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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

31
Out09

As 4 Maravilhas da Mealhada

Marco

Alguns incautos continuam praí a perguntar-se o motivo do país se dividir entre Porto e Lisboa. Se, na verdade, podemos dissertar horas a fio sobre as naturezas do Norte e da Mourama, eu por mim já concluí.


Lisboa apenas existe para permitir sem pudor a nossa deslocação "em trabalho" amiàde à Mealhada, injustificável que seria a hipótese de armarmos umas 5 romarias ao ano àquela localidade. Estou inclusivamente convicto, que mais de 85% dos peregrinos a Fátima o fazem com a mesma exclusiva motivação de passar na Mealhada, mas por contenção de custos arranjaram uma desculpa de apenas ir até ao Norte de Lisboa.

Ora, se a fama a antecede, a Mealhada assim o merece. É porventura como parar no estrangeiro por algumas horas. A iguaria do Leitão ofusca numa primeira vista outras que por lá são feitas de uma forma única. Que de tão diferentes parece efectivamente que saltamos uma qualquer fronteira.

Este fim de semana no regresso do Festival Histórico do Autódromo do Algarve, fiz uso de diversos anos de estudo de matemática para determinar a hora exacta de saída conjugada com a duração da viagem numa Ford Transit carregada de ferramenta e com um carro atrelado, de forma a puder dizer… “Está na hora de jantar, mais vale pararmos aqui!”

Sem saber, pedi tudo o que gosto… alem do Leitão, um belíssimo pedaço de Pão; uma garrafa gelada de Caves de Aliança Bruto Reserva Tinto e uma garrafa de Luso para a viagem.

Haverá mote melhor que Água, Pão, Vinho e Leitão? São as 4 Maravilhas da Mesa da Mealhada… Sem dúvida as melhores ideias são as que vêm do estrangeiro!

 
http://www.cm-mealhada.pt/4maravilhas/
 

by Tomé Coelho

19
Out09

Adão e Eva: como se fosse sempre a segunda vez

JP

Escrever este texto, agora, sobre o Adão e Eva desperta-me um leve travo a injustiça. Ocorre-me o prémio de carreira que a Academia de Hollywood atribuiu este ano a Jerry Lewis. Uma carreira de algumas obras maiores, que só mereceram atenção pelo seu conjunto, quando o homem já fez o check-in para a última viagem. Provavelmente, fizeram-no pelo medo de serem acusados de total indiferença pelo artista. Os prémios carreira não me convencem, são uma pobre consolação. Como se nenhum dos trabalhos tivesse realmente valor, mas somando cinco minutos aqui, dois minutos acolá, um cenário neste e uma ideia naquele, olha, até dá um bom filme.
O Adão e Eva teve um papel decisivo na história dos chispes e, bem antes disso, constituía já um espaço fundamental no meu roteiro de devoção gastronómica.
Que fique claro: este não é um prémio carreira nem um prémio de consolação nem, muito menos, um prémio injusto hoje para compensar a injustiça de ontem. Como dar o prémio de melhor realizador a Scorcese, depois de vinte anos de vários filmes incontornáveis na história, com um filme apenas bom. Ou o prémio da Fifa em 2001 para o Figo.
Como explicar este afastamento do blog do Adão e Eva?
Calhou. Nenhum outro verbo diz tão bem a razão de ser de tantas injustiças neste mundo. Calhou. E calhou mesmo. Algumas circunstâncias mantiveram-nos afastados no último ano deste restaurante. Calhou. E acabamos por nos esquecer de dizer ao pessoal que nos lê que o arroz de pato do Adão e Eva, por acaso, é o melhor do mundo. Ups, desculpem lá o esquecimento. Olhem só a nossa cabeça. Sim, o arroz de pato do Adão e Eva é o melhor arroz de pato do mundo.

Ir ao Adão e Eva pela inumerável vez é revisitar a minha eterna segunda vez. Sim, não há nada como a segunda vez; a melhor vez de todas é a segunda vez. É quando voltamos para repetir, com as sensações da primeira vez ainda a esparramarem-se sem pudor na nossa memória. É quando voltamos à procura de todas as nuances degustativas com que fomos surpreendidos à primeira vez; voltamos com o medo de que as circunstâncias que permitiram aquele pato tivessem sido demasiado frágeis e casuais que possam não se repetir. O pato a destilar a intensidade do seu estufado, o arroz escuro, que se lambuzou desavergohadamente num refugado bem puxado e o queijo, um derrame intenso de queijo que cobre e oculta por completo o arroz. A textura e a elaborada engenharia de distribuição dos alimentos por camadas. Sim, e é nesse momento que a segunda vez se afirma como a mais sublime. É quando o prazer se consuma ao nível das nossas expectativas.
Dá vontade de rir na cara de todos os cínicos que andam por aí a alardear que os prazeres não se repetem, que os momentos são únicos. Tretas. Ide para o raio que vos parta. A intensidade do prazer a comer o arroz de pato no Adão e Eva repete-se e torna a repetir-se (quase sempre). E há que dizer que é um arroz de pato que guarda ainda algumas cartadas para jogar, não vá aparecer algum arroz de pato por aí que desafie o título: as rodelas de salpicão ainda não vêm tostadas no forno; o bacon ainda não foi convocado; e até hoje nunca foi devidamente estudado o acrescento dos pinhões à fórmula original.
O Adão e Eva infelizmente não é um espaço intimista, ou no mínimo rústico, que dê a dignidade merecida à excelência de alguns dos seus pratos. É um espaço amplo em forma de «L», com mesas grandes, para eventos. Temos a sensação de uma cozinha caseira fora do seu habitat natural. Como vermos um coelho longe dos montes a fazer de animal de estimação.

Recomendo a perna mais pequena do «L», sempre se fica mais aconchegado.

Os chispes finalmente deram ao Adão e Eva o destaque que merecia e decidimos fazer o lançamento da candidatura a Gurão de 2010 (cargo máximo na hierarquia interna - uma combinação de Guru com Grão-mestre) junto a umas travessas de arroz de pato. Aqui ficam as imagens. 

 

10
Out09

Pancada

Convidado

Eis o nome.
 Agora, eis a história: Já fui à pancada vezes sem conta… umas três! 
Para quem não conhece, a casa Pancada fica em Vieira do Minho, na freguesia do Mosteiro. Uma casa rústica de estilo tradicional bem vincado quer nas paredes de pedra quer nas mesas de madeira que parecem, à primeira vista, roubadas de um parque de merendas do Gerês.

O restaurante tem três especialidades: cabrito assado no forno a lenha, vitela assada no forno a lenha e papas de sarrabulho (também devem ser preparadas no forno a lenha mas não referiram porque poderíamos pensar que estavam a ser repetitivos!).

Sentamo-nos à mesa e somos logo brindados com uma salada fresquinha da horta. Escolhemos o vinho – verde branco, que é sempre o meu preferido - e esperamos pela especialidade. Na Pancada não há menu, não se pergunta ao cliente o que quer comer, nem se fala em sugestão do chefe (sobras de ontem, não?) simplesmente brinda-se o convidado com a especialidade da casa. Para todos. Sem excepção. “Olhe, desculpe, eu queria um bifinho grelhado com arroz seco… pode ser?” pede um cliente mais ousado. “Desculpe mas não temos, hoje é vitela assada no forno a lenha… é que não tenho mesmo mais nada. Se tivesse ligado antes…”
Das três vezes que lá fui tive a sorte de comer sempre a famosa Vitela assada no forno a lenha. Muito boa, sempre… O forno a lenha faz a diferença. A diferença foi o preço. Nunca paguei o mesmo pela mesma comida. Pancada? Não… é só o nome!

 

Filipe Quelha

07
Out09

O Restaurante que (Nunca) te Recomendarei...

Convidado

Nada mais apetecível, no final de uma tarde de Verão abafada, do que estar à beira mar, mas em terras transmontanas o melhor é estar à borda d'água, sobretudo quando se encontra um restaurante com o mesmo nome, situado na bonita aldeia de Salto, perto de Cabeceiras de Basto. Um local simples condizente com a gente da terra; um espaço rústico que serve boa comida com sabor a aldeia: alheira na brasa, pão e azeitonas da região, como entrada; e as inolvidáveis e imperdíveis batatas com bacon, cebola, alho e salsa, o acompanhante perfeito de uma posta à barrosã.

A gente transmontana não tem “papas na língua” e diz o que lhe vai na alma ou, melhor, o que lhe surge no momento. É o caso da D. Maria que dirige o dito restaurante com pulso e destreza, pois tem uma família para cuidar. Depois da comida ter chegado tardiamente à nossa mesa, e após insistência e a habitual manipulação à mistura por parte dos meus amigos, tentei meter conversa com a Sra., que andava de um lado para outro, sem nos ligar nenhuma, com o objectivo de obter um atendimento mais personalizado e uma atenção redobrada na confecção das iguarias caseiras. Mas, pela primeira vez, em todas as abordagens feitas por mim num restaurante, fui mal sucedida. A intencionada frase “O seu restaurante foi-nos recomendado...”, foi imediata e categoricamente interrompida por “Escusa de recomendar mais, pois vou fechar. Estou farta disto”. Fiquei atónita, bem como os restantes clientes que se encontravam perto de nós. Os meus amigos riram. Eu não queria acreditar no que acabava de ouvir. Seria apenas um desabafo após um dia de trabalho? Um grito de ajuda? Ou um sentimento de desespero com fim à vista? Missão cumprida? Não foi preciso qualquer 'recomendação' (vulgo factor C) para sermos bem servidos na mesa em qualidade e quantidade, apesar de a ouvirmos resmungar quando foi solicitada mais uma travessa de batatas - “Essas batatas dão muito trabalho e agora vão ter de esperar mais. Sai mais uma dose.”

No final do jantar, fomos ter com a D. Maria para lhe darmos a conhecer o nome da pessoa que nos tinha recomendado o seu restaurante, precisamente outro proprietário de um restaurante transmontano em Braga e dizer-lhe que gostaríamos de voltar. Agora, mais simpática, querendo saber o que nós fazíamos na vida, continua a dizer que está cansada do negócio e que se não fosse pelos filhos já teria largado o Borda d' Água.
Gostaría muito de comer novamente aquelas irresístiveis batatas que já foram recomendadas ao restaurante que nos recomendou o dito restaurante que não vos posso recomendar porque vai fechar. Mas se pudesse recomendar, recomendava.

A. Corunha