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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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28
Nov16

Adega do Espeta I - A utilidade do amor

JP

As grandes histórias de amor são feitas de pares improváveis que nos fazem acreditar numa força insubmissa e gravítica capaz de juntar Romeu e Julieta, Florentino e Fermina, Rick e Ilsa ou o casal Espeta.

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Em qualquer ida ao Espeta, arrastado pelas correntes turvas e manhosas dos grupos, descubro-me um lamechas, que entra em ebulição quando se aproxima de uma bela história de amor.

Ela, uma cozinheira inspirada, dominatrix de temperos e sabores tradicionais, e ele um homem de balcão como já se fazem poucos. No Espeta, o cliente é abençoado pelo maior fruto dessa relação. Meus caros, no mercado actual, globalizado, e onde já passamos o ponto de não retorno do aquecimento provocado pelo excesso de emissões de amor romântico, é uma experiência raríssima.

O utilitarismo foi mandado para a clandestinidade nas relações afectivas pela jiade do politicamente correcto. Neste estado policial da afectividade, os vigilantes estão atentos ao normal funcionamento do amor tonto, só admitindo as bajoujices costumeiras - emoções, paixões, atracções, sensações e até o ai que é tão complicado. Uma imensa espiral de egocentrismo num pântano de sensibilidades cujo fim poderia abalar mais a economia mundial do que uma definitiva seca de petróleo

Conceitos como funcionalidade, bem comum, utilidade, desempenho ou produtividade numa relação amorosa são apenas permitidos como figuras de estilo.
Eu acredito no amor utilitário e funcional. Imagino uma arquitecta a desejar homens másculos, inteligentes, decididos, mas obrigatoriamente empreiteiros. Um jovem webdesigner aceita blind dates com gajas divertidas, de grandes mamas, mas imprescindivelmente programadoras, preferencialmente PHP, javascript e python. Um amor que produzirá páginas web espectaculares. Um endireita juntar-se-ia a uma massagista especializada em finais felizes, é difícil conceber a perfeição e a completude do tratamento que proporcionariam aos seus clientes. Um viticultor pode gostar de mulheres loiras ou morenas, de anca mais ou menos larga, e até adepta de bondage, mas indiscutivelmente enóloga.

Uma gestora financeira e um traficante de droga ou uma advogada e um presidente de câmara são combinações quase perfeitas, parecem saídas de uma norma ISO, mas subsiste aquele ligeiro ruído do egoísmo, cagam-se para o maior valor ético do utilitarismo, o bem comum.

A improbabilidade de uma combinação verdadeiramente útil é assustadora. Por cada milhão de conjugações insípidas, lamentáveis, estéreis ou alienadas, aparece uma à la Espeta. Percebe-se a fragilidade deste mundo construído em cima de fenómenos físicos e químicos, a que chamamos, entre outras coisas, amor, que suspeito seja um espaço quântico sem lei nem roque, uma dimensão digna do Mad Max ou de uma cidade controlada pelo Estado Islâmico. É nisso que penso, quando o Espeta traz mais uma garrafa e umas pataniscas. Se calha de o homem se ter enamorado por uma cantora popular, uma empresária têxtil, uma obsessiva-compulsiva, uma alérgica a alho, uma vegetariana, uma anorética, uma feminista, uma culturista ou a espetinha perder-se de amores por um empreiteiro, um condutor de pesados ou um panasca éramos imediatamente chupados por uma palhinha electromagnética, enfiada numa curva espaciotemporal, e cuspidos num miserável tasco, com petingas amolecidas, codornizes aquecidas em óleo e vinho duvidoso.

Imagem: http://www.visitepontedelima.pt/pt/turismo/adega-do-espeta/