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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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02
Fev17

A tragédia dos falsos magros

JP

Na semana passada, dei por mim a lutar contra a tendência global de destruição de emprego com a descoberta de uma nova profissão: o coach alimentar. Pensava eu que tinha sido atingido por uma ideia excepcional, capaz de criar mais 2 mil postos de trabalho e, inevitavelmente, obrigado a passar os próximos meses a fazer a peregrinação pelos telejornais e talk shows da tv nacional, a ser recebido pelo primeiro-ministro, que me convidaria para gerir um instituto ou observatório nacional, e a receber a medalhinha com direito a selfie no 10 de Junho, quando, ao fazer “siga” no google, descubro que o nutricoach já existe. É que nem como piada a ideia iria servir, revelando uma estranha convergência entre o que eu acho ser piada e a realidade.

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Claro que o nutricoaching é totalmente orientado para a perda de peso e a busca do equilíbrio. Cartões de orgulho, terapias motivacionais, definição de metas e, fundamentalmente, a visão holística do indivíduo e a sua fome emocional. Eu estava mais numa de um coach que ajudasse espiritual e motivacionalmente a escolher restaurantes.

A propaganda do nutricoaching não é muito diferente da utilizada pelas religiões ou pelos estados totalitários para a criação de uma população mais pura e higiénica. Reeducação, novos hábitos, práticas erradas, equilíbrio, ajuda e mudança.

Para quem acha que não precisa de ser reeducado, eu lembro que no mundo há gordos, magros e falsos magros. Ah pois é! Não acreditam? Perguntem ao google e descobrirão que afinal o mundo está infestado de gordos. Foi como se um nutricoach me tivesse oferecido os óculos escuros do “Eles vivem”, do Carpenter.

E este falso não se refere aos cínicos que escondem barrigas com cintas ou com uma roupa uns números acima. Falso magro é a realidade a gozar com a malta. É um médico dizer “não é maligno, só não sabemos se é um falso benigno”. Por isso, e até prova em contrário, todos os portadores de quistos são doentes oncológicos.

Com os falsos magros conseguiu-se aumentar o número de gordos exponencialmente, talvez só deixando de fora uma pequena parte da população africana. A tragédia da falsa magreza é um drama profundo que só com muito bom senso não se tornará num problema de saúde à escala global, na próxima epidemia do século.

O gordo é fácil de apanhar, exibe o pecado. Por isso era preciso continuar a apertar a rede. Não basta não matar nem roubar para chegar ao céu. E pensamentos impuros, seu malandro? Ai não tens? E dares a outra face? E orares a nosso senhor todos os dias? A rede foi apertando até se conseguir apanhar os pecadores em estado larvar.

Não nos devemos surpreender se, em breve, aparecerem os falsos musculados, talvez o estímulo que faltava para eu voltar aos ginásios, só para me rir. Nem se a OMS vier a considerar a falta de obsessão pelo peso e alimentação saudável um distúrbio nervoso.

Tudo isto me parece fazer sentido. Depois do fracasso de séculos dos que procuraram o aperfeiçoamento do ser humano pelo espírito, há que apostar no corpo. A ideia é que recuperando o corpo, recauchutar-se-á o espírito. Se tiver uma pele excelente, um fígado a sair de fábrica, o colesterol controlado, as veias rijas como um pêro, uns abdominais empacotadinhos, certamente será uma pessoa melhor. O mais provável é que não seja um filho da mãe. É óbvio que não existem banqueiros corruptos com IMC inferior a 25. E assassinos vegetarianos? Haverá um adepto das dietas detox, que apresente as análises do sangue impecáveis, e seja pedófilo?

É desta perspectiva que se vê toda a dimensão da tragédia dos falsos magros: eles parecem boas pessoas, mas bem lá no fundo, pelo menos depois de conversarem com um nutricoach, eles sabem que são meninos maus.

Foto tirada daqui: http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=129940&picture=fat-man