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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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07
Out08

Estabilidade gastronómica nacional

JP

Acordei com a chuva a despenhar-se na janela e as notícias de mais uma queda nas bolsas. Crise e chuva são uma combinação agridoce. Resulta. Apetece ficar na cama. Umas torradas de pão saloio besuntadas com mel e manteiga. Um café, um sumo de laranja natural e mais um pouco de pão com uma fatia de fiambre e queijo amanteigado.

Mas a crise deixa-me inquieto. Penso nos trocos que fui depositando no banco, por onde raio andarão eles? Devia ser possível acompanhá-los por GPS.

Para afrouxar os mais impetuosos, o governo já veio garantir os depósitos bancários. Mas no meio deste espectáculo todo, ainda não ouvi uma única palavra sobre outras garantias fundamentais. Não há coragem política, da direita à esquerda, para tornar público que ninguém nos assegura, se a crise se agudizar, a estabilidade gastronómica nacional.

Perante uma implosão económica, o bacalhau com broa constitui um case-study. O combustível ficaria demasiado caro para ir buscar o bacalhau, falta de crédito para investir e cereais ao preço do ouro a extorquir-nos a broa e o azeite. O bacalhau com broa simplesmente desapareceria.

Não sejamos inocentes, o impacto gastronómico da administração bushiana e da multidão de vermes do sistema financeiro é ainda difícil de calcular. Todos andam preocupados com as contas bancárias e com as casas, mas será à mesa que se farão sentir as consequências mais dramáticas. O aumento de preço dos cereais terá como primeiras baixas a açorda e as migas e só depois as torradas e as baguetes, com impactos catastróficos nos pratos de coentradas com pãosinho frito. Nos próximos meses poderemos assistir ainda à destruição do habitat natural do marisco e da lampreia, que terão de aprender a sobreviver nas panelas sem o arroz.

E recuso-me a reflectir sobre o azeite?

Quero ouvir o nosso governo a assumir publicamente que garantirá as necessidades diárias de bacalhau assado no forno ou de cebolada, do polvo cozido e panado, isto para não atafulhar parágrafos de outros exemplos dramáticos.

Estamos a viver tempos incertos. Provavelmente, o mundo tal como o conheciamos terá acabado. Mas há que acreditar no engenho humano. Foram tempos difíceis e de escassez que nos deram as tripas à moda do Porto; foi a fome que nos levou a tirar as batatas aos porcos para as comermos nós e veja-se com que resultados. Não podemos esmorecer, esta nova Era certamente que nos reserva mais e entusiasmantes propostas gastrómicas. Mal posso esperar.

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