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Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

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05
Dez08

Odeio Bolo Rei

JP

Odeio Bolo Rei. É desagradável, difícil de mastigar, é um resultado de uma experiência mal sucedida, é feio. É uma ofensa ao nosso respeitável mundo da doçaria.

A existência do bolo rei (o seu lugar de destaque e haver quem ganhe milhares de euros com ele) é para mim um dos maiores mistérios do Natal, talvez o maior. Muito mais esquivo à compreensão do que saber quando e onde nasceu Jesus, se houve Reis Magos, que raio de significado têm as prendas,  quem é o pai. E anda por aí pessoal a fazer cálculos e a matar a cabeça para saber se a estrela foi um meteorito que se acercou da Terra naquela altura. São detalhes. Digam-me, expliquem-me, como pode um bolo recheado de frutas intragáveis, feito de massa seca, ser chamado de Bolo Rei?

Nem vou entrar por outra conversa, que é a da urgência de legislar a utilização da palavra "Rei". Uma palavra que está a ser espoliada de todo o seu significado. Sem um enquadramento legal e uma intervenção do governo para pôr ordem nisto, daqui a poucos anos a palavra cairá no ridículo. Veja-se a utilização abusiva pelos "Reis" das farturas, os "Reis" dos frangos, o "Rei" das bifanas e, inacreditável, o "Rei" dos bolos reis. Mas isso é outro debate.

Já experimentei retirar as frutas ao bolo, já arrisquei torrá-lo, passar-lhe manteiga, comê-lo após um longo jejum, ingeri-lo a seguir a vários copos de vinho, acompanhá-lo de wiskie, coberto com uma fatia de queijo, esmigalhá-lo e engoli-lo de olhos fechados e sem mastigar, empapá-lo em leite, misturá-lo com doce de ovos, mas nada retira aquela sensação de tortura, nada encobre aquele sabor desagradável, seco, inconsequente e que tira todo o sentido ao acto de comer.

O Bolo rei representa o que de pior temos na nossa sociedade: a normalização discreta, burocrática e dogmativa da idiotice. Quando damos por ela, já faz parte da tradição e das leis.

É óbvio que o bolo rei foi uma piada ou brincadeira que as pessoas não perceberam. Não há português que faça a vénia a este "Rei" dos bolos, mas chegado o natal, os portugueses compram dois lá para casa e dois para oferecer. Tem de ser, senão, não é Natal.

É uma espécie de penitência, como se todos tivessemos de padecer pelos sofrimentos que aguardam o menino Jesus. Caros portugueses, prefiro dar três ou quatro vergastadas nas costas e voltar para a mesa para comer com prazer, do que sujeitar-me a uma fatia de bolo rei.

O bolo rei representa, para mim, a ideia de que tudo tem limites, principalmente na gastronomia. Actualmente, vive-se na era da "Cozinha criativa", onde muitas experiências são bem vindas, mas acho que o bolo rei deve estar sempre presente na mente dos cozinheiros, como uma estrela que os oriente, como um exemplo, como uma lição: "OK, frutas cristalizadas, também é de mais, porra!". Um dia destes metem-nos chila no frango de cabidela ou sangue de porco no bacalhau assado?

A propósito: para além dos dois bolos reis que compramos aqui para casa, pelo amor de Deus não me ofereçam mais nenhum este Natal. Normalmente, em cima da mesa, estão seis bolos reis e 10 garrafas de espumante doce do mais rasca que se consegue imaginar. Urge o mundo dos espumantes arranjar outra designação para além do seco, meio-seco e doce; talvez o "docíssimo", o "Ultra-doce" ou o "TDqMN - Tão doce que mete nojo" (mais um excelente tema para breve).

Será que há empresas especializadas em cristalização de frutos?

Eu teria vergonha de enriquecer à custa da droga, da venda de armas ou da cristalização da fruta. Ou melhor, tinha vergonha de confessar qual a origem do dinheiro.

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