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02
Dez08

Maldita Neve

por JP

Chegou o frio. Serras congeladas e neve a cobrir montes, telhados e estradas. Jornalistas a acompanhar filas de trânsito embrulhadas em gelo.

Percorri, inquieto, os quatro cantos da casa. Todos preocupados com as famílias enfiadas em gorros e cachecóis, que se metem por essas estradas porque sabem que depois vão aparecer na televisão. Claro, o Papá diz: vamos andar a 20 km hora para a serra, tirar umas fotos a fazer uns pirilaus na neve e pode ser que apareça um jornalista a perguntar se estamos com frio.

Neve Alvão

Enquanto isso, ninguém se preocupou com os cabritos, coelhos e vitelos enregelados do lado de lá dos montes. Nem um único helicóptero para dar uma olhadela se havia populações ameaçadas. Ninguém se preocupou em saber se o gelo não estaria a destruir pés de vinha. Se a produção de azeite do próximo ano corria riscos. Se telhados carregados de neve podiam ruir sobre centenas de milhares de garrafas de bom vinho. Alguém andou a limpar os acessos a tascas como o Nariz do Mundo? Não, andou tudo a brincar com a neve, como sempre.

Felizmente, eu tinha planos para um fim-de-semana no Douro. Arranquei por essas serras, com passagem por Vila Pouca de Aguiar. Além das roupas, apenas o essencial: um desodorizante, que em tempos de frio pode substituir, por uns dias, um bom banho; perfume, que estrategicamente colocado substitui lavagem de roupa por uma semana; um saca-rolhas e uma tablete de pastilhas rennie.

O BMW atestado de GPL, a rapariga ao lado e a família à espera.

Em Cabeceiras, a primeira dificuldade: a estrada bloqueada por causa do gelo. Encostei o carro na berma, esperando que abrissem a circulação.

Fui falar com o agente, expliquei-lhe que a situação era desesperante, tinha uma feijoada à minha espera e, se não resolvessem o problema rapidamente, teria de a comer ao jantar, provavelmente aquecida.

Ele mostrou-se sensibilizado, pareceu-me que iria interceder para que eu conseguisse chegar até às 17h00, altura em que a feijoada poderia ainda estar a uma temperatura aceitável, não necessitando de voltar ao lume.

Vi-o a falar ao telemóvel, pareceu-me bastante solícito. Com o tempo, o pior dos cenários tornou-se uma realidade: não só iria comer a feijoada aquecida (com danos ainda por calcular), como inviabilizava a costeleta de vitela prevista para o jantar. Uma verdade demasiado dura que me estragou grande parte da viagem. Maldito governo, gastam o dinheiro nos bancos, em vez de comprar limpa-neves. Este país nunca chegará a lado nenhum.

Obviamente que eu já tinha pesado todas as alternativas: podia comer a costeleta de vitela por volta das 21h, mas só se me atirasse à feijoada até às 18h, o que estava já fora do meu alcance. Era impensável a costeleta por voltas 23h, porque ameaçava seriamente a degustação do cordeiro no almoço seguinte. Mesmo tratando-se de um fim-de-semana prolongado, já nada havia a fazer, segunda-feira estava prevista uma reunião urgente com um bacalhau assado na grelha. Uma agenda demasiado preenchida tem destes inconvenientes, retira alguma flexibilidade.

Mas a rigidez do plano gastronómico a cumprir foi complementado com uma diversificada e criativa escolha de vinhos: Douro Tinto 2007, Douro Tinto 2006 “reserva Tinta Roriz” e Douro Branco Quinta do Crasto 2007.

Tenho de confessar que recorri permanentemente a ajudas de substâncias digestivas: J&B envelhecido qb.

Notas: a feijoada aguentou-se bem, apresentando-se em grande parte do seu esplendor! Mas deve servir de lição às nossas autoridades. Um mau sistema de alerta civil provoca danos incalculáveis na gastronomia nacional. Ainda não foram apresentados números oficiais da quantidade de papas de sarrabulho, pica no chão, cabrito assado, feijoadas, entre muitos outros, que ficaram barricados e isolados pela neve durante todo o fim-de-semana. Chegou a altura, de acordar para essa realidade.

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1 comentário

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De PN a 03.12.2008 às 12:30

Tá demais, parabéns!!!

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