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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

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28
Fev14

Não há relações impossíveis

JP

O butelo é um encontro feliz entre duas personalidades fortes e, aparentemente, inconciliáveis da nossa cozinha: enchidos e ossos. Aquilo que parecia ser uma relação contranatura, um amor proibido, impossível e impensável, revela-se uma vitória sobre o preconceito e a pequenez de certas almas. Depois do Butelo, não há limites para os relacionamentos. Não interessa o que possa separar o Romeu da Julieta, o amor pode acontecer. Uma extremista vegana com um matador de porcos no barroso, uma decoradora de interiores com um Zé das Bifanas, uma terapeuta de spa com o proprietário de uma pocilga, uma feminista com um Quim Barreiros ou um romântico chefe de sala num restaurante com três estrelas michelin e uma vendedora coprófila de farturas. O Butelo é um casamento de sucesso, longo e para durar, que inspirará todos os amantes impossíveis. O Butelo é uma proeza da engenharia culinária: uma bexiga (ou tripa ou estômago) atafulhada da plebe das carnes do porco e de ossos do espinhaço e costela - um chouriço de ossos. Não há criatividade que se compare à dos pobres. Nunca um chef de cozinha conseguirá ter a imaginação que apenas a fome continuada consegue estimular. Um chef de cozinha jamais criaria um butelo; é como um jogador de futebol de topo a olhar para as prostitutas na nacional 3. Não interessa com quantas modelos internacionais já namorou, ali, num colchão de molas por detrás de um arbusto junto à estrada, seria um menino à beira de alguns trolhas e taxistas. A carência desperta a líbido gastronómica, tornando o povo lascivo com quase todas as sobras que apanha. O povo revela-se um autêntico Marquês de Sade a preparar restos de peixe, porcos, vitelas ou pão. Veja-se os casos das tripas, açordas, caldeiradas de peixe ou Butelo.

Fomos provar Butelo a Bragança, ao restaurante D. Roberto, em Gimonde. Um espaço agradável, rústico, com pessoal simpático e atento, onde o porco bísaro é Rei, tanto à mesa como nas paredes. O Butelo revelou-se tão excitante como eu o fantasiava: um tempero forte de pimentão, alho e louro, algo atrevido, convidando a ser comido à mão. As casulas não me entusiasmaram. Mas isso é um pormenor. Posso ser um homem de muitos acompanhamentos, sempre envolvido em casos e aventuras à mesa, mas continuo apaixonado pela boa batata cozida encharcada com azeite transmontano.
Por fim, o Montesinho. Os ares da serra apaziguam-nos, convidam-nos a sentar e a aquecer de dentro para fora. Há belezas gastronómicas que só podem ser observadas e sentidas in loco. O Butelo é uma delas.