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As grandes histórias de amor são feitas de pares improváveis que nos fazem acreditar numa força insubmissa e gravítica capaz de juntar Romeu e Julieta, Florentino e Fermina, Rick e Ilsa ou o casal Espeta.

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Em qualquer ida ao Espeta, arrastado pelas correntes turvas e manhosas dos grupos, descubro-me um lamechas, que entra em ebulição quando se aproxima de uma bela história de amor.

Ela, uma cozinheira inspirada, dominatrix de temperos e sabores tradicionais, e ele um homem de balcão como já se fazem poucos. No Espeta, o cliente é abençoado pelo maior fruto dessa relação. Meus caros, no mercado actual, globalizado, e onde já passamos o ponto de não retorno do aquecimento provocado pelo excesso de emissões de amor romântico, é uma experiência raríssima.

O utilitarismo foi mandado para a clandestinidade nas relações afectivas pela jiade do politicamente correcto. Neste estado policial da afectividade, os vigilantes estão atentos ao normal funcionamento do amor tonto, só admitindo as bajoujices costumeiras - emoções, paixões, atracções, sensações e até o ai que é tão complicado. Uma imensa espiral de egocentrismo num pântano de sensibilidades cujo fim poderia abalar mais a economia mundial do que uma definitiva seca de petróleo

Conceitos como funcionalidade, bem comum, utilidade, desempenho ou produtividade numa relação amorosa são apenas permitidos como figuras de estilo.
Eu acredito no amor utilitário e funcional. Imagino uma arquitecta a desejar homens másculos, inteligentes, decididos, mas obrigatoriamente empreiteiros. Um jovem webdesigner aceita blind dates com gajas divertidas, de grandes mamas, mas imprescindivelmente programadoras, preferencialmente PHP, javascript e python. Um amor que produzirá páginas web espectaculares. Um endireita juntar-se-ia a uma massagista especializada em finais felizes, é difícil conceber a perfeição e a completude do tratamento que proporcionariam aos seus clientes. Um viticultor pode gostar de mulheres loiras ou morenas, de anca mais ou menos larga, e até adepta de bondage, mas indiscutivelmente enóloga.

Uma gestora financeira e um traficante de droga ou uma advogada e um presidente de câmara são combinações quase perfeitas, parecem saídas de uma norma ISO, mas subsiste aquele ligeiro ruído do egoísmo, cagam-se para o maior valor ético do utilitarismo, o bem comum.

A improbabilidade de uma combinação verdadeiramente útil é assustadora. Por cada milhão de conjugações insípidas, lamentáveis, estéreis ou alienadas, aparece uma à la Espeta. Percebe-se a fragilidade deste mundo construído em cima de fenómenos físicos e químicos, a que chamamos, entre outras coisas, amor, que suspeito seja um espaço quântico sem lei nem roque, uma dimensão digna do Mad Max ou de uma cidade controlada pelo Estado Islâmico. É nisso que penso, quando o Espeta traz mais uma garrafa e umas pataniscas. Se calha de o homem se ter enamorado por uma cantora popular, uma empresária têxtil, uma obsessiva-compulsiva, uma alérgica a alho, uma vegetariana, uma anorética, uma feminista, uma culturista ou a espetinha perder-se de amores por um empreiteiro, um condutor de pesados ou um panasca éramos imediatamente chupados por uma palhinha electromagnética, enfiada numa curva espaciotemporal, e cuspidos num miserável tasco, com petingas amolecidas, codornizes aquecidas em óleo e vinho duvidoso.

Imagem: http://www.visitepontedelima.pt/pt/turismo/adega-do-espeta/

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Regressei há uns tempos à tasquinha do Fumo e fiquei chocado com a minha extrema propensão para o deslumbramento. Uma hipersensibilidade relativamente comum, em que na presença de algumas circunstâncias ambientais, a reacção alérgica é imediata, e desenvolvo um enorme abcesso de fascínio. Ou então estarei a ficar imune à sensatez.

Começo a convencer-me que é preciso ter cuidado comigo, não posso ser largado à solta no mundo da crítica gastronómica, nem sair para blind dates sem um tutor. E convém nunca trabalhar em sismografia, controlo de doenças virais e combate ao terrorismo.

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Claro que poderia simplesmente apagar o texto que tinha escrito sobre a casa e confiar que o baixíssimo nível de leitores do nosso blog me asseguraria uma velhice calma e sem sobressaltos. Mas não posso dizer agora que o escrevi sem sinceridade e nunca estaria livre de um dia alguém me apontar na rua, “olha lá, tu não eras dactilógrafo em Auschwitz?”.

Há fantasmas que convém assassinar e dissolver em ácido enquanto sabemos por onde andam.

Por isso, meus caros, opto por não renegar o que escrevi, mas apenas fazer uma actualização, resumindo com um substantivo feminino a minha nova experiência neste restaurante: foi uma merda. Senti-me como se só à segunda visita tivesse percebido que a Coreia do Norte tem algumas insuficiências democráticas. Como se apenas no final da garrafa reparasse que tinha a boca revestida a cortiça. Como se apenas no segundo encontro desse conta que aquele enorme par de mamas ocultava uma obesidade de grau 2.

Mas esta sensação de logro pode ser injusta. A Tasquinha do Fumo terá já sido um bom local para repasto e eu acredito que estive lá nessa altura. E não foi há muito tempo. Mas este facto ainda torna mais inadmissível o desleixo e desinteresse que senti por mim enquanto cliente. Cara tasquinha, quem ama, não trata assim. Vou procurar quem se preocupe comigo.

Lembrete no meu telemóvel com alarmes diários: esforçar-me por melhorar os meus níveis de lucidez, reduzindo o consumo de bebidas brancas e recusando-me a escrever sobre restaurantes que só tenha visitado uma vez.

 

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Já não me lembro de quando comi o primeiro bolinho de bacalhau. Ele estava nos aniversários, nos natais, nas festas da guarda fiscal, nos dias especiais, nos passeios de escola e em qualquer convívio. Para mim, o bolinho brilhava no centro da mesa mais do que as outras entradas, os enchidos, o prato principal, os doces e até mais do que as outras crianças.

O bolinho de bacalhau tem um efeito instintivo em mim, provoca uma reacção química e biológica, um cio gastronómico, sobre o qual não tenho qualquer tipo de controlo. Sei que nessas alturas de cio tenho uma absoluta e descontrolada atracção por bolinhos de bacalhau.

O cio acontece sempre que vejo um prato de bolinhos no centro da mesa. Não interessa se a seguir vem cabrito, bacalhau ou cozido, não interessa as companhias, eu simplesmente deixo de conseguir estruturar um pensamento lógico. Tento abstrair-me, contar objectos, beliscar-me nas pernas, falar de futebol, mas irremediavelmente vou tentar sacar o máximo de bolinhos que puder, muitas vezes transpondo os limites do bom senso e da educação.

A minha paixão por bolinhos é tão primordial que só posso considerar que venha inscrita no meu ADN. Há por lá uma molécula com a gravação: este indivíduo adora bolinhos de bacalhau, ele pode não o saber, mas sob várias ameaças à sua integridade, e num contexto muito específico, ele aceitaria ser sodomizado em troca do último cesto carregadinho de bolinhos de bacalhau feitos pela avozinha.

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Só muito raramente encontro bons bolinhos de bacalhau e fico realmente ofendido quando em alguns tascos servem pasta de batata ensopada com água de bacalhau. Disparam-me os níveis de indignação como à malta que se revolta quando vê um cão a ser maltratado. Apetece-me que os responsáveis sejam condenados a coimas obscenas, apontados na praça pública, humilhados nas redes sociais. Sim, eu estaria lá a comentar, a partilhar postas infectadas de indignação. Deviam-te fazer o mesmo a ti, cabrão.

O desprezo que certos indivíduos guardam para o bolinho diz muito sobre estes seres humanos. Não se pode confiar num tasqueiro que tem coragem de apresentar ao público um bolinho de bacalhau contrafeito. Só pode querer dizer que a infância foi problemática e quando digo problemática, quero dizer patologicamente problemática. Sim, quase todos a tivemos, ou não fossemos na grande maioria filhos de pais portugueses, mas no meio disto, nunca ter provado um bom bolinho de bacalhau, faz disparar o sinal de alerta em qualquer consultório de psiquiatria.

Na infância nunca provaste um bolinho recheado de bacalhau, estaladiço por fora, cremoso por dentro (sim, roubei de um banal anúncio de gelados, que provavelmente se inspirou naquilo que todos sabíamos sobre o bolinho de bacalhau), com um travo do azeite, salpicado de salsa? Isso é descobrir num tasqueiro uma infância negra, como se algum adulto lhe tivesse andado a mexer na pilinha, o que só pode descrever um presente de despeito, ódio pelos seres humanos, desconforto, a massa e o molho com que se fazem os psicopatas da restauração nacional.

Não duvidem, na restauração concentra-se a grande maioria dos psicopatas portugueses.

O grosso destes desequilibrados, em vez de acumular cadáveres, como o fazem muitos dos seus congéneres norte-americanos, obtém prazer com a tortura lenta, prefere promover mortes demoradas, destruir palatos, arruinar gargantas, chafurdar estômagos, envenenar fígados, enterrar memórias (da boa comida), dissimular-se de bons cidadãos e amigos dos seus clientes enquanto os apodrecem lenta e sadicamente. Os mais sofisticados vão acompanhando esse apodrecimento ao longo dos anos.

Estes algozes são muito mais refinados e praticamente impossíveis de identificar e de deter. Ao contrário dos norte-americanos, que raptam, estrangulam ou retalham, e siga para outra, estes psicopatas massacram enormes grupos de vítimas, entupindo-lhes pacientemente as artérias. Não vamos falar dos óleos, neste momento não são para aqui chamados, nem dos líquidos servidos nas diárias feitos de água e pó, fiquemo-nos pelo bolinho de bacalhau. Pois é, sempre que um tasqueiro me serve um bolinho desses eu tenho quase a certeza de identificar um psicopata.

Certo, pode haver outras explicações. O homem talvez não seja um psicopata, pode ser tão só um filho da puta, no melhor dos sentidos da língua portuguesa. O espertalhão que se considera mais inteligente que os outros e que fez as contas para ganhar mais alguns cêntimos por bolinho, confiando que o cliente come tudo o que lhe puserem na pia. Sim, porque ele acredita que os restaurantes só ganham dinheiro se fizerem uma lavagem cerebral aos clientes, por via oral, até os tornarem em sem abrigos da tradição gastronómica, proprietários falidos da imensa riqueza da cozinha nacional.

Este espécime é daqueles para quem só interessa as pessoas do seu sangue, que vivem na mesma habitação e que provavelmente são seus descendentes. Porque há todo um conjunto de familiares que ele não respeita. Este filho da mãe continua a sentir que chegou ao planeta terra sem ter vindo pelas ramificações seminais que unem todos os seres humanos. Não, ele e a família lá de casa estão desligados, sabe-se lá como, dos nabos que os rodeiam.

Há ainda os ignorantes, coitados. Mas coitados, talvez não. Vamos continuar a ser complacentes com a ignorância na restauração nacional? Não sabe, que feche portas, em vez de continuar a contribuir para a extinção dos bolinhos de bacalhau. Ninguém aceita com esta serenidade a ignorância num médico, num mecânico, mas temos de a aceitar no Zé do Tasco. Convenhamos, estes simpáticos indivíduos circulam há anos em sentido contrário, abalroando bons cidadãos e famílias inteiras nas suas viagens de regresso à boa comida portuguesa.

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24
Set15

O bacalhau do Victor

por JP

Quando o Victor abriu o seu restaurante, não imaginaria que hoje Victor seria quase reconhecido como uma espécie de bacalhau, a par do gadus morhua, do macrocephalus ou do molva.

Entre os clientes é comum dizer-se que vão comer o bacalhau do Victor, o que em vez de centrar a atenção no lugar onde o vão degustar, destacam a quem pertence o bacalhau, levando-nos a supor que o Victor tem um bacalhau que os outros não têm: ou porque o vai pescar, ou porque faz criação própria, num tanque nas traseiras da casa, ou porque é uma espécie única que o Victor terá criado, cruzando um bom macho gadus morhua, de lombo saliente, com uma das fêmeas mais férteis dos sete mares. A espécie victor, o boxer do mundo dos bacalhaus.

Inevitavelmente, o impacto do Victor estendeu-se da gastronomia à semântica. Victor está a deixar de ser apenas um nome próprio para se assumir ora como substantivo, peixe gadídeo em posta que vai de um lado ao outro do prato e não é um prato pequeno, ora como adjectivo, diz-se do bacalhau que solta lascas longas e suaves lambidas em azeite do bom.

No bacalhau do Victor, Bacalhau assado com batatas a murro, não há nada que enganar: uma posta imponente de bacalhau, batatas, azeite, alho e cebola.

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Uns inventam outros preservam. Com tanto ruído que há hoje no mundo da gastronomia, de chefs, livros, concursos e migrações de ervas e temperos, o Victor ajuda a lembrar-nos porque é que gostamos tanto de bacalhau. Não há frituras, molhos, maioneses ou combinações que possam iludir a falta de qualidade. Não há invenções, intervenções, interpretações, reduções, apenas se convocam as qualidades naturais dos produtos.

É a negação do fetiche na psicologia gastronómica. Não há cama de legumes nem chaise long de molhos, não há submissões a confitados nem compotas, não há asfixia com emulsões nem caramelizados, não é só badana, nem é só lombo e o cliente é que faz o seu empratamento.

 

Uma das virtudes do Victor é o ambiente familiar e os portugueses sublimam a relação da família com a cozinha. Sem a família à moda antiga, os nossos melhores pratos ter-se-iam perdido no tempo. Enquanto se discutisse os problemas de comunicação no casal ou a falta de maturidade do homem, ninguém se lembrava de encher as chouriças; com o filho a querer assumir a sua homossexualidade e a filha a trocar de namorados, o povo ia esquecendo-se que o pica no chão levava sangue e mais tarde o arroz começaria a vir acompanhado de batata frita.

Além disso, a emancipação das mulheres e pratos tradicionais sempre foram incompatíveis. Como conciliar o aperfeiçoamento das papas de sarrabulho com a importância do orgasmo feminino? Como é que mulheres preocupadas em equilibrar carreiras profissionais com vida familiar deixariam a carne da chanfana a estufar durante 4 horas? Não é possível conhecer alguns dos segredos da sensualidade depois dos 40 e saber lavar bem as tripas utilizadas nas alheiras, elaborar um bom currículo e depenar um galo com destreza, vestir cuequinhas comestíveis e preparar uma boa lavagem para os porcos. As revistas femininas teriam simplesmente exterminado a nossa cozinha, “Matança do Porco: quando ele não lhe dá a atenção que você merece” ou “Conheça as tendências nas unhas para o fumeiro deste ano”.

Por isso, sentir o ambiente familiar no victor, na decoração das salas e no atendimento, alimenta uma certa sensação de conforto e de proximidade com a nossa cozinha.

 

O Victor poderia ter seguido uma carreira de palestrante motivacional e provavelmente teria ajudado muitos negócios a não soçobrarem por falta de confiança. Há que respeitar o homem pela confiança zen no seu produto e a convicção da sua carta: Bacalhau. O Victor é uma espécie de Mr. Miyagi para os jovens karate kids da restauração nacional.

Claro que também há por lá um bife ou costeleta para as crianças e algumas companhias duvidosas, mas, essencialmente, é o que se pode chamar de restaurante “monocarta”.

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 Não vamos a este restaurante porque é mais perto, mais barato, porque queremos ser surpreendidos, porque o cozinheiro é bom, porque se come muito ou porque o ambiente é sossegado, vamos movidos pelo desejo.

O Victor, que não é um freudiano, parece ter compreendido bem Deleuze e percebeu como funciona a máquina do desejo. Nós nunca desejamos apenas um bacalhau, desejamos um conjunto de coisas que se implicam e envolvem umas às outras.

Vamos ao Victor pelo Bacalhau, mas calma, não resisto aos preliminares, bolinhos de bacalhau e alheira. Só depois o bacalhau assado, sim, mas nunca sem as batatas a murro, tostadas e macias. Mas calma, calma, e o azeite? Sim, o azeite e as rodelinhas de cebola. Isso, isso. E com bom vinho… ó meu deus, com vinho, muito vinho... E o leite creme, senhores? Esperem, esperem, isto não pára, agora desejo que seja num ambiente rústico, sim senhor, mas luminoso. E não esquecer um grupo de amigos e as conversas cada vez mais turvas…

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16
Jan15

Tasquinha do Fumo

por JP

Ora cá está uma casa onde se optou por afofar a designação do espaço com um diminuitivo, elevando-se de bitch das casas de repasto que é a “tasca”, à menina doce e formosa do mundo da restauração.
Tasquinha é um espaço que mais do que agradável, é querido, aconchegante e gostoso. Meiguinho, pode-se dizer. Este apaneleiramento da designação do local é intrigante, porque lá dentro deparamo-nos com uma ocupação a 100% de homens. É concebível que a mesa liberte uma necessidade masculina de conforto e meiguices, até porque em ambientes de tasca é frequente os homens abusarem dos diminutivos: tasquinha, moelinhas, cabritinho, copinho, garrafinha e até um arrozinho.

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Mas se tasca parece tornar os homens mais sensíveis e emotivos, ela é também um dos últimos redutos onde os homens se podem assumir tão fúteis e destituídos de racionabilidade quando possível. As tascas são as últimas trincheiras do pensamento livre e incoerente, onde tudo pode ser dito, inclusive o seu contrário.
Não há mercado tão volátil e especulativo como a tasca. Na tasca assistimos à total desvalorização da palavra, investe-se numa ideia e vêmo-la logo de seguida a cair para mínimos históricos.
Ninguém ganha um debate numa tasca, mas continua-se a investir. Discute-se futebol, política, sexo, guerras, economia mas todos sabem que não haverá consequências para o mundo. De uma tasca não saem revoluções, tendências, conclusões, ideias para livros, orientações, correntes, definições, conteúdos programáticos.
Se foi importante para a evolução da humanidade que os nossos antepassados tivessem descido das árvores, também foi decisivo o momento em que os homens saem das tascas. O que seria de nós se os grandes filósofos gregos passassem as tardes no tasco? Dos diálogos de Platão talvez sobrassem hoje três ou quatro guardanapos com bitaites.
Mas teria sido muito positivo que outros nunca de lá tivessem saído. Se o Hitler e os seus comparsas frequentassem a tasca a falar de judeus entre iscas, pernis e garrafas, ou o salazar a gritar “orgulhosamente sós” com uma tigelinha na mão, o mundo seria muito mais feliz.

Foi orientados por uma aliteração que quatro homens se sentaram à mesa na Tasquinha do Fumo, em Baião: comer, beber e debater.
Na sala parecia ter havido uma fuga de testosterona, era o local no nosso país com menos vaginas por metro quadrado. Se houvesse um cataclismo global e apenas sobrevivessem as pessoas que estavam na tasquinha do fumo, o fim da humanidade haveria de ser demorado e irónico. As mesas  longas e corridas estavam ocupadas integralmente por homens, o que não deixa de ser um ambiente confortável quando se procura enfardar cabrito, enchidos, pão, azeitonas e esvaziar várias garrafas de vinho.
Optamos sem discussões pelo vinho tinto e mais tarde pelo branco, que nos agradaram do início ao fim.
O constrangimento: descobrir a meio da refeição que não estávamos a comer cabrito, mas sim anho. Temos a desculpa de estarmos concentrados nos debates e de já irmos na terceira garrafa quando o animal chegou à mesa. Mas não seria muito mais embaraçoso se um médico estagiário fizesse uma colonoscopia à procura de pedras nos rins.
O anho não vem imerso em molho, parece vir enxuto, mas na prova libertam-se os sucos do tempero. A carne estava deliciosa: macia, suculenta e aromatizada.  Repetimos a travessa, sem esquecer a dose de batatas, que de tão boas distraem-nos do anho.
Para sobremesa, experimentámos leite creme e pão de ló com queijo.
Foram uns justos 20 € por pessoa.


Ser português devia ser considerado um tipo de esquizofrenia. Definição: transtorno mental em que a pessoa vive obcecada pelo revestimento do mundo onde vive a alcatrão e betão, mas continua a acreditar em contos de fadas no meio da floresta. Neste tipo de esquizofrenia, reveste-se tudo, inclusive o revestimento, mas a pessoa revela fantasias com restaurantes mágicos perdidos nos montes e longos caminhos em terra batida que o levam até pessoas típicas, simpáticas e felizes para lhe servir a comidinha do mundo maravilhoso da avó. O tratamento merecido indicado é apanhá-lo no fim de um desses caminhos em terra batida e obrigá-lo a comer batatas fritas requentadas, com arroz pastoso e fêveras de porco encharcadas em óleo.
A Tasquinha do Fumo vem dificultar o tratamento desta patologia, alimentando ainda mais a fantasia dos portugueses com boa comida escondida nos nossos vales e montes.

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16
Dez14

É aqui e mais nada

por JP

“Tasca Trancoso” não é apenas o nome de um restaurante na Póvoa de Lanhoso, é uma afirmação contundente e desafiadora, acompanhada de um murro na mesa: é uma tasca e quer que lhe chamem tasca. No nosso país, é uma ousadia. Portugal desde que entrou na UE faz-me lembrar uma vizinha que tinha vergonha que se soubesse na escola que vivia num bairro social. E nem pensar que alguém desconfiasse que a mãe limpava escadas. Em 30 anos perseguimos os bigodes, abolimos a casal de 4 lugares, a porrada nas crianças, as chouriças caseiras, os garrafões passaram à clandestinidade (e a BOX está na moda), toda a gente tem estudos, usam-se luvas nas padarias, já quase ninguém anda de joelhos em Fátima, os restaurantes têm faia nas paredes e casas de banho a cheirar a lavanda e os avôs em vez de trabalharem no campo, estão no centro de dia ou a fazer hidroginástica.

Enquanto a manipulação genética para a melhoria da espécie não avança, a eugenia lexical vai dando grandes passos. Em três décadas quase deixou de haver em Portugal atrasados mentais, mancos, pernetas, moucos, caixas de óculos, vesgos, fanhosos e tascas. Muitos proprietários tremem quando ouvem chamar tasca ao seus espaços, tomam como uma acusação. 

A Tasca Trancoso situa-se numa rua próxima do centro da Póvoa de Lanhoso. No pouco que consigo recordar, a rua é ladeada por um pequeno prédio e algumas moradias recentes. Senti que tinha sido iludido quando saí do carro. Imaginem que vos convidavam para participar numa montaria ao javali no parque da cidade.

É possível que esteja a exagerar, mas quando nos falam de um bom tasco na Póvoa de Lanhoso, a expectativa é alimentada pelo conceito de probabilidade: a Póvoa do Lanhoso tem 134 km2, distribuídos por 22 freguesias, dos quais a freguesia central representa apenas 3,8% da área total. Lembrando que os tascos praticamente foram banidos dos centros urbanos, obviamente eu esperava uma freguesia arrumada no meio dos montes, com acessos irritantemente demorados e um casario em pedra.

Bem, mas saltemos para o interior, porque aqui a estória já é diferente. Houve um claro esforço dos donos em encontrar a identidade rural do espaço. Dois barris à entrada, um balcão amplo, mesas compridas e uma casa de banho que é uma obra prima do revisionismo do estilo tasqueiro clássico.

Aqui e acolá, alguns aspectos abandalharam o conceito, como a divisória transparente para a cozinha, permitindo que os clientes acompanhem todos os passos das cozinheiras. Provavelmente, foi a inspiração para o chef Rui Paula instalar o Big Brother na cozinha do DOC.

O Cabrito era bom, sim senhor. Crestado e macio. Alguém disse que preferia as batatas mais tostadas. A senhora explicou calmamente que tostar mais as batatas iria deixar o cabrito seco. E para mim bastou-me.

Para além da afirmação “Tasca Trancoso”, à porta deste espaço podemos ler outra asserção que se nos entranha como um parafuso: “Cabrito assado em forno a lenha é aqui!”. Uma frase que levanta questões físicas, filosóficas e geométricas.

A questão geométrica é a mais simples, o dono definiu claramente uma recta do substantivo até ao advérbio. Não há caminho mais curto para chegar ao cabrito assado no forno a lenha. Mas o problema geométrico é negado pela impossibilidade física: se é aqui não é ali, um corpo não pode ocupar dois pontos no espaço ao mesmo tempo, logo, não havendo dois pontos, não precisamos da recta.

A nível filosófico, o autor tentou arrumar a velha questão do predicado do cabrito assado. Tal como “O bacalhau é um peixe”, pode-se dizer “cabrito assado no forno a lenha é aqui”. Polémico, sem dúvida.

O preço.

36€ por pessoa. Durante os primeiros segundos de choque, perdi-me a abrir e a fechar as gavetas das minhas memórias, a ver se me tinha esquecido que existia algum guia de tascas michelin.

O que passa pela cabeça de um tasqueiro para considerar que pode cobrar 36€ por pessoa? Um dia destes, só os mais endinheirados vão poder desfrutar de uma boa e autêntica tasca portuguesa, totalmente desenhada por jovens arquitectos, inspirada na ruralidade e em materiais que remetem para a nossa identidade. Os velhinhos vão ser pagos principescamente e disputados pelas principais casas. Um dia destes levam-nos a velhinha de 90 anos que faz o pica no chão no Marques (Póvoa de Lanhoso) para uma tasca cinco estrelas num hotel pestana.

 

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O butelo é um encontro feliz entre duas personalidades fortes e, aparentemente, inconciliáveis da nossa cozinha: enchidos e ossos. Aquilo que parecia ser uma relação contranatura, um amor proibido, impossível e impensável, revela-se uma vitória sobre o preconceito e a pequenez de certas almas. Depois do Butelo, não há limites para os relacionamentos. Não interessa o que possa separar o Romeu da Julieta, o amor pode acontecer. Uma extremista vegana com um matador de porcos no barroso, uma decoradora de interiores com um Zé das Bifanas, uma terapeuta de spa com o proprietário de uma pocilga, uma feminista com um Quim Barreiros ou um romântico chefe de sala num restaurante com três estrelas michelin e uma vendedora coprófila de farturas. O Butelo é um casamento de sucesso, longo e para durar, que inspirará todos os amantes impossíveis. O Butelo é uma proeza da engenharia culinária: uma bexiga (ou tripa ou estômago) atafulhada da plebe das carnes do porco e de ossos do espinhaço e costela - um chouriço de ossos. Não há criatividade que se compare à dos pobres. Nunca um chef de cozinha conseguirá ter a imaginação que apenas a fome continuada consegue estimular. Um chef de cozinha jamais criaria um butelo; é como um jogador de futebol de topo a olhar para as prostitutas na nacional 3. Não interessa com quantas modelos internacionais já namorou, ali, num colchão de molas por detrás de um arbusto junto à estrada, seria um menino à beira de alguns trolhas e taxistas. A carência desperta a líbido gastronómica, tornando o povo lascivo com quase todas as sobras que apanha. O povo revela-se um autêntico Marquês de Sade a preparar restos de peixe, porcos, vitelas ou pão. Veja-se os casos das tripas, açordas, caldeiradas de peixe ou Butelo.

Fomos provar Butelo a Bragança, ao restaurante D. Roberto, em Gimonde. Um espaço agradável, rústico, com pessoal simpático e atento, onde o porco bísaro é Rei, tanto à mesa como nas paredes. O Butelo revelou-se tão excitante como eu o fantasiava: um tempero forte de pimentão, alho e louro, algo atrevido, convidando a ser comido à mão. As casulas não me entusiasmaram. Mas isso é um pormenor. Posso ser um homem de muitos acompanhamentos, sempre envolvido em casos e aventuras à mesa, mas continuo apaixonado pela boa batata cozida encharcada com azeite transmontano.
Por fim, o Montesinho. Os ares da serra apaziguam-nos, convidam-nos a sentar e a aquecer de dentro para fora. Há belezas gastronómicas que só podem ser observadas e sentidas in loco. O Butelo é uma delas.

 

 

 

 

 

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Se há um detalhe que distingue o Homem de todas as outras criaturas, para além do cérebro, do polegar ou do bipedismo, é a capacidade de fazer experiências com os testículos dos outros seres vivos.

Esta aptidão é o resultado de milhões de anos de evolução da nossa espécie que aperfeiçoou o néocortex, pois sem estes 30 biliões de neurórios não seríamos diferentes de qualquer rato, incapazes de nos maravilharmos com os escrotos masculinos; o polegar ou a câmara de ressonância acima da laringe, que nos permitiu desenvolver a fala e fazer os primeiros brainstormings sobre estas gônadas.

O resultado é avassalador. Castramos os carneiros para a engorda, capamos os porcos porque a carne fica mais saborosa, usurpamos as bolinhas dos coelhos para os tornar menos agressivos, aparamos a masculinidade dos bois para assegurar carcaças de melhor qualidade, aliviamos os cavalos da respectiva bolsinha testicular para lhes dar maior concentração, castramos os cães e gatos como medida de controlo demográfico e castramos os ratos para estudar o impacto da castração.

Esta fixação testicular só me permite concluir que o Homem é o maior filho da puta do reino animal. Em nenhum outro ser vivo foi observada esta obsessão. Há um peixe, o Pacu, a quem deram o cognome de devorador de testículos, porque confundirá testículos humanos com nozes. Mas sejamos precisos: o Pacu confunde testículos humanos depilados de nadadores nudistas no rio amazonas, com nozes.

Nós damos sentidos sublimes à castração. Veja-se o caso do galo. Capar um galo é um ritual de transfiguração, que eleva o galo à condição de capão. Os testículos ficam deste lado e o corpo da ave ascende a uma outra dimensão, quase etérea, onde apenas chegam também alguns cabritos, faisões ou vitelas de lameiros recônditos. Vivem entre nós, mas parecem alimentar-se nos interstícios das dimensões conhecidas.

O capão lembra-nos a urgência de se fazer uma história completa da estupidez humana. Conta-se que o cônsul Caio Cânio, na antiga Roma, vítima da tortura do sono pelo exército de galos que existia na capital, conseguiu fazer aprovar uma lei que proibia a existência destas aves na cidade. Se considerarmos que o espírito experimental é decisivo para o conhecimento, a estupidez consegue alcançar proezas e resultados inacessíveis ao pensamento racional e equilibrado.

Nos últimos anos tenho cumprido o ritual de ir comer com alguns amigos o Capão a Freamunde. Como apenas realizamos uma excursão por ano, somos de uma intolerância jiadista para com qualquer desvio dos cânones de bem preparar o capão.

Inevitavelmente, decidimos regressar ao espaço onde já tínhamos sido muito felizes ou, por outras palavras, onde os nossos neurónios se tinham fartado de segregar dopamina até altas horas da madrugada - restaurante Melo, em Raimonda.

Mais uma vez, o capão exibiu-se como membro de pleno direito das elites aviárias - macio, suculento, exigindo em cada garfada um momento de degustação. O recheio, à base de enchidos, voltou a despertar-me um desejo de enfiar a cara na travessa (uma fantasia recorrente).

Convém lembrar que um capão pode custar mais do que um leitão, o único aspecto que claramente retira alguma nobreza ao animal e parece reduzi-lo à condição de novo-rico. O que é francamente injusto.

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04
Fev14

Butelo com casulas

por JP

Ora aqui está a nova Mónica Bellucci da minha vida. Tive poucas, para além da própria, talvez a carne de porco à alentejana, a chanfana de cabra e talvez3 (sim, é uma potenciação) o javali estufado.

Não consigo olhar para as Mónicas Belluccis sem que os níveis de testosterona e dopamina disparem. É uma incontinência hormonal que apenas estas Mónicas produzem em mim.

Olhar para uma Mónica Bellucci é o clique no botão de iniciar, é uma gotinha de sangue num mar infestado de tubarões, é um irresponsável pontapé nos testículos de um rottweiller a dormir, é uma carícia sensual na nádega de um praticante de kickboxing homofóbico desconhecido, enquanto este passeia com os amigos na praça da alimentação de um centro comercial; é A numa relação de causalidade linear com B, sendo que B, quando ocorre A, é uma irrevogável sequência de fenómenos hormonais a que o povo se habituou a chamar de desejo descontrolado ou ficar tolo.

Todos os seres humanos têm a sua Mónica Bellucci. Mas afirmar que a Mónica Bellucci é a minha Mónica Bellucci não é nada de mais, não causa um único risco na pintura metalizada da minha imagem pública. Se dissesse que a minha Mónica Bellucci era o George Clooney ou uma actriz obesa ou estrelas da Disney com menos de 15 anos, seria verdadeiramente trágico, embora com diferentes gradações.

Onde quero chegar é que nos tempos que correm, de chefes e de gastronomia de passerelle, revelar o meu desejo pelo Butelo com Casulas pode estigmatizar-me socialmente, como se confessasse que a minha categoria favorita no redtube é o “obese shemale squirters”.

Um prato feito com a bexiga do porco, de formas generosas, rude, insubmisso ao gosto doutrinado e com escolaridade obrigatória, sem acabamentos desnecessários, parece saído de uma pintura barroca. Enfim, não corresponde aos padrões de beleza gastronómica actuais.

Estou de tal forma seduzido pelas imagens que, no fim-de-semana de 21 a 23 de Fevereiro, estarei presente no Festival do Butelo e das Casulas de Bragança, riscando mais uma Mónica Bellucci da minha lista de desejos por realizar.

Fotografia do blogue Cinco Quartos de Laranja (http://www.cincoquartosdelaranja.com)

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Na minha teoria de evolucionismo degustativo, a crise vai aniquilar os maus restaurantes, os falsos vinhos e as mais ameaçadoras ideias gastronómicas e, depois do armagedão económico, erguer-se-ão apenas os bons, excelentes, fabulosos e inesquecíveis. A minha teoria prevê, contudo, que o azar ou as imponderabilidades podem tramar o melhor. Sou um optimista cauteloso. Ainda no outro dia estava a ver uma luta entre dois leões machos e até se me pareceu estabelecer-se uma relação simbólica com a nossa realidade actual. De um lado, o macho trabalhador dominante, do outro, um convencido e hormonalmente instável, que não sabe nada do que custa a vida. Em causa estava tudo e não ficava nada de fora. Podiam estar a lutar por um mal entendido, um rugido exagerado, um diz que disse, a posse de uma carcaça. Não, o vencedor ficava com vinte fêmeas, o território e a descendência, ao perdedor sobrava-lhe a hipóteses de fugir e se possível com ferimentos ligeiros, nem a fêmea mais velha, empenada e acabadita do grupo poderia levar consigo.

Eu torço sempre pelo dominante, que carinhosamente chamei de JP. O JP lutou com destreza e coragem, por várias vezes teve sérias hipóteses de vencer, mas acabou por surpreendentemente se afastar. Estou certo que ele apoiou mal uma das patas traseiras num momento estratégico da luta, uma pedra traiçoeira terá escapado provocando um desequilíbrio momentâneo e fatal. Num só tropeço, o JP perde todas as leoas que andava a comer há mais de dois anos e provavelmente o seu lugar na ordem natural. Infelizmente, não era eu quem estava a filmar, pois teria impedido esta injustiça com um ou dois tiros e, no mínimo, suspendia a luta antes do final, o que até novo confronto deixava tudo como estava antes.

Foi ali, com o meu copo de uísquie na mão, emocionado, a ver o pobre JP a perder a sua vida de uma forma naturalmente injusta, que eu tive a minha última epifania. É nos tempos de crise que os verdadeiros homens se assumem, como o Schindler, durante a solução final nazi, ou o Rambo que, embora quisesse descansar e reflectir no Tibete, foi ao Afeganistão dar cabo dos russos, quando o Coronel Trautman, o homem que o formou, foi capturado pelos soviéticos.

Na minha relação com os restaurantes não vou facilitar e quero estar lá para evitar que vinguem os mais fracos. Eu vou dizer sim à luta, de faca e garfo na mão. Um dia far-se-á um filme sobre a minha vida e muitos descobrirão o homem que na grande crise 2009-2063 ajudou a salvar os bons restaurantes e a abater os maus. Contar-se-á histórias dos meus grandes feitos à mesa, em como comi duas postas e bebi três garrafas de vinho ao jantar e no dia seguinte, logo ao meio-dia, já estava a malhar um bacalhau assado a mais de 25 quilómetros de distância. Em como salvei várias famílias de fecharem as portas dos seus tascos, a comer feijoadas, pica no chão ou polvo assado.

Porque quem nestes tempos ficar em casa, demitindo-se, por cobardia, de assumir uma posição, não pense que terá as mãos limpas quando um bom restaurante fechar. Serei eu a acusar: onde estiveste tu quando o “miranda” mais precisou? Uma lição que guardo ainda do caso “Adão e Eva”. Diz-se por aí que o homem foi-nos levado por uma enchurrada de dívidas. Ainda hoje me pergunto o que fiz eu para impedir esta situação? Talvez se eu tivesse lá ido mais duas a três vezes por mês, quem sabe? Talvez se tivesse organizado alguns jantares de grupo? Talvez um ou dois aniversários?

Todos nós seremos responsáveis por cada bom tasco que desapareça nesta crise. Eu não vou ficar em casa! Por isso, proponho uma manifestação todas as semanas. Quem puder, várias vezes por semana. Apareçam nos bons tascos, comam e bebam bem! É a luta que chama por nós. Se nada fizermos, teremos os nossos melhores tascos a partir para França, Suiça, Austrália e até para o Brasil. Portugal sem jovens, fica apenas mais velho. Mas como assegurar uma boa velhice, com a dignidade merecida, sem os nossos santuários de boa comida?

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