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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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04
Out12

A luta também se faz à mesa

JP

Na minha teoria de evolucionismo degustativo, a crise vai aniquilar os maus restaurantes, os falsos vinhos e as mais ameaçadoras ideias gastronómicas e, depois do armagedão económico, erguer-se-ão apenas os bons, excelentes, fabulosos e inesquecíveis. A minha teoria prevê, contudo, que o azar ou as imponderabilidades podem tramar o melhor. Sou um optimista cauteloso. Ainda no outro dia estava a ver uma luta entre dois leões machos e até se me pareceu estabelecer-se uma relação simbólica com a nossa realidade actual. De um lado, o macho trabalhador dominante, do outro, um convencido e hormonalmente instável, que não sabe nada do que custa a vida. Em causa estava tudo e não ficava nada de fora. Podiam estar a lutar por um mal entendido, um rugido exagerado, um diz que disse, a posse de uma carcaça. Não, o vencedor ficava com vinte fêmeas, o território e a descendência, ao perdedor sobrava-lhe a hipóteses de fugir e se possível com ferimentos ligeiros, nem a fêmea mais velha, empenada e acabadita do grupo poderia levar consigo.

Eu torço sempre pelo dominante, que carinhosamente chamei de JP. O JP lutou com destreza e coragem, por várias vezes teve sérias hipóteses de vencer, mas acabou por surpreendentemente se afastar. Estou certo que ele apoiou mal uma das patas traseiras num momento estratégico da luta, uma pedra traiçoeira terá escapado provocando um desequilíbrio momentâneo e fatal. Num só tropeço, o JP perde todas as leoas que andava a comer há mais de dois anos e provavelmente o seu lugar na ordem natural. Infelizmente, não era eu quem estava a filmar, pois teria impedido esta injustiça com um ou dois tiros e, no mínimo, suspendia a luta antes do final, o que até novo confronto deixava tudo como estava antes.

Foi ali, com o meu copo de uísquie na mão, emocionado, a ver o pobre JP a perder a sua vida de uma forma naturalmente injusta, que eu tive a minha última epifania. É nos tempos de crise que os verdadeiros homens se assumem, como o Schindler, durante a solução final nazi, ou o Rambo que, embora quisesse descansar e reflectir no Tibete, foi ao Afeganistão dar cabo dos russos, quando o Coronel Trautman, o homem que o formou, foi capturado pelos soviéticos.

Na minha relação com os restaurantes não vou facilitar e quero estar lá para evitar que vinguem os mais fracos. Eu vou dizer sim à luta, de faca e garfo na mão. Um dia far-se-á um filme sobre a minha vida e muitos descobrirão o homem que na grande crise 2009-2063 ajudou a salvar os bons restaurantes e a abater os maus. Contar-se-á histórias dos meus grandes feitos à mesa, em como comi duas postas e bebi três garrafas de vinho ao jantar e no dia seguinte, logo ao meio-dia, já estava a malhar um bacalhau assado a mais de 25 quilómetros de distância. Em como salvei várias famílias de fecharem as portas dos seus tascos, a comer feijoadas, pica no chão ou polvo assado.

Porque quem nestes tempos ficar em casa, demitindo-se, por cobardia, de assumir uma posição, não pense que terá as mãos limpas quando um bom restaurante fechar. Serei eu a acusar: onde estiveste tu quando o “miranda” mais precisou? Uma lição que guardo ainda do caso “Adão e Eva”. Diz-se por aí que o homem foi-nos levado por uma enchurrada de dívidas. Ainda hoje me pergunto o que fiz eu para impedir esta situação? Talvez se eu tivesse lá ido mais duas a três vezes por mês, quem sabe? Talvez se tivesse organizado alguns jantares de grupo? Talvez um ou dois aniversários?

Todos nós seremos responsáveis por cada bom tasco que desapareça nesta crise. Eu não vou ficar em casa! Por isso, proponho uma manifestação todas as semanas. Quem puder, várias vezes por semana. Apareçam nos bons tascos, comam e bebam bem! É a luta que chama por nós. Se nada fizermos, teremos os nossos melhores tascos a partir para França, Suiça, Austrália e até para o Brasil. Portugal sem jovens, fica apenas mais velho. Mas como assegurar uma boa velhice, com a dignidade merecida, sem os nossos santuários de boa comida?