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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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24
Mar09

Confissões de um tarado: A codorniz deixa-me tolo

JP

Durante anos escondi esta fantasia com medo do preconceito. Mas nos últimos dias tornou-se insuportável conviver com esta presença tentadora. Desde que provei duas codornizes bem estaladiças e escarrapachadas no Santa Luzia, que a minha vida se tornou um inferno. Eu só penso em voltar àquele antro e entregar-me a mais uma ou duas horas de volúpia.
Acordo, e logo aquela imagem tentadora da codorniz estendida, provocadora, no pires. Esfrego os olhos e meto-me no banho. Afinal de contas, caraças, sou um homem de família, não me posso desgraçar.
Mas porque é que eu não sou normal e não me contento logo de manhã com um sumo de laranja e umas torradas? Eu sou um monstro.
Atiro-me a um iogurte de pedaços, um café e outro café e corro para o meu 190, procurando despistar a imagem sedutora da codorniz frita com duas singelas azeitonas, a oferecer-se só para mim.

Em casa já é difícil disfarçar as discussões, o desinteresse, as saídas extemporâneas a meio da noite e ela apenas não percebe que eu não consigo deixar de pensar em codornizes.
Não há trabalho, trânsito, vida familiar, problemas que me devolvam à vidinha normal que levava até há uma semana. Já não há lanche nem ceia que me satisfaça.
Pronto, assumi, que se lixe a descriminação: Eu sou tarado por codornizes.
Antes conseguia controlar o desejo. Só esporadicamente, quando me cruzava com alguma codorniz por essas mesas de Portugal, é que sentia crescer em mim algum descontrolo. Nada que não fosse amainando com o tempo e as distracções do dia-a-dia.
Mas tudo mudou quando descobri que um grande amigo, aqui do Chispes, também partilha esta minha fantasia e que temos bem perto de casa um local dedicado ao prazer com codornizes.
Normalmente, os tarados por codornizes passam despercebidos e conseguem controlar bem as suas emoções. São dissimulados e calculistas. Muitos pensam que é fácil apanhá-los com o frango assado ou, pelo menos, com o frango da guia. Mas o tarado em codorniz desenvolveu ao longo dos anos muitas estratégias para ocultar os seus desejos e é precisamente à frente de um frango que ele mais se camufla de cidadão normal, de um comensal como outro qualquer.
Mas só um tarado por codorniz para reconhecer outro tarado por codorniz.
A semana passada, numa das já nossas ritualizadas ceias no Santa Luzia, em Braga, em torno de umas moelinhas, picadinho de vaca e o que mais aparecesse, eis que ouvimos a palavra codornizes na lista oralizada exposta pelo empregado. Os olhos do meu amigo (o Paulo - sim, chegou a altura de te assumires) imobilizaram-se e percebi-lhe a tremideira nas mãos e o brilho do primeiro suor a aparecer na testa. Os nossos olhares cruzaram-se: "o quê, também tu?".
Julgo que este processo de reconhecimento entre tarados por codornizes deve ser algo semelhante ao que ocorre entre pedófilos, necrófilos ou coprófilos. Já que não andamos por aí com T'shirts a anunciar "Sou tolo por codornizes", nem colocamos no perfil do facebook, temos de estar atentos aos pequenos sinais.
Por isso, assumo: Sim, eu tenho um problema com codornizes e não... não preciso de ajuda! Preciso de mais codornizes estaladiças e suculentas para ver se isto me passa ou, pelo menos, se atenua!

P.S. - Aqui fica o meu apelo a todos aqueles que sofrem do mesmo problema: assumam o vosso desejo pelas codornizes! Exponham-se no Hi5, no messenger, no ambiente de trabalho, no carro e no telemóvel. Temos de acabar com a discriminação. Gostar de codornizes não é uma forma de pedofilia gastronómica. As codornizes que eu como são aves adultas, maduras e responsáveis.

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