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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

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18
Dez08

Jantares de Natal: uma questão de (santa) gula

Paulo

Se houve algo que proliferou nos últimos anos foram os jantares de Natal. Aliás, este facto só demonstra a relação de profundo amor e devoção que os portugueses têm com a gastronomia. Se há coisa que gostamos é de conviver à volta da mesa e qualquer pretexto é bom para que isso aconteça.
Por isso, nada melhor do que institucionalizar algo como o “jantar de Natal”. A desculpa não deixa de ser boa, antes de mais o que se pretende é que numa época de confraternização e em que a relação entre os seres humanos deve ser mais estreita e em que devem vir ao de cima os valores fundamentais, como a amizade, nos procuremos reunir com todas as pessoas de quem mais gostamos.
Como o jantar de Natal de 24 de Dezembro deve ser dedicado à família – os familiares, em especial os nossos pais, nunca aceitariam de bom grado que lhes disséssemos “Olhem, este Natal, não vou consoar com vocês, vou antes a casa de uns amigos” – alguém se lembrou, em boa hora, de reproduzir essa refeição especial, mas numa data anterior.
Mas, claro, tudo não passa de uma desculpa, de um pretexto, para comer (muito) e beber (muito). Porém, o que começou por ser apenas um jantar de Natal com os amigos mais próximos, de repente começou a multiplicar-se e deparamo-nos, hoje em dia, com essa situação de existir também o jantar de natal

do local de trabalho, do grupo de futebol, dos amigos assim-assim, dos amigos imaginários, do ginásio, dos amigos da(o) nossa(o) parceira(o), do pessoal que frequenta o mesmo café, dos que têm um carro da mesma marca, dos fãs da série de TV preferida, do clube de fãs do grupo de música preferido, do fórum ou sítio de convívio da Internet que frequentamos, do grupo de vídeos para a Internet, do grupo de teatro do bairro, dos que têm o nome começado pela mesma letra, dos que acham que Sá Carneiro foi assassinado, dos que acham que o Carlos Cruz apenas gosta de miúdos de frango, dos que acham que Cristo não nasceu em Dezembro…

Aliás, o nosso estatuto social está neste momento directamente relacionado com o número de jantares de Natal em que participámos, sendo que quem participa em menos de 10 confraternizações deste tipo não é ninguém em termos sociais.
Um dos problemas óbvios desta proliferação de jantares é a limitação de datas, não faz sentido um jantar destes depois do Natal nem em Novembro; por isso, depois de esgotada também a alternativa do almoço de natal, começam a surgir agora as combinações do

pequeno-almoço de natal, do lanche de natal ou simplesmente da cerveja de natal.

Não vai demorar muito até que as pessoas mais solicitadas comecem a enviar alguém em sua representação ou a marcar diversas destas confraternizações para o mesmo local para depois ir saltando de mesa em mesa.
No fundo, este fenómeno gastronómico mais não é que o resultado do pecado capital mais comum entre os portugueses, o da gula, que nesta quadra natalícia, de forte carácter religioso, pode ser apropriadamente chamado de santa gula, pois acaba por ser desculpável e até abençoado.
Esta última consideração tem como única finalidade fazer o trocadilho necessário para chegar a um dos restaurantes em que aconteceu um dos jantares de Natal em que participei: o Santa Gula, em Braga. Não foi o jantar de Natal do Chispes e Couratos (até porque, para nós, jantar de Natal é sempre que a mulher ou o homem quiser), mas bem que podia ser já que lá estavam presentes, por uma ou outra razão, praticamente todos os membros participantes na nossa “confraria”.
O Santa Gula é um espaço bastante agradável e acolhedor, onde se é servido com simpatia, privilegiando a qualidade da refeição e não tanto a quantidade. Por entre conversas sobre gastronomia (olha a surpresa!) nas suas vertentes práticas e teóricas (não estivéssemos ainda no rescaldo da presença de um membro dos Chispes nas “Conversas do Tanque”), degustamos diversas entradas – merece especial destaque uma fabulosa açorda de marisco, mas também devo realçar a alheira e o folhado de carne – e dois pratos principais – um cabrito assado e um bacalhau com broa delicioso. Tudo sempre acompanhado por um vinho que foi uma agradável descoberta, o Paulo Laureano clássico, de terras alentejanas.

P.S. - A questão das prendas que são trocadas em muitos destes jantares deveria passar a ser mais bem regulamentada. Se é verdade que são estipulados limites monetários para a compra das ofertas, não me parece aceitável que quando a margem de manobra é maior uns gastem o máximo permitido enquanto outros procuram ficar pelo valor mínimo possível; não é justo alguém dar uma garrafa de whisky ou um filme em dvd, por exemplo, e receber em troca uma botija de aquecimento para os pés… Peço a atenção do Governo para esta situação.

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