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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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16
Dez14

É aqui e mais nada

JP

“Tasca Trancoso” não é apenas o nome de um restaurante na Póvoa de Lanhoso, é uma afirmação contundente e desafiadora, acompanhada de um murro na mesa: é uma tasca e quer que lhe chamem tasca. No nosso país, é uma ousadia. Portugal desde que entrou na UE faz-me lembrar uma vizinha que tinha vergonha que se soubesse na escola que vivia num bairro social. E nem pensar que alguém desconfiasse que a mãe limpava escadas. Em 30 anos perseguimos os bigodes, abolimos a casal de 4 lugares, a porrada nas crianças, as chouriças caseiras, os garrafões passaram à clandestinidade (e a BOX está na moda), toda a gente tem estudos, usam-se luvas nas padarias, já quase ninguém anda de joelhos em Fátima, os restaurantes têm faia nas paredes e casas de banho a cheirar a lavanda e os avôs em vez de trabalharem no campo, estão no centro de dia ou a fazer hidroginástica.

Enquanto a manipulação genética para a melhoria da espécie não avança, a eugenia lexical vai dando grandes passos. Em três décadas quase deixou de haver em Portugal atrasados mentais, mancos, pernetas, moucos, caixas de óculos, vesgos, fanhosos e tascas. Muitos proprietários tremem quando ouvem chamar tasca ao seus espaços, tomam como uma acusação. 

A Tasca Trancoso situa-se numa rua próxima do centro da Póvoa de Lanhoso. No pouco que consigo recordar, a rua é ladeada por um pequeno prédio e algumas moradias recentes. Senti que tinha sido iludido quando saí do carro. Imaginem que vos convidavam para participar numa montaria ao javali no parque da cidade.

É possível que esteja a exagerar, mas quando nos falam de um bom tasco na Póvoa de Lanhoso, a expectativa é alimentada pelo conceito de probabilidade: a Póvoa do Lanhoso tem 134 km2, distribuídos por 22 freguesias, dos quais a freguesia central representa apenas 3,8% da área total. Lembrando que os tascos praticamente foram banidos dos centros urbanos, obviamente eu esperava uma freguesia arrumada no meio dos montes, com acessos irritantemente demorados e um casario em pedra.

Bem, mas saltemos para o interior, porque aqui a estória já é diferente. Houve um claro esforço dos donos em encontrar a identidade rural do espaço. Dois barris à entrada, um balcão amplo, mesas compridas e uma casa de banho que é uma obra prima do revisionismo do estilo tasqueiro clássico.

Aqui e acolá, alguns aspectos abandalharam o conceito, como a divisória transparente para a cozinha, permitindo que os clientes acompanhem todos os passos das cozinheiras. Provavelmente, foi a inspiração para o chef Rui Paula instalar o Big Brother na cozinha do DOC.

O Cabrito era bom, sim senhor. Crestado e macio. Alguém disse que preferia as batatas mais tostadas. A senhora explicou calmamente que tostar mais as batatas iria deixar o cabrito seco. E para mim bastou-me.

Para além da afirmação “Tasca Trancoso”, à porta deste espaço podemos ler outra asserção que se nos entranha como um parafuso: “Cabrito assado em forno a lenha é aqui!”. Uma frase que levanta questões físicas, filosóficas e geométricas.

A questão geométrica é a mais simples, o dono definiu claramente uma recta do substantivo até ao advérbio. Não há caminho mais curto para chegar ao cabrito assado no forno a lenha. Mas o problema geométrico é negado pela impossibilidade física: se é aqui não é ali, um corpo não pode ocupar dois pontos no espaço ao mesmo tempo, logo, não havendo dois pontos, não precisamos da recta.

A nível filosófico, o autor tentou arrumar a velha questão do predicado do cabrito assado. Tal como “O bacalhau é um peixe”, pode-se dizer “cabrito assado no forno a lenha é aqui”. Polémico, sem dúvida.

O preço.

36€ por pessoa. Durante os primeiros segundos de choque, perdi-me a abrir e a fechar as gavetas das minhas memórias, a ver se me tinha esquecido que existia algum guia de tascas michelin.

O que passa pela cabeça de um tasqueiro para considerar que pode cobrar 36€ por pessoa? Um dia destes, só os mais endinheirados vão poder desfrutar de uma boa e autêntica tasca portuguesa, totalmente desenhada por jovens arquitectos, inspirada na ruralidade e em materiais que remetem para a nossa identidade. Os velhinhos vão ser pagos principescamente e disputados pelas principais casas. Um dia destes levam-nos a velhinha de 90 anos que faz o pica no chão no Marques (Póvoa de Lanhoso) para uma tasca cinco estrelas num hotel pestana.

 

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