Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

Chispes e Couratos

Neste espaço não se discriminam gostos, fetiches, taras, manias, desvarios ou inclinações gastronómicas. Só não toleramos seguidores fanáticos do tripadvisor.

21
Fev18

Até em Lisboa

JP
E não é que agora até em Lisboa se fazem bons vinhos. Para quem viaja para a capital pela A1 não é fácil perceber onde raio, no meio daquele entulho de prédios, pavilhões e mato, crescem as vinhas. Será que a malta de Lisboa tem pés de vinha nas varandas?
O problema é que já experimentamos os brancos e realmente há que dizer: conseguem ser irritantemente bons.
Em Portugal começam a fazer-se bons vinhos em quase todo o lado. Um dia destes aparecem-nos os extraordinários vinhos das encostas do rio Ave ou os vinhos licorosos de cacia.

Lisboa.jpg

 

18
Fev18

Chegou o mau tempo!

JP

Está um homem entretido com cozidos, papas, lampreias, arrozes e cabritos e chega-nos este sol. Só para meter nojo e lembrar que daqui a pouco é altura de mostrar o corpinho. Ontem, já andei sem casaco durante duas horas e deu para perceber: tou f*****. Só com uma dieta paleolítica, 30 dias de clisteres em termas, uma avença com a coach do Éder, cinco sessões por semana de crossfit e uma dominatrix a tomar conta de mim, me permitirá chegar lá para meados de Outubro perto, quer dizer, não muito longe, do peso ideal.

Ou isso, ou uma cinta, ou melhor, uma cinta calção body, que no meu caso é uma espécie de fato de mergulho, difícil de usar no Verão.

As alterações climáticas estão a tornar o inverno cada vez mais curto, estão a acabar com a folga para a engorda com os prazeres da comida. Para as mulheres essa é pior das consequências, muito pior do que o degelo dos polos. É que a época do fato de banho vai estender-se de Março a Novembro.

Não me surpreende nada um certo fascínio das mulheres ocidentais pelo vestuário das mulheres islâmicas. Começa pelo lenço, icharb ou écharpe, mas o que muitas pensam é que uma burqa dava mesmo jeito no Verão.

barriaga01.jpg

 Imagem tirada (e alterada) daqui

 

 

08
Fev18

O Caneiro, um dos melhores restaurantes do Norte de Portugal

JP

polvo.jpg 

Há uma névoa de mistério e incognoscibilidade a encobrir a existência do Caneiro. A localização em Arco de Baúlhe alimenta incompreensões e mitos. Conta-se que Afrodite perdera uns brincos que Artémis lhe emprestara. Furiosa, Artémis rapta Hermes, casado com Afrodite, e entrega-o para ser sodomizado por Hipólites, um centauro.

Zeus, irado, acorrenta Hipólites no topo do monte da Senhora da Graça para toda a eternidade, e coloca dois javalis a chafurdarem todas as noites nos seus testículos. Para se libertar, Hipólites pede a cinco ninfas que convençam um mortal, o sr. António Esteves, a substituir a sua pena pela maldição de ir viver e trabalhar para o Arco de Baúlhe. Elas organizam uma orgia e, ainda, lhe ensinam uma maravilhosa receita de polvo com arroz do mesmo.

Toda esta história parece fazer sentido, mas tenho para mim que aquilo a que chamamos mistério, é apenas a evolução da gastronomia a encontrar o seu caminho.

Veja-se o tempo que demorou a criar um dos maiores ex-libris da gastronomia nacional.

O bacalhau assado com batatas a murro levou cerca de 14 biliões de anos a aparecer, a contar desde o big bang. Passou pelo colapso da nuvem molecular que deu origem ao nosso sistema solar, a formação da lua, o aparecimento da vida e a extinção dos dinossauros.

Para aqueles que acham que o Caneiro deveria ser em Braga ou Porto ou Lisboa, imaginem se os nossos pais navegadores fossem assim tão coninhas e não saíssem da costa. Hoje, reinava na nossa gastronomia o famoso carapau assado com castanhas ou a cavala à gomes de sá.

Por isso, levantem esses cagueiros e vão à procura do que é bom. Vão ao Caneiro. Que ainda por cima, fica apenas a 2 minutos de uma das saídas da A7.

 

Para avaliar da excelência de um restaurante recorro sempre a um modelo cognitivo-comportamental:

  • Identificar se um restaurante provoca tesão alimentar, com que frequência e com que duração;
  • Quantificar e qualificar os climaxes alcançados durante a relação propriamente dita;
  • E, finalmente, parametrizar os níveis de excitação numa relação duradoura com o restaurante.

Inegável é que já estive com um transtorno de excitação persistente pelo Caneiro durante quase seis meses (altura em que esteve fechado para obras), que cheguei a ponderar ir ao hospital para levar uma injecção. Não fui, mas tornou-se notório que estava a apresentar sintomas de um comportamento alimentar obsessivo-compulsivo.

Posso afirmar, e tenho testemunhas, que já alcancei o ápice oito vezes numa única refeição no Caneiro e aguentei cerca de sete horas, sempre erecto, à mesa.

E, finalmente, meus amigos, mesmo agora que a nossa relação já estabilizou, o prazer continua a ser intenso e a reinventar-se. 

Todas as relações se desgastam, mesmo que passem grande parte do tempo na garagem. Há que diversificar espaços, procurar novas experiências e saber regressar nas alturas certas. Cada restaurante exige um estado de espírito. É como os livros, os filmes, os cônjuges ou a música.

 

Acredito que qualquer restaurante precisa de um prato referência. O Louvre é espaçoso e atafulhado de peças, mas a Mona Lisa é o prato de referência. O punctum, como diria Barthes. Para a maior parte dos turistas, visitar o Louvre é um longo enfardamento de farofa, batata frita, linguiça, frango e maminha até chegar à picanha.

Experimentem trazer o Mona Lisa para o Pavilhão Rosa Mota e teremos as manadas de turistas a virem pastar para o Porto.

O punctum do caneiro é o extraordinário polvo com arroz do mesmo. Dir-me-ão: há restaurantes que não têm um prato farol, a cozinha é óptima, por lá é tudo bom. Aceito, é tudo bom, mas nada é extraordinário. Provavelmente, estão a referir-se a aromas e sabores que o cozinheiro sabe transportar para todos os pratos.

Ter o prato farol não é para quem quer, nem para quem quer muito. É para quem o encontra. É preciso arte, engenho e sorte.

Mas há ainda a sequência. O Caneiro soube criar uma melodia que não sai facilmente do palato. Algo simples, um jingle, e que fica. A sequência melódica do paté, com os cogumelos, a alheira, às vezes as lulinhas, seguidos do polvo e o pecado da avó. Podem ter a certeza, fica no palato e é quase impossível não trautear a sequência com alguma regularidade. E, às vezes, optamos por uma rapsódia, com bacalhau à gomes de sá, ou os filetes, ou as tripas, ou o camarão ao alho com batata ou o que calhar.

bacalhau.jpg

Já é um lugar comum dizer-se que o Caneiro se distingue pela sua excepcional garrafeira. Mas garrafeiras há muitas, o que faltam são visitas guiadas ou manuais de interpretação.

Meus amigos, vinho e arte contemporânea (estão cada vez mais parecidos) não são para qualquer um. Hoje, há vinhos tão intimidantes e abstrusos como algumas exposições em Serralves.

Eu tomei a decisão de apenas comprar telas e vinho no Continente, porque em casas especializadas descobrem facilmente que sou um nabo.

O Caneiro tem o Ricardo.

Claro que há algo de humilhante em estar sentado ao lado de alguém que percebe de vinhos. Sabem o que é sentirem-se com um palato pequeno?

É um sentimento idêntico àquele que certos indivíduos desproporcionados nos provocam nos chuveiros dos ginásios.

 

Nada como terminar um texto com uma afirmação conclusiva e cerrada: o Caneiro é dos melhores restaurantes do Norte de Portugal. Não falo do Sul, mas lembro que o Norte de Portugal começa onde acaba o Sul, no centro, no ponto zero, bem para lá de Coimbra. É como os hemisférios, há o Norte e o Sul, não há o central.

camarão.jpg

pica.jpg

 

filetes.jpg

sobremesa.jpg

garrafeira.jpg

 

 

 

 

02
Fev18

Miranda, o activista barrosão

JP

cozido.jpg

O povo de Montalegre não é de se acomodar na monotonia das tradições. É gente engenhosa e criativa e já há algumas décadas que se deve a Montalegre o reconhecimento por uma nova criação gastronómica: o cozido ibérico. Porcos castelhanos, servidos à portuguesa. Alguns chegam ao Barroso já embalados, outros desembarcam ainda jovens imigrantes, para morrerem deste lado e ascenderem aos tectos. É o fenómeno da globalização a tornar o concelho num centro do multiculturalismo suíno.

Para os xenófobos à mesa, enquanto não se inventar um corante para porcos, é fácil ver a diferença. As carnes desbotadas, e de sabores tímidos, denunciam as origens castelhanas do porco. Ou pelo menos, os maus hábitos alimentares.

É o espírito das gentes da raia: porquê deixar de fazer um negócio só porque se acabou o produto? Isso é um detalhe. Em Montalegre, as teorias económicas de Adam Smith não servem nem para os porcos. A famosa mão invisível que o britânico via na economia a promover o bem comum, no Barroso está a fazer um manguito.

Imagine-se os iphones X a serem criados e montados no barroso. Este vê mal, não precisa de ecrãs de super retina. Aquele só vai fazer chamadas, chega-lhe 4 gigas. Este é só para tirar umas fotos aos porcos, mete-lhe uma câmara de 2 megas.

Comer bem em Montalegre é só possível nas casas particulares ou devidamente acompanhado de alguém da terra. Alguém que seja alguém, como é óbvio. Isto já está no limite, mas mesmo, mesmo, mesmo no limite do racismo. Na América segregacionista, os negros não eram servidos nos restaurantes de brancos. No apartheid barrosão, nós, os de fora, podemos entrar nos restaurantes e somos servidos, mas de comida especial.

O que é bom não se vende a desconhecidos.

Em parte compreende-se, há pouco produto para tanta procura, é preciso racionar. Mas também dava jeito racionalizar: não abandalhem a marca, catano.

Pergunta para um aluno de primária em Montalegre: o Sr. José tinha 4 presuntos. Um dia foi à feira e vendeu-os todos. Quantos presuntos vendeu o Sr. José?

Pois é, tem rasteira. Um aluno com dificuldades cognitivas diria de imediato: 4. A matemática barrosã teve uma evolução própria e difere em muito da outra matemática. São escolas.

 

Isto é uma espécie de relatório preliminar para propor uma homenagem merecida ao Miranda, do Sabores do Barroso. Acredito que um dia terá uma estátua numa rotunda de Montalegre. Ou isso ou leva um tiro. Alguém que se deu ao trabalho de credibilizar os produtos da região e de servir cozidos à portuguesa dignos desse nome, é pioneiro em Montalegre.

O Miranda ousou mudar, ousou ser sério e apresentar cozidos de porcos dele. Está a arriscar-se e muito. Um dia aparece morto. Vai ser o Chico Mendes do activismo barrosão. Vão ao wikipédia e vejam o que fizeram ao Chico Mendes na amazónia.

Estou só a apontar as semelhanças, o Miranda é definitivamente um activista. Podia ter seguido a vida de guerrilheiro, El Comandante, "Cozido autêntico ou muerte", mas é um homem de paz.

 

No cozido do Miranda não deixem escapar a orelha. Lutem por ela, sem pudor, mesmo que sejam olhados de lado e criticados pela falta de educação, resgatem toda a que puderem para o prato. Minhas senhoras e meus senhores, aquela orelha devia ser proposta à Unesco para património imaterial da humanidade.

 

23
Jan18

Para uma vida mais espiritual

JP

Meus amigos, se for preciso, cancelem a sport tv, a tv cabo, o ginásio, o piano ou as explicações de matemática dos filhos. Para os amantes dos espíritos, esta não é uma assinatura para satisfazer necessidade, mas para alimentar paixões. Cerca de 16 € mês para fazer parte de um clube de entusiastas por espíritos e receber em casa, todos os meses, 3 amostras, de 40 ml cada, de bebidas espirituosas únicas e quase inacessíveis. Em Flaviar.com.

Por 190 € ano, têm a oportunidade de provar 36 espíritos diferentes, entre uísque, bourbon, cognac, gin ou rum. A alternativa é comprar 36 garrafas destes espíritos. É certo que se bebe mais, mas provavelmente também vão ter de vender o carro ou a casa para as pagar. E a maioria deles nem estão disponíveis por cá, precisam de correr mundo ou a internet para os encontrar.

O whisky-me tem um serviço semelhante, para já só no Reino Unido, mas focado só em uísques.

A apresentação é bastante cuidada e cada amostra vem acompanhada de uma representação gráfica dos sabores e aromas de prova.

Era mesmo o que estava a faltar para nos conseguirmos abstrair da materialismo e futilidade do dia-a-dia e entregarmo-nos a uma vida mais espiritual e meditativa.

flaviar 01.jpg

Flaviar 03.jpg

 

05
Jan18

Monumento ao bebedor anónimo de espíritos

JP

monumento final.jpg

Os ventos não são favoráveis para os bebedores portugueses. Mais um aumento de impostos na cerveja e, entre outros, nas bebidas espirituosas.

Mas para quando um monumento ao bebedor anónimo português de espíritos? O que esta gente apaixonada por uísque, aguardentes ou rums tem feito para combater o défice é verdadeiramente notável. Um hectolitro destas bebidas paga um imposto de 1.386,93 euros (a cerveja paga no máximo 29,4 € por hectolitro).

Claro que muitos dirão: estão a adiantar agora para compensar os 200 mil euros que nos vai custar o transplante de fígado ou o internamento e fisioterapia depois do AVC. Sem dúvida.

Mas este sentido de justiça não se aplica quando o esforçado bebedor de espíritos morre repentinamente, sem custar mais do que um funeral. Compensação financeira à família por ter poupado dinheiro ao estado é que nem pensar.

E nem vamos falar daquele avôzinho (todos conhecem um) que já vai perto dos 100 e sempre a beber o seu copito diário de aguardente.

Mas não é isso que interessa. A moral por trás destes “impostos do pecado” é feita de plasticina. É que estes pecadores fazem muita falta à sociedade. Um governo quando faz um orçamento de estado a contar com o dinheirinho dos pecados, deseja que se deixe de pecar ou que se peque um pouco mais?

Se os bebedores de espíritos se regenerassem, imaginem lá quem é que se ia lixar? Pois é, os impolutos bebedores de água, chás e sumos detox. O dinheiro tem de vir de algum lado. Se não há pecadores, pagam os justos.

Vamos lá fazer-lhes a merecida homenagem.

 

27
Dez17

E se fossem os panettones da confeitaria Lopes?

JP
A Padaria Portuguesa está de parabéns pela coragem de colocar os bolos-rei no local certo: o lixo.
Aquilo não é coisa que se dê a alguém, principalmente aos que mais sofrem. Argolas de massa ressequida, incrustadas de frutas cristalizadas não é bom para quem tem abrigo, agora imaginem para os outros.
Guardem a indignação para as verdadeiras causas: pão-de-ló húmido, rabanadas ou panettones de chocolate como os da Confeitaria Lopes. Isso sim, seria um crime deita-los ao lixo. 
 

bolo rei.jpg

Captura de ecrã 2017-12-27, às 16.56.00.png

 

14
Dez17

O que queres ser quando fores magro e bonito?

JP

a nova dieta dos 31 dias.jpg

 

O que é que queres ser quando fores magro? Quando fores magro e bonito. Esta é a pergunta que todos têm de fazer antes de embarcarem na viagem de regresso ao peso ideal.
Eu sei e foi por isso que testei com enorme sucesso a primeira dieta dos 31 dias, da nossa referência espiritual Dra. Ágata Roquete.
Cumpri a dieta dos 31 dias em apenas 21, porque na altura já não tinha agenda para encaixar mais dias. Terminou de forma trágica, a 22 de Maio de 2014, num almoço de bacalhau no O Vítor. Lembro-me como se fosse hoje.
Em apenas 21 dias, perdi 8 quilos, não sabendo até hoje de quê: líquidos, gordura, músculos, células cerebrais ou restos de comida alojados no aparelho digestivo. Foram-se.
A dieta é apenas de 31 dias, o que é bastante sedutor, embora suspeite que para resultar, o mais indicado é cumprir 31 dias de dois em dois meses.
Em Outubro do mesmo ano já tinha recuperado os oito quilos perdidos. Extraordinário. Infelizmente, não consegui implementar este algoritmo na minha relação com a Betfair nem num processo contra uma execução fiscal das Finanças por causa de umas portagens.
A Dra. Ágata bem nos avisava no seu primeiro livro. Cuidado, atenção, mudança e nova formas de vida. O título talvez fosse ligeiramente enganador. Devia-se chamar “A dieta dos dias que te restam de vida”.
Este novo livro tem tudo para ser um sucesso: são 31 dias sem passar fome, sem desistir a meio e com resultados visíveis. Não duvido: a Dra. Ágata aparece na capa e está bem boa. Mas hoje também vi um livro de receitas com a Nigela Lawson na capa, que está muito, muito boa.
São estas coisas que nos confundem e que alimentam dúvidas quando precisamos de convicções para mudar de vida.