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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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24
Fev17

Duas escolhas para almoçar que tinham tudo para correr mal e correram

JP

Um estudo recente veio confirmar o que já se suspeitava há anos: as pessoas no momento de escolherem um restaurante comportam-se como retardadas. O que torna interessante este estudo é que os indivíduos testados, quando transitam de uma decisão sobre aplicações financeiras para uma decisão sobre onde ir almoçar, activam a protecção de ecrã e entram em modo de poupança de energia. O cérebro fica em escuridão quase total, vislumbrando-se apenas uma luz de presença lá pelo bolbo raquidiano.

Este estudo foi realizado por mim, durante dois anos, e culminou num fim-de-semana desastroso, com duas incompreensíveis escolhas para almoçar: o Costa do Vez e a Senhora Peliteiro.

 

 cabrito-assado-no-forno.jpg

https://www.tripadvisor.com.br/


No sábado, o primeiro sinal de perigo que ignorei, à capitão do Costa Concórdia, foi que estava absolutamente excitado com cabrito, delirando com imagens da “foda à Monção”, do pingado ou estonado. Como se fortemente perturbado pela figura da Mónica Bellucci, fosse procurar satisfação nas páginas de relax do JN. Convenhamos que é mais fácil pescar bacalhau no rio Douro. Na melhor das hipóteses, se a inquietação for muita, pode-se tentar uma aproximação com uma transexual inchada.

A vida já me ensinou que não se deve ir a um restaurante para satisfazer uma fantasia do ideal de perfeição, o ícone do cabrito, um gastro-símbolo e não o cabrito em si. Isso é desejar o desejo, é assegurar a insatisfação permanente.

O segundo sinal de perigo que ignorei, com a inconsciência do bambi a passear numa reserva de caça, foi ao consultar o site do Costa. Tenho por princípio duvidar de restaurantes que apresentam fotografias dos pratos. O Costa apresenta, revelando um totalitarismo gastronómico que ofende aqueles que acreditam que cada cabrito é um cabrito.

Guardo uma fotografia da Scarlett Johanssen na carteira como símbolo da mulher e eu casei-me com uma mulher, logo, é uma fotografia para me recordar todos os dias da minha esposa. O pior do platonismo do Costa, é que a imagem que ele tem do ideal já está um poucochinho corrompida.

Finalmente, o último sinal de perigo que ignorei como um banhista daltónico na Nazaré depois de comer uma feijoada, foi que das oito imagens de pratos apresentadas no site, nenhuma é de cabrito.

Resultado: uma travessa de cabrito de peles amolecidas, os poucos ossos embrulhados em altas camadas de carne e um tempero pós-troika.

No domingo, optei pela Senhora Peliteiro: restaurante e atelier gastronómico. Não entendo porque é que os restaurantes não são apenas isso, restaurantes, e a cozinha deixou de ser um exclusivo dos cozinheiros e agora alberga por lá designers, artistas plásticos, arquitectos e artesãos. Bauhaus de sabores regionais ou Factory das tabernas. Não faltará muito para irmos a centros de arte gastronómica contemporânea fotografar comida empratada. No caso da Senhora Peliteiro, face à dimensão exígua das doses, ainda pensei que tivessem trazido a amostra para adiantarmos trabalho, tirando a foto para o facebook, e depois viria a travessa. Enganei-me.

polvo.jpg

https://www.thefork.pt/restaurante/sra-peliteiro/64792

(Boa ideia para restaurantes: criar um espaço intermédio, com pratos em exposição, talheres para picar, copos de vinho, telas verdes, ”tire aqui a foto para o seu facebook e instagram”).

Restaurantes que promovem criatividade assente em combinação de dois pratos, se possível de dois países diferentes, tem tudo para me desiludir.

O Polvo estava bom, mas o do Jardim, em Famalicão, é bem melhor. A moqueca, pouco interessante. Um panado para uma criança de 5 anos carregado de pimenta. A conta implacável e imune a qualquer reclamação e ao bom senso. Conclusão: fomos comer dois pregos a Mindelo, que, diga-se, também estavam uns furos abaixo do habitual.

(Sugestão para designers gastronómicos: “bacalhau com desconhecidos”, uma espécie de curry de bacalhau, acompanhado de arroz basmati).