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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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05
Dez17

A deslocalização dos portuenses

JP

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A proposta de transferência do Infarmed para o Porto deve ter gerado mais excitação no pessoal das francesinhas, steakhouses, winehouses, restaurants ou bistrôs do que a fantasia da Mónica Bellucci a atravessar, todas as madrugadas, túneis pedonais da cidade provocaria em muitos homens. Uma imagem muito reprovável, diga-se, mas que lamentavelmente entusiasma um número significativo de indivíduos com uma moral já desgastada pelo uso. Shame on you!

Quanto à restauração, compreende-se: cerca de 350 novos potenciais clientes com salários acima da média, longe de casa, e quem sabe com algumas famílias nas bagagens.

Imagina-se o que já terá sido gasto em estudos prévios e a correria de designers, chefs, marketeers, investigadores para criar mais tradições autênticas, momentos, experiências, conceitos, selecções, harmonizações, texturas, crocâncias e até novas interpretações.

Claro que o Infarmed não compensa os 900 trabalhadores, mais famílias, e 700 visitantes semanais que a agência europeia do medicamento iria trazer. O Porto seria a nova meca da restauração. Com eles, chegariam ao Porto toneladas de vitela, porco, galinha, pato, robalo, bacalhau e batata, provavelmente um vinhoduto directamente do Douro, e multidões de jovens aspirantes a chefs, chefes de sala, gestores, barmen, gin specialists, sommeliers, recepcionistas e pianistas.

Caso se tivesse concretizado, o Porto iria necessitar de reforçar todo o seu sistema de tratamento de águas residuais.

Infelizmente, não veio a EMA e do Infarmed chegarão ao Porto alguns secretários e um porteiro. Mais três ou quatro francesinhas vendidas por mês.

Contudo, não se percebe o entusiasmo saloio desta gente no Porto pela vinda do Infarmed. Ia ser a maior invasão de trabalhadores amuados desde os nossos saudosos tempos do degredo. Esta gente iria criar muito mau ambiente no Porto, sempre mal encarada e a pedir livros de reclamação. Não se iludam, para esta malta, sair de Lisboa é partir para o desterro. Alguns fariam greve de fome, outros enfiavam-se em botes e remavam a sul, para pedir estatuto de refugiado e asilo em Lisboa, e outros fariam queixa no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

O Porto sempre pareceu uma cidade suficientemente orgulhosa para não se contentar em ser uma cidade-prisão, um tarrafal para os deslocalizados da função pública, mesmo que tragam carteiras recheadas.

Mas há sinais deprimentes de que o Porto está a mudar. Comida sem alma, espaços pretensiosos, falta de memória e muito poucos resistentes, mostram-nos que são agora os portuenses, e a gentes da região, que vão ter de se deslocalizar para poderem comer bem.

Se é para descentralizar, levem a Torre de Belém para a Foz do Douro. Por 10 ou 20 milhões faz-se bem o transplante. Os turistas visitam em Lisboa os Jerónimos e no Porto a Torre. E é se querem.

Os restos mortais da irmã Lúcia deviam estar 6 meses por ano na Igreja de São Francisco.

E o Parlamento devia ser ambulante. E todos os cidadãos da capital, com um rendimento bruto de no mínimo 1500 €, deviam ser obrigados a fazer anualmente duas refeições em restaurantes do norte.