Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Se houve algo que proliferou nos últimos anos foram os jantares de Natal. Aliás, este facto só demonstra a relação de profundo amor e devoção que os portugueses têm com a gastronomia. Se há coisa que gostamos é de conviver à volta da mesa e qualquer pretexto é bom para que isso aconteça.
Por isso, nada melhor do que institucionalizar algo como o “jantar de Natal”. A desculpa não deixa de ser boa, antes de mais o que se pretende é que numa época de confraternização e em que a relação entre os seres humanos deve ser mais estreita e em que devem vir ao de cima os valores fundamentais, como a amizade, nos procuremos reunir com todas as pessoas de quem mais gostamos.
Como o jantar de Natal de 24 de Dezembro deve ser dedicado à família – os familiares, em especial os nossos pais, nunca aceitariam de bom grado que lhes disséssemos “Olhem, este Natal, não vou consoar com vocês, vou antes a casa de uns amigos” – alguém se lembrou, em boa hora, de reproduzir essa refeição especial, mas numa data anterior.
Mas, claro, tudo não passa de uma desculpa, de um pretexto, para comer (muito) e beber (muito). Porém, o que começou por ser apenas um jantar de Natal com os amigos mais próximos, de repente começou a multiplicar-se e deparamo-nos, hoje em dia, com essa situação de existir também o jantar de natal

do local de trabalho, do grupo de futebol, dos amigos assim-assim, dos amigos imaginários, do ginásio, dos amigos da(o) nossa(o) parceira(o), do pessoal que frequenta o mesmo café, dos que têm um carro da mesma marca, dos fãs da série de TV preferida, do clube de fãs do grupo de música preferido, do fórum ou sítio de convívio da Internet que frequentamos, do grupo de vídeos para a Internet, do grupo de teatro do bairro, dos que têm o nome começado pela mesma letra, dos que acham que Sá Carneiro foi assassinado, dos que acham que o Carlos Cruz apenas gosta de miúdos de frango, dos que acham que Cristo não nasceu em Dezembro…

Aliás, o nosso estatuto social está neste momento directamente relacionado com o número de jantares de Natal em que participámos, sendo que quem participa em menos de 10 confraternizações deste tipo não é ninguém em termos sociais.
Um dos problemas óbvios desta proliferação de jantares é a limitação de datas, não faz sentido um jantar destes depois do Natal nem em Novembro; por isso, depois de esgotada também a alternativa do almoço de natal, começam a surgir agora as combinações do

pequeno-almoço de natal, do lanche de natal ou simplesmente da cerveja de natal.

Não vai demorar muito até que as pessoas mais solicitadas comecem a enviar alguém em sua representação ou a marcar diversas destas confraternizações para o mesmo local para depois ir saltando de mesa em mesa.
No fundo, este fenómeno gastronómico mais não é que o resultado do pecado capital mais comum entre os portugueses, o da gula, que nesta quadra natalícia, de forte carácter religioso, pode ser apropriadamente chamado de santa gula, pois acaba por ser desculpável e até abençoado.
Esta última consideração tem como única finalidade fazer o trocadilho necessário para chegar a um dos restaurantes em que aconteceu um dos jantares de Natal em que participei: o Santa Gula, em Braga. Não foi o jantar de Natal do Chispes e Couratos (até porque, para nós, jantar de Natal é sempre que a mulher ou o homem quiser), mas bem que podia ser já que lá estavam presentes, por uma ou outra razão, praticamente todos os membros participantes na nossa “confraria”.
O Santa Gula é um espaço bastante agradável e acolhedor, onde se é servido com simpatia, privilegiando a qualidade da refeição e não tanto a quantidade. Por entre conversas sobre gastronomia (olha a surpresa!) nas suas vertentes práticas e teóricas (não estivéssemos ainda no rescaldo da presença de um membro dos Chispes nas “Conversas do Tanque”), degustamos diversas entradas – merece especial destaque uma fabulosa açorda de marisco, mas também devo realçar a alheira e o folhado de carne – e dois pratos principais – um cabrito assado e um bacalhau com broa delicioso. Tudo sempre acompanhado por um vinho que foi uma agradável descoberta, o Paulo Laureano clássico, de terras alentejanas.

P.S. - A questão das prendas que são trocadas em muitos destes jantares deveria passar a ser mais bem regulamentada. Se é verdade que são estipulados limites monetários para a compra das ofertas, não me parece aceitável que quando a margem de manobra é maior uns gastem o máximo permitido enquanto outros procuram ficar pelo valor mínimo possível; não é justo alguém dar uma garrafa de whisky ou um filme em dvd, por exemplo, e receber em troca uma botija de aquecimento para os pés… Peço a atenção do Governo para esta situação.

Autoria e outros dados (tags, etc)


1 comentário

Imagem de perfil

De JP a 18.12.2008 às 21:59

Amanhã devo ir tomar com uns amigos uma cerveja de Natal. Embora a cerveja não seja definitivamente a melhor bebida para a época, mas é a bebida mais apropriada a "rapidinhas sociais"
Bem visto!

Comentar post




Arquivo

  1. 2017
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2016
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2015
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2014
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2013
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2012
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2011
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ
  92. 2010
  93. JAN
  94. FEV
  95. MAR
  96. ABR
  97. MAI
  98. JUN
  99. JUL
  100. AGO
  101. SET
  102. OUT
  103. NOV
  104. DEZ
  105. 2009
  106. JAN
  107. FEV
  108. MAR
  109. ABR
  110. MAI
  111. JUN
  112. JUL
  113. AGO
  114. SET
  115. OUT
  116. NOV
  117. DEZ
  118. 2008
  119. JAN
  120. FEV
  121. MAR
  122. ABR
  123. MAI
  124. JUN
  125. JUL
  126. AGO
  127. SET
  128. OUT
  129. NOV
  130. DEZ