Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

02
Ago08

O Polvo da A Venida

José Manuel

Eis-nos uma vez mais sentados.
A viagem, atribulada quanto baste porque um indivíduo se esqueceu das preciosas indicações que lhe tinham sido transmitidas, acabou bem, ou seja, no parque nas traseiras do restaurante onde, na parede se encontra a pérola que está na foto.
Muito se podia aqui discutir sobre a métrica, a ortografia, até mesmo sobre a semântica da coisa, mas meus amigos, não vale a pena. Tudo se resume a uma questão de estética, sim, de estética, porque se repararem, se o estupor do A, que supostamente deveria estar no início da palavra, estivesse de facto no início da palavra…deixava de existir o rectângulo formado pelos azulejos! E formar-se-ia uma qualquer figura geométrica anormal que faria confusão nas cabeças dos clientes, sim, porque o que interessa aqui é a figura geométrica. Se a frase faz ou não sentido não interessa, pois normalmente só nos apercebemos da coisa à entrada… porque à saída meus amigos, a história é outra.
Mas vamos ao que interessa, no Café A VENIDA come-se polvo panado com arroz de feijão e couve que é uma coisa estrondosamente boa.
Era esse afinal o objectivo do périplo.
O atendimento, atencioso quanto baste, mas nem mais um bocadinho.
Começam a chegar as entradas e saem logo dois generosos pratos de presunto que diga-se, estava bem tratado, cortado fino e seco, aprecio-o assim.
No minuto seguinte, dois pratos, atenção pratos e não pires, de moelas fumegantes, e que boas estavam, de tal maneira que literalmente, evaporaram, e aqui começam novamente as apostas se era desta que o Eurico saia do restaurante com a sua camisa de linho imaculadamente branca, carregada de pintas e manchas, qual criança carregada de sarampo e rubéola, ao mesmo tempo.
Acabaram a moelas e era vê-lo a molhar o pão no (pouco) molho que ficou no prato, e nós à espera de uma mancha na camisa.
Nova dúvida. O vinho. As questões do costume, se maduro se verde etc, etc, decidimo-nos (e bem) pelo verde tinto da casa, que chegou em duas canecas, daquelas à moda antiga de barro, brancas com riscas verticais vermelhas. O vinho era aquilo a que chamámos um tinto carrascão, potente na entrada, bem encorpado, com um final agradável onde se descobria um sabor a uva, coisa que já vai sendo rara neste tipo de vinho. As tigelas, a condizer com tudo o resto.
O arroz chega à mesa e não há cá histórias com travessinhas ou coisas do género, no meio da mesa é colocado um tacho que mais parecia o caldeirão do Asterix.
Carregado de feijão, couves, repolho e até pimento (estas foram as que identifiquei, pode haver outras), o arroz apresentava-se solto, e rijinho, como pede um arroz fresco, de tez castanha, bem puxado, enfim, muito saboroso. No enfiamento surgem duas travessas com pedaços de polvo alourados e foi vê-los quase a salivar. Na primeira aproximação ao dito cujo, vai de espetar o garfo e primeira constatação: o bicho está tenrinho; vai de introduzir na cavidade bocal e, segunda constatação: o bicho está saboroso, daqui para a frente de certeza que se constataram mais coisas, mas ninguém disse nada pois estavam demasiado ocupados a comer.
E as canecas de vinho a rolar.
No fim do repasto, deixámo-nos ficar, o espaço é reservado e não é desagradável, o vinho também estava bom, de tal maneira que, imagine-se, discutiu-se poesia, de Mário Sá Carneiro a António Nobre, de Camões a César Araújo (este provavelmente não conhecem, estava sentado à mesa).
As sobremesas não são nada de especial, o queijo com marmelada da praxe e mais uma ou duas canecas de vinho.
Fica o registo, vale bem a deslocação a Vila Verde.

1 comentário

Comentar post