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Eu acho que todos os seres humanos se dividem essencialmente em dois géneros: os que preferem doces e os que não resistem ao sal. Como é que se descobre que tipo de ser humano temos à frente? Quando o observamos encostado a um balcão de uma pastelaria: uns pedem sistematicamente panikes de ovo, éclairs, bolas de berlim, mil-folhas ou pastéis de nata e os restantes desejam lanches, empadinhas de frango, bolos de carne ou pastéis de chaves. Eu pertenço claramente a este último grupo.

Neste mundo bipartido faz-me muita confusão as guerras e os conflitos étnicos a que temos assistido. Eu quero lá saber se a minha terra vai ser ocupada por muçulmanos, fascistas, benfiquistas ou espanhóis. Eu quero é saber de que lado estão os fanáticos por doces. Para saber onde tenho de ir colocar as bombas.
O grande drama dos amantes de salgados é que somos discriminados em quase todas as pastelarias deste país. Somos cidadãos de segunda, como se a nossa inclinação fosse contra-natura. Um sistema de apartheid, em que os amantes de doces têm direito a prateleiras vistosas e amplas, enquanto as massas com carne ficam remetidas para espaços acanhados. É frequente vermos por traz dos vidros taças carregadas de doçarias e a um canto dois raquíticos e secos pastéis de carne. Por vezes, já encostados às latas de sumol. Ainda por cima, sem qualquer respeito pela dignidade dos salgados, chegam-nos às mãos sujos com açúcar branco ou cremes amarelados.
Mas se bem conheço os meus irmãos, este enorme grupo de vários milhões de seres humanos a que pertenço, não posso acreditar na mudança. Nós, os apaixonados por salgados, estamos acomodados e não temos coragem para nos erguer contra este sistema opressor. Eu sou o primeiro a acusar a nossa raça de conformismo e cobardia. Enquanto isso, os dos doces vivem num mundo de privilégios, onde o acesso aos seus prazeres é facilitado e não têm de vasculhar prateleiras inteiras para encontrar um pastel decente.
E esta vergonha que sinto faz-me desejar que se um dia tiver filhos, eles pertençam à raça dos que preferem doces.

Mas há excepções. Há uns anos descobri a "Flor da Venezuela", em Braga. Cedo se tornou num espaço de tolerância e convívio são entre os dos doces e nós. Uma pastelaria para os abolicionistas.  Apaixonei-me pelas empadinhas de frango e diariamente lanchava duas. Uma massa folhada macia a cobrir pedaços de frango embebidos no molho em que foram estufados. Com as mudanças de casa e de emprego acabei por lhe perder o hábito. Os anos passaram e a pressão social leva-nos a tentar a aceitação. Dei por mim a tentar negar as minhas raízes, a comer natas e mil-folhas para agradar aos dos doces. Mas não se pode negar a nossa natureza e quem realmente somos. Eu vivo para o sal, eu amo o sal, eu nunca serei dos doces. Nunca!
Os desejos foram aumentando nos últimos anos e já estava farto de ser ludibriado com pastéis de carne e empadinhas falsas (incrível como o governo não se preocupa com este drama e prefere andar a combater residuais falsificações de notas). Voltei à "Flor da Venezuela" e reencontrei as empadinhas tal como as tinha deixado. Deliciosas! Os bolos de carne melhoraram bastante e a oferta criativa na nossa área aumentou bastante.
Um conselho: uma empadinha não deve ser saboreada à saída do forno.  Sou guloso mas estou a aprender a controlar-me. E vale a pena a espera de alguns minutos.

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1 comentário

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De Marco a 09.06.2009 às 18:20

A empada de carne também tem um lugar no meu coração!

Relativamente aos salgados virem polvilhados de açucar, resultante da convivencia com os bolos da vitrine... isso deixa-me completamente alterado.. quando vamos a trincar e em vez do sal, a primeira sensação é de doce... é quase um caso de justiça!!

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