Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
O fim do top ten

É raro não se utilizar os tops como filtro para compreender o que se passa no mundo. O top dos 10 melhores restaurantes; dos melhores filmes; das melhores nádegas; dos melhores jogadores; das maiores guerras; das personalidades do século; dos piores ditadores; dos terramotos mais devastadores; das melhores lampreias.

Sem os tops, a malta sente-se perdida. O mundo parece não fazer sentido. Dizer que algo é bom, é muito pouco. É melhor do que quê? Em que lugar é que está? A apreciação fica incompleta sem a comparação. Não está no top, então não é nada de especial. Morreram 30 mil? Mas quer dizer que foi das dez piores catástrofes ou não? Abaixo dos 50 mil não entra no top 20. Qualquer jornalista sabe disso.
As pessoas não querem a experiência, a descoberta, o erro. Querem  ir pela certa. Querem que lhes digam o que devem experimentar. Não vá andarem a consumir livros, filmes, comida anos a fio e, às tantas, descobrirem que nada daquilo estava num top de jeito. Eu já estive em 3 dos 10 locais a visitar antes de morrer; já fui a 1 dos 10 melhores restaurantes; já experimentei as 10 posições mais excitantes no sexo; já fiz as 5 coisas mais importantes para salvar o casamento e já adoptei os 10 hábitos essenciais para evitar o aquecimento global.

Mas a abordagem pelos tops é muito redutora. Expõe a nossa tendência para simplificar. Não convivemos descontraidamente com o excesso de informação. É comum recorrermos aos tops para lidarmos com a história. Veja-se as maravilhas não sei de quê e o maior português. Ou o futebol. Se não houvesse top, como seria a vida do Cristiano Ronaldo? Desculpa lá, rapaz, mas não és o melhor do mundo, aliás, também não estás entre os quatro melhores do mundo. Ah, é verdade, e não marcaste o melhor golo da época. Ah, e já me esquecia, também não lideras o top dos maiores parolos portugueses. Simplesmente, porque não há tops. Acabou.
Não sabemos lidar com o "Bom", "Excelente", "Mau", "Mediano", "19 valores", "Porreiro", "Agradável", não senhor, recorremos logo ao "vai para o meu top". Isso é fácil de dizer quando estamos a falar de apenas três ou quatro a concurso. E se forem dezenas? Ou milhares? A maior parte dos tops fazem-se pela discriminação de muitas das opções. Acreditem, há um verdadeiro Apartheid do gosto; e da cultura geral; e do bom gosto; e da análise qualitativa na generalidade.
Há que adjectivar e não «topificar».
É crocante? É. É macio? Tenro? Fresco? É. Pronto. Chega. "Mas diga lá se não é o melhor que já comeu?" Esta pergunta é constantemente feita pelos donos dos restaurantes, por falta de modéstia ou para fazer lobby para entrar nos tops. Depois de lá entrar é difícil sair. Cria-se o mito e já se sabe que os mitos têm vida própria. "Dizem que é o melhor restaurante do ano. Tem o melhor bacalhau do mundo". Pois, alguém os mandou para o top e a coisa torna-se logo sagrada. Mesmo quando não concordamos, está no top. "É pá, eu não gostei muito, mas dizem que é dos melhores". Incrível, os tops sobrevivem às experiências individuais e ao confronto com a realidade. Correu mal? Foi um mau dia. Não faz o meu género. Estava constipado. Vinha de uma lesão. Há sempre uma desculpa, mas do top ninguém o tira. É como o Platini.
E vamos lembrar os esquecidos do top. Quantas vezes preferimos não experimentar um restaurante porque nunca ouvimos ninguém dizer que estava entre os seus favoritos. Provavelmente, nem vale a pena experimentar.
Os tops são utilizados para os seus autores se armarem. Não para valorizar, mas para auto-prestígio. Se eu fizer o top dos 10 melhores vinhos do mundo, todos vão dizer: e o cabrão bebeu os 10 melhores vinhos do mundo. Fora os que colocou entre os 11º e o 20º lugar. Pois.

Isto a propósito da noite da lampreia na Taberna da Laurinda. Duas lampreias à bordalesa para quatro indivíduos. O dono lançou o isco: "é a melhor ou não é?" Não sabemos, foi a resposta. É excelente. Quer que diga mais: é deliciosa, mas esqueçamos o top.
O vinho verde tinto, da região de Amarante, talvez tenha sido o melhor que já provei. Ah, ah, apanharam-me.
Não senhor, estava que se trincava. Tinha corpo e uma acidez bem controlada.
E foi uma noite à Chispes, como já não tínhamos há algum tempo. Um ambiente intimista e uma entrega total ao prazer gastronómico. Como se não houvesse colesterol. Nem conta para pagar nem uma viagem de regresso. Sabe realmente bem. Foram noites como esta que fizeram dos Chispes aquilo que os Chispes já foram e que hoje poucos sabem o que é.



publicado por JP às 19:21
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Sábado, 30 de Janeiro de 2010
As gaffes e as “atenções” dos restaurantes

Há algumas frases que constituem autênticos clássicos da restauração nacional:  “esse prato já acabou”, “esse vinho está esgotado”, “é a última garrafa deste vinho”, “desculpe, mas a(o) cozinheira(o) é nova(o) na casa”, “as batatas que pediu foram para outro cliente” (esta ouvi-a há pouco tempo num restaurante que frequento habitualmente. Lamentável sobretudo porque fui a primeira a solicitar as ditas batatas), “confesso, o frango é da hora do almoço”,  …. (podem acrescentar as que vos espicaçar).

Será tão difícil eliminar do cardápio os elementos em falta? Porquê criar no cliente “água na boca” se depois o vinho pretendido que lhe ia matar o desejo acabou? Falta de etiqueta e protocolo nos empregados?

Porém, há gestos inolvidáveis que marcam a diferença como receber surpreendentemente, no final de um jantar de terça-feira, uma broa acabadinha de sair do forno de lenha (“só para as meninas”, disse a empregada do Restaurante Vale do Homem, em S. Vicente do Bico – Amares), uma flûte de espumante no hall de entrada e uma fotografia a dois para marcar o aniversário da cliente (Restaurante Papa Boa, em Guimarães), uma peça de louça “roubada” (Tasca do Celso, em Vila Nova de Milfontes), uma sobremesa da casa oferecida apenas à primeira visita do cliente (vale a pena provar no Restaurante Arafat, em Braga), ou mesmo o tradicional licor Beirão, whisky ou um chá para a digestão (Restaurantes Adão e Eva, Sabores do Barroso e Café do Adro, em Barcelos, Braga e Viana do Castelo, respectivamente).

Como seria agradável que todos os restaurantes primassem por tratar o cliente como um ser único e especial…eu, embora goste de conhecer novos espaços gastronómicos, sou fiel aos restaurantes que me tratam bem.

A. Corunha



publicado por Convidado às 11:50
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Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
O Natal é uma porcaria

O comentário de um amigo no facebook instigou-me a dar alguma atenção ao outro lado desta loucura alimentar do Natal. Dizia ele, Paul Ming, que esta é a "época festiva mais temida pelas etars e pelos seus dedicados funcionários". Dá para ficar introspectivo.
Portugal aumentou 19,3 mil toneladas de peso e este número não vem só. Um quilo de gordura corporal equivale a 7700 Kcalorias. Isto quer dizer que Portugal consumiu em excesso 148.610.000.000 de calorias. Dito de outra forma, e para quem não conseguiu ler o número anterior: cento e quarenta e oito biliões e seiscentos e dez milhões de calorias em excesso. Em EXCESSO. Ide para o raio que vos parta.


Nas minhas contas, Portugal necessita sensivelmente de 22 biliões de calorias diárias, que resultam num consumo mensal de 660 biliões de calorias para pôr este país a andar. Numas singelas três semanas, apenas 65% da população portuguesa impôs um acréscimo no consumo calórico de 22,5% relativamente às necessidades mensais de todo o país. Terrível. É óbvio que Portugal tem um imenso problema energético. Para ficarem com uma ideia, este consumo em excesso é o equivalente a quase 100 mil vitelos ou 66 milhões de frangos.
Voltemos às etars. Tendo em conta a produção diária de fezes por cidadão (cerca de 150 a 200 gramas), o referido acréscimo no consumo calórico poderá ter gerado, neste período, um excedente de 13,5 mil toneladas de excrementos. O Paulo tinha razão. O Natal é o período menos bonito de se viver numa ETAR. O Natal não é para todos.
Mas a análise é mais dramática. A produção diária de excrementos de, por exemplo, um vitelo é cerca de 50 kg. De um porco, 6kg. Este aumento calórico foi sustentado com um aumento da produção animal e, necessariamente, das suas fezes. Mas há mais. A produção animal para sustentar as necessidades alimentares humanas são claramente uma fonte de agressão sem paralelo ao meio ambiente. Veja-se que um vitelo bebe 35 litros de água por dia e exige mais 90 litros para a higiene diária. Água que cada vez mais nos faz falta. Nós humanos somos bem mais poupados. Aliás, por isso é que eu tenho vindo a recorrer a substitutos, como o vinho.
E senhores, a produção de gases? Animais como as vacas são responsáveis por um aumento de 18% do aquecimento global. Para os defensores de que a terra está a aquecer devido ao homem, o contributo destes animais é superior ao do nosso sistema de transportes, apenas 13,5 %. Cada vaca envia para a atmosfera, todos os anos, 500 litros de metano.
E o ser humano? Com o Natal, aumentaram as comezainas, as conversas, as berrarias à mesa e as bebidas com gás. Falar enquanto se come e os ousados hábitos alimentares devem ter aumentado em cerca de 300% a flatulência dos portugueses.
Não se iludam, o Natal é uma grande porcaria.


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Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
O peso de Portugal

Portugal engordou. Portugal ficou mais pesado. O entorpecimento e a apatia causadas pelas experiências traumáticas das festas natalícias fazem com que não reparemos no mais óbvio e, simultaneamente, no mais alarmante. Num estudo que realizei nos últimos dias, fui sacudido por um extraordinário resultado. Portugal terá engordado cerca de 19,5 mil toneladas (19,5 milhões de quilos). Assustador. Os dados já foram vistos, revistos, revirados e os resultados lá continuam inabaláveis e impiedosos. Estamos muito mais gordos.


Resumidamente, estas conclusões baseiam-se numa recolha sistemática de testemunhos: "estas festas engordei no mínimo 3 quilos". As contas são fáceis de fazer, exclui-se (talvez mal, mas exclui-se) o número de portugueses que vivem na pobreza, multiplica-se por 6,5 milhões e já está: 19,5 mil toneladas de gordura. Em menos de um mês, acumulamos em território nacional milhões de quilos de massa adiposa. Fala-se do avanço do nível das águas do mar, mas em poucas semanas Portugal ficou mais pequeno para todos os portugueses devido ao enfardamento típico do Natal.
As consequências são difíceis de inventariar. Os transportes públicos levam menos gente. Convinha que revissem aquelas informações relativas ao número limite de passageiros sentados e em pé. Onde antes cabiam dois, cabem agora 1,8 portugueses. Alguns ligeiros de cinco lugares passaram a ser ligeiros de 4,83 lugares.
Portugal já não é o mesmo na cama. Portugal é, agora, um amante mais lento, preguiçoso, acomodado e menos dado a loucuras. Portugal é um amante que prefere estar deitadinho, de costas, na expectativa.
Portugal é também um trabalhador menos produtivo. A fadiga e o cansaço são os convidados de honra do aumento de peso, pelo que a produção nacional deve ter caído desamparadamente.
Claro que alguns inteligentes cortam estas observações com a conclusão idiota de que estamos no inverno e precisamos desta gordurinha extra para nos protegermos do frio. Proteger-nos do frio? Onde? No nariz? Poderia ser uma verdade se não víssemos os portugueses enfiados em casacos de pele e impermeáveis de esquimós. Nesse raciocínio, os homens cobertos de pêlos, como o inesquecível Tony Ramos, têm maior probabilidade de se safarem no processo natural de selecção das espécies. Meus caros, os Tonys Ramos deste mundo, os praticantes de sumo e o típico homem português com mais de 30 anos perderam todas as vantagens competitivas com o desenvolvimento da indústria têxtil e a invenção do aquecimento central. É triste, mas temos de engolir e fazer a digestão da realidade. Hoje, um homem pode dar-se ao luxo de não ter um barriga assertiva, fazer depilação (senhores e senhoras, depilação), que não corre riscos de ser aniquilado no processo impiedoso da selecção natural. Aliás, a avaliar por vários vídeos que me têm enviado para o e-mail, eles estão a safar-se bem melhor do que nós.


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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
Um Feliz Natal e um Farto 2010!

Desejamos a todos um Feliz Natal, bem passado à mesa com boa comida e bebida, e um 2010 repleto de grandes comezainas com familiares e amigos.

(Na imagem: Pai Natal a beber um bom vinho tinto português. A região fica ao gosto de cada um)


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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
Felizes Festas do Bacalhau

Os períodos festivos e este aguaceiro de mensagens de felicidade e paz não conseguem aliviar a sensação de que o mundo não está nada melhor. O nosso mundo está cada vez mais fodido. Guerras e terrorismo nos confins do planeta, que nos impedem de fazer turismo em tantos paraísos da Terra; aquecimento global que está a ameaçar bacalhaus, castas de vinhos e a sobrevivência dos nossos melhores enchidos; crise económica que se propõe criar milhões de desempregados e, por arrasto, transformar em classe favorecida, fascistas e exploradores, os frequentadores assíduos de restaurantes e aqueles que, como eu, convertem os euros em vinhos e comida. São as esquizofrenias da actualidade. Estouras o teu dinheiro, e o dos outros, para te encharcares com drogas, paciência, és uma vítima. Gastas os euros em prazeres gastronómicos, és um cabrão, um esbanjador insensível com tanta gente que passa fome neste mundo. Um dia destes teremos de trazer as garrafas de bom vinho em caixas de Porta da Ravessa, para não parecer mal.
Por isso, não devemos esquecer os valores que sustentam a festa do dia 24 de Dezembro e preservá-los para os nossos filhos ou para os filhos dos outros, como é o meu caso. Mesmo que os filhos dos outros me chateiem bastante nos restaurantes (devo confessar, que às vezes até me apetece deixar o meu carro a diesel a trabalhar toda a noite para ver se acelero o aquecimento global. Mas no fim de contas, o gasóleo está caro).
A noite de 24 para 25 representa o que de melhor temos nas sociedades humanas: a paixão pela comida e a total entrega, sem preconceitos, aos prazeres gastronómicos. O pai, a mãe, os filhos, os avós, os tios, os sobrinhos, os sogros, os cunhados, os enteados, os afilhados, todos reunidos numa incansável orgia gastronómica. Na noite de 24 de Dezembro não existem tabus.
A liberdade e a tolerância gastronómica é tal, que só seria comparável se houvesse uma noite no ano em que toda a família se reunisse para se entregar desenfreadamente a prazeres carnais. Por mais interessante que pareça o vislumbrar deste admirável mundo novo, cada vez mais valorizo os nossos antepassados. Eles sabiam o que faziam. Não ía ser nada bonito de se ver. Só de pensar nos avós, até me dá vontade de apagar este parágrafo. Talvez com a chegada à terceira idade comece a valorizar a ideia.
Na noite de 24 de Dezembro esquecem-se planos de dietas, evitam-se olhares acusadores para as panças alheias, abafam-se as bocas «não achas que estás a exagerar?» e bebe-se desalmadamente com a aprovação de toda a instituição familiar, da avó até ao primo em 2º grau, passando pelo irmão do sogro. Uma única noite em que ninguém te diz: "olha para as figuras que estás a fazer à frente de toda a família".
O dia 25 é o único em que nos podemos arrastar absolutamente ressacados, após várias idas à casa de banho, com os olhos remelosos e encharcados, e ser recebido na sala com sorrisos e abraços por toda a família. "És grande, és digno do teu sobrenome". E ainda ouvimos: "vocês são muito fraquinhos, quando tinha a vossa idade, só me deitava no dia 1".

O Natal é tão bom. Agora imaginem tudo isto, mas sem a família. Só num mundo perfeito.

Nestes períodos devemos lembrar-nos dos mais necessitados.  Na noite de 24 de Dezembro, já sentado à mesa, o meu pensamento vai para todos os portugueses que continuam sem provar um bacalhau de qualidade, comendo espécimes de segunda e terceira categoria, com manchas e fissuras, com azeites que mais parecem óleo e sem produtos dignos desta data. Penso em todos eles, é certo, mas a vida é mesmo assim e seria uma falta de respeito não apreciar a dádiva que o destino nos concedeu. E eu farto-me de apreciar.

Acredito que o Natal devia ser, não todos os dias, pelo menos todas as sextas-feiras. Com um bom grupo de amigos. Aos sábados, para quem não pode à sexta.  Mas este é o mundo que temos.
Desejo a todos um bom bacalhau e um excelente vinho a acompanhar.




Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
"Os portugueses e o peixe: só pode ser uma história de amor"

Este título fez-me inveja. É digno dos Chispes.

Via "A Origem das Espécies". Já aqui reflectimos sobre as especificidades da relação dos portugueses com a sua gastronomia e da incompreensão de algumas instituições internacionais. Principalmente, a questão do bacalhau.

Aqui estão números que me fazem sentir orgulho em ser português: 60 quilos de consumo de peixe per capita por ano. Há países nórdicos que não passam de uns arrepiantes 9 quilos. E com tanto bacalhau naqueles mares.

Eles que continuem a ganhar os festivais da canção.

 




Domingo, 8 de Novembro de 2009
Éclair, éclair e a vida sorri

Após um dia de trabalho árduo ou monótono (ainda mais cansativo), há quem procure descansar e outros que buscam pequenos prazeres. Eu incluo-me, na maioria das vezes, neste último grupo que anseia pelo que é doce na vida. Saborear um éclair au café, no Café do Continente, em Braga, é um desses deleites de final de tarde, a um preço acessível a qualquer bolsa.

Mas, se quisermos ocultar dos demais este prazer e evitar potenciais constrangimentos, este não é o sítio adequado, dado o elevado número de pessoas que por ali passam. No outro dia, fui apanhada com um éclair na boca, por um casal amigo que se aproximou de mim, totalmente absorta no deleitoso doce que entrava em contacto com o meu palato, e me apanhou desprevenida, rindo: “Que expressão de felicidade. Viemos interromper.” Um acto não consumado na sua plenitude. Tentei retomar, de imediato, após a sua saída, mas surpreendentemente apareceu outro casal amigo que também ia às compras e logo pensei: “Já não vou conseguir dar a minha última dentada. Outro coito interrompido”. Desta vez, um pouco mais constrangida, quase a desculpar-me do ‘pecado’ cometido, lá fui dizendo: “Adoro éclair de café, tipo francês, e sempre que aqui venho não consigo resistir-lhe”.

A vida é pincelada de episódios doces e amargos, pelo que opto por saborear os bons com intensidade, sem distracções de qualquer ordem, procurando repeti-los, vezes sem conta.


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publicado por Convidado às 23:51
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Sábado, 31 de Outubro de 2009
As 4 Maravilhas da Mealhada

Alguns incautos continuam praí a perguntar-se o motivo do país se dividir entre Porto e Lisboa. Se, na verdade, podemos dissertar horas a fio sobre as naturezas do Norte e da Mourama, eu por mim já concluí.


Lisboa apenas existe para permitir sem pudor a nossa deslocação "em trabalho" amiàde à Mealhada, injustificável que seria a hipótese de armarmos umas 5 romarias ao ano àquela localidade. Estou inclusivamente convicto, que mais de 85% dos peregrinos a Fátima o fazem com a mesma exclusiva motivação de passar na Mealhada, mas por contenção de custos arranjaram uma desculpa de apenas ir até ao Norte de Lisboa.

Ora, se a fama a antecede, a Mealhada assim o merece. É porventura como parar no estrangeiro por algumas horas. A iguaria do Leitão ofusca numa primeira vista outras que por lá são feitas de uma forma única. Que de tão diferentes parece efectivamente que saltamos uma qualquer fronteira.

Este fim de semana no regresso do Festival Histórico do Autódromo do Algarve, fiz uso de diversos anos de estudo de matemática para determinar a hora exacta de saída conjugada com a duração da viagem numa Ford Transit carregada de ferramenta e com um carro atrelado, de forma a puder dizer… “Está na hora de jantar, mais vale pararmos aqui!”

Sem saber, pedi tudo o que gosto… alem do Leitão, um belíssimo pedaço de Pão; uma garrafa gelada de Caves de Aliança Bruto Reserva Tinto e uma garrafa de Luso para a viagem.

Haverá mote melhor que Água, Pão, Vinho e Leitão? São as 4 Maravilhas da Mesa da Mealhada… Sem dúvida as melhores ideias são as que vêm do estrangeiro!

 
http://www.cm-mealhada.pt/4maravilhas/
 

by Tomé Coelho




Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
Adão e Eva: como se fosse sempre a segunda vez

Escrever este texto, agora, sobre o Adão e Eva desperta-me um leve travo a injustiça. Ocorre-me o prémio de carreira que a Academia de Hollywood atribuiu este ano a Jerry Lewis. Uma carreira de algumas obras maiores, que só mereceram atenção pelo seu conjunto, quando o homem já fez o check-in para a última viagem. Provavelmente, fizeram-no pelo medo de serem acusados de total indiferença pelo artista. Os prémios carreira não me convencem, são uma pobre consolação. Como se nenhum dos trabalhos tivesse realmente valor, mas somando cinco minutos aqui, dois minutos acolá, um cenário neste e uma ideia naquele, olha, até dá um bom filme.
O Adão e Eva teve um papel decisivo na história dos chispes e, bem antes disso, constituía já um espaço fundamental no meu roteiro de devoção gastronómica.
Que fique claro: este não é um prémio carreira nem um prémio de consolação nem, muito menos, um prémio injusto hoje para compensar a injustiça de ontem. Como dar o prémio de melhor realizador a Scorcese, depois de vinte anos de vários filmes incontornáveis na história, com um filme apenas bom. Ou o prémio da Fifa em 2001 para o Figo.
Como explicar este afastamento do blog do Adão e Eva?
Calhou. Nenhum outro verbo diz tão bem a razão de ser de tantas injustiças neste mundo. Calhou. E calhou mesmo. Algumas circunstâncias mantiveram-nos afastados no último ano deste restaurante. Calhou. E acabamos por nos esquecer de dizer ao pessoal que nos lê que o arroz de pato do Adão e Eva, por acaso, é o melhor do mundo. Ups, desculpem lá o esquecimento. Olhem só a nossa cabeça. Sim, o arroz de pato do Adão e Eva é o melhor arroz de pato do mundo.

Ir ao Adão e Eva pela inumerável vez é revisitar a minha eterna segunda vez. Sim, não há nada como a segunda vez; a melhor vez de todas é a segunda vez. É quando voltamos para repetir, com as sensações da primeira vez ainda a esparramarem-se sem pudor na nossa memória. É quando voltamos à procura de todas as nuances degustativas com que fomos surpreendidos à primeira vez; voltamos com o medo de que as circunstâncias que permitiram aquele pato tivessem sido demasiado frágeis e casuais que possam não se repetir. O pato a destilar a intensidade do seu estufado, o arroz escuro, que se lambuzou desavergohadamente num refugado bem puxado e o queijo, um derrame intenso de queijo que cobre e oculta por completo o arroz. A textura e a elaborada engenharia de distribuição dos alimentos por camadas. Sim, e é nesse momento que a segunda vez se afirma como a mais sublime. É quando o prazer se consuma ao nível das nossas expectativas.
Dá vontade de rir na cara de todos os cínicos que andam por aí a alardear que os prazeres não se repetem, que os momentos são únicos. Tretas. Ide para o raio que vos parta. A intensidade do prazer a comer o arroz de pato no Adão e Eva repete-se e torna a repetir-se (quase sempre). E há que dizer que é um arroz de pato que guarda ainda algumas cartadas para jogar, não vá aparecer algum arroz de pato por aí que desafie o título: as rodelas de salpicão ainda não vêm tostadas no forno; o bacon ainda não foi convocado; e até hoje nunca foi devidamente estudado o acrescento dos pinhões à fórmula original.
O Adão e Eva infelizmente não é um espaço intimista, ou no mínimo rústico, que dê a dignidade merecida à excelência de alguns dos seus pratos. É um espaço amplo em forma de «L», com mesas grandes, para eventos. Temos a sensação de uma cozinha caseira fora do seu habitat natural. Como vermos um coelho longe dos montes a fazer de animal de estimação.

Recomendo a perna mais pequena do «L», sempre se fica mais aconchegado.

Os chispes finalmente deram ao Adão e Eva o destaque que merecia e decidimos fazer o lançamento da candidatura a Gurão de 2010 (cargo máximo na hierarquia interna - uma combinação de Guru com Grão-mestre) junto a umas travessas de arroz de pato. Aqui ficam as imagens. 

 




Sábado, 10 de Outubro de 2009
Pancada

Eis o nome.
 Agora, eis a história: Já fui à pancada vezes sem conta… umas três! 
Para quem não conhece, a casa Pancada fica em Vieira do Minho, na freguesia do Mosteiro. Uma casa rústica de estilo tradicional bem vincado quer nas paredes de pedra quer nas mesas de madeira que parecem, à primeira vista, roubadas de um parque de merendas do Gerês.

O restaurante tem três especialidades: cabrito assado no forno a lenha, vitela assada no forno a lenha e papas de sarrabulho (também devem ser preparadas no forno a lenha mas não referiram porque poderíamos pensar que estavam a ser repetitivos!).

Sentamo-nos à mesa e somos logo brindados com uma salada fresquinha da horta. Escolhemos o vinho – verde branco, que é sempre o meu preferido - e esperamos pela especialidade. Na Pancada não há menu, não se pergunta ao cliente o que quer comer, nem se fala em sugestão do chefe (sobras de ontem, não?) simplesmente brinda-se o convidado com a especialidade da casa. Para todos. Sem excepção. “Olhe, desculpe, eu queria um bifinho grelhado com arroz seco… pode ser?” pede um cliente mais ousado. “Desculpe mas não temos, hoje é vitela assada no forno a lenha… é que não tenho mesmo mais nada. Se tivesse ligado antes…”
Das três vezes que lá fui tive a sorte de comer sempre a famosa Vitela assada no forno a lenha. Muito boa, sempre… O forno a lenha faz a diferença. A diferença foi o preço. Nunca paguei o mesmo pela mesma comida. Pancada? Não… é só o nome!

 

Filipe Quelha



publicado por Convidado às 15:01
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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
O Restaurante que (Nunca) te Recomendarei...

Nada mais apetecível, no final de uma tarde de Verão abafada, do que estar à beira mar, mas em terras transmontanas o melhor é estar à borda d'água, sobretudo quando se encontra um restaurante com o mesmo nome, situado na bonita aldeia de Salto, perto de Cabeceiras de Basto. Um local simples condizente com a gente da terra; um espaço rústico que serve boa comida com sabor a aldeia: alheira na brasa, pão e azeitonas da região, como entrada; e as inolvidáveis e imperdíveis batatas com bacon, cebola, alho e salsa, o acompanhante perfeito de uma posta à barrosã.

A gente transmontana não tem “papas na língua” e diz o que lhe vai na alma ou, melhor, o que lhe surge no momento. É o caso da D. Maria que dirige o dito restaurante com pulso e destreza, pois tem uma família para cuidar. Depois da comida ter chegado tardiamente à nossa mesa, e após insistência e a habitual manipulação à mistura por parte dos meus amigos, tentei meter conversa com a Sra., que andava de um lado para outro, sem nos ligar nenhuma, com o objectivo de obter um atendimento mais personalizado e uma atenção redobrada na confecção das iguarias caseiras. Mas, pela primeira vez, em todas as abordagens feitas por mim num restaurante, fui mal sucedida. A intencionada frase “O seu restaurante foi-nos recomendado...”, foi imediata e categoricamente interrompida por “Escusa de recomendar mais, pois vou fechar. Estou farta disto”. Fiquei atónita, bem como os restantes clientes que se encontravam perto de nós. Os meus amigos riram. Eu não queria acreditar no que acabava de ouvir. Seria apenas um desabafo após um dia de trabalho? Um grito de ajuda? Ou um sentimento de desespero com fim à vista? Missão cumprida? Não foi preciso qualquer 'recomendação' (vulgo factor C) para sermos bem servidos na mesa em qualidade e quantidade, apesar de a ouvirmos resmungar quando foi solicitada mais uma travessa de batatas - “Essas batatas dão muito trabalho e agora vão ter de esperar mais. Sai mais uma dose.”

No final do jantar, fomos ter com a D. Maria para lhe darmos a conhecer o nome da pessoa que nos tinha recomendado o seu restaurante, precisamente outro proprietário de um restaurante transmontano em Braga e dizer-lhe que gostaríamos de voltar. Agora, mais simpática, querendo saber o que nós fazíamos na vida, continua a dizer que está cansada do negócio e que se não fosse pelos filhos já teria largado o Borda d' Água.
Gostaría muito de comer novamente aquelas irresístiveis batatas que já foram recomendadas ao restaurante que nos recomendou o dito restaurante que não vos posso recomendar porque vai fechar. Mas se pudesse recomendar, recomendava.

A. Corunha



publicado por Convidado às 01:37
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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
"Ide e cheirai vinhos"

Os novos cursos de iniciação às provas organolépticas de vinhos aceleraram o movimento histórico de certificação em massa do povo português. Eu, que tantas vezes arremessei bitaites contra as sinuosas estratégias educativas do nosso governo, lá acabei com um certificado de provador de vinhos.
Provar um vinho oferece-me uma rara dignidade e elevação intelectual. Em nenhum outro momento consigo parecer tão complexo e intenso. Mesmo que, no restaurante, de copo na mão, com o funcionário plantado ao lado a observar-me atentamente, eu mantenha um silêncio introspectivo enquanto desespero: "que caraças, maldito nariz. Tenho de ser operado. Um vinho de 20€ e nem a rolha me cheira. Ao menos mandava para trás e pedia um Monte Velho".

Roda dos aromasO curso decorreu em quatro sessões a ver powerpoints, a enfiar frascos de cheiros pelas narinas e, inevitavelmente, em experiências sensoriais com vinhos. Um ritual: pegar no copo pela base e observar o vinho;erguer o copo, semicerrar os olhos; uma farejadela ao interior, agitar suavemente e dar a snifadela estrutural. Copo nos lábios, verter o néctar para a língua, conduzi-lo por um circuito pela boca até à saída para o copo de plástico. Depois, lavar os vestígios da experiência com água. Neste processo, eu decorava os passos como se de uma dança se tratasse. Dois para a frente, um para trás, ups... enganei-me. E enganava-me.
Às tantas já agitava o copo depois de beber, olhava para o vinho quando o copo estava vazio e cuspia a água. Não minto, se disser que na última sessão bebi os quatro vinhos sem tirar nada ao fígado. Ele existe é para isto mesmo.
Das dezenas de aromas que me passaram pelo nariz, consegui detectar dois, para além do de rolha e um de suor (julgo que meu).
E é assim que no final somos abandonados no mundo real, com um certificado nas mãos: "ide e cheirai vinhos".
Mas, inevitavelmente, neste género de cursos espera-nos sempre um estágio... no ridículo e no patético.
Estava eu a meio do "estágio", no Hotel das Termas de Monção, a executar com mestria todos os procedimentos da prova.
Sem dúvida, frutado.... sim, frutado. Tenho a certeza. Mas... espera aí... noz?... pareceu-me noz... já não a sinto... sim, é noz. Ah não, não me vou calar, senão, aparece outro espertinho que diz «noz» e depois eu só vou poder dizer: "ah, eu também detectei, só que não disse porque era óbvio de mais". Não senhor, olhei para o chefe: "tem um aroma intenso a noz. Extraordinário e complexo".
Meu Deus, eu detectei a noz. Não posso ser apenas um turista no mundo dos vinhos. Eu sou alguém, alguém capaz de detectar noz. Sim, NOZ. Meus senhores: rolha, qualquer um fareja e «frutado» é canja. Frutado, mesmo que se atire à sorte, quase sempre se acerta. O morango é fruta, o melão é fruta, a amora é fruta e, bem vistas as coisas, a uva é fruta. Agora, noz, é só para um grupo restrito de apreciadores. Sim, eu deixei de ser um mero bebedor e elevei-me à categoria de apreciador. Eu tenho de me inscrever num curso avançado, só para especialistas. Fui mais uma vítima do nosso sistema de ensino, um sobredotado que a escola não soube potenciar desde a adolescência. Onde é que eu estaria hoje? Eu e o meu nariz.
Pois, noz... Noz?
O chefe de sala olhou para mim com um sorriso: "sim, tem base de sustentação".
No fim de contas, eu tinha acabado de trincar dois bons pedaços de broa com frutos secos. O rosto dele começava já a abrir em gargalhada, mas esperava a minha aprovação, para eu não ficar ofendido.
Maldição. Claro que sorri e até gargalhei. Eu estava a brincar. Estou a ver que não caiu.
E já agora, podia igualmente ter detectado os figos secos, que também estavam na broa. E se ele não tem aparecido logo ao início, eu teria cheirado a pimenta... do porco preto.
Agora percebo como se sente um indivíduo quando volta ao mundo real com um certificado das novas oportunidades.




Domingo, 20 de Setembro de 2009
Uma Lady na Tasca

Uma tarde de Agosto, calma e serena, lá fui tascar desportivamente com três amigos “machos” para os lados de Barcelos. Tinha sido avisada sobre a dita tasca e do que iríamos lanchar – iscas de bacalhau frito e unhato (com pêlo). O menu não me dissuadiu logo à primeira até porque há uns anos atrás tinha vivido essa experiência única de ir a uma tasca típica, designada Sá Carneiro, em Barcelos, e de outra que confesso não me recordar do nome, mas apenas que tinha fungos verdes nas paredes, que o pica no chão estava fantástico e que alguns dos comensais debatiam-se à procura da crista do galo.
No caminho, ia pensando nas graçolas de um comensal que achava que eu não seria capaz de comer num ambiente demasiado desleixado e só frequentado por homens. A dado momento, interroguei-me se com a idade teria mudado a minha capacidade de adaptação a espaços gastronómicos desprovidos de qualquer requinte e bom gosto. Mesmo que tasca  signifique taberna ou casa de pasto, imunda, reles, valerá o risco se os petiscos forem bons, logo, convenci-me.
Ao entrar na Isaurinha senti-me absorvida pelos cheiros rústicos e pelos olhares de alguns tasqueiros que, porventura, pensaram que talvez tivesse vindo ao engano. Lançei o meu olhar em redor, examinando os pormenores distintivos da pequena casa – mesas simples, com bancos individuais, e junto à janela onde nos sentámos um vaso de flores murchas e  umas cortinas brancas, de renda e tecido barato e tosco. Os petiscos já mencionados apresentaram-se à mesa sem qualquer pretensiosismo, fazendo-se acompanhar de um fraco verde branco da casa, servido em malga, pouco fresco. Feitas as contas, apercebi-me que me faltava 0,20€, pelo que pedi a um dos meus amigos chispesianos para me emprestar e qual o meu espanto quando dois ou três homens à porta da tasca me ofereceram de imediato a moeda em falta. Não aceitei, mas agradeci a gentileza. Que espírito de solidariedade se vive numa tasca!

A idade e a experiência de vida tornam-nos cada vez mais exigentes na degustação de vinhos, petiscos e afins. Continuo, porém, receptiva a novos espaços com ou sem requinte, desde que a comida fale por si. Uma lady sê-lo-á sempre independentemente do sítio onde comer, pois o importante é o saber-estar em qualquer lugar.

A. Corunha



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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
O palito na mesa portuguesa

No final de uma refeição farta, como um bom bacalhau ou um assado, seja num restaurante ou em casa, antes da sobremesa, há sempre um pequeno prato ou um frasquinho transparente com pauzinhos afiados - os palitos!! E que alegria vê-los chegar à mesa... todos (e não só os homens) ficam aliviados com a sua presença, pois sempre é mais higiénico usá-lo do que levar a unha à boca e retirar do dente o resto de comida que teima em não desaparecer. Poucos serão, ainda, aqueles que procurarão um WC para usar o fio dental, tal como o fez a Pretty Woman Julia Roberts.


Mas o palito não se remete apenas a um instrumento de limpeza bucal, método já ancestral, mas também a um elemento decorativo. Numa tasca ou piquenique, num lanche entre amigos chez nous, o palito ergue-se, qual foguete num arraial minhoto, num pica-pau, numas pataniscas, num prato com moelas ou mesmo com presunto e melão, numa tâmara com bacon, numa fancesinha com uma azeitona em cima, com orgulho e satisfação. Todos o querem! Qual Popeye apaixonado pela sua Olívia Palito.

O palito também dá nome a outros produtos alimentares, doces e salgados, como a batata aos palitos, palitos de queijo parmesão, palitos de chocolate, palitos la reine e palitos salgados como aperitivos.  Como sabem, qualquer dona(o) de casa não dispensa o popular palito para ver se o bolo está cozido. É caso para dizer: quem tem um palito à mão, tem sempre uma solução.

Numa época em que se deve primar pela diferença e criatividade no negócio da restauração, mantendo, no entanto, os sabores tradicionais dos alimentos, o palito poderia ser mais atractivo, com outras cores, de acordo com as estações do ano. No Verão, de cor verde limão; no Outono, vestido de  castanho cajou; no Inverno, mais quente, logo, de cor cereja ou figo; e na Primavera, de laranja. Seja como for, independentemente da utilização que lhe queiramos dar, de qualquer modo ou feitio, pequeno (o palito chinês é maior, notem), geralmente de madeira, de cor bege, mais ou menos afiado, nas duas pontas ou apenas numa, é com certeza um palito português.

A. Corunha


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Sábado, 12 de Setembro de 2009
Churrasqueira Minhota (Amares)

Já neste blog se escreveu que há restaurantes que têm nomes que dizem logo ao que vamos e outros que têm nomes mais enganadores. O restaurante a que me levaram em Amares, a Churrasqueira Minhota, é um desses casos em que o nome nos faz criar uma imagem que não corresponde à realidade. Assim, lá fui eu a pensar num espaço simples, povoado de frangos de churrasco, com mesas cobertas de toalhas de papel sarapintadas de molho e vinho tinto e perfumado com o cheiro de óleo frito.
Quando cheguei, estranhei desde logo estar perante uma moradia. Ao ser encaminhado pela lateral da casa não evitei pensar que estava a invadir propriedade privada. Apercebi-me, porém, que o restaurante ficava nas traseiras da habitação (vim a saber que é assim no Verão e que no Inverno funciona na cave) e quando entrei fiquei extraordinariamente surpreendido pela positiva, vi que tinha ido ao engano e que estava num local nos antípodas de uma típica churrasqueira. O espaço mereceu imediatamente nota máxima, afinal de contas deparei-me com mesas dispostas ao redor de uma pequena piscina abrigadas por um telheiro de estilo rústico. Pensei imediatamente que afinal tinha sido boa ideia ter trocado os trajes da praia por uma vestimenta mais normal.
E se o espaço era agradável, o que dizer do atendimento? Todos os empregados de mesa com quem tivemos contacto (jovens de ambos os sexos) foram o tempo todo de uma simpatia e prestabilidade irrepreensíveis, tão simpáticos que pensei que deviam estar a compensar algo, ou a comida não seria boa ou então estaria um corpo no fundo da piscina. Mas, afinal não. Não havia corpo e a comida foi excelente.
Depois de várias entradas, que não sendo memoráveis estavam boas (moelas, mexilhões panados, cogumelos salteados, presunto com melão, azeitonas), deliciámo-nos com um excepcional bife de javali - saboroso, tenro, suculento, no ponto - acompanhado de arroz, batata frita de comer e pedir muitas mais, feijão preto e doce de maçã. Nos vinhos aconteceu-nos algo raro, conseguiram vir para a mesa duas garrafas de diferentes vinhos brancos alentejanos que não estavam em condições, sendo de realçar a atitude impecável dos empregados nesta questão.
Na sobremesa, recomenda-se o Doce Tentação, mas absolutamente imperdível é o Doce Pecado. Foi o corolário de uma excelente refeição numa quentíssima noite de Agosto, em que a piscina ali ao lado da mesa se mostrou sempre tentadora!




Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
O Leitão escarrapachado

Já pensaram quantos locais existirão neste país que são fantásticos para se comer mas uma pessoa simplesmente não faz ideia? Quantos espaços gastronómicos maravilhosos desconhecemos porque, naturalmente, nunca foram referidos na comunicação social ou não fazem parte de roteiros? Locais onde nem sequer se esperaria comer, quanto mais fazer uma refeição memorável? Locais que só descobrimos um dia por mero acaso ou pela melhor forma de todas que é o boca-a-boca?
Este Verão, por recomendação de um membro do Chispes e Couratos, conheci um desses sítios, um dos tais em que só lá chegaria desta maneira, porque mesmo que, perdido e cheio de fome, passasse de modo improvável à sua frente nunca lá pararia já que, afinal de contas, não se trata de um restaurante nem sequer de uma tasca, mas apenas e só de um café.
O local em causa é o Café do Adro, em Carreço, Viana do Castelo. O que lá se pode comer também já é de si surpreendente, nada mais que um leitão escarrapachado! Isto é, um leitão assado totalmente aberto, em pose de frango de churrasco ou de codorniz à Santa Luzia, o que o torna muito mais saboroso e estaladiço que o assado de forma tradicional, como pudemos comprovar. Acho que nunca nenhum leitão me soube tão bem e o sentimento foi comum aos outros três elementos do grupo.
Devido a algumas desistências de penúltima e última hora, e como o banquete tem de ser encomendado previamente, nós quatro tivemos que nos haver com um leitãozinho inteiro, recebido à mesa com palavrões, tanto de surpresa e admiração como de receio, mas no final só faltou sermos aplaudidos de pé por funcionários e clientes pois conseguimos dar cabo dele sem problemas, só sobrou a cabeça, sempre com a preciosa ajuda de várias garrafas de um óptimo espumante tinto (refira-se que, também ao contrário do habitual, este leitão vem acompanhado de batatas assadas no forno, arroz e legumes).
É importante acrescentar que, antes do prato principal, degustamos deliciados um conjunto de entradas muito boas, camarão, caranguejo, mexilhão, amêijoa, bôla de queijo, entre outras, e mais entradas haveriam se fossemos um grupo maiorzinho. No fim, e estando nós já há mais de duas horas sempre a comer, ainda nos satisfizemos gulosamente com uma série de crepes acompanhados de gelado à discrição.
Conta paga, menor do que esperávamos, ainda se tem a praia ali à beira para ajudar à digestão…




Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
Casa Pires em Moreanes (Alentejo)

Tentei chegar ao Pomarão, onde há cerca de 4 anos comi um coelho de caça frito, que ainda hoje é um pesadelo por nunca mais ter encontrado o mesmo, feito com a qualidade do simples (pois fartérrimo de cozinha internacional ando eu, na maior parte das vezes de cozinha só tem a arte do decorador de pratos), deparo no Pomarão com a porta fechada e soube depois que o proprietário tinha, infelizmente, falecido.

Local mais perto onde, já não diria comer, mas enganar a fome, só em Moreanes, segundo a indicação de uma habitante do Pomarão.

Rodas na estrada rumo a Moreanes, entro no centro da aldeia e encontro 2 restaurantes, o Alentejo, belíssimo aspecto e um cardápio afixado no exterior que nos fez salivar, mas infelizmente fechado para descanso. A cerca de 50 metros um pequeno café, com sala para almoços. A Casa Pires, nada que o recomendasse, mas a vontade de enganar o estômago mandava mais que a 'razão'.

Fomos encaminhados, muito calmamente (já voltei e é sempre com muita calma) para a sala de jantar, sem grandes luxos e decorações, mas extremamente limpa. Pedimos o cardápio e o Sr. Pires calmamente pediu para se esperar. A espera valeu a pena, pois para nosso deleite chegou com um presunto e uns enchidos de fazer ressuscitar 3 defuntos. Simplesmente divinal a fazer lembrar um Pata Negra Reserva e um enchido de Lombo do mesmo.

Para almoço, o Sr. Pires tinha os sempre fantásticos secretos de Porco Preto bem como a açorda de bacalhau, o cozido de grão e uma feijoada de lebre.

Optamos por uma feijoada de lebre e um cozido de grão e a experiência foi do mais recompensante em termos de bem cozinhar e temperar, especialmente a feijoada de lebre temperada com hortelã. Doses generosas que é como dizem os alentejanos: para um alentejano ainda sobra e para um citadino dois não a comem. O vinho, local mas bem feito, sem defeitos aparentes. A sericaia presente e no final €12,00 por pessoa. 

Já voltei, recomendei e todos os que lá foram não ficaram de forma alguma defraudados.

A feijoada de lebre ou se tem sorte e há disponivel ou então telefonar ao Sr. Pires com uns dias de antecedência que ele a providenciará.

 

Moreanes fica na estrada de Mértola para Serpa, via Mina de S. Domingos e a cerca de 5 Km antes de se chegar à Mina de S.Domingos.

 

Jorge Guimarães



publicado por Convidado às 11:17
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Terça-feira, 11 de Agosto de 2009
A Quinta de Carapeços.

A prova, se ainda faltasse, da adequada questão do volume de vasilhame vendido surge sublinhada no último jantar doméstico… cá de casa portanto. 75 é um bom nome para carro italiano, mas não para uma garrafa, que eu e a minha mulher não consideramos com unidade divisível, o que nestes dias quentes, e com a temperatura bem fria do frigorifico pode criar alguns problemas.
Ora pois bem, se do prato até já nem mantenho memória, da garrafa sim… uma primeira do Alvarinho cultivado fora da sua região nativa e hereticamente movido para a região de Amarante onde amadurece com outra doçura, consideramos toda a plenitude do sabor e qualidade de um vinho puro, feito com uma dose de ezquiofenia reservada aos melhores seres humanos, em que os valores de uma vida suprema e soberba se levantam acima dos valores financeiros das grandes produções.

O calor estraga a conta e chega a segunda garrafa para complementar até ao nível ligeiramente ébrio os convivas deste despautério doméstico. Mas nem só de Alvarinho vive esta excelente produção.

Verdadeiramente fabuloso é o Espadeiro… mesmo… feito de uma forma despreocupada, engarrafado tarde, e a maturar como não é normal num verde, em que o rosa passa para um delicado petróleo, e o sabor passa de um frutado fabuloso e dá lugar a morangos espremidos e torturados dentro de uma garrafa. Infelizmente, o lote anterior nem teve tempo nem de envelhecer nem de habitar o frigorifico…

Mas julgais que apenas destes, produzidos em inevitáveis minúsculas quantidades, vive a Quinta de Carapeços? Não, mil vezes não… por pistas tortuosas chega algo impensável… verdadeiramente impensável… deixar as uvas das mais doces castas verdes apodrecer até Fevereiro agarradas à videira sua mãe … Late Harvest… meu Deus… o que é isto… Podridão Nobre é o termo… um sabor arrebatador, o álcool disfarçados num sabor que servido fresco é nada menos que… ora bolas a mesma palavra de volta…Perfeito!

 

Por Tomé Coelho



publicado por Marco às 18:36
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009
Comer fora sozinho

Se há coisa que não dá gosto fazer sozinho é ir comer a um restaurante. Não me refiro aos vulgares almoços de semana - porque não tem muita importância a companhia, já que se trata normalmente de uma refeição rápida e em restaurantes de diárias ou de fast-food - mas ao acto de ir a um restaurante à noite ou ao fim-de-semana. Neste caso, é algo que quem não tem parceira(o) simplesmente não faz, porque é frustrante e até constrangedor. As coisas começam mal logo à entrada no restaurante, quando o empregado nos faz a pergunta com ar contristado: “Sozinho?”. Isto depois de ter feito antes um compasso de espera para ver se entra mais alguém enquanto pensa “talvez esteja a estacionar o carro ou a acabar um telefonema ou o cigarro, não é normal alguém entrar sozinho”. Se há momento em que surge silêncio no restaurante, em que os talheres deixam de bater nos pratos e as pessoas fazem uma pausa nas conversas, é quando é feita essa pergunta. E depois, parece que tudo fica em suspenso, à espera da nossa resposta, como se as pessoas não pudessem continuar com os seus bifes e as suas opiniões sem saber primeiro se vamos responder “sim”. Diz-nos a experiência que não se deve mentir, dizendo que mais tarde vai chegar a nossa companhia, é sempre pior, toda a gente vai passar a refeição a olhar para nós e a pensar “coitado, ainda não se capacitou que é um encalhado” ou “desgraçado, deram-lhe com os pés!”. Para quem tenha ainda dúvidas da nossa situação, surge depois aquele triste ritual de retirarem os outros pratos e talheres da nossa mesa, acabando com qualquer ilusão que possamos ter e remetendo-nos para a nossa condição evidente de solitários.
Depois, vem a questão da escolha dos pratos. Além de nem todos os itens do menu terem meia dose, muitas vezes ainda nos atiram à cara que tal prato só é servido para um mínimo de duas pessoas! Nessa altura, só a fome ou a enorme vontade de comer algo em concreto nos impede de abandonar imediatamente o restaurante. Acresce ainda o facto de uma meia dose nunca custar metade de uma dose. Se algo custa por inteiro, p.ex., 10 euros, a meia dose custará sempre pelo menos 7! Então, se vamos comer metade da comida não deveríamos pagar também só metade do preço? O mesmo se passa com o vinho. A minha opinião é que nos cobram mais, a nós solitários, porque lhes estamos a estragar o negócio, afinal de contas estamos a ocupar-lhes sozinhos uma mesa inteira, que deveria estar a ser utilizada por duas a quatro pessoas.
E pedir vinho para acompanhar a refeição? Bem, toda a gente olha para quem está a comer sozinho e a beber vinho como se fosse um borrachão, como se devesse haver uma regra “Se está sozinho, não beba!”, caso contrário só pode ser um bebedolas, ninguém bebe sozinho vinho em público! E mesmo quando dizemos com os olhos às pessoas das mesas em redor “é apenas uma garrafa de 37,5 cl., são só dois copinhos…”, respondem-nos com aquele olhar de que toda a gente sabe que essas garrafas são para ser bebidas por duas pessoas como complemento das grandes na fase do “só bebia mais um copinho, mandamos vir uma garrafa das pequenas?”.
Outro pormenor delicado é que se o restaurante não tiver televisão a pessoa sozinha está sempre sem jeito. Ou passamos a refeição toda a olhar para o prato, como se estivéssemos à procura de algo que era suposto lá estar; ou examinamos durante todo o tempo cada pormenor do interior do restaurante como se fossemos inspectores de decoração de interiores; ou então somos apanhados a olhar para as outras pessoas, que acham sempre que estamos a ouvir as suas conversas (o que é verdade, claro, o que haveríamos de estar a fazer se não temos com quem conversar ou televisão para ver?). Toda esta situação é levada ao extremo se o local tiver aquele ambiente mais tranquilo e até meio romântico, com uma musiquinha agradável e luzes suaves.
Finalmente, e falo por mim, também há o receio de comer tudo, ou seja, de rapar a travessa e/ou o prato. Porque quando se está com mais alguém não se sabe quem comeu mais ou é considerado normal que se limpe tudo, mas sozinhos somos sempre considerados comilões e se não estamos com alguém é porque, certamente, se fartaram que nós lhes comêssemos a sua parte.




Quarta-feira, 8 de Julho de 2009
What the fuck is this?

Não sou um homem de muitas nem longas viagens. Se tivesse vivido na época dos descobrimentos, certamente não seria hoje lembrado por nenhuma viagem de jeito. Na melhor das hipóteses, poderia ter descoberto a Madeira ou os Açores (até S. Miguel), que também não são assim tão longe. Às Américas é que nunca, a meio teria voltado para trás: "não vale a pena continuarmos, isto é só água. Vamos mas é voltar, que já estou com saudades de uma boa cabritada." Esse é claramente o meu problema: eu não sobrevivo muito tempo longe dos nossos restaurantes.


Nos últimos anos, tenho feito vários exercícios para tentar melhorar a minha resistência quando sou afastado da nossa gastronomia. Mas ainda só aguento alguns dias. Precisava de um programa de treino intensivo para resistir em ambientes extremos - parecido com a preparação a que são sujeitos os astronautas para viajar no espaço.
E por falar em ambientes extremos: fui a Londres.
Londres representa actualmente o El Corte Inglês de há uma década. Temos de aturar a malta que nunca encontra nada de jeito por aqui e só faz compras em Londres. "Eu já só como Pickles do Harrods. Os daqui dão-me cabo da figadeira. Nem sei como aguentas." Isto para não falar no pessoal que vai a Londres para comprar livros. "Se te lembrares, traz-me uma caixa de ASPIRINAS de Inglaterra para eu comparar os folhetos médicos. Não suporto a tradução portuguesa, está cheia de erros".
OK, há os museus, os teatros, as livrarias, os mercados, os parques, o metro e sabe-se lá que mais. Mas quando fiz uma incursão pela boa e típica gastronomia inglesa só me ocorreu: "what the fuck is this?"
A falta de imaginação gastronómica deste povo é verdadeiramente épica e devia fazer parte dos manuais escolares, tal como a revolução industrial. Os ingleses a olharem para uma vaca, um porco ou um peixe parecem-me o Michael Jackson a olhar para uma mulher: simplesmente não lhes ocorre nada de interessante para fazer.
Foi num tasco mesmo em frente ao British Museum que decidi arriscar o «Fish and Chips». Como é que eles conseguem colocar em risco a vida de um único pescador para servirem aquela porra? O problema é que o ingleses ainda são um povo bem influente, caso contrário as organizações internacionais proibiam a pesca para fins tão desumanos. Quer dizer, os asiáticos não podem fazer sopas de testículos de tigre para estimular a potência sexual, mas os ingleses podem andar a exterminar tanto peixe para fazer panados. As organizações ambientais têm de ser claras: "Meus caros, se prometerem que é para uma boa caldeirada ou para uma parrilhada, podem pescar. Senão, toca a abater a frota."
Mas a surpresa estava reservada para um steak à inglesa, num bar bem agradável (nisso os ingleses são muito bons) junto ao soho. O steak chega acompanhado de umas potatoes com pele e, para minha surpresa, sem olive oil. Corto o steak, que me parece tenro, e provei. What the fuck is this? Um pedaço de carne sem tempero, à espera de mostarda e maionese.

Verdade seja dita: ir a Inglaterra devolve-nos algum orgulho em ser português. Podemos não ter educação, justiça, políticos, PIB, saúde de jeito... mas de bifes percebemos nós. É o preço a pagar. A boa comida não é compatível com o desenvolvimento cultural e económico. Ou uma coisa ou outra. Eu já fiz a minha escolha.




Domingo, 5 de Julho de 2009
Que futuro para a sardinha?

Nos últimos tempos participei em algumas sardinhadas, acontecimento muito típico do mês de Junho por causa das festas dos santos populares, e dois aspectos deixaram-me muito preocupado. Em primeiro lugar, a cada vez maior intromissão de carnes no evento e, em segundo lugar, a cada vez menor apetência dos jovens pela sardinha. Dizer que se vai a uma "sardinhada" começa a deixar de fazer sentido, trata-se cada vez mais de uma “febrada” ou “salsichada”, enfim, de uma "churrascada" em que a sardinha é apenas um dos elementos participantes. Entremeada, fêveras ou salsichas estão a ganhar uma quota importante e até demasiado relevante. Às vezes até parece que a sardinha já só aparece para manter a tradição ou para servir de entrada para as carnes como se estas fossem o realmente importante. Custou-me muito testemunhar em duas das três sardinhadas em que participei, pessoas a desdenhar a sardinha e a dizer, de modo quase snob, "ai, estou a guardar-me para a carne". Por um lado, eu até não me importo com isso, porque desforro-me a comer sardinhas, não me fico pelo meu quinhão e atiro-me ao quinhão dos carnívoros. Mas, por outro lado, dói-me a alma de ver que são os mais jovens os que mais desdenham, aliás, não me recordo de ter visto algum abaixo dos 20 anos a comer sardinhas, o que me faz ficar muito preocupado em relação ao futuro da sardinha. Porque são os jovens de agora que vão controlar, daqui a uns anos, os circuitos alimentares, que vão ter peso decisório, seja como produtores, intermediários ou consumidores, naquilo que se vai comer. E, assim, o peixe vai acabar por desaparecer das nossas mesas, a começar pela sardinha, e o investimento actual nas frotas pesqueiras vai ser direccionado para a produção de hambúrgueres e pizzas, acredito que mesmo as “barriguinhas” só vão existir na altura das festas populares. E pelo ar de desconsideração, e até de nojo, que os mais jovens dedicam à sardinha, provavelmente até será proibido, no futuro, o seu consumo, pelo menos em espaços públicos.


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Sábado, 27 de Junho de 2009
A importância do automóvel na gastronomia

Há alguns dias, o meu carro desapareceu de onde estava estacionado, em pleno dia, numa rua movimentada de Barcelos. Como estava num local onde era permitido estacionar, tive de partir do princípio que tinha sido furtado, vá-se lá saber por que razão. Quem já viveu semelhante situação entende o choque que tive. Enquanto caminhava para a esquadra da PSP para dar conta do sucedido, o sentimento de perda começou a apoderar-se de mim. Como é que eu poderia continuar a ter uma vida gastronómica normal sem automóvel? Como é que eu me iria deslocar aos restaurantes deste país? Passaria a estar completamente dependente da boa vontade de outros para me levarem consigo para as comezainas! Sem carro, teria de alterar o meu comportamento para me tornar pelo menos tolerável para os outros, de forma a que não se importassem de me levar aos restaurantes mais fora de mão, sujeitando-me ainda às suas escolhas, correndo sempre o risco de me levarem, por exemplo, a um vegetariano. Aliás, as pessoas sem carro são naturalmente interesseiras, dão-se com outras pessoas apenas para garantirem boleia para restaurantes. Toda a gente sabe isso!
Enquanto era atendido pelo agente da PSP, pensava nos sítios a que poderia ir sem carro próprio e sem boleia: tinha a consolação de morar a poucos minutos a pé das postas e costeletas do “Miranda” (Sabores do Barroso); de resto, assim de repente, lembrava-me apenas dos restaurantes de Braga, a que poderia chegar de autocarro, e do Barriga Farta, onde poderia deslocar-me de comboio. Desesperava-me a ideia que o presumível larápio me iria privar de ir a restaurantes de súbito totalmente inacessíveis para mim, como o Nariz do Mundo ou o Albertino.
E, depois, como é que, de autocarro, conseguiria, por exemplo, trazer para casa garrafas de vinho ou marisco?
Felizmente, tudo não passaria de um enorme susto. Afinal, por incrível que possa parecer, o meu carro tinha sido “apenas” rebocado por engano (!!!) para uma oficina (cuidado com a Auto Barcelinhos, óptimo exemplo de negligência e incompetência que, por uma questão certamente de eficiência, “pega” no primeiro carro que se assemelha com o que era suposto rebocar).
Quando soube que não tinha ficado sem o carro, diante dos meus olhos voltaram a passar todas as iguarias que estavam novamente à minha disposição onde quer que estivessem. Os meus olhos brilharam quando voltei a ver o meu carro na oficina para onde o tinham levado e acho que notei, também, nos faróis um reluzir de alegria pelo reencontro. Em contrapartida, vi o terror estampado na cara do dono do carro que deveria ter sido rebocado por estar avariado. Provavelmente, tinha alguma patuscada onde ir, alguma iguaria para degustar, e via-se inesperadamente impossibilitado de o fazer.




Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
Empadinha de frango: está-me no sangue!

Eu acho que todos os seres humanos se dividem essencialmente em dois géneros: os que preferem doces e os que não resistem ao sal. Como é que se descobre que tipo de ser humano temos à frente? Quando o observamos encostado a um balcão de uma pastelaria: uns pedem sistematicamente panikes de ovo, éclairs, bolas de berlim, mil-folhas ou pastéis de nata e os restantes desejam lanches, empadinhas de frango, bolos de carne ou pastéis de chaves. Eu pertenço claramente a este último grupo.

Neste mundo bipartido faz-me muita confusão as guerras e os conflitos étnicos a que temos assistido. Eu quero lá saber se a minha terra vai ser ocupada por muçulmanos, fascistas, benfiquistas ou espanhóis. Eu quero é saber de que lado estão os fanáticos por doces. Para saber onde tenho de ir colocar as bombas.
O grande drama dos amantes de salgados é que somos discriminados em quase todas as pastelarias deste país. Somos cidadãos de segunda, como se a nossa inclinação fosse contra-natura. Um sistema de apartheid, em que os amantes de doces têm direito a prateleiras vistosas e amplas, enquanto as massas com carne ficam remetidas para espaços acanhados. É frequente vermos por traz dos vidros taças carregadas de doçarias e a um canto dois raquíticos e secos pastéis de carne. Por vezes, já encostados às latas de sumol. Ainda por cima, sem qualquer respeito pela dignidade dos salgados, chegam-nos às mãos sujos com açúcar branco ou cremes amarelados.
Mas se bem conheço os meus irmãos, este enorme grupo de vários milhões de seres humanos a que pertenço, não posso acreditar na mudança. Nós, os apaixonados por salgados, estamos acomodados e não temos coragem para nos erguer contra este sistema opressor. Eu sou o primeiro a acusar a nossa raça de conformismo e cobardia. Enquanto isso, os dos doces vivem num mundo de privilégios, onde o acesso aos seus prazeres é facilitado e não têm de vasculhar prateleiras inteiras para encontrar um pastel decente.
E esta vergonha que sinto faz-me desejar que se um dia tiver filhos, eles pertençam à raça dos que preferem doces.

Mas há excepções. Há uns anos descobri a "Flor da Venezuela", em Braga. Cedo se tornou num espaço de tolerância e convívio são entre os dos doces e nós. Uma pastelaria para os abolicionistas.  Apaixonei-me pelas empadinhas de frango e diariamente lanchava duas. Uma massa folhada macia a cobrir pedaços de frango embebidos no molho em que foram estufados. Com as mudanças de casa e de emprego acabei por lhe perder o hábito. Os anos passaram e a pressão social leva-nos a tentar a aceitação. Dei por mim a tentar negar as minhas raízes, a comer natas e mil-folhas para agradar aos dos doces. Mas não se pode negar a nossa natureza e quem realmente somos. Eu vivo para o sal, eu amo o sal, eu nunca serei dos doces. Nunca!
Os desejos foram aumentando nos últimos anos e já estava farto de ser ludibriado com pastéis de carne e empadinhas falsas (incrível como o governo não se preocupa com este drama e prefere andar a combater residuais falsificações de notas). Voltei à "Flor da Venezuela" e reencontrei as empadinhas tal como as tinha deixado. Deliciosas! Os bolos de carne melhoraram bastante e a oferta criativa na nossa área aumentou bastante.
Um conselho: uma empadinha não deve ser saboreada à saída do forno.  Sou guloso mas estou a aprender a controlar-me. E vale a pena a espera de alguns minutos.




Quinta-feira, 28 de Maio de 2009
“Perca” de tempo

Às vezes sinto que há restaurantes que têm vergonha em apresentar pratos demasiado simples, isto é, a carne ou o peixe em modos mais básicos. Acham que se apresentarem, por exemplo, uma posta de peixe simplesmente grelhada ou frita vai dar mau nome à casa e vão ser considerados restaurantes sem classe. Vai daí, decidem inventar. Mas, inventar no mau sentido, porque, como é óbvio, também na gastronomia a invenção (ou seja: criatividade, inovação, introdução de novos elementos e combinações, dar novos mundos ao mundo) é sinónimo de evolução.
Há pouco tempo tive uma experiência nesse sentido, o que até pode ter sido uma infeliz excepção no restaurante em causa, que frequentei pela primeira vez, o Cozinha da Sé, em Braga, que até tem vários pontos a seu favor, como ser um espaço bastante agradável e possuir funcionários muitíssimo simpáticos e atenciosos.
Na apresentação oral dos pratos, perdi-me facilmente no meio de toda aquela descrição altamente pormenorizada, e por isso consegui apenas reter o essencial dos dois primeiros pratos sugeridos, perca do Nilo e bacalhau, e já nem sequer consegui apanhar os restantes por estar a tentar visualizar o que me era dito. Assim, pedi a perca do Nilo, um peixe que até aprecio bastante. Com a minha concentração a derivar para as diversas entradas na mesa, deixei de tentar compreender a forma como me seria apresentado o peixe. Até porque as diversas entradas estavam bastante boas e o João Pires branco que se tinha juntado a nós ajudava a distrair.
Veio, então, a perca, escondida sobre uma camada de queijo e ketchup, com uns camarõezinhos por cima (acompanhada por umas batatas com a pele assadas em folha de alumínio, que parece que eram para ser panadas, mas depois o cozinheiro apeteceu-lhe antes que fossem assim). No início dei o benefício da dúvida porque pareceu-me algo exótico no bom sentido, mas ao fim de algumas garfadas cheguei à conclusão óbvia e indisfarçável: aquilo sabia como uma espécie de pizza de perca. O intenso sabor do queijo e do ketchup, ali presentes em grande quantidade, davam a clara sensação de que estava a comer uma pizza, que em vez de ter uma base feita de pão tinha uma feita de perca. Pergunto-me por que raio se vai buscar uma perca ao Nilo para depois a cobrir de queijo e ketchup? O sabor do peixe passava completamente despercebido, para o efeito podia estar ali, sem se notar a diferença, uma taínha do Douro ou um filete de pescada congelado, não era preciso estragar um bom peixe.
O que estará aí na calha? Deitar molho de chocolate por cima de bacalhau? Barrar robalo com compota de framboesa? Mergulhar tamboril em mostarda e maionese? Bem, é melhor eu não estar aqui a dar ideias, não vá algum génio lembrar-se mesmo de pôr alguma em prática.
Em termos gastronómicos, esta experiência foi uma perca de tempo, perdão, uma perda de tempo, mas para mim, não para o cozinheiro que deve ter gasto apenas alguns segundos na criação de tão engenhoso prato.
Valeu pelo resto e, principalmente, pela excelente companhia.




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