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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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27
Abr09

"Uma lady na mesa, uma louca na cama"

JP

Quando penso nas maiores descobertas da história, ocorre-me a inevitável Pasta de Atum. A rainha das entradas, aquela que atrai todas as atenções no centro de qualquer mesa. O que a torna mais atraente é a sua ambiguidade: sensual, mas discreta e recatada. Aquela que parece ser apenas uma interessante e dócil entrada caseira, na intimidade da degustação revela-se excitante e despudoradamente sedutora. Quando damos por ela, o pão já não chega e todos lutam por se lambuzarem com os restos. Sejamos justos, ninguém resiste à pasta de atum.

Normalmente, os comensais vão mantendo a compostura penicando um pouco de manteiga ou acasalando tostas com queijo. Mas com a pasta de atum, todos ficam perturbados e ansiosos. As facas roubam pedaços enormes de pasta; as pontas das unhas aparecem com bocados de atum e cebola; o ritmo aumenta e o pessoal não tem vergonha de ser o primeiro a chegar ao último pedaço de pasta. Nessa altura, ninguém diz: "não deixem sobrar pasta de atum, eu já estou cheio". Não senhor, a pasta de atum é a única que nos faz perder a cabeça, empanturrar-nos de pão mesmo sabendo que a seguir vem uma pratada de bacalhau assado.


A pasta de atum é a «outra» na vida de qualquer bom comedor. Não é a entrada favorita de ninguém, mas qualquer um de nós trai a sua entrada de eleição quando a pasta de atum chega à mesa.
É das poucas entradas que gera conflitos intensos entre os comensais.  As alheiras são voluptuosas, mas demasiado descaradas e muitos resistem facilmente ao seu aspecto oferecido, gorduroso e altamente calórico. As azeitonas pecam por serem agressivas. Todos sabem que as azeitonas não são uma boa companhia, principalmente para a pele e fígado. Às azeitonas só se entrega quem tem uma relação de submissão com a gastronomia, com problemas claros de amor-próprio. Como é o meu caso. A gastronomia manipula-me e farta-se de jogar com os meus sentimentos.
Os queijos, as moelas ou as pataniscas são atraentes, mas têm aquele aspecto desavergonhado, falta-lhes a subtileza e o estilo da Pasta de Atum. Quando penso na Pasta de Atum lembro-me inevitavelmente de um verso num poema do Marco Paulo: "Uma lady na mesa, uma louca na cama".

Para um amante do sal, como eu, a pasta de atum era a única que eu levaria para a cama. A juntar sexo e comida, nada combina melhor do que barrar um corpo com pasta de atum e, ao lado, um bom cesto de pão.
A pasta de atum é um símbolo da capacidade inventiva do ser humano. Quando a lata de atum parecia ser o último passo no processo evolutivo deste escombrídeo, eis que alguém dá um novo salto na evolução natural dos alimentos: atum --> atum fresco grelhado --> atum em lata --> pasta de atum.
Os cozinheiros de topo, estrelados pela Michelin, vivem obcecados pela pasta de atum. Esfalfam-se com programas de computador para repetir esse momento único de criatividade gastronómica, reinventando-se com lagostins, hortelã, peixe fresco, espargos ou frutos silvestres. Mas esqueçam. A pasta de atum é uma das sete maravilhas da simplicidade.

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