar “depois não bufem”, e tem um dono que em cada duas frases solta um preço. Uma coisa é certa, queixas do consumidor por falta de informação de preços, não vão receber. A taberna do Lopes é o meu ideal de banco: “este cartão é TOP, ou não custasse 100€ por ano, esta conta a prazo é tão boa, tão boa que você até paga para guardarmos aqui as suas poupanças e este é o melhor crédito do mercado, mais caro não encontra”.

A Taberna do Lopes orienta-se por um princípio, assente num eixo empenado, de que o preço é o melhor certificado de qualidade de um produto.

Não somos especialistas em carnes maturadas, por isso nem vamos falar se era jeitosinha ou só assim-assim. Mas se aquela é a melhor carne maturada que há, então deixem-me que vos diga: ainda somos demasiado imaturos para uma carne com tanta maturidade.

 

 

05
Abr18

Mirandela é a Cidade Juarez portuguesa

JP

A alheira é o produto mais maltratado e corrompido da nossa gastronomia. Talvez por se tratar de enchimento de tripas, os portugueses pensam que podem lá enfiar o que bem entenderem.

É urgente explicar aos mais novos que a alheira tradicional não é apenas pão molhado em caldo de carne, salteado com pedaços de gordura manhosos. Não senhor, a alheira já levou carnes boas e óptimas gorduras.

Sempre acreditei em menos Estado, mas quando provo uma alheira pergunto-me: onde raio está o Estado quando mais precisamos dele? Em Mirandela é que não está. Sempre que lá vou parece-me que cheguei a Cidade Juarez, onde não há lei nem justiça para colocar os cartéis das alheiras na linha. No nosso entender, é a cidade mais perigosa do mundo na área dos enchidos. Todos os anos, milhares de turistas são barbaramente agredidos com alheiras de péssima qualidade. Aliás, no nosso top de cidades / vilas mais perigosas do mundo para o turista gastronómico, Portugal coloca três nos primeiros vinte lugares, muito à frente de Juarez, Caracas ou Bagdade. 

Entretanto, o nosso Estado preocupa-se, e bem, com os problemas de identidade de género dos nossos jovens, mas está a borrifar-se se o jovem, após a operação de mudança de sexo, continuar a sofrer, mas desta feita por causa destas alheiras infames.

Nos próximos dias, iremos receber uma encomenda de alheiras vindas directamente de Mirandela. O amigo que as encontrou (e que as enviou pelo correio) diz que vêm de um cartel liderado por uma velhota. Vamos aguardar com expectativa moderada.

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04
Abr18

A nanogastronomia do Chef Avillez

JP

Não é que seja uma crítica, é apenas a expressão de alguma angústia. A capacidade de concentrar qualidades e sabores de um cozido ou um leitão em quantidades cada vez mais reduzidas é particularmente assustadora. Estaremos já na fase da nanogastronomia, a dez anos de reunir todos os princípios activos de umas tripas numa única cápsula ou comprimido efervescente? Ou até em supositório que, como todos sabem, chega mais rapidamente ao sangue.

A redução dos gostos e aromas de um prato numa pequena amostra é sem dúvida extraordinário, mas não me é sedutora. Não se trata de uma espécie de destilação de sabores, um processo de separação da essência. Não, está a encurtar-se a narrativa degustativa. Para mim, é como ler o resumo de um livro, ou ouvir uma rapsódia da obra de um músico ou apenas as melhores frases do Fernando Pessoa..

Imaginem o tempo em que nos darão a experimentar uma vagina electroquímica, de bolso (talvez com uns óculos de realidade virtual e um comprimido), que concentra todos os prazeres de estar com uma mulher. Tudo bem, até é uma ideia interessante. Não foi o melhor exemplo, esqueçam este assunto, e foquemo-nos na comida.

Nota importante: o cozido que se segue ainda não sofreu qualquer redução interpretativa. Por questões relacionadas com direitos de autor, não apresentamos aqui a imagem do cozido ou do leitão do chef Avillez.

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03
Abr18

Intoxicados com o detox

JP

Passada a Páscoa, entramos no período detox. Chás, sumos, sobremesas, brunchs, sopas e almoços “detoxicantes”. Esta fase deveria ter sido antes da Semana Santa, mas para reacender o interesse pela Quaresma era preciso chamar-lhe detox dos 40 dias e entregar a orientação das almas nas mãos dos gurus das dietas e do corpo.

Até ao Verão,  teremos cerca de dois meses infernais de libertação de toxinas. E quem se vai tramar com tudo isto? Muito provavelmente, os peixinhos. Preocupa-me bastante chegar a Junho e levar com as toxinas desta malta toda nas sardinhadas de São João.

A tendência de desintoxicação infiltrou-se por todo lado que podemos esperar livros detox, músicas detox, reflexões detox e até companhias detox. Estes seres vão ficar tão puros, mas tão puros, que poderão desenvolver alergias no contacto directo com pessoas entupidas de toxinas. Vão ter de usar máscara em certo convívios.

Imaginem as guerras do futuro sem explosões nem vírus mortais. Largam bombas de toxinas em Lisboa e põem 1 milhão de refugiados a caminho da Alemanha.

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 Imagem tirada daqui

 

16
Mar18

O povo mais xenófobo do mundo

JP

Os portugueses são xenófobos. Provavelmente, até seremos dos povos mais xenófobos do mundo. Para quem duvida, atente no desprezo com que os portugueses falam das carnes, das batatas ou das frutas espanholas. As maçãs são farinhentas, os legumes sabem a água e a sardinha é gorda e seca. Até as sardinhas, que o único erro que cometeram foi terem-se deixado seduzir pelas redes espanholas. Há algumas décadas, uma mulher branca não podia entrar no carro de um negro, agora as sardinhas não podem vir para a lota à boleia nos barcos dos espanhóis. Já não são dignas de serem comidas por um verdadeiro português. E se forem, é mesmo só para despachar e porque não há alternativa.

O racismo português assenta numa crença ancestral de que somos melhores do que todos os outros, mas os outros não o sabem, e consideram-se, por pura ignorância, melhores do que nós. Os portugueses acreditam que têm o melhor peixe do mundo, o marisco mais saboroso mundo, o melhor jogador do mundo e a praia mais bonita do mundo (mesmo contando com as praias nos atóis do pacífico, Austrália, Tailândia ou Caraíbas). Portugal é o melhor destino turístico do mundo, tem o melhor vinho do mundo e, científico, a melhor gastronomia do mundo. Os italianos só fazem pizzas, os espanhóis é só fritos, os franceses é só maioneses e os ingleses não são nada. Os alemães são os grunhos e os americanos é só hambúrgueres. Os brasileiros fomos nós que ensinamos, os africanos ainda estão na idade do fogo com as malaguetas e os chineses são javardolas. Os japoneses? Se calhar fomos nós que lhe ensinamos o sushi com a punheta de bacalhau. Os russos são básicos. Bife tártaro é de rir!

No que diz respeito à higiene alimentar, o povo que se revoltou com a ASAE (por representar a submissão da nossa raça superior a povos gastronomicamente inferiores) sente nauseas com a falta de pudor com que os espanhóis tapeiam ou com a libertinagem alimentar dos chineses. 

Nós somos tão xenófobos, que até na xenofobia temos um complexo de superioridade. Fomos os melhores colonizadores da história, porque nos casamos com os escravas no Brasil, porque ajudamos a criar os mestiços, porque foi graças ao nosso empenho evangelizador que nasceram as mulheres mais bonitas em África e nas américas. Os portugueses olham até para a história do comércio de escravos com algum orgulho: “tecnicamente, somos os pais do blues, jazz, rock e do hip hop. Escusam de agradecer, já estamos habituados".

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14
Mar18

A Lei Insossa

JP

Não falta muito para uma matança tradicional do porco ou a degustação de um tenro cabrito darem cadeia. E se não derem prisão, pelo menos vão encher-nos a caixa de correio com notificações das finanças para pagamento de coimas por contra-ordenações, acrescido de custas processuais e execuções fiscais.

Não adianta relaxar com o pensamento de que ainda estamos longe desse tempo. Os valores sociais estão a mudar a um ritmo convulsivo, acompanham a cadência da moda e a cada estação têm de ser lançadas novas propostas. Estou já ansioso pela nova colecção de ideias progressistas para esta Primavera-Verão.

O problema é que, se por um lado, as redes sociais nos aproximaram a todos, por outro, as redes sociais aproximaram-nos a todos. Uma proximidade perigosa, porque não temos muitas defesas naturais nem vacinação para idiotices. Ideias hospedadas em pequenos grupos tribais propagam-se rapidamente por palavras, contagiando milhões de pessoas.

Não será de estranhar surgirem as futuras redes digitais rurais, que vão promover o isolamento, interioridade e difíceis acessos. Inscreva-se no “Ermita” e viva isolado e sem contactos humanos durantes vários anos.

Diz-se que estamos a apenas algumas pessoas de distância de qualquer outro ser humano e provavelmente também estamos a poucas ideias de distância do maior absurdo. Cuidado com o que gostam hoje, porque podem ficar inadvertidamente a seis cliques de uma mega estupidez.

Há uns dias fantasiei que tinham lançado a Lei Insossa, uma versão da Lei Seca, a proibir a produção, comercialização e consumo de sal. E que faziam operações stop e rusgas nos restaurantes para medir as tensões.

Primeiro sorri, depois fiquei introspectivo. Não sei se devia ter falado no assunto.

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Imagem tirada daqui

13
Mar18

Enquanto não juntarem tofu ao cozido, não há problema.

JP

Aparentemente, é uma boa notícia. Em vez de tentarem apurar a raça com a grande revolução alimentar do proletariado, eis que se lembraram de falar de saúde sem criminalizar a prática da cozinha tradicional.

Já estávamos fartos de ouvir falar em sushi, quinoa, sementes de sésamo, mozzarella ou abacate.

Analisamos algumas das receitas e as sugestões parecem-nos ponderadas.

A intenção é a de aumentar a literacia nutricional, que é como quem diz que a malta que criou e preservou os cozidos, chanfanas e outros activos calóricos são um tanto ou quanto iletrados. Também pode ser o primeiro passo para a solução final. Entram de mansinho, “ai, isto é só para reduzir um poucochinho de sal”, e quando dermos por ela, já estão a meter tofu no cozido. Vamos estar atentos.

Aqui

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11
Mar18

Vinho e vegetais veganos

JP

E os vinhos veganos, quem já provou? À primeira vista, até parece uma espécie de pleonasmo. Do tipo: o Nelo subiu para cima para comer couves veganas?

Pois, mas não é bem assim. Que o vinho vem da fruta, todos sabem, só que no processo de purificação são acrescentados agentes à base de proteína para impedir que fique turvo, feitos a partir de peixinhos, ovos ou do leite. No final, o vinho chega-nos aos copos já sem as impurezas e os agentes. Mas vegano que é vegano, não pode desfrutar de um vinho, sabendo que ele beneficiou, mesmo que remotamente, de crueldade sobre os animais. Vamos lá ver, pondo-me no lugar de um vegano, torna-se incomodativo saborear o vinho e os seus aromas ao imaginar a escravatura a que são sujeitas as galinhas poedeiras, as vacas leiteiras ou as vidas precocemente interrompidas dos carapaus.

Mas também se torna impossível, e agora regressando ao meu lugar, perceber qual o sentido do vinho sem a carne, os queijos e o peixe.

A boa notícia, é que há cada vez mais agentes para purificar vinhos que não são feitos de proteínas. Em breve, poderemos beber mais vinhos dignos de um vegano ortodoxo (cá está outro pleonasmo), como é o caso do Maximo's 2012, que se apresenta como vinho vegano.

Mas se é para ir por aí, também é tempo de começarmos a separar os vegetais veganos dos outros. É que há muito vegetal que na verdade não é vegetariano, que ainda se alimenta da decomposição de animais. Os desgraçados dos vegetais não podem fugir de cada vez que lhes morre à beira um animal. Por isso, urge criar plantações de vegetais totalmente veganos, em que nem uma formiga põe lá as patas. 

 

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 Foto tirada daqui.



 

28
Fev18

A dieta vegetariana pode provocar um AVC

JP

Mais uma vitória. E das importantes, porque é um estudo muito credível, já que foi realizado por investigadores italianos, que são dos melhores do mundo, na nossa modesta opinião. Estudos sobre comida e bebida têm de ser feitos em países onde exista, de facto, uma tradição gastronómica respeitável e bons vinhos. Nos Chispes, recusamo-nos a ler artigos científicos sobre o que devemos comer ou que nos vai provocar enfartes e cancros vindos de ingleses, noruegueses, russos e, convenhamos, dos alemães. Americanos, depende das origens. Se for um John Silva ou uma Ashley Rodríguez ou um Donald Marchisio, sim senhor, damos o benefício da dúvida. 
Não se iludam, os outros também se estão a borrifar para os nossos bitaites sobre gestão de dívidas públicas, crescimento económico, prevenção de incêndios, tácticas militares ou gestão de resíduos nucleares.
O que interessa é que neste estudo se conclui que uma dieta mediterrânica é tão boa e tão má para o coração como a dieta vegetariana. O que o estudo não diz é qual o impacto destes resultados nos vegetarianos. Eu se passasse um ano a enfardar vegetais e lesse isto, no mínimo, sofria um AVC.

Captura de ecrã 2018-02-28, às 19.49.41.png

Foto tirada daqui