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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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14
Mai09

Um saravá para o ovo

JP

O ovo é um senhor.

O ovo passa quase despercebido no nosso mundo gastronómico, mas tem uma importância tremenda na alimentação diária. O facto de estar presente nos nossos hábitos alimentares é já uma demonstração clara do nosso desejo permanente de atravessar a «last frontier» do universo gastronómico. "Como é que saberá este frango com menos dois meses?... e com apenas 2 dias de vida?... e antes de nascer?" É por isso que o frango é um dos mais infortunados do mundo animal. Conseguiu entrar na nossa cadeia alimentar em todos os estágios do seu desenvolvimento. E nem um frango idoso tem descanso. Se é velho, vai para a canja.

E, como já descobrimos em muitos filmes para adultos, o ovo não é a última fronteira para o ser humano ao nível de experiências de degustação.

Contudo, o ovo nunca conseguiu um papel principal em nenhuma grande produção gastronómica, sempre ficou condenado aos papéis secundários.

Na cabeça de todos, o ovo não tem personalidade nem direitos, no fim de contas ele é apenas o prenúncio do frango ou codorniz, por exemplo. Tornar o ovo o centro das atenções, seria dar uma bofetada nestas aves.

Normalmente, o ovo entra em acção em situações limite, para tornar uma refeição monótona num encontro exótico, intenso e, obviamente, mais emocionante. Ontem, estava eu condenado a uma lata de atum, cebola e salsa. Tudo aquilo parecia-me demasiado "déjà degustado". Eis que me ocorreu a brilhante ideia de meter uns ovos ao barulho. O resultado foi um prato colorido carregado de amarelos dourados, tracejado com tons claros e pontilhado com verdes.

Com o ovo é assim mesmo, não há tabús e é pura emoção. Um arroz branco, toma lá um ovo. Uma desmotivadora posta de pescada cozida, uma banal combinação de fiambre e queijo, uma insípida chouriçada, um presunto já passadote... chamem o ovo! Eu, por exemplo, recuso-me a comer bacalhau cozido com batata e grelos sem o ovo. E faço birra.

Na prática, o ovo é uma espécie "de alimento de programa". É o ovo que chamamos quando precisamos de animação e loucura numa refeição monótona. Chega discreto, não se envolve emocionalmente e, no final, depois do serviço feito, sai sem estrilho.

Falta ainda destacar o enorme papel que o ovo tem em muitas manifestações sociais. Atirar ovos, principalmente aqueles que deixamos uns dias ao sol, a pessoas de quem discordamos é uma tradição cultural. E não é fácil substituir o ovo por outros produtos e conseguir a mesma força na expressão das nossas ideias.

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