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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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24
Set08

Menú de uma Despedida de Solteiro

JP

A designação Despedida de Solteiro gera-me um certo incómodo. Sempre me pareceu que as actividades mais populares de uma despedida não são propriamente um Adeus à vida de Solteiro mas sim um Olá à vida de casado. Talvez se devesse chamar: recepção ao casado.
Na minha modesta opinião, não há muitos solteiros que levem uma vida de regabofe e orgias – poucos frequentam as casas de diversão sócio-recreativas. Então porque raio é que as despedidas mais comuns se fazem com mamalhudas desgovernadas? Provavelmente, para lembrar ao desgraçado o que vai perder. Mas quando estão em plena despedida, a maioria dos homens pensa que se não fosse o casamento não estaria naquele momento com a referida mamalhuda. Aliás, provavelmente até é a primeira mamalhuda saltitante com que esbarram na vida.
Isto a propósito da despedida de solteiro do Marco, um dos mentores deste blog. Antes de mais, quero deixar os meus parabéns pela diversão e pelas actividades que organizou. Mas algumas abordagens sérias e polémicas são inevitáveis.
A despedida foi tão bem pensada que tivemos um autocarro para nos transportar de Braga a Espanha para uma actividade de canoagem. De Braga saíram 24 homens com os rostos cheios de alegria, luz, plenos de esperança, ilusões e boa fé. Mas, de súbito, demos por nós numa situação inexplicável. Está certo que tínhamos de mudar a roupa, mas o Marco conseguiu pôr 24 homens nus dentro de um autocarro. Não digo 25 porque, no meio daquela invasão de rabos, músculos e pêlos, não me atrevi a verificar se o motorista também se tinha despido.
Em estado de choque, todos pensamos: o que é que o Marco acha que deve ser uma despedida de solteiro? Homens nus a brincarem na água, a rebolarem e a saltitarem na areia?
Bem, a coisa lá se compôs e embarcamos nas canoas pelo rio abaixo (todos de calções, exceptuando o organizador que curiosamente se esqueceu dos calções e levou uns shorts excessivamente justos, que deixou todo o grupo constrangido).
A segunda análise parece-me óbvia. O organizador quis fechar a porta a outras actividades. Como se faz aos cavalos: cansá-los para eles não se excederem. Vários quilómetros a remar por um rio quase inanimado. Jogo de futebol na areia. Mergulhos. Viagem de regresso a Ponte de Lima e arroz de sarrabulho. O grupo ficou exausto.
O restaurante, A Alameda, mesmo no centro de Ponte de Lima, no meio das festas Feiras Novas, abriu expressamente as portas para receber o grupo. Das entradas pouco há a dizer, mas para o sarrabulho tenho pelo menos 7 linhas reservadas. Rojões macios e imponentes, que pareciam derreter na boca (desfazem-se na boca e não no garfo); tripas tostadas que não ofereciam resistência ao dente; sangue e fígado abundante, mas não dominante; chouriça de sangue, uma excelente surpresa que não precisa de avisar para aparecer. E o convidado especial: o arroz, escuro, solto, abastado em carnes desfiadas e com um tempero elegante mas típico. Tudo isto acompanhado com uma porrada de garrafas de verde tinto da zona.
Excelente. Gastronomicamente falando, sim, para uma despedida de solteiro, um desastre. No final, ouvia-se aqui e ali alguém a dizer: vamos ao Peñador… vamos à Cairense. Propostas bonitas, sem dúvida, mas pouco assertivas. É óbvio que sarrabulho e rojões não são a melhor entrada para uma noite de desvario em casas de animação nocturnas.
A verdade é para ser dita: o autocarro chegou a Braga a horas perfeitamente decentes com cerca de 20 homens a dormir.
Urge aprender a combinar a gastronomia com a disposição mental pretendida. Queremos homens agitados, de reacção fácil, obviamente uma mariscada.
Meias doses individuais conduzem o homem para a reflexão e introspecção: “é pouco, chega, se calhar é melhor pedir outra, a daquele gajo tem mais do que a minha, vou ficar com fome”.
Se queremos homens rebeldes, irritadiços e descontrolados proponho comida vegetariana. Se pretendemos homens melosos, suavizamos a luz da sala, um som de piano e arranca-se logo com uma entrada de ovos mexidos com espargos verdes e míscaros.
Queremos homens caseiros e ansiosos pelo aconchego do lar, para soltar uns arrotos e uns gases na companhia da única que pessoa que, apesar das queixas, compreenderá, a namorada ou esposa? Neste caso, as sugestões são óbvias: cozido, feijoada ou SARRABULHO.
Isto devia ser ensinado nas escolas.

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