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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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08
Nov17

Receita de Pica no Chão mesmo, mesmo, mesmo bom

JP

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Receita de Pica no chão tradicional, à la fabuloso, com o arroz molhadinho, soltinho, e um frango mesmo caseiro, que é tão bom, mas tão bom, que vais ter sonhos húmidos com ele.

Tempo mínimo de preparação: 48 horas.

 

Dois dias antes, comece por colocar 20 cl de vinho tinto do Douro num copo de balão. Agite em movimentos circulares suaves para libertar aromas. Coloque fatias de queijo em tostas e deguste alternadamente com curtos goles de vinho.

Recoste-se no sofá, incline ligeiramente a cabeça para trás e, com um subtil sorriso, ponha o desejo a marinar, idealizando as peças de frango, escurecidas pelo refugado, mergulhadas no arroz encharcado em sangue. Não salte esta etapa, porque fantasiar previamente com o frango, pelo menos durante 24 horas, é fundamental para apurar todos os sabores no momento da prova.

Pegue no telemóvel e marque 253 647 106, restaurante Adelaide em Vieira do Minho, ou 255 483 416, adega Rita, na Lixa. Em qualquer dos casos, seja educado e transmita confiança. Salpique a conversa com algo do género: “tenho amigos que”, “recomendaram a sua casa”, “não me desiluda”, “sou exigente”, “frango para mim tem de ser caseiro”, “arroz no ponto” e, finalmente, “fica então marcado para tal hora, daqui a 2 dias”.

frango2.jpg

Ainda com o telemóvel na mão, seleccione meticulosamente e reserve 4 amigos(as) para o acompanharem na degustação do frango. Entre muitos outros critérios, tenha atenção a não reunir exclusivamente indivíduos que preferem asas e coxas ou que só gostam das peças carnudas. Evite convidar gente que, quando a panela pousa na mesa, usurpa a carne, adiando o arroz. Os verdadeiros apreciadores deste prato sabem que há uma curta janela temporal, muito estreita, diga-se, para apreciar o arroz em todo o seu esplendor. Para que os amantes se entreguem apaixonadamente ao arroz, não podem estar angustiados com a possibilidade de um ou dois estupores à mesa limparem as melhores peças de carne. Vivemos num estado de direito, não estamos numa favela no Brasil, num acampamento do Daesh ou em Juarez. Todos os cidadãos têm o direito a degustar as suas refeições ao ritmo que mais prazer lhes dá e pela sequência que bem entenderem, independentemente da sua raça, nacionalidade ou religião, não podendo ser submetido a qualquer tipo de tortura física ou psicológica.

Finalmente, na altura de servir, sente-se à mesa na hora marcada, acompanhando o pica preferencialmente com um vinho verde tinto.

Todas as refeições com amor são ridículas. Não seriam refeições com amor se não fossem ridículas. Por isso, não tenha problemas em ser lamechas e piroso, tire fotografias para partilhar no instagram e no facebook.

Mas, afinal, só as criaturas que nunca comeram refeições com amor, é que são ridículas. Certo?