Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Já não me lembro de quando comi o primeiro bolinho de bacalhau. Ele estava nos aniversários, nos natais, nas festas da guarda fiscal, nos dias especiais, nos passeios de escola e em qualquer convívio. Para mim, o bolinho brilhava no centro da mesa mais do que as outras entradas, os enchidos, o prato principal, os doces e até mais do que as outras crianças.

O bolinho de bacalhau tem um efeito instintivo em mim, provoca uma reacção química e biológica, um cio gastronómico, sobre o qual não tenho qualquer tipo de controlo. Sei que nessas alturas de cio tenho uma absoluta e descontrolada atracção por bolinhos de bacalhau.

O cio acontece sempre que vejo um prato de bolinhos no centro da mesa. Não interessa se a seguir vem cabrito, bacalhau ou cozido, não interessa as companhias, eu simplesmente deixo de conseguir estruturar um pensamento lógico. Tento abstrair-me, contar objectos, beliscar-me nas pernas, falar de futebol, mas irremediavelmente vou tentar sacar o máximo de bolinhos que puder, muitas vezes transpondo os limites do bom senso e da educação.

A minha paixão por bolinhos é tão primordial que só posso considerar que venha inscrita no meu ADN. Há por lá uma molécula com a gravação: este indivíduo adora bolinhos de bacalhau, ele pode não o saber, mas sob várias ameaças à sua integridade, e num contexto muito específico, ele aceitaria ser sodomizado em troca do último cesto carregadinho de bolinhos de bacalhau feitos pela avozinha.

bb.jpg

Só muito raramente encontro bons bolinhos de bacalhau e fico realmente ofendido quando em alguns tascos servem pasta de batata ensopada com água de bacalhau. Disparam-me os níveis de indignação como à malta que se revolta quando vê um cão a ser maltratado. Apetece-me que os responsáveis sejam condenados a coimas obscenas, apontados na praça pública, humilhados nas redes sociais. Sim, eu estaria lá a comentar, a partilhar postas infectadas de indignação. Deviam-te fazer o mesmo a ti, cabrão.

O desprezo que certos indivíduos guardam para o bolinho diz muito sobre estes seres humanos. Não se pode confiar num tasqueiro que tem coragem de apresentar ao público um bolinho de bacalhau contrafeito. Só pode querer dizer que a infância foi problemática e quando digo problemática, quero dizer patologicamente problemática. Sim, quase todos a tivemos, ou não fossemos na grande maioria filhos de pais portugueses, mas no meio disto, nunca ter provado um bom bolinho de bacalhau, faz disparar o sinal de alerta em qualquer consultório de psiquiatria.

Na infância nunca provaste um bolinho recheado de bacalhau, estaladiço por fora, cremoso por dentro (sim, roubei de um banal anúncio de gelados, que provavelmente se inspirou naquilo que todos sabíamos sobre o bolinho de bacalhau), com um travo do azeite, salpicado de salsa? Isso é descobrir num tasqueiro uma infância negra, como se algum adulto lhe tivesse andado a mexer na pilinha, o que só pode descrever um presente de despeito, ódio pelos seres humanos, desconforto, a massa e o molho com que se fazem os psicopatas da restauração nacional.

Não duvidem, na restauração concentra-se a grande maioria dos psicopatas portugueses.

O grosso destes desequilibrados, em vez de acumular cadáveres, como o fazem muitos dos seus congéneres norte-americanos, obtém prazer com a tortura lenta, prefere promover mortes demoradas, destruir palatos, arruinar gargantas, chafurdar estômagos, envenenar fígados, enterrar memórias (da boa comida), dissimular-se de bons cidadãos e amigos dos seus clientes enquanto os apodrecem lenta e sadicamente. Os mais sofisticados vão acompanhando esse apodrecimento ao longo dos anos.

Estes algozes são muito mais refinados e praticamente impossíveis de identificar e de deter. Ao contrário dos norte-americanos, que raptam, estrangulam ou retalham, e siga para outra, estes psicopatas massacram enormes grupos de vítimas, entupindo-lhes pacientemente as artérias. Não vamos falar dos óleos, neste momento não são para aqui chamados, nem dos líquidos servidos nas diárias feitos de água e pó, fiquemo-nos pelo bolinho de bacalhau. Pois é, sempre que um tasqueiro me serve um bolinho desses eu tenho quase a certeza de identificar um psicopata.

Certo, pode haver outras explicações. O homem talvez não seja um psicopata, pode ser tão só um filho da puta, no melhor dos sentidos da língua portuguesa. O espertalhão que se considera mais inteligente que os outros e que fez as contas para ganhar mais alguns cêntimos por bolinho, confiando que o cliente come tudo o que lhe puserem na pia. Sim, porque ele acredita que os restaurantes só ganham dinheiro se fizerem uma lavagem cerebral aos clientes, por via oral, até os tornarem em sem abrigos da tradição gastronómica, proprietários falidos da imensa riqueza da cozinha nacional.

Este espécime é daqueles para quem só interessa as pessoas do seu sangue, que vivem na mesma habitação e que provavelmente são seus descendentes. Porque há todo um conjunto de familiares que ele não respeita. Este filho da mãe continua a sentir que chegou ao planeta terra sem ter vindo pelas ramificações seminais que unem todos os seres humanos. Não, ele e a família lá de casa estão desligados, sabe-se lá como, dos nabos que os rodeiam.

Há ainda os ignorantes, coitados. Mas coitados, talvez não. Vamos continuar a ser complacentes com a ignorância na restauração nacional? Não sabe, que feche portas, em vez de continuar a contribuir para a extinção dos bolinhos de bacalhau. Ninguém aceita com esta serenidade a ignorância num médico, num mecânico, mas temos de a aceitar no Zé do Tasco. Convenhamos, estes simpáticos indivíduos circulam há anos em sentido contrário, abalroando bons cidadãos e famílias inteiras nas suas viagens de regresso à boa comida portuguesa.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Arquivo

  1. 2017
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2016
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2015
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2014
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2013
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2012
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2011
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ
  92. 2010
  93. JAN
  94. FEV
  95. MAR
  96. ABR
  97. MAI
  98. JUN
  99. JUL
  100. AGO
  101. SET
  102. OUT
  103. NOV
  104. DEZ
  105. 2009
  106. JAN
  107. FEV
  108. MAR
  109. ABR
  110. MAI
  111. JUN
  112. JUL
  113. AGO
  114. SET
  115. OUT
  116. NOV
  117. DEZ
  118. 2008
  119. JAN
  120. FEV
  121. MAR
  122. ABR
  123. MAI
  124. JUN
  125. JUL
  126. AGO
  127. SET
  128. OUT
  129. NOV
  130. DEZ