Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


24
Set15

O bacalhau do Victor

por JP

Quando o Victor abriu o seu restaurante, não imaginaria que hoje Victor seria quase reconhecido como uma espécie de bacalhau, a par do gadus morhua, do macrocephalus ou do molva.

Entre os clientes é comum dizer-se que vão comer o bacalhau do Victor, o que em vez de centrar a atenção no lugar onde o vão degustar, destacam a quem pertence o bacalhau, levando-nos a supor que o Victor tem um bacalhau que os outros não têm: ou porque o vai pescar, ou porque faz criação própria, num tanque nas traseiras da casa, ou porque é uma espécie única que o Victor terá criado, cruzando um bom macho gadus morhua, de lombo saliente, com uma das fêmeas mais férteis dos sete mares. A espécie victor, o boxer do mundo dos bacalhaus.

Inevitavelmente, o impacto do Victor estendeu-se da gastronomia à semântica. Victor está a deixar de ser apenas um nome próprio para se assumir ora como substantivo, peixe gadídeo em posta que vai de um lado ao outro do prato e não é um prato pequeno, ora como adjectivo, diz-se do bacalhau que solta lascas longas e suaves lambidas em azeite do bom.

No bacalhau do Victor, Bacalhau assado com batatas a murro, não há nada que enganar: uma posta imponente de bacalhau, batatas, azeite, alho e cebola.

11265142_965939446762323_270751316_o.jpg

Uns inventam outros preservam. Com tanto ruído que há hoje no mundo da gastronomia, de chefs, livros, concursos e migrações de ervas e temperos, o Victor ajuda a lembrar-nos porque é que gostamos tanto de bacalhau. Não há frituras, molhos, maioneses ou combinações que possam iludir a falta de qualidade. Não há invenções, intervenções, interpretações, reduções, apenas se convocam as qualidades naturais dos produtos.

É a negação do fetiche na psicologia gastronómica. Não há cama de legumes nem chaise long de molhos, não há submissões a confitados nem compotas, não há asfixia com emulsões nem caramelizados, não é só badana, nem é só lombo e o cliente é que faz o seu empratamento.

 

Uma das virtudes do Victor é o ambiente familiar e os portugueses sublimam a relação da família com a cozinha. Sem a família à moda antiga, os nossos melhores pratos ter-se-iam perdido no tempo. Enquanto se discutisse os problemas de comunicação no casal ou a falta de maturidade do homem, ninguém se lembrava de encher as chouriças; com o filho a querer assumir a sua homossexualidade e a filha a trocar de namorados, o povo ia esquecendo-se que o pica no chão levava sangue e mais tarde o arroz começaria a vir acompanhado de batata frita.

Além disso, a emancipação das mulheres e pratos tradicionais sempre foram incompatíveis. Como conciliar o aperfeiçoamento das papas de sarrabulho com a importância do orgasmo feminino? Como é que mulheres preocupadas em equilibrar carreiras profissionais com vida familiar deixariam a carne da chanfana a estufar durante 4 horas? Não é possível conhecer alguns dos segredos da sensualidade depois dos 40 e saber lavar bem as tripas utilizadas nas alheiras, elaborar um bom currículo e depenar um galo com destreza, vestir cuequinhas comestíveis e preparar uma boa lavagem para os porcos. As revistas femininas teriam simplesmente exterminado a nossa cozinha, “Matança do Porco: quando ele não lhe dá a atenção que você merece” ou “Conheça as tendências nas unhas para o fumeiro deste ano”.

Por isso, sentir o ambiente familiar no victor, na decoração das salas e no atendimento, alimenta uma certa sensação de conforto e de proximidade com a nossa cozinha.

 

O Victor poderia ter seguido uma carreira de palestrante motivacional e provavelmente teria ajudado muitos negócios a não soçobrarem por falta de confiança. Há que respeitar o homem pela confiança zen no seu produto e a convicção da sua carta: Bacalhau. O Victor é uma espécie de Mr. Miyagi para os jovens karate kids da restauração nacional.

Claro que também há por lá um bife ou costeleta para as crianças e algumas companhias duvidosas, mas, essencialmente, é o que se pode chamar de restaurante “monocarta”.

12026698_965264616829806_1022622825_n.jpg

 Não vamos a este restaurante porque é mais perto, mais barato, porque queremos ser surpreendidos, porque o cozinheiro é bom, porque se come muito ou porque o ambiente é sossegado, vamos movidos pelo desejo.

O Victor, que não é um freudiano, parece ter compreendido bem Deleuze e percebeu como funciona a máquina do desejo. Nós nunca desejamos apenas um bacalhau, desejamos um conjunto de coisas que se implicam e envolvem umas às outras.

Vamos ao Victor pelo Bacalhau, mas calma, não resisto aos preliminares, bolinhos de bacalhau e alheira. Só depois o bacalhau assado, sim, mas nunca sem as batatas a murro, tostadas e macias. Mas calma, calma, e o azeite? Sim, o azeite e as rodelinhas de cebola. Isso, isso. E com bom vinho… ó meu deus, com vinho, muito vinho... E o leite creme, senhores? Esperem, esperem, isto não pára, agora desejo que seja num ambiente rústico, sim senhor, mas luminoso. E não esquecer um grupo de amigos e as conversas cada vez mais turvas…

Autoria e outros dados (tags, etc)

16
Jan15

Tasquinha do Fumo

por JP

Ora cá está uma casa onde se optou por afofar a designação do espaço com um diminuitivo, elevando-se de bitch das casas de repasto que é a “tasca”, à menina doce e formosa do mundo da restauração.
Tasquinha é um espaço que mais do que agradável, é querido, aconchegante e gostoso. Meiguinho, pode-se dizer. Este apaneleiramento da designação do local é intrigante, porque lá dentro deparamo-nos com uma ocupação a 100% de homens. É concebível que a mesa liberte uma necessidade masculina de conforto e meiguices, até porque em ambientes de tasca é frequente os homens abusarem dos diminutivos: tasquinha, moelinhas, cabritinho, copinho, garrafinha e até um arrozinho.

tasquinha-do-fumo.jpg

Mas se tasca parece tornar os homens mais sensíveis e emotivos, ela é também um dos últimos redutos onde os homens se podem assumir tão fúteis e destituídos de racionabilidade quando possível. As tascas são as últimas trincheiras do pensamento livre e incoerente, onde tudo pode ser dito, inclusive o seu contrário.
Não há mercado tão volátil e especulativo como a tasca. Na tasca assistimos à total desvalorização da palavra, investe-se numa ideia e vêmo-la logo de seguida a cair para mínimos históricos.
Ninguém ganha um debate numa tasca, mas continua-se a investir. Discute-se futebol, política, sexo, guerras, economia mas todos sabem que não haverá consequências para o mundo. De uma tasca não saem revoluções, tendências, conclusões, ideias para livros, orientações, correntes, definições, conteúdos programáticos.
Se foi importante para a evolução da humanidade que os nossos antepassados tivessem descido das árvores, também foi decisivo o momento em que os homens saem das tascas. O que seria de nós se os grandes filósofos gregos passassem as tardes no tasco? Dos diálogos de Platão talvez sobrassem hoje três ou quatro guardanapos com bitaites.
Mas teria sido muito positivo que outros nunca de lá tivessem saído. Se o Hitler e os seus comparsas frequentassem a tasca a falar de judeus entre iscas, pernis e garrafas, ou o salazar a gritar “orgulhosamente sós” com uma tigelinha na mão, o mundo seria muito mais feliz.

Foi orientados por uma aliteração que quatro homens se sentaram à mesa na Tasquinha do Fumo, em Baião: comer, beber e debater.
Na sala parecia ter havido uma fuga de testosterona, era o local no nosso país com menos vaginas por metro quadrado. Se houvesse um cataclismo global e apenas sobrevivessem as pessoas que estavam na tasquinha do fumo, o fim da humanidade haveria de ser demorado e irónico. As mesas  longas e corridas estavam ocupadas integralmente por homens, o que não deixa de ser um ambiente confortável quando se procura enfardar cabrito, enchidos, pão, azeitonas e esvaziar várias garrafas de vinho.
Optamos sem discussões pelo vinho tinto e mais tarde pelo branco, que nos agradaram do início ao fim.
O constrangimento: descobrir a meio da refeição que não estávamos a comer cabrito, mas sim anho. Temos a desculpa de estarmos concentrados nos debates e de já irmos na terceira garrafa quando o animal chegou à mesa. Mas não seria muito mais embaraçoso se um médico estagiário fizesse uma colonoscopia à procura de pedras nos rins.
O anho não vem imerso em molho, parece vir enxuto, mas na prova libertam-se os sucos do tempero. A carne estava deliciosa: macia, suculenta e aromatizada.  Repetimos a travessa, sem esquecer a dose de batatas, que de tão boas distraem-nos do anho.
Para sobremesa, experimentámos leite creme e pão de ló com queijo.
Foram uns justos 20 € por pessoa.


Ser português devia ser considerado um tipo de esquizofrenia. Definição: transtorno mental em que a pessoa vive obcecada pelo revestimento do mundo onde vive a alcatrão e betão, mas continua a acreditar em contos de fadas no meio da floresta. Neste tipo de esquizofrenia, reveste-se tudo, inclusive o revestimento, mas a pessoa revela fantasias com restaurantes mágicos perdidos nos montes e longos caminhos em terra batida que o levam até pessoas típicas, simpáticas e felizes para lhe servir a comidinha do mundo maravilhoso da avó. O tratamento merecido indicado é apanhá-lo no fim de um desses caminhos em terra batida e obrigá-lo a comer batatas fritas requentadas, com arroz pastoso e fêveras de porco encharcadas em óleo.
A Tasquinha do Fumo vem dificultar o tratamento desta patologia, alimentando ainda mais a fantasia dos portugueses com boa comida escondida nos nossos vales e montes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

16
Dez14

É aqui e mais nada

por JP

“Tasca Trancoso” não é apenas o nome de um restaurante na Póvoa de Lanhoso, é uma afirmação contundente e desafiadora, acompanhada de um murro na mesa: é uma tasca e quer que lhe chamem tasca. No nosso país, é uma ousadia. Portugal desde que entrou na UE faz-me lembrar uma vizinha que tinha vergonha que se soubesse na escola que vivia num bairro social. E nem pensar que alguém desconfiasse que a mãe limpava escadas. Em 30 anos perseguimos os bigodes, abolimos a casal de 4 lugares, a porrada nas crianças, as chouriças caseiras, os garrafões passaram à clandestinidade (e a BOX está na moda), toda a gente tem estudos, usam-se luvas nas padarias, já quase ninguém anda de joelhos em Fátima, os restaurantes têm faia nas paredes e casas de banho a cheirar a lavanda e os avôs em vez de trabalharem no campo, estão no centro de dia ou a fazer hidroginástica.

Enquanto a manipulação genética para a melhoria da espécie não avança, a eugenia lexical vai dando grandes passos. Em três décadas quase deixou de haver em Portugal atrasados mentais, mancos, pernetas, moucos, caixas de óculos, vesgos, fanhosos e tascas. Muitos proprietários tremem quando ouvem chamar tasca ao seus espaços, tomam como uma acusação. 

A Tasca Trancoso situa-se numa rua próxima do centro da Póvoa de Lanhoso. No pouco que consigo recordar, a rua é ladeada por um pequeno prédio e algumas moradias recentes. Senti que tinha sido iludido quando saí do carro. Imaginem que vos convidavam para participar numa montaria ao javali no parque da cidade.

É possível que esteja a exagerar, mas quando nos falam de um bom tasco na Póvoa de Lanhoso, a expectativa é alimentada pelo conceito de probabilidade: a Póvoa do Lanhoso tem 134 km2, distribuídos por 22 freguesias, dos quais a freguesia central representa apenas 3,8% da área total. Lembrando que os tascos praticamente foram banidos dos centros urbanos, obviamente eu esperava uma freguesia arrumada no meio dos montes, com acessos irritantemente demorados e um casario em pedra.

Bem, mas saltemos para o interior, porque aqui a estória já é diferente. Houve um claro esforço dos donos em encontrar a identidade rural do espaço. Dois barris à entrada, um balcão amplo, mesas compridas e uma casa de banho que é uma obra prima do revisionismo do estilo tasqueiro clássico.

Aqui e acolá, alguns aspectos abandalharam o conceito, como a divisória transparente para a cozinha, permitindo que os clientes acompanhem todos os passos das cozinheiras. Provavelmente, foi a inspiração para o chef Rui Paula instalar o Big Brother na cozinha do DOC.

O Cabrito era bom, sim senhor. Crestado e macio. Alguém disse que preferia as batatas mais tostadas. A senhora explicou calmamente que tostar mais as batatas iria deixar o cabrito seco. E para mim bastou-me.

Para além da afirmação “Tasca Trancoso”, à porta deste espaço podemos ler outra asserção que se nos entranha como um parafuso: “Cabrito assado em forno a lenha é aqui!”. Uma frase que levanta questões físicas, filosóficas e geométricas.

A questão geométrica é a mais simples, o dono definiu claramente uma recta do substantivo até ao advérbio. Não há caminho mais curto para chegar ao cabrito assado no forno a lenha. Mas o problema geométrico é negado pela impossibilidade física: se é aqui não é ali, um corpo não pode ocupar dois pontos no espaço ao mesmo tempo, logo, não havendo dois pontos, não precisamos da recta.

A nível filosófico, o autor tentou arrumar a velha questão do predicado do cabrito assado. Tal como “O bacalhau é um peixe”, pode-se dizer “cabrito assado no forno a lenha é aqui”. Polémico, sem dúvida.

O preço.

36€ por pessoa. Durante os primeiros segundos de choque, perdi-me a abrir e a fechar as gavetas das minhas memórias, a ver se me tinha esquecido que existia algum guia de tascas michelin.

O que passa pela cabeça de um tasqueiro para considerar que pode cobrar 36€ por pessoa? Um dia destes, só os mais endinheirados vão poder desfrutar de uma boa e autêntica tasca portuguesa, totalmente desenhada por jovens arquitectos, inspirada na ruralidade e em materiais que remetem para a nossa identidade. Os velhinhos vão ser pagos principescamente e disputados pelas principais casas. Um dia destes levam-nos a velhinha de 90 anos que faz o pica no chão no Marques (Póvoa de Lanhoso) para uma tasca cinco estrelas num hotel pestana.

 

diploma.jpg

 

É_aqui.jpg

 

mictório.jpg

 

 Casa_de_Banho.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

O butelo é um encontro feliz entre duas personalidades fortes e, aparentemente, inconciliáveis da nossa cozinha: enchidos e ossos. Aquilo que parecia ser uma relação contranatura, um amor proibido, impossível e impensável, revela-se uma vitória sobre o preconceito e a pequenez de certas almas. Depois do Butelo, não há limites para os relacionamentos. Não interessa o que possa separar o Romeu da Julieta, o amor pode acontecer. Uma extremista vegana com um matador de porcos no barroso, uma decoradora de interiores com um Zé das Bifanas, uma terapeuta de spa com o proprietário de uma pocilga, uma feminista com um Quim Barreiros ou um romântico chefe de sala num restaurante com três estrelas michelin e uma vendedora coprófila de farturas. O Butelo é um casamento de sucesso, longo e para durar, que inspirará todos os amantes impossíveis. O Butelo é uma proeza da engenharia culinária: uma bexiga (ou tripa ou estômago) atafulhada da plebe das carnes do porco e de ossos do espinhaço e costela - um chouriço de ossos. Não há criatividade que se compare à dos pobres. Nunca um chef de cozinha conseguirá ter a imaginação que apenas a fome continuada consegue estimular. Um chef de cozinha jamais criaria um butelo; é como um jogador de futebol de topo a olhar para as prostitutas na nacional 3. Não interessa com quantas modelos internacionais já namorou, ali, num colchão de molas por detrás de um arbusto junto à estrada, seria um menino à beira de alguns trolhas e taxistas. A carência desperta a líbido gastronómica, tornando o povo lascivo com quase todas as sobras que apanha. O povo revela-se um autêntico Marquês de Sade a preparar restos de peixe, porcos, vitelas ou pão. Veja-se os casos das tripas, açordas, caldeiradas de peixe ou Butelo.

Fomos provar Butelo a Bragança, ao restaurante D. Roberto, em Gimonde. Um espaço agradável, rústico, com pessoal simpático e atento, onde o porco bísaro é Rei, tanto à mesa como nas paredes. O Butelo revelou-se tão excitante como eu o fantasiava: um tempero forte de pimentão, alho e louro, algo atrevido, convidando a ser comido à mão. As casulas não me entusiasmaram. Mas isso é um pormenor. Posso ser um homem de muitos acompanhamentos, sempre envolvido em casos e aventuras à mesa, mas continuo apaixonado pela boa batata cozida encharcada com azeite transmontano.
Por fim, o Montesinho. Os ares da serra apaziguam-nos, convidam-nos a sentar e a aquecer de dentro para fora. Há belezas gastronómicas que só podem ser observadas e sentidas in loco. O Butelo é uma delas.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Se há um detalhe que distingue o Homem de todas as outras criaturas, para além do cérebro, do polegar ou do bipedismo, é a capacidade de fazer experiências com os testículos dos outros seres vivos.

Esta aptidão é o resultado de milhões de anos de evolução da nossa espécie que aperfeiçoou o néocortex, pois sem estes 30 biliões de neurórios não seríamos diferentes de qualquer rato, incapazes de nos maravilharmos com os escrotos masculinos; o polegar ou a câmara de ressonância acima da laringe, que nos permitiu desenvolver a fala e fazer os primeiros brainstormings sobre estas gônadas.

O resultado é avassalador. Castramos os carneiros para a engorda, capamos os porcos porque a carne fica mais saborosa, usurpamos as bolinhas dos coelhos para os tornar menos agressivos, aparamos a masculinidade dos bois para assegurar carcaças de melhor qualidade, aliviamos os cavalos da respectiva bolsinha testicular para lhes dar maior concentração, castramos os cães e gatos como medida de controlo demográfico e castramos os ratos para estudar o impacto da castração.

Esta fixação testicular só me permite concluir que o Homem é o maior filho da puta do reino animal. Em nenhum outro ser vivo foi observada esta obsessão. Há um peixe, o Pacu, a quem deram o cognome de devorador de testículos, porque confundirá testículos humanos com nozes. Mas sejamos precisos: o Pacu confunde testículos humanos depilados de nadadores nudistas no rio amazonas, com nozes.

Nós damos sentidos sublimes à castração. Veja-se o caso do galo. Capar um galo é um ritual de transfiguração, que eleva o galo à condição de capão. Os testículos ficam deste lado e o corpo da ave ascende a uma outra dimensão, quase etérea, onde apenas chegam também alguns cabritos, faisões ou vitelas de lameiros recônditos. Vivem entre nós, mas parecem alimentar-se nos interstícios das dimensões conhecidas.

O capão lembra-nos a urgência de se fazer uma história completa da estupidez humana. Conta-se que o cônsul Caio Cânio, na antiga Roma, vítima da tortura do sono pelo exército de galos que existia na capital, conseguiu fazer aprovar uma lei que proibia a existência destas aves na cidade. Se considerarmos que o espírito experimental é decisivo para o conhecimento, a estupidez consegue alcançar proezas e resultados inacessíveis ao pensamento racional e equilibrado.

Nos últimos anos tenho cumprido o ritual de ir comer com alguns amigos o Capão a Freamunde. Como apenas realizamos uma excursão por ano, somos de uma intolerância jiadista para com qualquer desvio dos cânones de bem preparar o capão.

Inevitavelmente, decidimos regressar ao espaço onde já tínhamos sido muito felizes ou, por outras palavras, onde os nossos neurónios se tinham fartado de segregar dopamina até altas horas da madrugada - restaurante Melo, em Raimonda.

Mais uma vez, o capão exibiu-se como membro de pleno direito das elites aviárias - macio, suculento, exigindo em cada garfada um momento de degustação. O recheio, à base de enchidos, voltou a despertar-me um desejo de enfiar a cara na travessa (uma fantasia recorrente).

Convém lembrar que um capão pode custar mais do que um leitão, o único aspecto que claramente retira alguma nobreza ao animal e parece reduzi-lo à condição de novo-rico. O que é francamente injusto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

04
Fev14

Butelo com casulas

por JP

Ora aqui está a nova Mónica Bellucci da minha vida. Tive poucas, para além da própria, talvez a carne de porco à alentejana, a chanfana de cabra e talvez3 (sim, é uma potenciação) o javali estufado.

Não consigo olhar para as Mónicas Belluccis sem que os níveis de testosterona e dopamina disparem. É uma incontinência hormonal que apenas estas Mónicas produzem em mim.

Olhar para uma Mónica Bellucci é o clique no botão de iniciar, é uma gotinha de sangue num mar infestado de tubarões, é um irresponsável pontapé nos testículos de um rottweiller a dormir, é uma carícia sensual na nádega de um praticante de kickboxing homofóbico desconhecido, enquanto este passeia com os amigos na praça da alimentação de um centro comercial; é A numa relação de causalidade linear com B, sendo que B, quando ocorre A, é uma irrevogável sequência de fenómenos hormonais a que o povo se habituou a chamar de desejo descontrolado ou ficar tolo.

Todos os seres humanos têm a sua Mónica Bellucci. Mas afirmar que a Mónica Bellucci é a minha Mónica Bellucci não é nada de mais, não causa um único risco na pintura metalizada da minha imagem pública. Se dissesse que a minha Mónica Bellucci era o George Clooney ou uma actriz obesa ou estrelas da Disney com menos de 15 anos, seria verdadeiramente trágico, embora com diferentes gradações.

Onde quero chegar é que nos tempos que correm, de chefes e de gastronomia de passerelle, revelar o meu desejo pelo Butelo com Casulas pode estigmatizar-me socialmente, como se confessasse que a minha categoria favorita no redtube é o “obese shemale squirters”.

Um prato feito com a bexiga do porco, de formas generosas, rude, insubmisso ao gosto doutrinado e com escolaridade obrigatória, sem acabamentos desnecessários, parece saído de uma pintura barroca. Enfim, não corresponde aos padrões de beleza gastronómica actuais.

Estou de tal forma seduzido pelas imagens que, no fim-de-semana de 21 a 23 de Fevereiro, estarei presente no Festival do Butelo e das Casulas de Bragança, riscando mais uma Mónica Bellucci da minha lista de desejos por realizar.

Fotografia do blogue Cinco Quartos de Laranja (http://www.cincoquartosdelaranja.com)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Na minha teoria de evolucionismo degustativo, a crise vai aniquilar os maus restaurantes, os falsos vinhos e as mais ameaçadoras ideias gastronómicas e, depois do armagedão económico, erguer-se-ão apenas os bons, excelentes, fabulosos e inesquecíveis. A minha teoria prevê, contudo, que o azar ou as imponderabilidades podem tramar o melhor. Sou um optimista cauteloso. Ainda no outro dia estava a ver uma luta entre dois leões machos e até se me pareceu estabelecer-se uma relação simbólica com a nossa realidade actual. De um lado, o macho trabalhador dominante, do outro, um convencido e hormonalmente instável, que não sabe nada do que custa a vida. Em causa estava tudo e não ficava nada de fora. Podiam estar a lutar por um mal entendido, um rugido exagerado, um diz que disse, a posse de uma carcaça. Não, o vencedor ficava com vinte fêmeas, o território e a descendência, ao perdedor sobrava-lhe a hipóteses de fugir e se possível com ferimentos ligeiros, nem a fêmea mais velha, empenada e acabadita do grupo poderia levar consigo.

Eu torço sempre pelo dominante, que carinhosamente chamei de JP. O JP lutou com destreza e coragem, por várias vezes teve sérias hipóteses de vencer, mas acabou por surpreendentemente se afastar. Estou certo que ele apoiou mal uma das patas traseiras num momento estratégico da luta, uma pedra traiçoeira terá escapado provocando um desequilíbrio momentâneo e fatal. Num só tropeço, o JP perde todas as leoas que andava a comer há mais de dois anos e provavelmente o seu lugar na ordem natural. Infelizmente, não era eu quem estava a filmar, pois teria impedido esta injustiça com um ou dois tiros e, no mínimo, suspendia a luta antes do final, o que até novo confronto deixava tudo como estava antes.

Foi ali, com o meu copo de uísquie na mão, emocionado, a ver o pobre JP a perder a sua vida de uma forma naturalmente injusta, que eu tive a minha última epifania. É nos tempos de crise que os verdadeiros homens se assumem, como o Schindler, durante a solução final nazi, ou o Rambo que, embora quisesse descansar e reflectir no Tibete, foi ao Afeganistão dar cabo dos russos, quando o Coronel Trautman, o homem que o formou, foi capturado pelos soviéticos.

Na minha relação com os restaurantes não vou facilitar e quero estar lá para evitar que vinguem os mais fracos. Eu vou dizer sim à luta, de faca e garfo na mão. Um dia far-se-á um filme sobre a minha vida e muitos descobrirão o homem que na grande crise 2009-2063 ajudou a salvar os bons restaurantes e a abater os maus. Contar-se-á histórias dos meus grandes feitos à mesa, em como comi duas postas e bebi três garrafas de vinho ao jantar e no dia seguinte, logo ao meio-dia, já estava a malhar um bacalhau assado a mais de 25 quilómetros de distância. Em como salvei várias famílias de fecharem as portas dos seus tascos, a comer feijoadas, pica no chão ou polvo assado.

Porque quem nestes tempos ficar em casa, demitindo-se, por cobardia, de assumir uma posição, não pense que terá as mãos limpas quando um bom restaurante fechar. Serei eu a acusar: onde estiveste tu quando o “miranda” mais precisou? Uma lição que guardo ainda do caso “Adão e Eva”. Diz-se por aí que o homem foi-nos levado por uma enchurrada de dívidas. Ainda hoje me pergunto o que fiz eu para impedir esta situação? Talvez se eu tivesse lá ido mais duas a três vezes por mês, quem sabe? Talvez se tivesse organizado alguns jantares de grupo? Talvez um ou dois aniversários?

Todos nós seremos responsáveis por cada bom tasco que desapareça nesta crise. Eu não vou ficar em casa! Por isso, proponho uma manifestação todas as semanas. Quem puder, várias vezes por semana. Apareçam nos bons tascos, comam e bebam bem! É a luta que chama por nós. Se nada fizermos, teremos os nossos melhores tascos a partir para França, Suiça, Austrália e até para o Brasil. Portugal sem jovens, fica apenas mais velho. Mas como assegurar uma boa velhice, com a dignidade merecida, sem os nossos santuários de boa comida?

Autoria e outros dados (tags, etc)

29
Nov11

Pornogastronomia

por JP

Um vídeo da autoria dos Cavalheiros do Apocalipse.

Autoria e outros dados (tags, etc)

31
Dez10

Gourmet para totós

por JP

Desde já, os votos de um excelente último jantar de 2010 e um óptimo primeiro almoço de 2011. Quanto aos restantes, vamos conversando.

A proposta para esta noite é um desafio à minha paciência, uma demonstração de que sou um homem de fé  ou a prova física e material que faltava de que a ignorância não é feia, até é enternecedora. Nunca me passou pela cabeça mudar a junta da colaça ao meu próprio carro (talvez porque não perceba nada de mecânica ou, se calhar, apenas porque tenho partilhado a minha vida com Mercedes e Toyotas) e, no entanto, aqui estou na presunção que lidar com panelas e temperos não é nada fora do alcance de quem saiba ler.

Sim, se as coisas correrem bem, haverá certamente consequências para a comunidade de cozinheiros e chefs e toda a indústria de restauração contemporânea. Teremos de concluir que toda esta quase ciência gastronómica actual é uma farsa. O que, bem vistas as coisas, não traz grande mal ao mundo. Para quem assistiu à invasão do Iraque, ao pânico gerado pela gripe A, à crise dos mercados, aos governos de Portugal nos últimos 30 anos, os devaneios gastronómicos são bem divertidos e pueris.

Entreguemo-nos aos prazeres da comida e bebida para esquecer que os senhores do FMI já andam pelos nossos hotéis e restaurantes, a encher o bandulho com os pedaços mais elitistas das vitelas portuguesas ou com peixe mais seleccionado do que espermatezóides na corrida para o óvulo e ébrios com algumas das nossas melhores garrafas, enquanto se divertem em reuniões inesquecíveis com os nossos governantes para decidir o futuro económico próximo. Este país é tonto.

 

 

Ementa para jantar de 31 de Dezembro de 2010:

- Camarão e mexilhão salteados em azeite, alho e coentros

- Lascas de bacalhau em crosta de mostarda, mozarella e ervas frescas sobre molho agridoce com maça

- Salmão no forno gratinado com queijo parmesão e ervas frescas

- Batata recheada com salmão, em queijo mozzarella fresco e alho francês

- Tornedó com foie gras e cogumelos frescos

 

Bebidas

Alvarinho (Melgaço)

Bordéus Tinto

Alentejano Tinto

Champagne Brut francês

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Voltar a terras alentejanas é sempre uma façanha gastronómica. Desta vez, a paragem foi pela costa... baías surpreendentes, praias sossegadas e horizontes de rocha íngreme a fazer frente ao mar. Às tantas, demos por nós a saborear uma boa comida caseira alentejana... no Algarve, mais precisamente, na vila de Odeceixe, no Concelho de Aljezur.

 

Três nortenhos ávidos por satisfazer os seus desejos de comida típica da costa alentejana e vicentina descobrem, por mero acaso, na hora do almoço, uma taberna onde o menu do dia é-nos logo apresentado a giz, numa lousa preta, à entrada da porta, com a indicação dos preços. No exterior, um painel pintado por artistas locais evidencia a história da vila. Pareceu-nos apelativo e familiar. Entrámos na Taberna do Gabão.

 

O ambiente afigurou-se-nos, de imediato, agradável e descontraído e a simpatia dos empregados uma nota relevante. Após a nossa encomenda, o empregado diz sorridente “Vamos a isso” (faltou apenas dizer, compadres). A ansiedade foi travada pelas entradas, compostas por pão, azeitonas, algumas pastas caseiras, e a deliciosa cenourinha às rodelas, embebidas em azeite e alho, um verdadeiro “sol à mesa”.
Mas, para começar a compor o estômago, nada melhor do que uma deliciosa e aromática sopa de peixe, de “chorar por mais”. Enquanto os meus amigos pediram uma feijoada de búzios, altamente recomendável para os amantes dos ditos moluscos, eu escolhi a melhor carne de porco à alentejana que já comi, bem servida em prato de barro. Um sabor intenso a vinho, alho e coentros, qual digníssima santa trindade. Quase que como a iniciarmo-nos num culto, os meus amigos decidiram lá voltar no dia seguinte para atestar da veracidade do título por mim conferido e eu, como não já tinha dúvidas, decidi provar a espetada de peixe, com cherne fresco e suculento, servida com batata, inclusive a doce, legumes e cenoura ralada com um molho fantástico (de tão bom que, no final da refeição, pedi mais um pequeno prato). A decisão foi unânime. Melhor carne de porco alentejana, não conhecemos. A nossa sugestão, para o prato se tornar divinal, recai em salpicar a iguaria com um pouco de coentros frescos.

 

Como a qualidade da comida e do serviço caseiro são, indiscutivelmente, a marca da casa e como não há duas sem três, gostaria de lá voltar e degustar outras iguarias caseiras como a feijoada de choco e polvo e o arroz de tamboril, num cenário sereno tão característico da região. Há acasos que valem mesmo a pena!


A. Corunha

Autoria e outros dados (tags, etc)



Arquivo

  1. 2015
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2014
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2013
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2012
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2011
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2010
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2009
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ
  92. 2008
  93. JAN
  94. FEV
  95. MAR
  96. ABR
  97. MAI
  98. JUN
  99. JUL
  100. AGO
  101. SET
  102. OUT
  103. NOV
  104. DEZ


subscrever feeds