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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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15
Fev09

O Dia dos Namorados devia ser só para alguns!

JP

É tão bonito estar enamorado que hoje, desgraçadamente, todos são namorados. Quem se atreve a assumir que não está apaixonado e, mesmo, que se está a cagar para os que estão apaixonados? Ninguém. E é deprimente ver homens de sessenta anos, barrigudos ou com artroses a agendar spa's, pessoal com o colesterol acima dos 300, casados há mais de vinte anos, na menopausa ou na andropausa a preparar jantares românticos e a engendrar as típicas lamechices comerciais deste dia. Ora porra, isso é contra natura. Supostamente, este é o dia dos namorados e, que raio, agora são todos namorados? Um dia destes estamos todos a comemorar o dia da criança, distribuindo prendas e organizando brincadeiras para pais, amigos ou esposos, afinal todos nós podemos ter uma criança cá dentro. Ridículo.

 


Infelizmente, conseguiram tornar todos os seres humanos, com relacionamentos duradouros ou não, em namorados. O picheleiro, santo deus, o picheleiro que instalou o meu bidé aproveitou o fim-de-semana e uma promoção da multiópticas para uma viagem a dois até à Serra da Estrela.
De vez em quando, como à cozinheira do Túnel, lá se ouvem umas palavras acertadas: "isso já não é para nós, é para os jovens". Ora aí está, claro que já não é para eles, andamos a brincar?
Não nos vamos enganar, para se ser namorado é necessário um estado civil e de espírito que apenas ocorre em momentos muito especiais na vida, reunindo condições específicas raríssimas. Idade, experiência, disponibilidade física e mental são fundamentais para permitir a ocorrência do enamoramento. No resto do tempo, o pessoal anda a fazer de conta.
O problema vem da ideia criada de que o maior dos fracassados é o não apaixonado. Ter uma moradia de 500 mil euros, um carro topo de gama ou uma carreira profissional são sinais evidentes de sucesso, mas que nada valem se não houver sinais exteriores de enamoramento. Um cidadão que não esteja apaixonado é um fracassado, um falhado. Os vizinhos, os amigos dirão: "é um triste, tanto dinheiro e não sabe o que é o amor".
Os casais para evitar serem catalogados como fracassados lá aproveitam o dia dos namorados para escarrapachar toda a paixão que, diga-se, na maioria dos casos está muito acima da sua realidade. Felizmente, não há a ameaça de aparecer alguma instituição, como as finanças, e exigir: "ora mostre lá de onde vem toda esta paixão. O que os senhores declaram não dá para este louco amor".
Isto para não falar na incongruência de várias mulheres que insistiram em casar, pois não podiam continuar como meras namoradas para sempre, que isso não era vida e, no entanto, chegado o dia de S. Valentim, exigem ser tratadas como namoradas. Não senhora, ai queriam festejar o dia dos namorados? Tivessem pensado nisso antes.

Obviamente, para muitos de nós o que torna todo este roteiro do romantismo bastante aceitável, e até entusiasmante, são os menús gastronómicos. O cardápio de uma relação a dois é deveras diversificado e apaixonante. Peixes grelhados e mariscos no Verão, rojões em Novembro, cozidos em Janeiro, cabrito em Abril e sardinha em Junho. Para além dos menús sazonais, o enamorado pode esperar ainda os medalhões, o arroz de pato, as espetadas, as parrilhadas ou o bacalhau. Toda a gente sabe que quando se começa a namorar se entra noutro nível do mundo gastronómico. É como se toda a pirâmide alimentar fosse refeita a partir do momento que se inicia uma relação, porque a dieta diária tem de dar resposta aos gastos e exigências da "paixão".
O amor sustenta-se com uma alimentação diversificada e criativa. A refeição é a expressão máxima da paixão numa relação a dois. Sem a boa gastronomia, grande parte dos casais não realizaria as suas fantasias. Através da gastronomia, explora-se a novidade, o design, a estética, o desejo, o requinte, a vulgaridade, a satisfação, a transgressão, o risco ou a desilusão. Se não fossem os momentos nas mesas dos restaurantes e em casa, os casais não saberiam como estimular as relações. São as garrafas de tinto e de branco, os coentros, o alecrim, o tomilho, as malaguetas, os pimentos, os estrugidos, as carnes suculentas, os peixes frescos, as batatas ou o arroz, entre tantos outros, que trazem entusiasmo e novidade aos relacionamentos.

E o casal sabe que será sempre assim, mesmo quando o desejo pelo outro esfria. Pelo menos até à primeira trombose. 

* Urge alterar a pirâmide alimentar oficial e adequá-la às necessidades dos casais, sob pena do governo estar a promover uma pirâmide que põe em causa a sobrevivência da instituição do matrimónio tal como o conhecemos.

Se não for possível variar, surpreender e experimentar na comida, como poderá sobreviver o casamento?

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