Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

26
Set08

Um Polvo extraterrestre no Jardim

José Manuel

Como combinado, lá aparecemos às oito e meia em frente ao cemitério (que raio de sítio para se marcar um encontro para uma tainada !!).

Às nove menos vinte, já estava a ligar para o Eurico, que ainda não tinha aparecido.
-- Como é pá?
Responde ele do outro lado
-- Onde estás? Não te estou a ver?
-- Em frente ao cemitério…
-- Eh pá… estou no sítio errado…
Como de costume, no sítio errado, à hora errada…

Concordámos em nos encontrar no restaurante, cujo nome é “Restaurante Jardim”, e que segundo indicação do Eurico “fica algures na E. N. 14, quem vai para Famalicão do lado direito, antes da fábrica da Primor.”

Lá fomos.
De facto é fácil descobrir o dito que fica pouco antes de chegar a Famalicão, mesmo à face da E.N. 14.

O interior é acolhedor, com uma apresentação cuidada QB e as pessoas são de muito bom trato. Logo aí marcou pontos.
Em relação á lista, admito que nem a li, pois fomos lá com um objectivo muito claro, comer polvo.

Não perdemos muito tempo com a escolha (já estava feita), pelo que discorremos então sobre que vinho pedir para acompanhar o pobre molusco que por esta altura já tostava na chapa. Após demorada e árdua argumentação (cujos pormenores vos poupo, até porque alguns dos argumentos ali utilizados foram no mínimo bizarros), optámos por um alentejano tinto de boa casta, um (por acaso foram 3) Herdade das Pias.
Um vinho púrpura intenso, macio ao toque, abriu-se rapidamente, revelando um aroma abaunilhado e elegante, com taninos doces, (até pareço um enólogo!!), resumindo o vinho era mesmo, mas mesmo bom.

Das entradas ressalto já aqui o pão com manteiga de alho com ervas e o magnífico chouriço.

Em relação ao molusco esbracejante, digo-vos com franqueza, nunca tal houvera visto!
Do pouco que percebo de culinária (na vertente de produção, porque na vertente do consumo já tenho pelo menos dois MBA), não consegui distinguir que raio fizeram ao bicho.
Apresentou-se-nos em duas fartas travessas, com batata cozida no acompanhamento, envolvido num molho de cor alaranjada, com um toque subtil mas incisivo a picante.
O bicho era tenro, corpulento, em pedaços abertos tipo filete, e não vos sei dizer se frito se assado, a minha teoria é que se calhar era um pouco dos dois, mas isso sou eu a conjecturar!

Uma coisa vos garanto, é muito bom e vale bem a visita.
Para finalizar tão deleitoso repasto, nada como uma sobremesa a condizer. Alguns optaram pelo pudim abade de priscos, que estava razoável, outros pelo convencional bolo de bolacha, cujo aspecto era muito bom.

A relação qualidade preço pode ser melhorada, depende mais do que beberem do que, do que comerem, “perceberem”?

24
Set08

Menú de uma Despedida de Solteiro

JP

A designação Despedida de Solteiro gera-me um certo incómodo. Sempre me pareceu que as actividades mais populares de uma despedida não são propriamente um Adeus à vida de Solteiro mas sim um Olá à vida de casado. Talvez se devesse chamar: recepção ao casado.
Na minha modesta opinião, não há muitos solteiros que levem uma vida de regabofe e orgias – poucos frequentam as casas de diversão sócio-recreativas. Então porque raio é que as despedidas mais comuns se fazem com mamalhudas desgovernadas? Provavelmente, para lembrar ao desgraçado o que vai perder. Mas quando estão em plena despedida, a maioria dos homens pensa que se não fosse o casamento não estaria naquele momento com a referida mamalhuda. Aliás, provavelmente até é a primeira mamalhuda saltitante com que esbarram na vida.
Isto a propósito da despedida de solteiro do Marco, um dos mentores deste blog. Antes de mais, quero deixar os meus parabéns pela diversão e pelas actividades que organizou. Mas algumas abordagens sérias e polémicas são inevitáveis.
A despedida foi tão bem pensada que tivemos um autocarro para nos transportar de Braga a Espanha para uma actividade de canoagem. De Braga saíram 24 homens com os rostos cheios de alegria, luz, plenos de esperança, ilusões e boa fé. Mas, de súbito, demos por nós numa situação inexplicável. Está certo que tínhamos de mudar a roupa, mas o Marco conseguiu pôr 24 homens nus dentro de um autocarro. Não digo 25 porque, no meio daquela invasão de rabos, músculos e pêlos, não me atrevi a verificar se o motorista também se tinha despido.
Em estado de choque, todos pensamos: o que é que o Marco acha que deve ser uma despedida de solteiro? Homens nus a brincarem na água, a rebolarem e a saltitarem na areia?
Bem, a coisa lá se compôs e embarcamos nas canoas pelo rio abaixo (todos de calções, exceptuando o organizador que curiosamente se esqueceu dos calções e levou uns shorts excessivamente justos, que deixou todo o grupo constrangido).
A segunda análise parece-me óbvia. O organizador quis fechar a porta a outras actividades. Como se faz aos cavalos: cansá-los para eles não se excederem. Vários quilómetros a remar por um rio quase inanimado. Jogo de futebol na areia. Mergulhos. Viagem de regresso a Ponte de Lima e arroz de sarrabulho. O grupo ficou exausto.
O restaurante, A Alameda, mesmo no centro de Ponte de Lima, no meio das festas Feiras Novas, abriu expressamente as portas para receber o grupo. Das entradas pouco há a dizer, mas para o sarrabulho tenho pelo menos 7 linhas reservadas. Rojões macios e imponentes, que pareciam derreter na boca (desfazem-se na boca e não no garfo); tripas tostadas que não ofereciam resistência ao dente; sangue e fígado abundante, mas não dominante; chouriça de sangue, uma excelente surpresa que não precisa de avisar para aparecer. E o convidado especial: o arroz, escuro, solto, abastado em carnes desfiadas e com um tempero elegante mas típico. Tudo isto acompanhado com uma porrada de garrafas de verde tinto da zona.
Excelente. Gastronomicamente falando, sim, para uma despedida de solteiro, um desastre. No final, ouvia-se aqui e ali alguém a dizer: vamos ao Peñador… vamos à Cairense. Propostas bonitas, sem dúvida, mas pouco assertivas. É óbvio que sarrabulho e rojões não são a melhor entrada para uma noite de desvario em casas de animação nocturnas.
A verdade é para ser dita: o autocarro chegou a Braga a horas perfeitamente decentes com cerca de 20 homens a dormir.
Urge aprender a combinar a gastronomia com a disposição mental pretendida. Queremos homens agitados, de reacção fácil, obviamente uma mariscada.
Meias doses individuais conduzem o homem para a reflexão e introspecção: “é pouco, chega, se calhar é melhor pedir outra, a daquele gajo tem mais do que a minha, vou ficar com fome”.
Se queremos homens rebeldes, irritadiços e descontrolados proponho comida vegetariana. Se pretendemos homens melosos, suavizamos a luz da sala, um som de piano e arranca-se logo com uma entrada de ovos mexidos com espargos verdes e míscaros.
Queremos homens caseiros e ansiosos pelo aconchego do lar, para soltar uns arrotos e uns gases na companhia da única que pessoa que, apesar das queixas, compreenderá, a namorada ou esposa? Neste caso, as sugestões são óbvias: cozido, feijoada ou SARRABULHO.
Isto devia ser ensinado nas escolas.

22
Set08

O balde de Açorda

Paulo

Onde se fala de gastronomia alentejana, Évora, “O Grémio” e “Moinho do Cu Torto”

Para muitos portugueses o Alentejo é apenas aquela região que se tem de atravessar para ir ou vir do Algarve. Tá mal! Pronto, até sabem que é terra de bom vinho, embora mesmo quanto a isso tenham dúvidas porque ao longo da A2 não se passa por qualquer vinha. Tá mal, porque além de ser uma região rica em património, é uma das zonas mais nobres da nossa gastronomia.
Este Verão, no regresso de férias no Sul, mais uma vez quisemos matar as saudades da fabulosa cozinha alentejana, uma das minhas predilectas. A nossa intenção era ir ao Restaurante Fialho, um dos mais afamados de Portugal, na histórica cidade de Évora, que visitei pela primeira vez, ficando com a certeza que é uma das cidades mais belas do nosso país e das mais ricas em património. Mas quando chegamos a Évora já não estávamos inclinados a ir ao Fialho porque as informações entretanto recolhidas apontavam-no igualmente como um dos restaurantes mais caros do país. Ideia prontamente confirmada por um agente da PSP a quem solicitamos algumas informações em plena Praça do Giraldo. Aliás, o agente – provavelmente um dos mais simpáticos de toda a PSP – disse-nos que o seu primeiro serviço na cidade foi ir buscar um cliente ao Fialho que se recusava a pagar 100 euros por um bocado de presunto e vinho! Duplo aliás, Évora é também uma das cidades mais caras, afiançou-nos a pés juntos, só faltou a continência, o mesmo agente.
Fomos, então, em busca de outro bom restaurante, com preços mais ajustados, e bons restaurantes é algo que Évora tem em quantidade. Após deambularmos algum tempo pelas labirínticas ruas do centro histórico, e quando a fome começava a fazer alguns estragos na boa disposição, encontramos O Grémio, escondido numa rua tão estreita que receava que se comesse demais já não conseguiria passar no regresso. E foi isso que aconteceu. Não a parte de não conseguir caber na ruela, mas sim a de comer muito. E bem. Não é exagero dizer que me foi servido um balde de Açorda d’Alho com Bacalhau e Ovo. Vi-me e desejei-me para levar a bom porto a empreitada de esvaziar o dito balde e confesso que naufraguei. Ainda sobrou apesar de me ter empanturrado e de ter partilhado com a Xana e o J.P. que, por sua vez, se debatiam com um fantástico Cação de Coentrada com Pão Frito e umas maravilhosas Migas de Espargos com Carne de Alguidar, respectivamente. Até estive quase a pedir ajuda aos clientes da mesa ao lado.
Não pensem por um momento que a Açorda não estava deliciosa, bem pelo contrário, estava mesmo excelente, com um sabor intenso de alho e coentros, como gosto. E nem o inolvidável Estufado de Javali da Montaria, comido ao almoço no Brasileiro, em Mértola, teve qualquer responsabilidade. Foi, isso sim, culpa das doses individuais servidas nos locais turísticos do Sul a que nos habituamos nas duas semanas anteriores. Porque já se sabe que pedir uma dose para uma pessoa no Alentejo ou no Minho, por exemplo, é um acto suicida.
Infelizmente, tivemos que acompanhar tão belas iguarias com sangria e cerveja porque o vinho era demasiado caro, razão tinha o agente de autoridade em dizer que no centro de Évora não se come barato.
Já saindo das muralhas é mais fácil de encontrar locais mais acessíveis no preço, mesmo se tratando de restaurantes com nome e até motivo de reportagem na televisão, como é o caso do Moinho do Cu Torto (mais conhecido apenas por Moinho), que decidimos conhecer ao almoço do dia seguinte. O restaurante, de aspecto absolutamente típico, fica numa casa de apoio (ou antigo celeiro) de um moinho verdadeiro que até se pode visitar. Tem um funcionamento mais tradicional e uma ementa mais curta, que varia de dia para dia. Atingi quase o prazer máximo com uns Pezinhos de Coentrada absolutamente divinais, acompanhados por um pãozinho frito que ensopava naquele molho à base de coentros para meu deleite. Para tornar perfeita a refeição, o tinto da casa, um puro alentejano a preço modesto, era de beber e pedir mais. A finalizar, para não destoar, veio como sobremesa uma deliciosa Cericaia com Ameixa em Calda.
À saída do Alentejo é sempre caso para dizer “Até breve”, “Até sempre”!

16
Set08

“O brasileiro” alentejano

Convidado

Ao chegar a Mértola, pus o pé, molhei a boca com puro néctar alentejano, um tinto da casa, e preparei-me para um “Avante, Camarada, Avante!”. O nome /alcunha  “O Brasileiro” ficou a dever-se ao facto da avó do proprietário ter o nome de Basília (ora Basília parece Brasília, Brasilia é a capital do Brasil... ser filho da Basília é o mesmo que ser filho de Brasília, logo Brasil, logo "O Brasileiro"... tão óbvio que até custa a acreditar).

O restaurante presenteia-nos com uma magnífica paisagem aos pés, o acolhimento afável é brindado com um saboroso pão de trigo e umas caseiras pastas de chouriço e de atum. O cardápio apresentado com ligeireza afigurou-se tentador! Os meus amigos escolheram bem, entre um magnífico Estufado de Javali da Montadia e uns soberbos Pezinhos de Coentrada com pãezinhos fritos. Como fã dos provérbios populares, foi fácil decidir-me “Mais vale uma perdiz no prato do que duas no bolso do caçador”, pensei. E se pensei, logo solicitei: Açorda de Perdiz Brava. E que bela escolha, amigas! Mergulhei no reino de coentros e alho; nadei em grão de bico; e boiei na calda, em pão de trigo cortado às fatias muito finas. Como qualquer vereneante que gosta de bons banhos de sol, suei como “santiago aos mouros”. Mas logo suavizei, hum, com um divino torrão real (amêndoa com ovo, açúcar e água, é a sua composição) acompanhado com um “pingo”, com dois ou três pingos, a minha única sugestão dada ao empregado. Fazendo jus à minha fama de gulosa, degustei ainda a deliciosa cericaia com ameixa em calda e a macia mousse com leite condensado. Na verdade, este manjar não é para uma vereneante preocupada com “a linha”, mas sim para alguém com algumas curvas e um resistente estômago. Bom, mas isso agora não interessa nada...O que realmente importa é o despertar dos nossos sentidos sensoriais e demais “devarios” gastromómicos nas planícies alentejanas.

Nunca vi animais de caça (perdiz e javali) e domésticos (porco) tão felizes à mesa, perdão, nunca vi olhos tão radiantes e olfactos tão extasiados como os de uma transmontana, eu, de um minhoto e de um tripeiro, dos meus amigos Paulo e João Paulo, respectivamente. Ficou a promessa de lá voltar um dia...fora da época do Verão, de modo a degustarmos, ainda, mais iguarias repletas de coentros. Isto porque, como gente do Norte habituada a salsa, não há como uma boa coentrada, entenda-se.

Recomendo. À brava!

 

Um texto de A. Corunha

 

15
Set08

Valeu a Pena?

JP

Com a chegada do Verão tive, tal como a grande maioria de cidadãos, de tornar público o actual estado da minha barriga. Já se suspeitava há alguns meses que a situação poderia ser bastante mais grave do que os dados oficiais pretendiam fazer crer. O impacto foi muito pior do que quando se soube dos verdadeiros números do défice português. De tal modo fiquei em estado de choque que tive de recorrer a duas entidades independentes para fazer uma auditoria geral: uma farmácia em Arco de Baúlhe e outra em Braga. Duas balanças de créditos firmados no mercado apresentaram os mesmos resultados: o meu ano gastronómico fabuloso teve um impacto catastrófico no meu peso global, claramente visível num aumento substancial da minha barriga.

Da minha cabeça não saía a frase profética: DOS 100 PASSARÁS, AOS 200 NÃO CHEGARÁS! Claro que eu ainda estava a uma boa distância dos 100 kg, mas pela primeira vez havia que temer.A implementação do Magrex. Eu a correr em frente de centenas de olhares de admiração.

O problema é que aquilo que eu ia conseguindo com uma inteligente e hábil engenharia, recorrendo a cintos, calças estrategicamente implementadas e camisas um pouco mais largas, não ia ser possível manter fora do conhecimento público. Como todos devem entender, não irei divulgar os números reais, até para não provocar uma desestabilização emocional nos mercados da região, com consequências incalculáveis na restauração, nas economias familiares e, na generalidade, no tecido empresarial.

Um homem casado é como um líder político, perante situações de crise apresenta revisões, implementação de programas inovadores e, claro, a substituição de alguns elementos da equipa de trabalho com imagem mais desgastada (isto queria dizer, tinha de me afastar dos dois ou três amigos que mais convites me fizeram para comesainas). Obviamente apresentei o MAGREX, que consistia em correr 20 minutos de manhã (ver foto comprovativa), complementado com duas horas de caminhadas na praia e vários mergulhos no mar. Estas foram as medidas estruturais de um programa extenso que incluia, ainda, uma redução do consumo de alcool, ingestão indiscriminado de saladas e subida acentuada no consumo de peixes e carnes grelhadas, etc.

Contudo, após 10 dias de intenso exercício no Sul de Espanha, regressei a Portugal e, naturalmente, com uma curta estadia no Alentejo, para espancar as saudades. E foi quando me encontrava frente-a-frente com uns pezinhos de coentrada, um pão típico mergulhado em azeite e coentros e uma garrafa de vinho tinto alentejano que me ocorreu a dúvida: Valeu a Pena?

Na altura, não pude continuar a reflexão, mas hoje acredito que valeu a pena. A vida é feita de ciclos. Que sentido faria emagrecer se não fosse para voltar a engordar? Para se saborear um bom regresso, primeiro temos de partir.

 

07
Set08

“El” Armazém

Paulo

Acho que é comum a todos os apreciadores de comida quando se vai de visita a qualquer lado procurar ir comer a um sítio típico. Uns porque sabem que normalmente é onde se pode comer muito bem e a bons preços; outros porque desejam sentir melhor o povo e a tradição; e há quem simplesmente queira se gabar de ter comido no sítio mais típico da localidade.

Claro que quem vai em busca disso sabe o que o espera geralmente para além da boa comida, ou melhor, o que não o espera: não se conta encontrar um local com boa apresentação, com aspecto cuidado, com um serviço requintado nem sequer esmerado, que siga as mais básicas regras de etiqueta ou até que dê uma importância por aí além a questões higiénicas (por exemplo, as visitas às casas de banho são, muitas das vezes, aventuras para mais tarde recordar). Quem já entrou numa qualquer tasca sabe do que eu estou para aqui a dizer.

Eu, pela parte que me toca, e não sendo pessoa facilmente impressionável, já com vários anos de experiência com tascas, gosto de ir aos locais típicos pelo bem que se come e pela excelente relação qualidade/preço.

Ora, quando o destino se trata de um local turístico o desejo de procurar um local típico aumenta ainda mais, para fugir um bocado aos restaurantes que vivem apenas de alimentar os turistas e de se alimentarem dos turistas, em que a maior parte das vezes sentimos que o que comemos não esteve à altura do preço que pagamos…

No meu último local de férias no sul de Espanha (Isla Cristina, poucos kms. a seguir à fronteira, muito popular entre os portugueses, certamente também porque o preço do combustível não permite ir muito mais longe), procuramos logo no início encontrar o restaurante mais típico da terra. Quem tem experiência nestas coisas, sabe que em zona de peixe as buscas devem efectuar-se nas ruas mais próximas da lota de pesca. E foi assim que rapidamente encontramos “El Armazém”, nome com que decidimos baptizar o “Mesón El Pescaíto Frito – Casa Pepe”. Lamentavelmente, a fome antes e a barriga cheia depois nunca nos permitiram ter a lucidez necessária para tirar uma foto ao local, já que não seriam necessárias explicações adicionais. Como facilmente se percebe pela alcunha (e pela imagem aérea do local que fui buscar ao Google Earth), o restaurante fica num antigo armazém, a maior das duas salas até tem o habitual telhado de armazém a uma dezena de metros de altura. E não tenham dúvidas de que é mesmo o sítio mais típico da zona para se comer. Tão típico que das várias vezes que lá fomos, éramos os únicos não espanhóis lá. As paredes alternavam quadros de sugestões de petiscos escritas a giz com imagens religiosas e ventoinhas. Os empregados eram alguns deles indubitavelmente antigos pescadores, então um deles era uma personagem fantástica, já na casa dos sessenta (pelo menos era o que parecia, porém podemos ter sido enganados pela sua pele queimada e desgastada por muitos anos de mar, sal e sol), mas com um porte e agilidade de um jovem, conseguíamos perfeitamente imaginá-lo num qualquer filme do Tarantino com o seu cabelo cheio de gel penteado para trás com estilo.

Como seria de esperar, lá apenas se comia pescado, todo o género de pescado, fresco mais fresco era impossível (aliás, aos fins de semana é costume ouvir-se muito “no hay” em resposta ao pedido de diversos peixes), tudo sempre fantástico o que comemos, e muita coisa lá comemos, desde atum a chocos, passando por enguia, polvo e todo o género de peixinhos fritos.

Os preços bastante acessíveis fazem com que a casa esteja sempre com muita gente, tivemos noites em que os clientes e os pedidos eram tantos que os empregados não tinham mãos a medir e muito menos cabeça, já que nessas situações normalmente a conta apresentada não continha parte das iguarias saboreadas. Houve quem dissesse que o “esquecimento” fazia parte de uma estratégia da gerência para voltarmos lá mais vezes, o que até poderá fazer sentido se pensarmos que o gerente deve ser algum velho pescador que passou demasiados anos no mar com a cabeça ao Sol.

04
Set08

Um ano fabuloso

JP

Ao contrário das últimas informações da OCDE, a minha análise dos números de Outubro de 2007 a Julho de 2008 dá-me boas razões para continuar a sorrir e a encarar o futuro com optimismo. Os dados não me deixam mentir: cerca de 65 grandes jantares de convívio e exploração gastronómica; 15 refeições de família com aliciantes iguarias; 35 jantares a dois entre restaurantes e refeições cuidadosamente elaboradas em casa; 25 jantares em casas de amigos com desafios gastronómicos muito interessantes.

Num período de 10 meses, em cerca de 600 refeições principais (segundo o modelo da escola portuguesa), realizei aproximadamente 140 refeições soberbas e de grande deleite. Isto representa cerca de 24% das refeições. Um enorme sucesso.

Mas este estudo permite obter mais alguns dados interessantes: terei ingerido cerca de 140 garrafas de vinho (uma média calculada por baixo, sendo que nunca bebi menos de 2 terços de uma garrafa por refeição, mas também só raramente cheguei às três); 110 sobremesas doces (80% das refeições); 140 entradas diferentes compostas por aproximadamente 130 rissóis, 140 bolinhos de bacalhau e croquetes, 800 camarões, 150 fatias de presunto (numa média de 30 refeições, vezes 5 fatias por cada), 30 alheiras, 7 kg ameijoas, 1 kg de queijos, 5 kg de atúm em pasta, 2100 azeitonas (15x140), 3 kg de pão, entre muitos outros.

Claro que, entre os pratos, os reis da mesa terão sido o bacalhau e a posta barrosã. Prefiro não revelar números nesta altura para não ferir susceptibilidades. O bacalhau é um líder óbvio, entranhado na gastronomia portuguesa, apresenta-se diariamente das formas mais surpreendentes e irrecusáveis. Com a ameaça da sua extinção, como qualquer português penso: o melhor é comer enquanto há. O português é desconfiado, quem garante que o vizinho não lhe anda a malhar como se não houvesse amanhã (e para o bacalhau talvez não haja) enquanto eu luto pela sobrevivência do peixe. Não senhor. Estas campanhas de sensibilização para o desaparecimento das espécies têm um efeito indesejado em Portugal: aumentam a procura.

A presença no Top da posta barrosã explica-se pelo “Miranda” e nada mais há a dizer sobre o assunto (Ver texto “O homem do barroso em Braga”).

Julgo que não serei muito ambicioso se apontar para esta nova época que se avizinha um ligeiro crescimento de 2% a 3%, evitando assim cair no comodismo dos bons resultados, mas também não estabelecendo metas pretensiosas que possam depois não ser alcançadas.

De qualquer forma, há outras leituras que se impõem. Em primeiro, nas cerca de 140 refeições terei ultrapassado os 0,5 g/l de álcool no sangue, acreditando mesmo que em pelo menos 30% terei nivelado a percentagem de álcool entre os 1,5 g/l e os 2,5 g/l. Em 22% destas refeições não me recordo de 55% dos pormenores e em 3% não me recordo de cerca de 85% do que lá se passou.

Em segundo, uma leitura que dá que pensar e que preparará a minha próxima reflexão: terei ingerido A MAIS cerca de 140 mil calorias. Este dado é polémico e exige alguns esclarecimentos.

Oficialmente o meu corpo necessita de 2500 calorias diárias, o que quer dizer que eu precisei de aproximadamente 750 mil calorias para levar uma vidinha com dignidade durante 10 meses. Mas nestas 140 refeições terei consumido mais mil calorias diárias do que o necessário, ou seja, as tais 140 mil. Tudo somado, foram cerca de 900 mil calorias ingeridas em 10 meses. Por este andar, atingirei o milhão de calorias daqui a três anos, partindo do pressuposto que não irei rever em baixa o crescimento de 2 a 3% ao ano.