Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Um estudo recente veio confirmar o que já se suspeitava há anos: as pessoas no momento de escolherem um restaurante comportam-se como retardadas. O que torna interessante este estudo é que os indivíduos testados, quando transitam de uma decisão sobre aplicações financeiras para uma decisão sobre onde ir almoçar, activam a protecção de ecrã e entram em modo de poupança de energia. O cérebro fica em escuridão quase total, vislumbrando-se apenas uma luz de presença lá pelo bolbo raquidiano.

Este estudo foi realizado por mim, durante dois anos, e culminou num fim-de-semana desastroso, com duas incompreensíveis escolhas para almoçar: o Costa do Vez e a Senhora Peliteiro.

 

 cabrito-assado-no-forno.jpg

https://www.tripadvisor.com.br/


No sábado, o primeiro sinal de perigo que ignorei, à capitão do Costa Concórdia, foi que estava absolutamente excitado com cabrito, delirando com imagens da “foda à Monção”, do pingado ou estonado. Como se fortemente perturbado pela figura da Mónica Bellucci, fosse procurar satisfação nas páginas de relax do JN. Convenhamos que é mais fácil pescar bacalhau no rio Douro. Na melhor das hipóteses, se a inquietação for muita, pode-se tentar uma aproximação com uma transexual inchada.

A vida já me ensinou que não se deve ir a um restaurante para satisfazer uma fantasia do ideal de perfeição, o ícone do cabrito, um gastro-símbolo e não o cabrito em si. Isso é desejar o desejo, é assegurar a insatisfação permanente.

O segundo sinal de perigo que ignorei, com a inconsciência do bambi a passear numa reserva de caça, foi ao consultar o site do Costa. Tenho por princípio duvidar de restaurantes que apresentam fotografias dos pratos. O Costa apresenta, revelando um totalitarismo gastronómico que ofende aqueles que acreditam que cada cabrito é um cabrito.

Guardo uma fotografia da Scarlett Johanssen na carteira como símbolo da mulher e eu casei-me com uma mulher, logo, é uma fotografia para me recordar todos os dias da minha esposa. O pior do platonismo do Costa, é que a imagem que ele tem do ideal já está um poucochinho corrompida.

Finalmente, o último sinal de perigo que ignorei como um banhista daltónico na Nazaré depois de comer uma feijoada, foi que das oito imagens de pratos apresentadas no site, nenhuma é de cabrito.

Resultado: uma travessa de cabrito de peles amolecidas, os poucos ossos embrulhados em altas camadas de carne e um tempero pós-troika.

No domingo, optei pela Senhora Peliteiro: restaurante e atelier gastronómico. Não entendo porque é que os restaurantes não são apenas isso, restaurantes, e a cozinha deixou de ser um exclusivo dos cozinheiros e agora alberga por lá designers, artistas plásticos, arquitectos e artesãos. Bauhaus de sabores regionais ou Factory das tabernas. Não faltará muito para irmos a centros de arte gastronómica contemporânea fotografar comida empratada. No caso da Senhora Peliteiro, face à dimensão exígua das doses, ainda pensei que tivessem trazido a amostra para adiantarmos trabalho, tirando a foto para o facebook, e depois viria a travessa. Enganei-me.

polvo.jpg

https://www.thefork.pt/restaurante/sra-peliteiro/64792

(Boa ideia para restaurantes: criar um espaço intermédio, com pratos em exposição, talheres para picar, copos de vinho, telas verdes, ”tire aqui a foto para o seu facebook e instagram”).

Restaurantes que promovem criatividade assente em combinação de dois pratos, se possível de dois países diferentes, tem tudo para me desiludir.

O Polvo estava bom, mas o do Jardim, em Famalicão, é bem melhor. A moqueca, pouco interessante. Um panado para uma criança de 5 anos carregado de pimenta. A conta implacável e imune a qualquer reclamação e ao bom senso. Conclusão: fomos comer dois pregos a Mindelo, que, diga-se, também estavam uns furos abaixo do habitual.

(Sugestão para designers gastronómicos: “bacalhau com desconhecidos”, uma espécie de curry de bacalhau, acompanhado de arroz basmati).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Na semana passada, dei por mim a lutar contra a tendência global de destruição de emprego com a descoberta de uma nova profissão: o coach alimentar. Pensava eu que tinha sido atingido por uma ideia excepcional, capaz de criar mais 2 mil postos de trabalho e, inevitavelmente, obrigado a passar os próximos meses a fazer a peregrinação pelos telejornais e talk shows da tv nacional, a ser recebido pelo primeiro-ministro, que me convidaria para gerir um instituto ou observatório nacional, e a receber a medalhinha com direito a selfie no 10 de Junho, quando, ao fazer “siga” no google, descubro que o nutricoach já existe. É que nem como piada a ideia iria servir, revelando uma estranha convergência entre o que eu acho ser piada e a realidade.

fat-man.jpg

Claro que o nutricoaching é totalmente orientado para a perda de peso e a busca do equilíbrio. Cartões de orgulho, terapias motivacionais, definição de metas e, fundamentalmente, a visão holística do indivíduo e a sua fome emocional. Eu estava mais numa de um coach que ajudasse espiritual e motivacionalmente a escolher restaurantes.

A propaganda do nutricoaching não é muito diferente da utilizada pelas religiões ou pelos estados totalitários para a criação de uma população mais pura e higiénica. Reeducação, novos hábitos, práticas erradas, equilíbrio, ajuda e mudança.

Para quem acha que não precisa de ser reeducado, eu lembro que no mundo há gordos, magros e falsos magros. Ah pois é! Não acreditam? Perguntem ao google e descobrirão que afinal o mundo está infestado de gordos. Foi como se um nutricoach me tivesse oferecido os óculos escuros do “Eles vivem”, do Carpenter.

E este falso não se refere aos cínicos que escondem barrigas com cintas ou com uma roupa uns números acima. Falso magro é a realidade a gozar com a malta. É um médico dizer “não é maligno, só não sabemos se é um falso benigno”. Por isso, e até prova em contrário, todos os portadores de quistos são doentes oncológicos.

Com os falsos magros conseguiu-se aumentar o número de gordos exponencialmente, talvez só deixando de fora uma pequena parte da população africana. A tragédia da falsa magreza é um drama profundo que só com muito bom senso não se tornará num problema de saúde à escala global, na próxima epidemia do século.

O gordo é fácil de apanhar, exibe o pecado. Por isso era preciso continuar a apertar a rede. Não basta não matar nem roubar para chegar ao céu. E pensamentos impuros, seu malandro? Ai não tens? E dares a outra face? E orares a nosso senhor todos os dias? A rede foi apertando até se conseguir apanhar os pecadores em estado larvar.

Não nos devemos surpreender se, em breve, aparecerem os falsos musculados, talvez o estímulo que faltava para eu voltar aos ginásios, só para me rir. Nem se a OMS vier a considerar a falta de obsessão pelo peso e alimentação saudável um distúrbio nervoso.

Tudo isto me parece fazer sentido. Depois do fracasso de séculos dos que procuraram o aperfeiçoamento do ser humano pelo espírito, há que apostar no corpo. A ideia é que recuperando o corpo, recauchutar-se-á o espírito. Se tiver uma pele excelente, um fígado a sair de fábrica, o colesterol controlado, as veias rijas como um pêro, uns abdominais empacotadinhos, certamente será uma pessoa melhor. O mais provável é que não seja um filho da mãe. É óbvio que não existem banqueiros corruptos com IMC inferior a 25. E assassinos vegetarianos? Haverá um adepto das dietas detox, que apresente as análises do sangue impecáveis, e seja pedófilo?

É desta perspectiva que se vê toda a dimensão da tragédia dos falsos magros: eles parecem boas pessoas, mas bem lá no fundo, pelo menos depois de conversarem com um nutricoach, eles sabem que são meninos maus.

Foto tirada daqui: http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=129940&picture=fat-man

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

04
Jan17

Tripar com o tripadvisor

por JP

Ao consultar as disparatadas avaliações no tripadvisor concluo que a esmagadora maioria dos utilizadores ou não sabe comer ou usa o sítio para tentar lixar a vida dos outros. Não se trata de pura maldade, são milhões de avaliações e comentários que reflectem a luta diária e permanente dos cidadãos pela defesa dos supremos valores de justiça e igualdade.

trip-advisor-png.png

Há umas semanas paguei 60€, mais deslocações com portagens à mistura, para ficar mais culto com uma deprimente experiência gastronómica em Leça da Palmeira. Parece-me justo que os outros também paguem para aprender. Sem o tripadvisor eu não poderia continuar na minha luta contra as eternas desigualdades sociais, contra a opressão emocional dos filhos da mãe a quem tudo corre de feição. Esses ficam sempre com o filet mignon, com bons carros, só sabem fazer bons negócios, só bebem excelentes vinhos e, ainda por cima, iam aprender o mesmo que eu sem gastar um tostão. Abaixo os opressores do amor-próprio do povo!

No outro dia aguardava a minha vez na fila para pagar na Decathlon, quando abriram mais uma caixa. Quem estava já à espera, manteve respeitosamente a fila única para fazer uma distribuição justa pelas duas caixas. Isto até aparecer um casal de portugueses que achou que tinha descoberto o caminho a pé para a mágica caixa sem filas. Descobriu e usufruiu. Perdi a paciência e passei-me. Tinha de fazer alguma coisa. Fui para casa e dei 5 estrelas ao Taberna da Villa em Gaia, recomendei vivamente o Nariz do Mundo como o restaurante mais autêntico de Portugal e escrevi num comentário que ninguém deveria morrer sem provar a francesinha do Capa Negra, reforçando com um “a melhor da galáxia”.

Mas como estava insaciável, fui a um fórum da autohoje afirmar que já há reparação definitiva, por 100€, para a bomba lucas do mercedes 220, mas só um mecânico no Fundão é que faz isso. Vai entreter muita gente durante alguns meses. Partilhei que o arroz carolino é uma solução cada vez mais utilizada para acabar com as fugas de óleo do motor.

Num fórum da Women’s Health escrevi que as dietas sem hidratos de carbono tendem a alterar o ph da vagina, provocando vaginose. Que um estudo inglês provou que besuntar diariamente o ânus com banha de porco diminui em 80% o risco de cancro do cólon. E especialmente para os avós, no facebook e comentários em revistas, revelei que o dedo mindinho no rabo dos bebés previne a homossexualidade.

Finalmente, pude descansar um pouco.

E a internet é isto, tem o extraordinário efeito de desactivar a firewall que protegia o mundo de toda a espécie de lixo e vírus emocionais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As grandes histórias de amor são feitas de pares improváveis que nos fazem acreditar numa força insubmissa e gravítica capaz de juntar Romeu e Julieta, Florentino e Fermina, Rick e Ilsa ou o casal Espeta.

adega do Espeta.jpg

 

Em qualquer ida ao Espeta, arrastado pelas correntes turvas e manhosas dos grupos, descubro-me um lamechas, que entra em ebulição quando se aproxima de uma bela história de amor.

Ela, uma cozinheira inspirada, dominatrix de temperos e sabores tradicionais, e ele um homem de balcão como já se fazem poucos. No Espeta, o cliente é abençoado pelo maior fruto dessa relação. Meus caros, no mercado actual, globalizado, e onde já passamos o ponto de não retorno do aquecimento provocado pelo excesso de emissões de amor romântico, é uma experiência raríssima.

O utilitarismo foi mandado para a clandestinidade nas relações afectivas pela jiade do politicamente correcto. Neste estado policial da afectividade, os vigilantes estão atentos ao normal funcionamento do amor tonto, só admitindo as bajoujices costumeiras - emoções, paixões, atracções, sensações e até o ai que é tão complicado. Uma imensa espiral de egocentrismo num pântano de sensibilidades cujo fim poderia abalar mais a economia mundial do que uma definitiva seca de petróleo

Conceitos como funcionalidade, bem comum, utilidade, desempenho ou produtividade numa relação amorosa são apenas permitidos como figuras de estilo.
Eu acredito no amor utilitário e funcional. Imagino uma arquitecta a desejar homens másculos, inteligentes, decididos, mas obrigatoriamente empreiteiros. Um jovem webdesigner aceita blind dates com gajas divertidas, de grandes mamas, mas imprescindivelmente programadoras, preferencialmente PHP, javascript e python. Um amor que produzirá páginas web espectaculares. Um endireita juntar-se-ia a uma massagista especializada em finais felizes, é difícil conceber a perfeição e a completude do tratamento que proporcionariam aos seus clientes. Um viticultor pode gostar de mulheres loiras ou morenas, de anca mais ou menos larga, e até adepta de bondage, mas indiscutivelmente enóloga.

Uma gestora financeira e um traficante de droga ou uma advogada e um presidente de câmara são combinações quase perfeitas, parecem saídas de uma norma ISO, mas subsiste aquele ligeiro ruído do egoísmo, cagam-se para o maior valor ético do utilitarismo, o bem comum.

A improbabilidade de uma combinação verdadeiramente útil é assustadora. Por cada milhão de conjugações insípidas, lamentáveis, estéreis ou alienadas, aparece uma à la Espeta. Percebe-se a fragilidade deste mundo construído em cima de fenómenos físicos e químicos, a que chamamos, entre outras coisas, amor, que suspeito seja um espaço quântico sem lei nem roque, uma dimensão digna do Mad Max ou de uma cidade controlada pelo Estado Islâmico. É nisso que penso, quando o Espeta traz mais uma garrafa e umas pataniscas. Se calha de o homem se ter enamorado por uma cantora popular, uma empresária têxtil, uma obsessiva-compulsiva, uma alérgica a alho, uma vegetariana, uma anorética, uma feminista, uma culturista ou a espetinha perder-se de amores por um empreiteiro, um condutor de pesados ou um panasca éramos imediatamente chupados por uma palhinha electromagnética, enfiada numa curva espaciotemporal, e cuspidos num miserável tasco, com petingas amolecidas, codornizes aquecidas em óleo e vinho duvidoso.

Imagem: http://www.visitepontedelima.pt/pt/turismo/adega-do-espeta/

Autoria e outros dados (tags, etc)

Regressei há uns tempos à tasquinha do Fumo e fiquei chocado com a minha extrema propensão para o deslumbramento. Uma hipersensibilidade relativamente comum, em que na presença de algumas circunstâncias ambientais, a reacção alérgica é imediata, e desenvolvo um enorme abcesso de fascínio. Ou então estarei a ficar imune à sensatez.

Começo a convencer-me que é preciso ter cuidado comigo, não posso ser largado à solta no mundo da crítica gastronómica, nem sair para blind dates sem um tutor. E convém nunca trabalhar em sismografia, controlo de doenças virais e combate ao terrorismo.

TF.jpg

Claro que poderia simplesmente apagar o texto que tinha escrito sobre a casa e confiar que o baixíssimo nível de leitores do nosso blog me asseguraria uma velhice calma e sem sobressaltos. Mas não posso dizer agora que o escrevi sem sinceridade e nunca estaria livre de um dia alguém me apontar na rua, “olha lá, tu não eras dactilógrafo em Auschwitz?”.

Há fantasmas que convém assassinar e dissolver em ácido enquanto sabemos por onde andam.

Por isso, meus caros, opto por não renegar o que escrevi, mas apenas fazer uma actualização, resumindo com um substantivo feminino a minha nova experiência neste restaurante: foi uma merda. Senti-me como se só à segunda visita tivesse percebido que a Coreia do Norte tem algumas insuficiências democráticas. Como se apenas no final da garrafa reparasse que tinha a boca revestida a cortiça. Como se apenas no segundo encontro desse conta que aquele enorme par de mamas ocultava uma obesidade de grau 2.

Mas esta sensação de logro pode ser injusta. A Tasquinha do Fumo terá já sido um bom local para repasto e eu acredito que estive lá nessa altura. E não foi há muito tempo. Mas este facto ainda torna mais inadmissível o desleixo e desinteresse que senti por mim enquanto cliente. Cara tasquinha, quem ama, não trata assim. Vou procurar quem se preocupe comigo.

Lembrete no meu telemóvel com alarmes diários: esforçar-me por melhorar os meus níveis de lucidez, reduzindo o consumo de bebidas brancas e recusando-me a escrever sobre restaurantes que só tenha visitado uma vez.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Já não me lembro de quando comi o primeiro bolinho de bacalhau. Ele estava nos aniversários, nos natais, nas festas da guarda fiscal, nos dias especiais, nos passeios de escola e em qualquer convívio. Para mim, o bolinho brilhava no centro da mesa mais do que as outras entradas, os enchidos, o prato principal, os doces e até mais do que as outras crianças.

O bolinho de bacalhau tem um efeito instintivo em mim, provoca uma reacção química e biológica, um cio gastronómico, sobre o qual não tenho qualquer tipo de controlo. Sei que nessas alturas de cio tenho uma absoluta e descontrolada atracção por bolinhos de bacalhau.

O cio acontece sempre que vejo um prato de bolinhos no centro da mesa. Não interessa se a seguir vem cabrito, bacalhau ou cozido, não interessa as companhias, eu simplesmente deixo de conseguir estruturar um pensamento lógico. Tento abstrair-me, contar objectos, beliscar-me nas pernas, falar de futebol, mas irremediavelmente vou tentar sacar o máximo de bolinhos que puder, muitas vezes transpondo os limites do bom senso e da educação.

A minha paixão por bolinhos é tão primordial que só posso considerar que venha inscrita no meu ADN. Há por lá uma molécula com a gravação: este indivíduo adora bolinhos de bacalhau, ele pode não o saber, mas sob várias ameaças à sua integridade, e num contexto muito específico, ele aceitaria ser sodomizado em troca do último cesto carregadinho de bolinhos de bacalhau feitos pela avozinha.

bb.jpg

Só muito raramente encontro bons bolinhos de bacalhau e fico realmente ofendido quando em alguns tascos servem pasta de batata ensopada com água de bacalhau. Disparam-me os níveis de indignação como à malta que se revolta quando vê um cão a ser maltratado. Apetece-me que os responsáveis sejam condenados a coimas obscenas, apontados na praça pública, humilhados nas redes sociais. Sim, eu estaria lá a comentar, a partilhar postas infectadas de indignação. Deviam-te fazer o mesmo a ti, cabrão.

O desprezo que certos indivíduos guardam para o bolinho diz muito sobre estes seres humanos. Não se pode confiar num tasqueiro que tem coragem de apresentar ao público um bolinho de bacalhau contrafeito. Só pode querer dizer que a infância foi problemática e quando digo problemática, quero dizer patologicamente problemática. Sim, quase todos a tivemos, ou não fossemos na grande maioria filhos de pais portugueses, mas no meio disto, nunca ter provado um bom bolinho de bacalhau, faz disparar o sinal de alerta em qualquer consultório de psiquiatria.

Na infância nunca provaste um bolinho recheado de bacalhau, estaladiço por fora, cremoso por dentro (sim, roubei de um banal anúncio de gelados, que provavelmente se inspirou naquilo que todos sabíamos sobre o bolinho de bacalhau), com um travo do azeite, salpicado de salsa? Isso é descobrir num tasqueiro uma infância negra, como se algum adulto lhe tivesse andado a mexer na pilinha, o que só pode descrever um presente de despeito, ódio pelos seres humanos, desconforto, a massa e o molho com que se fazem os psicopatas da restauração nacional.

Não duvidem, na restauração concentra-se a grande maioria dos psicopatas portugueses.

O grosso destes desequilibrados, em vez de acumular cadáveres, como o fazem muitos dos seus congéneres norte-americanos, obtém prazer com a tortura lenta, prefere promover mortes demoradas, destruir palatos, arruinar gargantas, chafurdar estômagos, envenenar fígados, enterrar memórias (da boa comida), dissimular-se de bons cidadãos e amigos dos seus clientes enquanto os apodrecem lenta e sadicamente. Os mais sofisticados vão acompanhando esse apodrecimento ao longo dos anos.

Estes algozes são muito mais refinados e praticamente impossíveis de identificar e de deter. Ao contrário dos norte-americanos, que raptam, estrangulam ou retalham, e siga para outra, estes psicopatas massacram enormes grupos de vítimas, entupindo-lhes pacientemente as artérias. Não vamos falar dos óleos, neste momento não são para aqui chamados, nem dos líquidos servidos nas diárias feitos de água e pó, fiquemo-nos pelo bolinho de bacalhau. Pois é, sempre que um tasqueiro me serve um bolinho desses eu tenho quase a certeza de identificar um psicopata.

Certo, pode haver outras explicações. O homem talvez não seja um psicopata, pode ser tão só um filho da puta, no melhor dos sentidos da língua portuguesa. O espertalhão que se considera mais inteligente que os outros e que fez as contas para ganhar mais alguns cêntimos por bolinho, confiando que o cliente come tudo o que lhe puserem na pia. Sim, porque ele acredita que os restaurantes só ganham dinheiro se fizerem uma lavagem cerebral aos clientes, por via oral, até os tornarem em sem abrigos da tradição gastronómica, proprietários falidos da imensa riqueza da cozinha nacional.

Este espécime é daqueles para quem só interessa as pessoas do seu sangue, que vivem na mesma habitação e que provavelmente são seus descendentes. Porque há todo um conjunto de familiares que ele não respeita. Este filho da mãe continua a sentir que chegou ao planeta terra sem ter vindo pelas ramificações seminais que unem todos os seres humanos. Não, ele e a família lá de casa estão desligados, sabe-se lá como, dos nabos que os rodeiam.

Há ainda os ignorantes, coitados. Mas coitados, talvez não. Vamos continuar a ser complacentes com a ignorância na restauração nacional? Não sabe, que feche portas, em vez de continuar a contribuir para a extinção dos bolinhos de bacalhau. Ninguém aceita com esta serenidade a ignorância num médico, num mecânico, mas temos de a aceitar no Zé do Tasco. Convenhamos, estes simpáticos indivíduos circulam há anos em sentido contrário, abalroando bons cidadãos e famílias inteiras nas suas viagens de regresso à boa comida portuguesa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

24
Set15

O bacalhau do Victor

por JP

Quando o Victor abriu o seu restaurante, não imaginaria que hoje Victor seria quase reconhecido como uma espécie de bacalhau, a par do gadus morhua, do macrocephalus ou do molva.

Entre os clientes é comum dizer-se que vão comer o bacalhau do Victor, o que em vez de centrar a atenção no lugar onde o vão degustar, destacam a quem pertence o bacalhau, levando-nos a supor que o Victor tem um bacalhau que os outros não têm: ou porque o vai pescar, ou porque faz criação própria, num tanque nas traseiras da casa, ou porque é uma espécie única que o Victor terá criado, cruzando um bom macho gadus morhua, de lombo saliente, com uma das fêmeas mais férteis dos sete mares. A espécie victor, o boxer do mundo dos bacalhaus.

Inevitavelmente, o impacto do Victor estendeu-se da gastronomia à semântica. Victor está a deixar de ser apenas um nome próprio para se assumir ora como substantivo, peixe gadídeo em posta que vai de um lado ao outro do prato e não é um prato pequeno, ora como adjectivo, diz-se do bacalhau que solta lascas longas e suaves lambidas em azeite do bom.

No bacalhau do Victor, Bacalhau assado com batatas a murro, não há nada que enganar: uma posta imponente de bacalhau, batatas, azeite, alho e cebola.

11265142_965939446762323_270751316_o.jpg

Uns inventam outros preservam. Com tanto ruído que há hoje no mundo da gastronomia, de chefs, livros, concursos e migrações de ervas e temperos, o Victor ajuda a lembrar-nos porque é que gostamos tanto de bacalhau. Não há frituras, molhos, maioneses ou combinações que possam iludir a falta de qualidade. Não há invenções, intervenções, interpretações, reduções, apenas se convocam as qualidades naturais dos produtos.

É a negação do fetiche na psicologia gastronómica. Não há cama de legumes nem chaise long de molhos, não há submissões a confitados nem compotas, não há asfixia com emulsões nem caramelizados, não é só badana, nem é só lombo e o cliente é que faz o seu empratamento.

 

Uma das virtudes do Victor é o ambiente familiar e os portugueses sublimam a relação da família com a cozinha. Sem a família à moda antiga, os nossos melhores pratos ter-se-iam perdido no tempo. Enquanto se discutisse os problemas de comunicação no casal ou a falta de maturidade do homem, ninguém se lembrava de encher as chouriças; com o filho a querer assumir a sua homossexualidade e a filha a trocar de namorados, o povo ia esquecendo-se que o pica no chão levava sangue e mais tarde o arroz começaria a vir acompanhado de batata frita.

Além disso, a emancipação das mulheres e pratos tradicionais sempre foram incompatíveis. Como conciliar o aperfeiçoamento das papas de sarrabulho com a importância do orgasmo feminino? Como é que mulheres preocupadas em equilibrar carreiras profissionais com vida familiar deixariam a carne da chanfana a estufar durante 4 horas? Não é possível conhecer alguns dos segredos da sensualidade depois dos 40 e saber lavar bem as tripas utilizadas nas alheiras, elaborar um bom currículo e depenar um galo com destreza, vestir cuequinhas comestíveis e preparar uma boa lavagem para os porcos. As revistas femininas teriam simplesmente exterminado a nossa cozinha, “Matança do Porco: quando ele não lhe dá a atenção que você merece” ou “Conheça as tendências nas unhas para o fumeiro deste ano”.

Por isso, sentir o ambiente familiar no victor, na decoração das salas e no atendimento, alimenta uma certa sensação de conforto e de proximidade com a nossa cozinha.

 

O Victor poderia ter seguido uma carreira de palestrante motivacional e provavelmente teria ajudado muitos negócios a não soçobrarem por falta de confiança. Há que respeitar o homem pela confiança zen no seu produto e a convicção da sua carta: Bacalhau. O Victor é uma espécie de Mr. Miyagi para os jovens karate kids da restauração nacional.

Claro que também há por lá um bife ou costeleta para as crianças e algumas companhias duvidosas, mas, essencialmente, é o que se pode chamar de restaurante “monocarta”.

12026698_965264616829806_1022622825_n.jpg

 Não vamos a este restaurante porque é mais perto, mais barato, porque queremos ser surpreendidos, porque o cozinheiro é bom, porque se come muito ou porque o ambiente é sossegado, vamos movidos pelo desejo.

O Victor, que não é um freudiano, parece ter compreendido bem Deleuze e percebeu como funciona a máquina do desejo. Nós nunca desejamos apenas um bacalhau, desejamos um conjunto de coisas que se implicam e envolvem umas às outras.

Vamos ao Victor pelo Bacalhau, mas calma, não resisto aos preliminares, bolinhos de bacalhau e alheira. Só depois o bacalhau assado, sim, mas nunca sem as batatas a murro, tostadas e macias. Mas calma, calma, e o azeite? Sim, o azeite e as rodelinhas de cebola. Isso, isso. E com bom vinho… ó meu deus, com vinho, muito vinho... E o leite creme, senhores? Esperem, esperem, isto não pára, agora desejo que seja num ambiente rústico, sim senhor, mas luminoso. E não esquecer um grupo de amigos e as conversas cada vez mais turvas…

Autoria e outros dados (tags, etc)

16
Jan15

Tasquinha do Fumo

por JP

Ora cá está uma casa onde se optou por afofar a designação do espaço com um diminuitivo, elevando-se de bitch das casas de repasto que é a “tasca”, à menina doce e formosa do mundo da restauração.
Tasquinha é um espaço que mais do que agradável, é querido, aconchegante e gostoso. Meiguinho, pode-se dizer. Este apaneleiramento da designação do local é intrigante, porque lá dentro deparamo-nos com uma ocupação a 100% de homens. É concebível que a mesa liberte uma necessidade masculina de conforto e meiguices, até porque em ambientes de tasca é frequente os homens abusarem dos diminutivos: tasquinha, moelinhas, cabritinho, copinho, garrafinha e até um arrozinho.

tasquinha-do-fumo.jpg

Mas se tasca parece tornar os homens mais sensíveis e emotivos, ela é também um dos últimos redutos onde os homens se podem assumir tão fúteis e destituídos de racionabilidade quando possível. As tascas são as últimas trincheiras do pensamento livre e incoerente, onde tudo pode ser dito, inclusive o seu contrário.
Não há mercado tão volátil e especulativo como a tasca. Na tasca assistimos à total desvalorização da palavra, investe-se numa ideia e vêmo-la logo de seguida a cair para mínimos históricos.
Ninguém ganha um debate numa tasca, mas continua-se a investir. Discute-se futebol, política, sexo, guerras, economia mas todos sabem que não haverá consequências para o mundo. De uma tasca não saem revoluções, tendências, conclusões, ideias para livros, orientações, correntes, definições, conteúdos programáticos.
Se foi importante para a evolução da humanidade que os nossos antepassados tivessem descido das árvores, também foi decisivo o momento em que os homens saem das tascas. O que seria de nós se os grandes filósofos gregos passassem as tardes no tasco? Dos diálogos de Platão talvez sobrassem hoje três ou quatro guardanapos com bitaites.
Mas teria sido muito positivo que outros nunca de lá tivessem saído. Se o Hitler e os seus comparsas frequentassem a tasca a falar de judeus entre iscas, pernis e garrafas, ou o salazar a gritar “orgulhosamente sós” com uma tigelinha na mão, o mundo seria muito mais feliz.

Foi orientados por uma aliteração que quatro homens se sentaram à mesa na Tasquinha do Fumo, em Baião: comer, beber e debater.
Na sala parecia ter havido uma fuga de testosterona, era o local no nosso país com menos vaginas por metro quadrado. Se houvesse um cataclismo global e apenas sobrevivessem as pessoas que estavam na tasquinha do fumo, o fim da humanidade haveria de ser demorado e irónico. As mesas  longas e corridas estavam ocupadas integralmente por homens, o que não deixa de ser um ambiente confortável quando se procura enfardar cabrito, enchidos, pão, azeitonas e esvaziar várias garrafas de vinho.
Optamos sem discussões pelo vinho tinto e mais tarde pelo branco, que nos agradaram do início ao fim.
O constrangimento: descobrir a meio da refeição que não estávamos a comer cabrito, mas sim anho. Temos a desculpa de estarmos concentrados nos debates e de já irmos na terceira garrafa quando o animal chegou à mesa. Mas não seria muito mais embaraçoso se um médico estagiário fizesse uma colonoscopia à procura de pedras nos rins.
O anho não vem imerso em molho, parece vir enxuto, mas na prova libertam-se os sucos do tempero. A carne estava deliciosa: macia, suculenta e aromatizada.  Repetimos a travessa, sem esquecer a dose de batatas, que de tão boas distraem-nos do anho.
Para sobremesa, experimentámos leite creme e pão de ló com queijo.
Foram uns justos 20 € por pessoa.


Ser português devia ser considerado um tipo de esquizofrenia. Definição: transtorno mental em que a pessoa vive obcecada pelo revestimento do mundo onde vive a alcatrão e betão, mas continua a acreditar em contos de fadas no meio da floresta. Neste tipo de esquizofrenia, reveste-se tudo, inclusive o revestimento, mas a pessoa revela fantasias com restaurantes mágicos perdidos nos montes e longos caminhos em terra batida que o levam até pessoas típicas, simpáticas e felizes para lhe servir a comidinha do mundo maravilhoso da avó. O tratamento merecido indicado é apanhá-lo no fim de um desses caminhos em terra batida e obrigá-lo a comer batatas fritas requentadas, com arroz pastoso e fêveras de porco encharcadas em óleo.
A Tasquinha do Fumo vem dificultar o tratamento desta patologia, alimentando ainda mais a fantasia dos portugueses com boa comida escondida nos nossos vales e montes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

16
Dez14

É aqui e mais nada

por JP

“Tasca Trancoso” não é apenas o nome de um restaurante na Póvoa de Lanhoso, é uma afirmação contundente e desafiadora, acompanhada de um murro na mesa: é uma tasca e quer que lhe chamem tasca. No nosso país, é uma ousadia. Portugal desde que entrou na UE faz-me lembrar uma vizinha que tinha vergonha que se soubesse na escola que vivia num bairro social. E nem pensar que alguém desconfiasse que a mãe limpava escadas. Em 30 anos perseguimos os bigodes, abolimos a casal de 4 lugares, a porrada nas crianças, as chouriças caseiras, os garrafões passaram à clandestinidade (e a BOX está na moda), toda a gente tem estudos, usam-se luvas nas padarias, já quase ninguém anda de joelhos em Fátima, os restaurantes têm faia nas paredes e casas de banho a cheirar a lavanda e os avôs em vez de trabalharem no campo, estão no centro de dia ou a fazer hidroginástica.

Enquanto a manipulação genética para a melhoria da espécie não avança, a eugenia lexical vai dando grandes passos. Em três décadas quase deixou de haver em Portugal atrasados mentais, mancos, pernetas, moucos, caixas de óculos, vesgos, fanhosos e tascas. Muitos proprietários tremem quando ouvem chamar tasca ao seus espaços, tomam como uma acusação. 

A Tasca Trancoso situa-se numa rua próxima do centro da Póvoa de Lanhoso. No pouco que consigo recordar, a rua é ladeada por um pequeno prédio e algumas moradias recentes. Senti que tinha sido iludido quando saí do carro. Imaginem que vos convidavam para participar numa montaria ao javali no parque da cidade.

É possível que esteja a exagerar, mas quando nos falam de um bom tasco na Póvoa de Lanhoso, a expectativa é alimentada pelo conceito de probabilidade: a Póvoa do Lanhoso tem 134 km2, distribuídos por 22 freguesias, dos quais a freguesia central representa apenas 3,8% da área total. Lembrando que os tascos praticamente foram banidos dos centros urbanos, obviamente eu esperava uma freguesia arrumada no meio dos montes, com acessos irritantemente demorados e um casario em pedra.

Bem, mas saltemos para o interior, porque aqui a estória já é diferente. Houve um claro esforço dos donos em encontrar a identidade rural do espaço. Dois barris à entrada, um balcão amplo, mesas compridas e uma casa de banho que é uma obra prima do revisionismo do estilo tasqueiro clássico.

Aqui e acolá, alguns aspectos abandalharam o conceito, como a divisória transparente para a cozinha, permitindo que os clientes acompanhem todos os passos das cozinheiras. Provavelmente, foi a inspiração para o chef Rui Paula instalar o Big Brother na cozinha do DOC.

O Cabrito era bom, sim senhor. Crestado e macio. Alguém disse que preferia as batatas mais tostadas. A senhora explicou calmamente que tostar mais as batatas iria deixar o cabrito seco. E para mim bastou-me.

Para além da afirmação “Tasca Trancoso”, à porta deste espaço podemos ler outra asserção que se nos entranha como um parafuso: “Cabrito assado em forno a lenha é aqui!”. Uma frase que levanta questões físicas, filosóficas e geométricas.

A questão geométrica é a mais simples, o dono definiu claramente uma recta do substantivo até ao advérbio. Não há caminho mais curto para chegar ao cabrito assado no forno a lenha. Mas o problema geométrico é negado pela impossibilidade física: se é aqui não é ali, um corpo não pode ocupar dois pontos no espaço ao mesmo tempo, logo, não havendo dois pontos, não precisamos da recta.

A nível filosófico, o autor tentou arrumar a velha questão do predicado do cabrito assado. Tal como “O bacalhau é um peixe”, pode-se dizer “cabrito assado no forno a lenha é aqui”. Polémico, sem dúvida.

O preço.

36€ por pessoa. Durante os primeiros segundos de choque, perdi-me a abrir e a fechar as gavetas das minhas memórias, a ver se me tinha esquecido que existia algum guia de tascas michelin.

O que passa pela cabeça de um tasqueiro para considerar que pode cobrar 36€ por pessoa? Um dia destes, só os mais endinheirados vão poder desfrutar de uma boa e autêntica tasca portuguesa, totalmente desenhada por jovens arquitectos, inspirada na ruralidade e em materiais que remetem para a nossa identidade. Os velhinhos vão ser pagos principescamente e disputados pelas principais casas. Um dia destes levam-nos a velhinha de 90 anos que faz o pica no chão no Marques (Póvoa de Lanhoso) para uma tasca cinco estrelas num hotel pestana.

 

diploma.jpg

 

É_aqui.jpg

 

mictório.jpg

 

 Casa_de_Banho.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

O butelo é um encontro feliz entre duas personalidades fortes e, aparentemente, inconciliáveis da nossa cozinha: enchidos e ossos. Aquilo que parecia ser uma relação contranatura, um amor proibido, impossível e impensável, revela-se uma vitória sobre o preconceito e a pequenez de certas almas. Depois do Butelo, não há limites para os relacionamentos. Não interessa o que possa separar o Romeu da Julieta, o amor pode acontecer. Uma extremista vegana com um matador de porcos no barroso, uma decoradora de interiores com um Zé das Bifanas, uma terapeuta de spa com o proprietário de uma pocilga, uma feminista com um Quim Barreiros ou um romântico chefe de sala num restaurante com três estrelas michelin e uma vendedora coprófila de farturas. O Butelo é um casamento de sucesso, longo e para durar, que inspirará todos os amantes impossíveis. O Butelo é uma proeza da engenharia culinária: uma bexiga (ou tripa ou estômago) atafulhada da plebe das carnes do porco e de ossos do espinhaço e costela - um chouriço de ossos. Não há criatividade que se compare à dos pobres. Nunca um chef de cozinha conseguirá ter a imaginação que apenas a fome continuada consegue estimular. Um chef de cozinha jamais criaria um butelo; é como um jogador de futebol de topo a olhar para as prostitutas na nacional 3. Não interessa com quantas modelos internacionais já namorou, ali, num colchão de molas por detrás de um arbusto junto à estrada, seria um menino à beira de alguns trolhas e taxistas. A carência desperta a líbido gastronómica, tornando o povo lascivo com quase todas as sobras que apanha. O povo revela-se um autêntico Marquês de Sade a preparar restos de peixe, porcos, vitelas ou pão. Veja-se os casos das tripas, açordas, caldeiradas de peixe ou Butelo.

Fomos provar Butelo a Bragança, ao restaurante D. Roberto, em Gimonde. Um espaço agradável, rústico, com pessoal simpático e atento, onde o porco bísaro é Rei, tanto à mesa como nas paredes. O Butelo revelou-se tão excitante como eu o fantasiava: um tempero forte de pimentão, alho e louro, algo atrevido, convidando a ser comido à mão. As casulas não me entusiasmaram. Mas isso é um pormenor. Posso ser um homem de muitos acompanhamentos, sempre envolvido em casos e aventuras à mesa, mas continuo apaixonado pela boa batata cozida encharcada com azeite transmontano.
Por fim, o Montesinho. Os ares da serra apaziguam-nos, convidam-nos a sentar e a aquecer de dentro para fora. Há belezas gastronómicas que só podem ser observadas e sentidas in loco. O Butelo é uma delas.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Arquivo

  1. 2017
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2016
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2015
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2014
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2013
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2012
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2011
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ
  92. 2010
  93. JAN
  94. FEV
  95. MAR
  96. ABR
  97. MAI
  98. JUN
  99. JUL
  100. AGO
  101. SET
  102. OUT
  103. NOV
  104. DEZ
  105. 2009
  106. JAN
  107. FEV
  108. MAR
  109. ABR
  110. MAI
  111. JUN
  112. JUL
  113. AGO
  114. SET
  115. OUT
  116. NOV
  117. DEZ
  118. 2008
  119. JAN
  120. FEV
  121. MAR
  122. ABR
  123. MAI
  124. JUN
  125. JUL
  126. AGO
  127. SET
  128. OUT
  129. NOV
  130. DEZ


subscrever feeds