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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

29
Jul08

A simplicidade de uma boa sobremesa

Marco

Às vezes as boas coisas surgem quando menos se espera.

Aqui há uns tempos atrás, regressando de Vila Real onde fui ver ganhar uns Alfa Romeos no fabuloso circuito da capital transmontana, perto de Amarante decidimos parar em Padronelo (saida para Mesão Frio no IP4) e visitar a casa Silva no lugar de Larim logo ali juntinho à saida do IP4.

Fomos presenteados com uma boa vitela, um excelente cabrito regados por um vinho tinto fabuloso e que combinava tudo de forma excepcional. No final do repasto, o servente, quase tão tipico como a casa sugeriu uma sobremesa também ela tipica.

Foi-nos apresentado um queijo fabuloso servido com 2 figos inteiros em compota e que pura e simplesmente me derreteram o bico de tão bem que estavam... ainda hoje me trazem saudades e certamente me farão lá voltar!

Esta pequena reflexão que vos trago leva-nos a observar que coisas boas e deliciosas, não necessitam de ser obrigatoriamente complexas... a simplicidade de um bom queijo com compota pode ser suficiente para despertar fantásticas sensações!

 

26
Jul08

Gostar de caracóis no Norte

Paulo

É muito difícil a vida de um amante de caracóis no Norte de Portugal. O pessoal do Sul não faz ideia. Para começar, quando dizemos que gostamos de caracóis, as pessoas olham para nós quase como se fossemos pedófilos, com uma cara de nojo. Por mais que tentemos explicar o quão saborosos eles são, nunca o compreendem nem aceitam, comparam-nos a uma qualquer tribo perdida de África ou da Amazónia que sente prazer em comer os bichos mais horríveis que possam existir.

Por causa deste nosso amor, somos discriminados na vida social e profissional, porque “uma pessoa que goste de comer aquilo não pode ser boa pessoa e bom trabalhador, e de certeza que só gosta de coisas escabrosas e indecentes”. Recomendo, aliás, que alguém faça um estudo sério sobre a taxa de divórcios e de desemprego entre os amantes de caracóis.

Se calhar, se as pessoas deixassem de reparar apenas nos cornos, no muco e no aspecto viscoso dos caracóis e soubessem que, para além de serem muito saborosos, eles são extremamente ricos em proteínas e pobres em calorias e gorduras, mudariam rapidamente de opinião e, em vez de irem a correr para os ginásios ou para as lipoaspirações, metiam-se nas esplanadas a devorar pires e pires de caracóis para manterem a linha. É o problema da sociedade actual: só se liga à imagem e não ao conteúdo. Se és feio por fora, não podes ser bom por dentro. Tá mal!

Depois, há a questão da dificuldade em encontrar um sítio para comer caracóis. Durante anos, assim que chegava o Verão, começávamos a percorrer Braga inteira na esperança de encontrar finalmente os ansiados papéis A4 colados nas vitrinas a anunciar “Há caracóis”. A seguir alargávamos a nossa busca às cidades mais próximas e, por fim, às localidades costeiras. Mas sempre sem sucesso. De vez em quando chegava até nós o boato de que “em tal sítio parece que há…”. Mas nunca havia.

Felizmente, a determinada altura começaram a aparecer as “Festas da Cerveja” e com elas os tão desejados caracóis. Aonde houvesse uma, lá estavam todos os amantes destes moluscos. Tal e qual uma romaria. Penso que se alguém se dedicasse a estudar o sucesso das Festas da Cerveja perceberia que isso se devia quase exclusivamente aos devotos dos caracóis.

Até que um dia, descobrimos o “Rampinha”, em Braga. Que serve caracóis durante todo o ano. E uns caracóis fabulosos, os melhores, servidos como mais gostámos, a nadar em muito azeite, alho, coentros e orégãos… Desde então, nunca mais quis saber de Festas da Cerveja, tinha encontrado o meu templo dos caracóis! (Já agora, as amêijoas do “Rampinha” também são algo de divinal).

Este desabafo sobre caracóis vem a propósito do facto de, há alguns dias, um café perto da casa do JP ter feito a sua própria Festinha da Cerveja na qual também não faltaram os imprescindíveis caracóis. Disse-nos o dono que tinha descoberto na Festa da cidade que havia muitos bracarenses adoradores desse petisco, o que não lhe passava pela cabeça ser possível. Mas é a mais pura das verdades. Nós, amantes de caracóis no Norte, somos uma imensa minoria ou uma pequena maioria, como quiserem. Fizemos, nesse dia, o nosso papel, procuramos convencê-lo a servir regularmente caracóis, com a promessa de que os iríamos ali consumir várias vezes. Não se trata de uma traição ao “Rampinha”, mas apenas uma forma de garantir um outro local para degustar os “bichinhos”. Todos temos que ajudar à disseminação de sítios onde comer caracóis no Norte do país. Passem a palavra!

24
Jul08

O que vestir para um Pica no Chão?

JP

Este debate vem a propósito da nossa ida ao "Buraquinha", em S. Mamede d'Este, em Braga.
Há muito poucas fontes de informação sobre o que devem as pessoas vestir para as mais diversas situações gastronómicas. Os designers de moda ignoram a gastronomia na criação das suas propostas, talvez porque a própria área da moda veja na comida uma ameaça aos seus padrões. E isto acabou por contaminar o cidadão comum. Quem é que hoje em dia pensa no que combina bem com um bacalhau de cebolada? Quem reflecte se a gravata não vai destoar quando o coelho à caçador chegar à mesa? Ninguém!

Ora, o Eurico (um dos comensais deste blog, um homem de desafios e que não perde tempo a ver o chão que pisa, pisa e pronto) apresentou uma solução arriscada na nossa ida ao Pica no Chão do Buraquinha: calças de sarja bejes, com camisa de linho imaculadamente branca, arregaçando as mangas em duas discretas dobras, dando um toque jovem e blasé.
O Eurico cometeu um erro comum de jovem organizador de eventos: inconscientemente desejou brilhar e literalmente brilhou.
 À chegada do panelão, com as peças de frango meio mergulhadas no arrozal, todos nós estremeçemos de terror: os tons castanho escuros do arroz nada condiziam com a camisa de linho e ameaçavam fortemente a integridade higiénica e estética do Eurico.
Devo dizer que o que aconteceu foi verdadeiramente memorável. O Eurico, primeiro recorrendo a uma toalha de mesa de papel e posteriormente apenas ao guardanapo, conseguiu sair sem uma única marca do arroz na camisa. Impressionante. Acho que não ficaria mais surpreendido se me dissessem que o bisavô do Eurico participou no desembarque do Dia D de camisa em puro algodão azul celeste, calça de fazenda em branco neve, a calçar uns mocassins cor esmeralda e no final do dia só teve de mandar a camisa para uma limpeza a seco.

É urgente informar e sensibilizar as pessoas para a necessidade de adequarem o seu vestuário em função da ementa.
Obviamente que para um pica seria uma boa solução as calças de ganga ou sarja em algodão leve, com um pólo ou sweat coloridos (até com estampados), podendo-se complementar com parkas multibolsos ou coletes tipo explorador. Tonalidades à base de cinzas e azuis. Aliás, também uma excelente opção para bacalhaus, claramente dominados pelos amarelos.
Para um cabrito assado, talvez um blaser, umas calças às riscas em tons caqui e um sapato marron. Para uns mariscos podemos falar de calções em denim e sandálias ou alpercatas de tecido.
Um erro comum em muitos jovens tem a ver com o cabelo. Julgo que há um certo exagero nos cortes médios para penteados com mechas torneadas ou lisas, fixas com ajuda de muito gel. A utilização de gel pede umas batatas a murro, um leitão, mas nunca os estufados. Para uns estufados julgo que o ideal é cabelo desalinhado, com patilhas longas.
E muito há a dizer sobre acessórios. Poucos homens sabem adequar cintos, carteiras, relógios e chapéus ao que vão comer. Mariscos não dão com boinas e nem pensar em gorros ou relógios swatch numa chanfana. Lenços e écharpes só em restaurantes onde não encontremos ninguém conhecido.

Relativamente ao Buraquinha. O frango era robusto, caseiro, de crista farfalhuda e pata sofrida, com marcas de uma vida dura no campo. O arroz estava soltinho, mas faltava-lhe mais vinagre. A acidez é importante para os movimentos da boca. E talvez isso explique que o Eurico se tenha safado com a camisa imaculada. O arroz digeria-se demasiado depressa, sem arrepiar... Não é bom sinal para um pica quando um homem de camisa branca sai incólume. Faltou garra à equipa e isso pode ter sido porque o pica não deu pica.

11
Jul08

Taberna da Laurinda

Paulo

Uma das reacções químicas mais conhecidas no organismo humano é a que é despoletada pelo Sol e pelo calor e que resulta na necessidade premente em comer peixe e marisco. Nesta altura do ano, todo o ser humano sente um chamamento para a costa em busca de se satisfazer dessas iguarias provenientes do mar, sempre acompanhadas de muito vinho branco ou cerveja.

Recentemente, tive que voltar a cumprir esse nosso destino e, com um grupo de amigos, deixei-me ir até Castelo de Neiva. Aí, encaixada numa duna, encontramos a Taberna da Laurinda, onde somos recebidos pelo próprio dono, já que em país de engenheiros e doutores por vezes é difícil de conseguir contratar quem queira servir à mesa “nem que seja por um salário de 800 euros”, como ele nos confidencia.

O nosso destino ia cumprir-se através de uma caldeirada de peixe (isto depois de vários telefonemas nos dias anteriores para ter a certeza que não se aproximava nova greve dos pescadores e que não nos ia faltar o peixinho português fresco na panela). Mas antes do prato principal veio um camarão com um molho dito à angolana que estava de lamber os dedos. Aliás, já é uso na casa a travessa não voltar para a cozinha enquanto não se der cabo de todo o molho, recorrendo para o efeito a todo o pão a que se possa deitar mão.

Entretanto, já era um ver se te avias para darem vazão à nossa insaciável sede. Felizmente, na Taberna da Laurinda serve-se um verde branco da casa muito bom, de beber e pedir muito mais.

Chega a vez, então, da ansiada caldeirada que nos conquista de imediato pelo aspecto e pelo aroma. Segue-se o jogo do adivinhar que peixes estão lá dentro, que é tão difícil para gajos citadinos que até à idade adulta só queriam ver carne à frente como acertar nos números do euromilhões: “Isto é sardinha!” “Sardinha numa caldeirada? Tás doido?” “Bacalhau? Tubarão? Lagosta?” “Congro é peixe? Não é um país em África?”

O que interessa é que a caldeirada vinha bem recheada e com uma boa diversidade de peixe. Pelos vistos, naquele dia tinha havido combustível suficiente para uma boa pescaria. Demos todos nota máxima, a caldeirada estava excelente, e ficamos absolutamente satisfeitos, com o sentimento de dever cumprido.

Para sobremesa, estivemos quase para pedir um robalo assado maravilhoso que vimos passar, mas acabamos por ficar por coisas mais tradicionais, como o leite creme ou a salada de frutas.

No final, nada melhor do que poder fazer a digestão caminhando pela praia (que fica literalmente ali ao lado) com um charuto e um copo de whisky ou na companhia de uma bela mulher (ou de um homem, ou de uma mulher e de um homem, ou de uma ovelha; aqui no “Chispes e Couratos” não fazemos discriminação). Desta vez, tive que me contentar com o tabaco e a bebida…

 

07
Jul08

Posta à Miranda - o homem do Barroso em Braga

JP

Confesso que nunca vi o cardápio do Miranda, limitamo-nos a perguntar: o que é que o chefe recomenda? E tudo pode acontecer, ou vai ser posta ou picanha ou costoleta. É como ir a uma casa de meninas (imagino eu), sabe-se sempre o que vamos consumir, não há dúvidas de última hora: hoje não temos meninas, mas chegaram ontem dois rapagões muito jeitosos. Olhe, se calhar vão-me cair mal, mas mande-os vir.
Não senhor, no Miranda não há surpresas. Para nós, é sempre vitela.

Uma questão nacional que o Miranda parece ter resolvido de forma pacífica tem a ver com a métrica. Todo os portugueses se sentem perdidos na actual confusão das unidades de medida gastronómicas: dose, ½ dose, posta, prato, pires, travessa, etc. O problema reside nas conversões e nos dois sistemas universais de medida: o do Norte e o do Sul. Em alguns restaurantes 1 dose = 2 pratos e noutros 1 prato = 1 dose, complicando as contas da ½ dose, que tanto pode ser convertida em 1 prato, 1 pires ou 1 travessa. Quer dizer, podíamos chegar ao rídiculo de 1 dose = 2 pires e 1 travessa= ½ dose. E se quisermos converter posta para dose e posteriormente para prato ou travessa? Podíamos falar de 1 posta = 1 dose = 1,3 pires = ¼ de travessa ou 1 travessa = 1 prato = 2 postas. Incompreensível.

No Miranda ficamos, finalmente, a saber o que é uma posta. Posta corresponde ao diâmetro da circunferência do prato padrão da casa (D = 2 * r). Claro como a água. Uma posta é um prato, uma travessa são três postas sobrepostas em um terço do seu diâmetro e quatro postas correspondem a uma travessa mais a metade do diâmetro da posta sobreposta sobre as outras três postas. Aconselho as entidades responsáveis pelo sector a visitarem o Miranda para uniformizarem de uma vez por todas as unidades de medida gastronómicas. Ou então, os outros restaurantes deverão começar a anunciar: Posta (dimensão imprevisível, por vezes ridícula) ou Posta à Miranda (dimensão acima descrita).

O espaço é agradável, com um interior bastante alto que o Miranda aproveitou para criar um primeiro andar, em estilo de varanda, onde nos podemos debruçar sobre todo o restaurante. Esta solução é estratégica, porque se levantarmos no ar a caneca, a travessa das batatas ou o cesto do pão, acompanhado dos sons “Oh Miranda” ou “Tão”, ele sabe de imediato o que está a faltar.

Não raras vezes, o Miranda recebe-nos a dizer “caralho, hoje não quero ninguém lá em cima que não estou para andar a subir e a descer escadas”.

Neste ponto, quero lembrar que urge tornar nacional o debate sobre o impacto das crescentes restrições às caralhadas nos restaurantes portugueses. Em breve apenas se poderá ouvir uma caralhada nos restaurantes com mais de 100 metros quadrados, com salas separadas, devidamente insonorizadas e com sinalética adequada. Se nada for feito, todo o pessoal que gosta de dizer e ouvir uma boa caralhada vai ter de se levantar e vir até à porta.

E o resto? Há uma travessa de arroz, bem moreno, uma de salada e várias de batatas. O vinho é do Douro, agora melhorou bastante com 10 mil garrafas acabadinhas de chegar de S. João da Pesqueira. Há que ter em conta que já lá fomos duas vezes, por isso, 10 mil é já apenas o número arredondado. O vinho traz um certo sabor a carvalho, que muitos portugueses acusam de “saber a velho”. A gastronomia tem destas coisas: carnes jovens, tenrinhas e suculentas pedem um vinho maduro, encorpado e já com uma idadesita. Cá está, não há valores universais.