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02
Mar09

Bota e Bira

por JP

Ora aqui está um nome brilhante para uma casa de pasto. Bota e Bira. O restaurante situa-se em Matosinhos, pertinho da lota, como mandam as leis universais da intuição gastronómica. Não interessa se o peixe já está hospedado no restaurante há mais de uma semana, psicologicamente resulta, parece que acabou de desembarcar e ainda nem teve tempo para desfazer as malas.
"Bota e Bira", não há que enganar, é no braseiro que se fazem os pratos da casa. O nome é um achado porque resume a essência do estilo artístico do chefe de cozinha. Se fosse num restaurante como o El Buli era bem mais complicado, seria algo do género: "pesquisa, testa em laboratório, produz quimicamente e serve." Não dava.
Tudo porque a essência da cozinha à beira mar deve resumir-se ao fogo e ao sal. Um bom peixe quando chega às mãos do artista não precisa de muitos adereços para ficar uma iguaria.


Existe o mito de que é impossível comer peixe em Matosinhos sem sermos agredidos com contas de, no mínimo, 40 euros. Não interessa o que se come ou o que se bebe. Se mandamos vir uma garrafa de vinho, é porque o vinho é caro. Se vier uma cerveja, são as entradas que encareceram. Se não pedimos entradas, são os pratos. Se os pratos são acessíveis, é o café e a água. Se não tomamos café, foi aquela maldita manteiguinha. O mínimo de 40 euros é que nunca falhava, aliás, era um enigma que ainda não tinha sido resolvido pelos maiores matemáticos do mundo. Não interessa as voltas que se dava, o resultado era sempre igual.
Mas finalmente no Bota e Bira encontrei a solução. Duas pessoas, uma dose de chocos e uma dose de lulas, bebidas, sobremesa para um e café, igual a 24 euros. Porra, consegui!

Para quem não gosta de ver chegar entradinhas à mesa sem serem convidadas, o Bota e Bira é o restaurante ideal. Só o pão apareceu por ali. É um mérito, porque nos permite analisar, primeiro, o impacto das medidas estruturais no combate ao apetite e, só depois, tomar outras decisões de recurso. Muitas entradas na mesa a juntar-se à vontade de comer leva-nos a perder a cabeça e a devorar tudo o que nos apareça à frente, depois da saciedade lá vem o sentimento de culpa, "oh meu Deus, eu não presto, o que eu fui fazer. Eu merecia um par de chapadas bem dadas.".
Depois do pão lá chegaram as estrelas da tarde, bem fresquinhas, temperadas e em boas quantidades. Em tantos outros restaurantes pedimos lulas ou chocos e chegam-nos numa quantidade miserável. Ou eram cefalópodes deficientes, também os deve haver, já com 3 a 4 pernas amputadas em vida, ou houve má fé dos cozinheiros.

Finalmente, há que referir que os funcionários eram homens de parcas palavras. Nunca foram antipáticos, mas quase não chegou a ser necessário que abrissem a boca em cada abordagem à nossa mesa. Brilhante. Tantas vezes encontramos pessoal a servir às mesas que acha que o cliente vai aos restaurantes para ouvir opiniões sobre política internacional ou para assistir a espectáculos de stand-up-comedy. "Por favor, eu queria um robalo grelhado, mas não demore muito que eu ainda queria ouvir a sua opinião sobre as medidas de combate à crise apresentadas pelo Obama".

Mais tarde ou mais cedo, este tema irá merecer-me uma reflexão. Todo o ser humano que serve à mesa sofre com esse complexo de inferioridade: o mestre, o artista está na cozinha e a única responsabilidade que o garçon tem sobre as obras de arte é a de não as deixar cair. Na mesa, o melhor que pode ouvir é "por favor, transmita ao cozinheiro os meus parabéns". É frustrante. E todo o garçon sabe que o cliente tem tendência a ignorá-lo. Quantas vezes não lhe apetecerá gritar "ei, psssst, estou aqui... aqui, a trás da costoleta".

Claro que começam a tentar afirmar-se e marcar presença em todos os momentos da refeição, com os seus dotes intelectuais e as suas frases espirituosas. Muitos desenvolvem piadas específicas para cada item do menú, acreditando que na carta deveria vir indicado o nome do prato com algo do género: Espetada de lulas, com batata a murro e piada sugestiva do garçon.

Felizmente, no Bota e Bira, os homens estão conformados. Ou a cagar-se! Bota, bira e toca a servir.

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