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Como partilhar irmãmente ameijoas à bolhão pato ou caracóis em molho de oregãos?

O cálculo é feito a olho baseado no volume de conchas que sobram em cada prato. Ora o volume das conchas não é equivalente à percentagem de molusculos efectivamente ingeridos: muitas vêm vazias e as dimensões podem variar. Uma solução intermédia será os restaurantes levarem para as mesas um recipiente para os invólucros vazios ou fechados, sendo automaticamente anulados da contagem final. Sem esquecer que  os comensais têm de acordar previamente não tocar no molho antes de retirarem as conchas todas, caso contrário poderão estar a ganhar vantagem sobre molusculos já soltos e perdidos no fundo do tacho. Para quando um contador electrónico de ameijoas?

Outro exemplo: a distribuição do vinho nos copos continua a ser feita com métodos medievais. Num mundo cada vez mais electrónico e digital, a gastronomia não devia continuar à margem, devendo ser introduzidas as novas tecnologias para acabar com todas as suspeições. Continuar a distribuir a olho (sem sensores de raios infra-vermelhos), sem contagem de copos bebidos em placar electrónico, tem originado imensos conflitos (até porque o próprio álcool dificulta mais tarde a vigilância sobre as garrafas).



Mesmo a partilha das travessas é sempre polémica. Neste caso, sou claramente a favor de transmissões televisivas para tirar dúvidas. No calor da emoção, é comum os participantes perderem a noção das quantidades ingeridas, que apenas as repetições poderiam esclarecer. Lembro o caso vergonhoso dos rojões. Quem gosta das tripas enfarinhadas sabe que, quando se come em grupo, desaparecem muitas tripas e ninguém assume a autoria. Quando damos por ela fomos usurpados da nossa quota parte de tripinhas e é praticamente impossível, com os meios de investigação actualmente disponíveis, encontrar e julgar os autores.
O que se passa nos rojões é um reflexo do escândalo no mundo dos cozidos à portuguesa, onde parece que vivemos na república das bananas. Uma ribaldaria, onde cada um faz o que quer. O cozido à portuguesa é o espaço da gastronomia onde não há lei. É a ausência total do estado. A vitela, o frango, a orelha, os enchidos são simplesmente pilhados pelos mais rápidos, sem que ninguém ponha cobro a esta pouca vergonha. A ausência de tecnologia impede os comensais de, no meio da confusão de carnes, muitas vezes ocultas nas verduras e batatas, aplicarem a regras da distribuição equitativa dos alimentos. Nunca se consegue saber quem comeu a orelha toda ou fez desaparecer a morcela preta. A falta de civismo típica dos portugueses só vem contribuir para o desnorte.

Impedir a introdução de novas tecnologias remete o mundo actual da gastronomia para o obscurantismo.

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