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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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31
Mar09

A crise estrutural no mundo das churrascadas

JP

Que a churrascada caseira está em crise, já não é novidade para ninguém. Depois dos pungentes anos 90, em que o churrasco parecia impor-se como o mais importante foco de convívio entre os cidadãos, eis que assistimos, impassíveis, ao seu declínio. Há 10 ou 15 anos poucos ouviram as minhas palavras, quando alertava para sinais de fraqueza desta instituição. Na altura, fui apelidado de Velho do Restelo, chato, voz do contra e mete nojo.


Há cerca de 20 anos cresceu em Portugal um forte movimento que advogava que para se viver bem tinha de se investir numa moradia - isolada, em banda, gaveto ou geminada - com um logradouro para uma churrasqueira. Milhares de Portugueses endividarem-se para adquirir casas muito acima das suas posses, enfeitiçados por essa imagem dourada do marido a virar carne na grelha enquanto a esposa preparava um arroz soltinho, umas saladas e/ou uma batatas.
Os bancos e o meio imobiliário financiavam esta fantasia, fazendo movimentar biliões e o país parecia prosperar. Os portugueses estavam inebriados, viam-se a churrascar frangos, tiras de barriga, fêveras, salsichas e, até, picanha. Os maridos felizes e as crianças conscientemente a transportarem travessas. O cão obediente e brincalhão, exibindo acrobacias e contribuindo para o crescimento intelectual das crianças. O copinho de vinho no beiral e os raios de sol despejados sobre o amplo logradouro. Bonito, sem dúvida, mas uma farsa.
Tão farsa, que os grandes lobbys foram ainda mais longe: criaram essa fantasia dos convívios com os amigos no logradouro. Homens divertidos, de sweatshirt e calções, a partilharem o trabalho na grelha, outro a preparar sangrias, outro a surpreender com uns martinis ou uns mojitos, outro a cortar delicadamente o pão; as mulheres, bonitas e sensuais, com grandes decotes, a prepararem surpresas na cozinha e a animarem a festa com ditos provocantes.
Na época, eu dizia: mas que é isto? Que palhaçada é esta?

A realidade veio dar-me razão: se nada for feito, Portugal arrisca-se a ficar com milhões de churrasqueiras de jardim abandonadas e decadentes.
Afinal, o que está a matar o churrasco caseiro?
Em primeiro lugar, falta formação nas nossas escolas para trabalho no churrasco. Actualmente, quem «churrasca»  são jeitosos que foram aprendendo com experiências mas a quem falta certificação profissional. Consequências: nos convívios falta mão-de-obra qualificada para grelhar e o impacto nos produtos finais chega a ser catastrófico.
Em segundo, cedo se percebeu que os cenários idílicos eram desadequados à realidade. Virar carnes não é fácil,  o calor irrita e a vontade de começar a comer tortura o responsável. As crianças, como eu já alertava em meados dos anos noventa, têm vindo a desenvolver atitudes completamente contrárias às necessidades num churrasco: correm, saltam, partem coisas, não chegam o sal, não trazem nem levam recados e a lei portuguesa tem vindo a caminhar no sentido de as tornar praticamente inimputáveis. Na verdade, há já uma teia jurídica complexa que impede um pai de «chegar a roupa ao pelo» a uma criança. E ao nível dos petizes, os cães. Fazem barulho, saltam perigosamente junto das travessas e só imploram carne, que depois nem a comem. Mais uma vez, os constitucionalistas o que fizeram? Criaram um emaranhado de direitos para os caninos, que impede que se faça justiça em milhares de jardins deste país.

Mas a situação mais alarmante verifica-se precisamente nos encontros de amigos. Eu diria mesmo: o pior dos comportamentos humanos, o mais vil que reside no homem, vem sempre ao de cima em situações stressantes e de limite. As piores são claramente os incêndios, sequestros e churrascos. É degradante ver como se desce tão fundo: ver amigos, vizinhos, conhecidos, doutores de Coimbra, engenheiros, policiais, políticos, juízes, educadores a porem em causa os princípios basilares em que se estruturou a civilização ocidental. Os primeiros pedaços de carne a saírem da grelha, a  serem cortados e já uma matilha esfomeada, um exército de palitos a invadir as travessas. Atropelos, tudo disfarçado com sorrisos e piadinhas, mas que na verdade não camufla esta pouca vergonha. Já o mesmo se costuma passar nas mesas dos restaurantes. Quando o funcionário traz a alheira por cortar, enquanto um dos convivas vai serrando o enchido, os outros fazem-se distraídos e começam a picar. Por isso é que ninguém quer serrar a alheira, porque fica em desvantagem. A quantos de nós já não nos apeteceu espetar um garfo numa daquelas odiosas mãos armadas de palitinhos. Uma vergonha.

Para finalizar, falta uma lei ajustada à realidade. Todos nós sabemos que quem fica na churrasqueira, fica sozinho, ninguém vai até lá fazer conversa enquanto houver batata frita, vinho, cerveja e as carnes nas mesas. Tem de haver uma escala que garanta o revezamento no pessoal que vai lá dar duas de treta. Para além disso, é necessário garantir uma percentagem de 5% das carnes que saem da grelha ao homem que trabalha, para que não tenha de estar atormentado com a ameaça de estar a perder as melhores carnes.

Só com estes pequenos incentivos conseguiremos atrair mais jovens talentos às churrasqueiras dos logradouros deste país.

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