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15
Dez08

Dignidade aos intestinos

por JP

Viver para os prazeres gastronómicos exige uma atenção permanente à máquina corporal. Não podemos ir a uma tainada com os amigos e ser surpreendidos com uma qualquer disfunção que nos obrigue a ficar na berma da mesa à espera do reboque. Comparável à relação que um piloto estabelece com o seu carro. Uma revisão antes de uma prova exigente é o mínimo que todos devemos implementar como forma de respeitar a nossa segurança e dos nossos companheiros. Medir as tensões, verificar se o estômago está funcional, se os intestinos cumpriram o seu papel, mínimo de horas de sono, despiste de sintomas gripais, acuidade visual e auditiva, salvaguardar o apuro das papilas gustativas (evitando, nos dias anteriores, ingerir alimentos muito quentes), equilíbrio emocional, afinação da garganta, nível de líquidos ou teste de esforço, é o básico que qualquer apreciador de comida experiente garante antes de um encontro.

Todos reconhecem a importância de uma diarreia regular para o bom funcionamento da nossa máquina corporal. Os intestinos cumprem um papel tantas vezes ingrato e pouco valorizado ao longo dos séculos para a eficiência gastronómica do nosso corpo. Aos intestinos cabe o triste e pouco invejável papel de sacar os restos do que ainda houver a sacar dos restos que o corpo não quer. E tratar de abrir espaço para novos prazeres.

Essencialmente, um apreciador de boa comida respeita profundamente os seus intestinos, compreende a necessidade de estabelecer com eles uma relação de confiança, uma parceria e um bom entendimento, semelhante à de um extremo com um ponta de lança. Nem sempre é preciso levantar os olhos da relva para centrar, porque sabe que a bola vai encontrar a cabeça do número nove.

Nesta bonita relação entre o bom comedor e os seus intestinos, o que menos se deseja é um mal-entendido, compreendendo a urgência de limpeza do corpo porque logo à noite há mais uma bacalhoada.

Os intestinos restabelecem o equilíbrio natural para mais um encontro gastronómico, desimpede-nos de compromissos e coloca-nos novamente livres e desejosos de mais prazeres. Pense-se nos constrangimentos de um homem casado, incapaz de encontrar disposição e oportunidades para novos convívios. Se, de algum modo, os intestinos assumirem um compromisso duradouro e sagrado com alguns alimentos, lá se vai grande parte das nossas aventuras. É porque os meus intestinos felizmente não são muito fiéis nas suas relações, que diariamente troco de parceiro entre os mais diversos pratos da gastronomia nacional e até internacional.

No meu ponto de vista, quem gosta de comer, gosta de cagar. É um fim de ciclo, é a entrega do trabalho, completo, encadernado, revisto e sem qualquer erro; é a prova de que tudo foi consumado; é o acompanhamento até ao final do circuito alimentar; é um controlo de qualidade; é o prolongamento de todo o prazer de degustação. O bom comedor sabe que o processo de degustação é bem mais abrangente do que aquela breve caminhada do prato até ao estômago. A degustação inclui o resto do percurso, todo o passeio dos alimentos até ao cú.

Como podemos dizer que aquele frango estava delicioso, só foi pena ter-me provocado azia? ou adorei a sobremesa, mas fiquei com dores de barriga toda a noite, que me transformou num liquidificador? O bom comedor sabe que não se pode precipitar em dar notas à sua refeição. "OK, até ver adorei as papas, mas amanhã ou depois ligo a dizer a minha opinião final". Só pode afirmar "aquela vitela merece nota cinco" no momento em que se levanta da sanita e observa gloriosamente o fim de toda a degustação. Na avaliação que os críticos apresentam dos restaurantes devia haver comentários para todo este processo de digestão: macio, suave, intenso, turbulento, aromatizado,etc.

Obviamente que os intestinos foram excluídos do percurso degustativo por mero preconceito. Mas vivemos no século XXI e urge combater a última barreira da indiferença e discriminação: os intestinos.

Se há um campo da acção humana que tem estado na vanguarda na luta pela igualdade de oportunidades, que tem pisado os terrenos da experimentação para vencer a intolerância, que tem ultrapassado sempre a próxima barreira da desconfiança, é a gastronomia. Na gastronomia já se compreendeu que nem tudo que cheira mal sabe mal; na gastronomia todos têm uma oportunidade, veja-se o exemplo dos caracóis e dos chinos (para falar só em Portugal); na gastronomia ninguém é discriminado pela beleza, que o diga a lampreia; os mais velozes, os mais lentos, os mais fortes, os mais lingrinhas, os mais divertidos, os mais casmurros, os mais solitários, os mais sociáveis todos poderão ter as mesmas oportunidades na panela. Sim, ainda há muito a fazer, mas em breve falarei sobre este tema noutro texto. A gastronomia fez mais pela igualdade entre os seres vivos, pela harmonia universal entre as espécies e pelo combate ao preconceito do que qualquer ONU ou Fórum Internacional. Para quando um prémio Nobel da paz atribuído a um cozinheiro?

Mas voltemos aos intestinos, senhores. Sim, temos de regressar aos intestinos, integrá-los na gastronomia. Ninguém pode ser tão inocente que não perceba que manter a comida longe do cú, significa mantê-la longe da boca.

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1 comentário

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De Anónimo a 15.12.2008 às 21:07

Pois .... muita gente teem o cerebro ligado aos intestinos !!!
Bom texto!!! E força naquilo que sabemos

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