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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

15
Abr09

Tradições pascais

Paulo

Mais uma vez fui passar a Páscoa a esse local mítico que é “a terra”, não a minha mas a dos meus pais, que fica numa encosta do Douro, em Gôve, Baião. E nesta ida “à terra” pude constatar que a Páscoa já não é o que era, comparando com os tempos da infância e adolescência. Já ninguém veste a sua melhor roupa, já não há foguetes em cada esquina, são menos as casas de portas abertas para o compasso e a devoção religiosa encontra-se numa crise ainda mais profunda que a economia actual.
Porém, felizmente, as tradições gastronómicas associadas à Páscoa continuam bem vivas, sendo que, em relação ao “antigamente”, desfruto cada vez mais delas. Se é verdade que o povo está cada vez mais desleixado e menos exigente no aspecto religioso, na parte gastronómica tudo continua a fazer para que as tradições não esmoreçam. Se também é verdade que o povo cada vez é menos assíduo na presença nas casas dos familiares e amigos para beijar a cruz, ouvindo-se com maior frequência de ano para ano “A cruz já passou? Já vim atrasado?”, a tradição de “correr as capelinhas” para conviver à volta da mesa parece estar mais fortalecida a cada ano que passa. Desde manhã cedo até à noite é um ver se te avias para dar vazão a todos os compromissos, são sempre muitas as casas de família pelas quais é preciso passar e em que se tem de comer e beber qualquer coisinha. Presunto, salpicão, queijo, cebola com sal, azeitonas e muito vinho verde são as presenças obrigatórias a qualquer mesa e às quais não podemos recusar dar uns momentos de especial atenção. E depois, até há aquele sentimentozinho de competição: “Diz lá se este presunto não é o melhor que comeste hoje?” “Queres comparar o salpicão que comeste em casa da tia com este?” “Não vais encontrar hoje melhor vinho que o que estás a beber, é o do último ano, está praticamente a estrear, diz lá se não está uma rica pinga!” “Ora diz se esta cebola não faz chorar até o olho de lá de baixo!”
Devo confessar que este último ano de Chispes pôs-me em grande forma e, por isso, estive em bom destaque, aguentei o dia todo, comi e bebi bem em todas as casas por onde passei, conseguindo chegar à noite exausto, cheio, mas bem disposto e sem mazelas de estômago ou vertigens inapropriadas.
O momento alto do dia, em termos gastronómicos, claro, foi o almoço, cumprindo-se a tradição do anho assado no forno, num forno mesmo a sério, à antiga, alimentado a lenha, e que anho, meu Deus!, que anho. Na Páscoa come-se o melhor anho do ano, é quando se vai comprar mesmo aos criadores, se escolhe o bicho, se olha nos olhos o dito e se lhe diz “Vais parar à minha mesa e vais fazer-me brilhar perante a minha família e amigos”. O anho estava absolutamente delicioso, tenro e suculento, fantasticamente secundado por um arroz de forno cozinhado em alguidar de barro preto, de sabor inconfundível e incomparável, umas batatinhas assadas (no forno, onde mais?) e um vinho tinto do Dão, o sempre confiável Cabriz (eu sei, eu sei, é um típico exemplo de “em casa de ferreiro, espeto de pau”, mas não havia nenhum Douro à mão…).
Finalmente, uma referência para uma tradição no lado da minha família materna, em que faz realmente sentido esse estranho mito do ovo da Páscoa, que é o de cozer uma pipa de ovos - todos os que as galinhas conseguem pôr nos dias anteriores em turnos duplos - com cascas de cebola para dar cor e um ligeiro travo, ovos que são servidos imediatamente a seguir à passagem da cruz, às 9 da manhã. Quer isto dizer que o meu pequeno-almoço no dia de Páscoa é, desde que me conheço, 4 ou 5 ovos cozidos, acompanhados de vinho do Porto (a parte da bebida apenas desde a idade adulta, claro). Também, só com tamanha injecção de proteínas e colesterol manhã cedo é que é possível ter forças para aguentar dia tão árduo!

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